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"Os primeiros a acreditarem têm de ser os jogadores; se o jogador não acreditar, pode esquecer", começou por dizer o guardião.
Atualmente no Fenerbahçe, Ederson também afirmou que o futebol turco o faz lembrar os adeptos de Corinthians e Vasco, comparou os trabalhos de Ancelotti e Pep Guardiola, e relembrou conselhos fundamentais que recebeu do ex-guarda-redes Júlio César no início da carreira, ainda em Portugal.
A entrevista com Ederson foi realizada no domingo, na concentração da seleção brasileira na Flórida, onde a equipa canarinha vai defrontar a Croácia no segundo particular, na quarta-feira de madrugada (01:00). Confira a entrevista na íntegra:

"Temos qualidade, temos potencial… mas ainda falta trabalho"
- Como está a sua cabeça tão perto do Mundial?
Tranquila. Faltam praticamente dois meses só e temos muitas, muitas coisas a fazer ainda por causa do nosso processo. Mas temos vindo a implementar isso nos treinos, tentando ganhar entrosamento o mais rápido possível e absorver aquilo que o mister pede. O nosso processo começou tarde. Então, espero que durante a competição possamos colocar em prática aquilo que temos vindo a treinar e a praticar.
- O que o faz acreditar que o Brasil pode ser campeão do mundo?
Tudo. Nós temos qualidade, temos potencial. É claro que falta um pouco de trabalho ainda para envolver todas as ideias que o treinador quer, para começarmos a jogar bem, a demonstrar um bom futebol. Mas os primeiros a acreditarem têm de ser os jogadores; se o jogador não acreditar, pode esquecer.
- Este é o seu terceiro ciclo de Mundial. A nível pessoal, mudou muito de lá para cá?
Sim, sim, muda muita coisa. Sou mais experiente, mais vivido. Começamos a ver as coisas de outra forma. Claro que, quando chega esse período assim, gera um pouco mais de ansiedade entre os jogadores. Os jogadores dão o seu máximo, mas sempre com medo de ter uma lesão grave e acabar por perder o Mundial, então, é dedicar ao máximo durante os treinos e os jogos e fazer tratamentos, trabalhos extra-campo e atividades extra, que são muito importantes.
"O Igor Thiago parece ter 40 anos, mas ainda é jovem"
- Serão quase 50 dias juntos na concentração para o Mundial. O quão importante isso é para conhecer cada jogador, como quer Carlo Ancelotti?
Isso é muito fácil. Conheço 99 por cento dos jogadores que estão aqui hoje. Alguns que vêm pela primeira vez, mas os que chegam recentemente nós acabamos por trazer para perto de nós, para ficarem mais à vontade, para não ficarem tão nervosos. Acabamos por brincar com tudo, para tentar trazê-los para mais perto de nós, para se sentirem como se não fosse a primeira vez, ficarem mais à vontade… assim eles têm um melhor rendimento no treino e, consequentemente, no jogo.
- Já vivemos alguns momentos no Brasil em que se questionava muito o jogador mais experiente. O regresso do Casemiro à seleção e a presença de líderes, como você, parece importante para o balneário. Como vê esse debate?
Acho que é importante ter jogadores experientes no grupo, porque chega a uma determinada altura de alguma competição que isso é determinante. É claro que há jogadores novos que têm bastante experiência, mas alguém já muito mais vivido no futebol vai saber lidar de uma forma diferente. Juntando a experiência com a juventude, pode dar um bom resultado.
- O Igor Thiago está a lutar pelo prémio de melhor marcador da Premier League com o seu ex-companheiro Haaland. E o Rayan acaba de chegar ao Bournemouth. Quanto é que a Premier League pode acrescentar para um jogador destas posições?
Acrescenta muito porque a Premier League é um futebol de muita intensidade. Há muitos jogadores jovens que chegam lá e precisam de tempo para se adaptarem, mas o Rayan está a jogar muito bem, a fazer grandes partidas, vê-se que se adaptou muito rápido. Não precisou desse processo e desse tempo de adaptação. E o Igor Thiago também está a fazer muitos golos. O Igor Thiago parece ter uns 40 anos, mas ainda é um jovem. Acho que os dois têm um futuro brilhante pela frente, do qual a seleção irá usufruir muito.

"O Ancelotti é mais tranquilo, o Guardiola é mais intenso"
- Teve a oportunidade de trabalhar com Guardiola e Ancelotti. Como é trabalhar no dia-a-dia desses dois treinadores? Eles são muito diferentes?
São. Têm personalidades diferentes. O Ancelotti é mais tranquilo, o Guardiola é alguém mais intenso, mas não deixam de ser dois grandes treinadores e eu fui um privilegiado por poder trabalhar com eles.
- Ancelotti é mais de conversa, talvez?
O Ancelotti fala com toda a gente, tem conversas particulares com jogadores. É uma coisa normal, que todos os treinadores devem fazer com os seus jogadores. E o Ancelotti, com o nome dele, a passar toda a experiência para nós, isso é muito positivo.
- Traz algo da Premier League, do trabalho do Pep para o seu dia-a-dia na seleção? Jogo com os pés, por exemplo. Ainda carrega alguma coisa disso ou já ficaram lá atrás na equipa do Manchester City?
Não, depende muito das circunstâncias, da forma que o Ancelotti quer que nós joguemos. Se quiser utilizar quando estiver a jogar com os pés, eu saberei. Apesar de, no último jogo, ter tido umas três saídas más, mas isso faz parte do futebol. É normal, mas o que eu tiver de implementar do que eu tinha no City, na seleção, eu implementarei.
- Sente que o seu momento está a chegar na seleção?
Não sei. Eu trabalho como se o meu momento fosse amanhã. Então, independentemente se jogar ou não, sempre me preparei da mesma forma, porque a oportunidade surge quando menos esperamos, não é? Temos de estar preparados.

