Num ano em que já se tinha tornado no mais vitorioso de sempre no Rali de Portugal, com o sétimo triunfo, reacende, agora, a discussão sobre qual o melhor piloto de ralis de sempre.
Soma a conquista deste aos títulos alcançados em 2013, 2014, 2015, 2016, 2017, 2018, 2020 e 2021, sendo campeão com três marcas diferentes (VW, de 2013 a 2016, Ford, em 2017 e 2018, e a Toyota em 2020, 2021 e 2025), replicando o finlandês Juha Kankkunen, campeão com Peugeot (1986), Lancia (1987 e 1991) e Toyota (1993).
A conquista deste ano foi ainda mais surpreendente pois Ogier, de 41 anos, está em pré-reforma desde a conquista do oitavo título, em 2021, pois abdicou da profissão de piloto a tempo inteiro para se dedicar à família, fazendo aparições esporádicas no Mundial de Ralis (WRC).
Já em 2024, com três vitórias entrou na luta pelo título mesmo falhando três rondas, tal como este ano (Suécia, Quénia e Polónia), acabando por disputar as últimas seis provas do campeonato, que fechou na quarta posição.
Em 2025, no entanto, a ponta final do campeonato foi demolidora para a concorrência e conseguiu reverter a ausência de pontos na Suécia, Quénia e Estónia, vencendo três das cinco provas finais (falhou o triunfo apenas no Centro Europeu, depois de se despistar quando liderava, e este sábado na Arábia Saudita), ultrapassando um défice teórico de 105 pontos (35 pontos por prova).
Ao todo, foram seis as vitórias conseguidas este ano (Monte Carlo, Portugal, Itália, Paraguai, Chile e Japão) em 14 provas, sendo que Ogier só disputou 11, pelo que venceu mais de metade dos ralis em que participou.
Desde que passou a presença esporádica, soma 13 triunfos, pois já havia somado um em 2022 (Espanha), três em 2023 (Monte Carlo, México e Quénia) e três em 2024 (Croácia, Portugal e Finlândia).
Curiosamente, Ogier apenas não conseguiu ser campeão com a Citroën, a marca que o lançou no mundo dos ralis, da qual saiu em 2012, por se sentir tapado por Loeb, e à qual voltou em 2019 com o objetivo de ser campeão, após seis títulos consecutivos.
No entanto, o casamento com a marca francesa não resultou e durou apenas um ano, tendo antecipado o divórcio, trocando o duplo Chevron pela japonesa Toyota, onde foi ocupar o lugar deixado vago pelo recém-campeão Ott Tanak.
Cada vez mais longe da sombra do compatriota, Ogier distingue-se pelo trato fácil e simpatia, igualando os dotes na condução. Casado com uma apresentadora alemã de televisão, com quem tem um filho de oito anos, tem na família um importante suporte.
O piloto gaulês, que foi ginasta na adolescência, explicou que "uma das razões para deixar o Mundial foi para passar mais tempo em família". Outra era a de cumprir o sonho de correr nas 24 Horas de Le Mans, que realizou em 2022, terminando em 13.º na geral e nono dos LMP2.
O amor pela competição começou a ver os troços do rali de Monte Carlo, que passam literalmente à porta de casa. Trabalhou como mecânico e instrutor de esqui, antes de ver as portas dos ralis abrirem-se numa formação de preparação de carros de competição.
Como a equipa para a qual trabalhava já participava no Rally Jeunes, prova de captação de talentos, um dia decidiu inscrever-se. Foi quanto bastou para começar a fazer história.
Daí ao Mundial de Juniores foi um passinho, que o fez aterrar na Citroën Junior Team em 2009.
Alcançou a primeira vitória no ano seguinte, precisamente em Portugal, causando espanto por ter batido o então incontestado Loeb.
O triunfo no Algarve levou os responsáveis da Citroën a colocarem um carro oficial nas mãos do seu jovem pupilo na segunda metade do campeonato de 2010 e Ogier não desiludiu, tendo vencido no Japão e terminado em segundo lugar no difícil Rali da Finlândia.
Em 2011, venceu cinco provas, reeditando o sucesso em Portugal, mas terminou o Mundial no terceiro lugar. A convivência com Loeb não foi pacífica e Ogier deixou a Citroën no fim da temporada, por considerar que nunca poderia ser campeão enquanto o compatriota estivesse na equipa.
Ogier apostou na Volkswagen e no desenvolvimento do Polo R WRC, que apenas faria a estreia oficial na época seguinte, o que o levou a participar no campeonato de 2012 ao volante de um pouco competitivo Skoda Fabia S2000, tendo como melhor resultado um quinto lugar, na Itália.
A entrada da Volkswagen no Mundial de Ralis, em 2013, não poderia ter sido mais triunfante, com Ogier a vencer nove das 13 provas, beneficiando do facto de Loeb ter participado apenas em part time, ainda assim impondo-se em dois dos quatro ralis que disputou.
Ogier e a Volkswagen prolongaram o sucesso nos três anos seguintes, em 2014, 2015 e 2016, até que o surpreendente abandono da competição por parte da marca alemã levou o francês a procurar uma nova casa, optando pela M-Sport, sempre com o compatriota Julien Ingrassia como copiloto do Ford Fiesta.
Sem perspetivas de evolução, em 2019 regressou à Citroën, sem sucesso.
Ameaçou com o final de carreira para se ver livre do contrato com os franceses e acabou por rumar à Toyota, órfã de Tanak.
Em 2021, conquistou o oitavo título mundial, ficando a um do recorde de Loeb.
A pandemia levou o piloto natural de Gap a adiar a ideia de reforma, prevista inicialmente para o final de 2020, renovando por mais um ano com a equipa nipónica. Contudo, a conquista do oitavo título e a possibilidade de igualar o recorde não fez Ogier mudar de ideias.
Desde 2022, tem feito aparições esporádicas em provas do Mundial de Ralis, continuando a somar vitórias. Este sábado, com a conquista do nono título mundial mostrou que o 10.º pode não ser uma miragem.
