O que começou com uma abertura nervosa e caótica rapidamente transformou-se numa autêntica demonstração de controlo, precisão e finalização implacável.
Van Veen foi o primeiro a marcar, conquistando um set inaugural repleto de duplas falhadas, grandes acabamentos e uma troca dramática nos momentos decisivos. No entanto, seria o seu único momento de destaque no encontro.
A partir do segundo set, Littler acelerou e nunca mais olhou para trás.
O momento ficou marcado quando conseguiu um espetacular checkout de 170 para roubar o terceiro set — triplo 20, triplo 20, bull — um lance que esvaziou visivelmente a confiança do neerlandês.
A pontuação de Littler disparou, o seu ritmo aumentou e o domínio nos momentos-chave tornou-se absoluto.
Van Veen manteve um nível elevado, conseguindo acabamentos acima de 100, máximos consecutivos e até ameaçando um nine-darter, mas cada investida era respondida à altura.
Littler castiga
Littler absorveu a pressão, esperou pelos erros e castigou-os sem piedade. Os sets quatro, cinco e seis passaram num ápice, com pontuações pesadas, preparações limpas e execuções frias, incluindo vários 180 e uma sequência de oito legs consecutivos que abriram o encontro.
As distrações foram surgindo, como a já famosa vespa de Ally Pally e uma troca de alvo a meio do jogo, mas nada abalou o ritmo de Littler. Mesmo quando desperdiçou oportunidades, regressou com autoridade, corrigiu com calma e finalizou de forma decisiva.
A sua capacidade de se recompor e fechar legs sob pressão contrastou com a frustração crescente de Van Veen.
O desfecho foi categórico. Littler preparou o final, deixou-se com 147 e fechou de forma limpa — triplo 20, triplo 19, dupla 15 — para selar um triunfo por 7-1 que foi ao mesmo tempo brutal e histórico.
"Estava à espera que o Gian desse tudo contra mim", afirmou Littler na conferência de imprensa.
"Obviamente, ele fez isso no primeiro set, podia ter ficado a vencer por 2-0, mas a partir daí, sinceramente, nem sei bem o que aconteceu. Falhou algumas duplas aqui e ali, e eu limitei-me a aproveitar. Nada supera um primeiro título mundial para qualquer um em qualquer desporto, mas isto era só sobre mantê-lo, trazê-lo de volta para casa durante 11, 12 meses. O meu nome está na lista dos campeões do mundo que conseguiram vencer dois anos seguidos. É uma lista muito curta, mas eu estou nela", acrescentou.
"Agora focamo-nos no que vem a seguir. É o Bahrein e depois a Arábia Saudita. Os outros grandes torneios mais para o final do ano, vou atrás deles. Quero dominar tudo, e claro, quero tentar ganhar tudo. O Masters, o Europeu, são esses dois que quero mesmo conquistar. Eu, a minha mãe e o meu pai, demos tudo por isto. É por isso que estou aqui agora. Mas não acaba aqui. Estamos nesta montanha-russa há quase três anos. Só quero continuar. E, espero eu, continuar a vencer", explicou.
"Aproveitei as minhas oportunidades"
"É uma sensação incrível", disse Littler à Sky Sports logo após conquistar o título mundial pela segunda vez.
"Antes de mais, obrigado ao John McDonald e ao John Noble — que carreira fantástica tiveram. No meu primeiro ano, o Russ Bray reformou-se; agora estes dois ícones! Cheguei um pouco tarde à festa! Queria mesmo dizer isto. Toda a gente sabe o que aconteceu com o Anthony Joshua, o seu adversário, a sua equipa e os seus amigos. Tal como o AJ disse: a primeira vez foi tão boa que tive de repetir!", afirmou.
"Comecei a jogar melhor a partir do segundo set. No primeiro, não fiquei satisfeito ao ir para a pausa, mas tive de reagir a partir daí. Disse para mim próprio: 'dá tempo, vais encontrar o teu jogo'. Comecei do lado esquerdo do oche e depois passei para a direita. Correu tudo como planeado. Gian, que torneio, pode estar muito satisfeito. Em todos os sets esteve presente e sempre atrás de mim. Tive de aproveitar as minhas oportunidades. Esta vitória aumentou ainda mais a distância para o Luke Humphries e estou isolado no 1.º lugar", acrescentou.
Van Veen "orgulhoso mas desiludido"
"Ele é um jogador fantástico, por isso é que agora é o número um do mundo com margem", admitiu Van Veen em palco após a derrota.
"É por isso que é bicampeão mundial. Gostava de ter conquistado o título, mas também queria dar luta ao Luke, e isso não consegui. Perdi demasiados legs e desperdicei demasiadas oportunidades. Olhando para este torneio, estou muito orgulhoso de ter chegado à final. 3.º do mundo e número um dos Países Baixos. Estou muito orgulhoso desta conquista, mas também desiludido", acrescentou.
Números impressionantes
Littler terminou com uma média confortável acima dos 100, converteu as duplas com eficácia implacável e somou uma chuva de máximos. Ambos os jogadores conseguiram quatro acabamentos acima de 100, algo notável.
Mais relevante ainda foi a sua compostura. Ditou o ritmo, escolheu os momentos certos para atacar e fechou sempre que o encontro ameaçava reabrir.
Littler terminou o torneio com uma média de quase 104 — a sexta mais alta da história. Ganha ainda o Ballon Dart, prémio para mais 180 no torneio, ao atingir 73 máximos. O mais próximo foi Gary Anderson, com 59.
No total, foram lançados 1127 máximos na competição — um novo recorde, sem surpresa.
Para Gian van Veen, a derrota vai doer como uma vespa londrina, mas chegar à final coroa um ano de afirmação que já mudou a posição do novo 3.º do mundo no desporto.
Com apenas 18 anos, Littler torna-se o primeiro jogador desde Gary Anderson a defender com sucesso um título mundial, e fá-lo com uma autoridade que faz prever muitos mais títulos no futuro.
Nesta noite, porém, o palco foi só de Littler, que se torna apenas o quarto bicampeão mundial consecutivo da história.