"O futebol na Turquia é uma loucura"
- Como é jogar na Turquia agora? Já teve oportunidade de trocar ideias com o Taffarel sobre o futebol local, as rivalidades?
Já, já, lá o futebol é uma loucura. Mas a Turquia é um país muito bom, tem um povo fanático por desportos, não só o futebol. Faz lembrar um pouco o Brasil, os adeptos do Corinthians, do Vasco, do Flamengo, as claques mais fanáticas que cantam os 90 minutos. Mas o que faz lembrar mesmo é a claque do Corinthians e do Vasco, o pessoal lá é fanático, joga ao lado da equipa, sofre com a equipa. É muito diferente do que eu estava habituado em Inglaterra. O pessoal vive mais o jogo jogado do que em Inglaterra.
- No Brasil, há dificuldades de conciliar a paixão com a razão na hora de falar de futebol, não acha?
É, na Turquia é a mesma coisa. Eles às vezes falam muito com a emoção também, escrevem comentários na emoção, mandam mensagem na emoção, mas é normal, é coisa de adepto. Os adeptos querem vencer sempre, não é? Um adepto não tem aquela mentalidade de jogador que deu o seu máximo e, às vezes, acaba por empatar um jogo ou perder, ele não sabe diferenciar esses termos.
- Sente que na seleção também é assim?
É assim em todo o lado. Os adeptos querem sempre vencer e ver a equipa a jogar bem, mas nem sempre é assim. Nós, jogadores, algumas pessoas entendem, mas a grande maioria, não.

"O Júlio César ensinou-me muito, dentro e fora de campo"
- Como está a sua reta final de temporada na Turquia? E na Premier League, quem acha que vai levar o título?
Na Turquia está a correr bem. Estamos em segundo no campeonato, mas está tudo em aberto. Vamos lutar até à última jornada do campeonato, acreditando que é possível. E na Premier League é o Cityzão. Sempre. Esqueçam. A reta final do City é diferente das outras equipas de lá, podem ter certeza.
- Acredita que, com a seleção a ganhar continuidade, com dois amigáveis antes do Mundial e três jogos na fase de grupos, pode embalar nessa altura?
Com certeza. A equipa completa, reunida. Vamos ter um período maior de preparação, por isso vai ser diferente, porque aqui (nos amigáveis de março) acabamos por ter dois, três dias de treino e logo um jogo, depois mais dois, três dias de nova preparação e outro jogo. Portanto, acho que se torna um pouco mais difícil absorver todas as ideias que o Ancelotti quer implementar.
- Chegou a trabalhar com o Mikel Arteta na sua carreira? Como foi essa troca de experiências com ele?
Foi muito bom. O Arteta é uma pessoa muito inteligente, ainda jovem. Tem muito potencial para ser um grande treinador. No City ajudava muito os avançados, trabalhava bastante a finalização e, nos treinos, quando faltava algum jogador – seja por lesão ou para completar – ele jogava sempre e jogava mesmo muito bem.
- Quando chegou ao Benfica, o Júlio César era o titular, certo? O que aprendeu com ele?
Sim, há 10 anos. Se não me engano, 11 ou 12. O Júlio é alguém que me ensinou muito. Não só sobre futebol, mas também fora dele. Deu-me sempre conselhos sobre investir o dinheiro quando comecei a ganhar bem, reinvestir, saber o que fazer com ele, porque… da mesma forma que o dinheiro vem, também vai, se não tiveres cabeça. Ele ajudou-me, ensinou-me a aplicar o dinheiro, por isso absorvi muitas coisas positivas com ele. Foi fundamental no meu percurso, não só dentro de campo, mas também fora. É uma pessoa espetacular e ajudou-me muito.
- Há mais algum nome que tenha sido importante na tua consolidação no futebol profissional?
Não tive contacto com ele a jogar, mas o Rogério (Céni) é o meu ídolo. Não convivi com ele, mas é uma referência pela história que construiu no São Paulo, por todo o amor e dedicação ao longo desses anos e pelos títulos que conquistou. E o Júlio, que foi um guarda-redes espetacular e com quem convivi dois anos, porque é alguém fora do normal. O Júlio é um grande amigo meu, por isso são esses dois nomes, mas sobretudo o Júlio, porque convivi com ele, conheço-o enquanto pessoa e sei bem qual é o seu caráter.
