Exclusivo com Tiago Teixeira, ex-Sporting: "João Simões foi dos jogadores que mais me impressionou"

Tiago Teixeira, antigo adjunto de João Pereira no Sporting
Tiago Teixeira, antigo adjunto de João Pereira no SportingČTK / imago sportfotodienst / David Catry

Tiago Teixeira, depois de ter sido adjunto de João Pereira nas equipas A, B e sub-21 do Sporting, regressou às funções de treinador principal ao serviço da equipa de sub-23 do Al Wasl, dos Emirados Árabes Unidos. Nesta entrevista ao Flashscore, Tiago Teixeira faz um balanço dos primeiros meses no seu novo projeto, explica os motivos que levam muitos técnicos portugueses a esta zona do mundo, lembra os seus tempos de Sporting, com destaque para jogadores como João Simões, Blopa e Flávio Gonçalves, e deixa pistas sobre os objetivos para os próximos passos da sua carreira.

- Comecemos por falar do momento atual. Que balanço faz destes primeiros tempos no Al Wasl?

- Completei agora seis meses desde que estou aqui. É um projeto muito interessante, uma equipa B que compete numa liga de sub-23, com o mesmo calendário da equipa principal, e existe muita ligação e troca de jogadores com a equipa principal e os sub-21, que competem uma categoria abaixo. Está a ser um projeto bastante interessante. O nosso objetivo principal era desenvolver os jogadores e conseguir que chegassem à equipa principal. Temos tido vários a treinar com a equipa principal, muitos foram convocados e um jogador já se estreou no campeonato pela equipa principal, portanto, esse objetivo foi atingido desde muito cedo. Agora é continuar a desenvolver os jogadores e a trabalhar numa ideia que possa ser mais atrativa e permitir que os jogadores estejam preparados para corresponder às exigências da equipa principal quando forem chamados.

- Sei que já alcançou alguns objetivos. Isso valoriza ainda mais o seu trabalho?

- Sim, este é um trabalho a que geralmente as pessoas não têm acesso e, se calhar, preocupam-se mais com os resultados, mas esta fase de transição de primeiro ano de sénior e sair da formação, passar para um patamar profissional onde as coisas são diferentes, está tudo mais perto da equipa principal. Por vezes, esse trabalho é muito exigente porque os jogadores não chegam preparados. Têm uma ideia de que estão perto da equipa principal, mas se calhar não estão, porque ainda não estão preparados para isso. Isso acontece quando jogam nos sub-23 e jogam contra jogadores que jogam nas outras equipas principais, sentem essa dificuldade. É uma função muito delicada porque temos de gerir as expectativas do jogador e ter paciência com a sua evolução, porque muitas vezes é um choque passarem da formação para o futebol profissional.

- Quais foram os principais desafios em termos de adaptação?

- Como já tinha estado aqui em 2019, já sabia as exigências que iria encontrar e a adaptação mais cultural que teria de ter. Nos sub-23, muitos jogadores trabalham. O futebol é profissional, mas têm também os seus empregos ou a faculdade, só conseguimos treinar à tarde. Acho que a diferença é mais por aí. Eles não estão aqui a 100 por cento, apenas os jogadores estrangeiros que vêm para cá e são realmente profissionais, mas temos muitos jogadores locais que não conseguem ser, e essa gestão é mais difícil. Não conseguimos ter todos no mesmo barco porque há exigências e perspetivas diferentes.

- Os Emirados Árabes Unidos, Catar e Arábia Saudita são cada vez mais mercados apetecíveis para jogadores e treinadores. Neste momento, é só a vertente financeira que pesa?

- Neste momento, já não é só a questão financeira. Claro que praticam valores muito diferentes dos mercados europeus, mas a qualidade de vida, a segurança. Quando eu estive na Arábia, a cultura era mais fechada e, neste momento, já está muito diferente. É cada vez mais apetecível não só pela vertente financeira, mas por questões de qualidade de vida e do que o país pode proporcionar, não só a nível individual, mas também familiar.

- Esta nova experiência chega depois da passagem pelo Sporting. Como classifica essa etapa da sua carreira?

- Está a fazer agora um ano desde que saímos do Sporting. Foram três épocas extremamente positivas, principalmente pelo trabalho desenvolvido durante dois anos nos sub-23 e depois na equipa B. Foi esse trabalho que permitiu que os jogadores estivessem preparados e estejam agora a jogar na equipa principal. É um trabalho que vem de baixo, da Academia, equipas sub-23 e equipa B, que preparam os jogadores para a equipa principal. Foi um trabalho extremamente positivo. Foi a oportunidade de trabalhar com excelentes jogadores, num excelente clube. Foi uma experiência positiva, mas, neste momento, a melhor decisão que tomei foi regressar aqui e voltar a ser treinador principal.

- Trabalhou no Sporting com muitos dos jogadores jovens que têm estado em destaque na primeira equipa e com dois que chegaram à equipa principal, como o Flávio Gonçalves e o Blopa. Está surpreendido com a ascensão destes dois jogadores?

- Não, não me surpreende, principalmente o Flávio. Nos meses que esteve connosco, demonstrou que era um jogador diferente. Veio de um patamar mais baixo, esteve nos sub-19, sub-23 e depois na equipa B e apresentou sempre muita qualidade em todas as equipas. É um jogador que tem coisas diferentes. Não só o Flávio e o Blopa. Há muitos jogadores da equipa B que estão certamente muito próximos da equipa principal.

João Simões tem sido titular no Sporting
João Simões tem sido titular no SportingEDUARDO COSTA/LUSA

- Há outros jogadores do Sporting que em breve poderão estar prontos para triunfar na equipa principal, certamente. No seu entender, qual o fator mais importante para um jogador jovem se afirmar e, já agora, qual o jogador que destaca destes que têm subido à equipa principal?

- Às vezes é uma questão de mentalidade. Em termos de qualidade, eles são muito semelhantes. Por vezes, é mais uma questão de mentalidade. Vou dar o exemplo do João Simões, que foi dos jogadores que mais me impressionou pela capacidade de trabalho, na mentalidade e forma como encara todos os dias. É um exemplo para todos. Pode não ser aquele jogador que é um prodígio técnico ou desequilibra, que enche o campo com dribles ou golos, mas é realmente um jogador incrível ao nível de trabalho, capacidade e dedicação. Por vezes, é isso que faz a diferença. Há jogadores melhores tecnicamente que acabam por vacilar no aspeto mental.

- Que planos tem o Tiago Teixeira para 2026 e o que tenciona atingir a médio prazo? Voltar a Portugal é um objetivo?

- Gosto de pensar no dia a dia, não gosto de pensar muito à frente. Vou focar-me em fazer uma boa época aqui. Está a ser muito importante para eu testar coisas a nível pessoal, coisas que tinha pensado e só agora consegui fazer. Se gostava de voltar a Portugal? Se calhar, gostava. A nível familiar, não é fácil estar longe, mas digamos que estou bem aqui, sinto-me bem aqui. Não sei como será a próxima época. Às vezes pensamos que vamos ficar e depois aparece qualquer coisa e temos de ir. O futebol às vezes é assim. Acho que nunca podemos decidir a longo prazo. Esta época aconteceu. Era suposto ir para outro clube e acabei por ir para o Al Wasl, mas gostava de voltar a Portugal e treinar na Liga Portugal, conseguir fazer um bom trabalho e solidificar a minha carreira. Acho que é o mais importante agora, já que tive a oportunidade de voltar a ser treinador principal. Gostava de estar em projetos sólidos que me permitissem estabilizar a carreira.