O renascer da Naval: "Estão reunidas as condições para que possa ser um projeto bonito"

Naval compete atualmente no Campeonato de Portugal
Naval compete atualmente no Campeonato de PortugalNaval 1893 SDQ

Caiu, reergueu-se e voltou a sonhar. A Naval 1893 renasceu das cinzas de um passado de insolvência para reconstruir, passo a passo, o lugar que um dia ocupou no futebol português. Com novas ideias, pés assentes na terra e a alma de sempre, o clube da Figueira da Foz acredita que o futuro se escreve com trabalho e esperança.

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"Já não somos aquela Naval, mas continuamos a ser a Naval"

A história guarda o passado, ilumina o presente e aponta o caminho para o futuro. 

A Associação Naval 1.º de Maio viveu os grandes palcos do futebol português entre 2005 e 2011, até ao momento em que iniciou uma queda acentuada que culminou no inevitável desfecho da insolvência.

Ponto fin... e vírgula!

Fechou-se um capítulo, mas abriu-se outro a 24 de agosto de 2017, com o nascimento da Associação Naval 1893. As mesmas cores, o mesmo símbolo, a mesma alma. Um recomeço após um verdadeiro reset, motivado por uma profunda crise financeira.

O clube renasceu nas divisões distritais de Coimbra e ganhou novo impulso em 2023 com a entrada do fundo de investimento Ultimate Affiliate Program (UAP) e patrocínio da ECA-N, que trouxeram consigo uma nova ambição.

"Não havia condições mínimas para um projeto de futebol"

A 18 de novembro de 2023 foi constituída a Associação Naval 1893 – Futebol SDQ, Lda., passando a gestão das equipas sénior e sub-19 de futebol a estar a cargo de uma sociedade desportiva. Esta nova entidade apresentou-se com a missão de dar continuidade à história desportiva da Associação Naval 1893, preservando os valores e princípios que sempre inspiraram a Associação Naval 1.º de Maio.

Um passo firme rumo ao futuro.

"Quando me foi dada esta oportunidade, encontrei um clube que, costumo dizer, estava 'no piso -4'. Em termos de instalações, não havia ginásio, não havia posto médico, não havia condições mínimas para um projeto de futebol querer crescer. Começámos praticamente do zero. Tínhamos o nome da Naval e o estádio, sim, mas foi preciso trabalhar muito para passarmos para o 'piso -1' - ou talvez já para o '0'", introduz o advogado Gonçalo Tenreiro, diretor-geral da Naval 1983, em declarações ao Flashscore.

"Felizmente, com a criação da sociedade, passámos a ter investimento e capital para avançar. Assim que foi constituída, fui dos primeiros a defender que era essencial construir um ginásio e um posto médico devidamente equipados para recuperação e prevenção de lesões. Antes de qualquer euforia com jogadores, era fundamental criar a base, os alicerces. E foi isso que fizemos: começar pelo chão, com calma", sublinha.

Gonçalo Tenreiro, diretor-geral da Naval
Gonçalo Tenreiro, diretor-geral da NavalNaval 1893 SDQ

Gonçalo Tenreiro integrou o projeto como pessoa de confiança dos investidores, tendo desempenhado um papel fundamental na criação da sociedade. Ficou responsável pela área jurídica da SAD, nomeadamente na gestão de contratos e apoios de carácter mais estratégico.

No entanto, com a saída do diretor desportivo, surgiu a necessidade de assumir um papel mais ativo na condução dos destinos do clube, um desafio ao qual não virou a cara.

Natural da Figueira da Foz, Gonçalo Tenreiro acompanhou sempre de perto o projeto. Assistia aos jogos todos os domingos, mesmo enquanto estudava em Lisboa, mantendo uma forte ligação emocional ao clube da terra.

"Ter esta oportunidade no clube da minha cidade é especial. Não posso pedir mais. Sou grato e, enquanto contarem comigo, podem esperar o máximo de mim. Estão reunidas as condições para que possa ser um projeto bonito. E mesmo que um dia não esteja aqui, estarei sempre na bancada, porque este vai ser sempre o meu clube", assegura.

O orgulho está bem presente, mas não vem sozinho. A responsabilidade caminha lado a lado com esse sentimento e garante que o trabalho é feito com os pés bem assentes na terra.

Por muito que algumas fotografias nos façam revisitar tempos de glória e nos transportem, por instantes, para uma realidade distinta da que hoje se vive na Figueira da Foz, a utopia não existe. Ideias mirabolantes também não. O que existe é a necessidade de uma linha orientadora clara, firme e transparente, que não deixe margem para dúvidas sobre as intenções e a seriedade do projeto.

"Sou novo no mundo do futebol, mas enche-me de orgulho ouvir jogadores experientes que já passaram por outros patamares, como o Gonçalo Maria, o Paulo Grilo, o João Nogueira e o Nuno André, dizerem que este é um projeto de topo pela forma de estar e de trabalhar. É verdade que ainda faltam infraestruturas, mas a base está lá: a cultura, a seriedade, a forma de estar. Para quem está de fora, isto não se comprova com palavras; comprova-se com trabalho, com resultados e com a maneira como enfrentamos os desafios quando eles surgem", assinala.

"Vou ser sincero: eu não penso minimamente no passado. Já foi. Foi excelente durante muitos anos; os últimos dois ou três anos foram maus, mas não podem apagar tudo o resto desta associação. A nossa mentalidade é esta: já não somos aquela Naval, mas continuamos a ser a Naval. Temos de nos colocar no nosso lugar, que é este, e trabalhar para a frente. Olhar para trás não vale a pena. Queremos trabalhar o futebol de forma diferente: honesta, frontal, limpa. A honestidade e a frontalidade são muito importantes para nós", reforça.

"Já não somos o que éramos, mas estamos a trabalhar para voltar a ser. Pés assentes na terra, olhar em frente e nunca para trás", remata.

Nuno André regressou ao ponto de partida
Nuno André regressou ao ponto de partidaNaval 1893 SDQ

"Tenho muitos anos de Naval e sinto uma responsabilidade acrescida"

Este projeto é feito de pessoas. Não apenas de pessoas da Figueira da Foz, mas com muitas delas, que, sem desprimor para todos os outros, acabam por sentir o clube de forma diferente. Nuno André é um desses casos.

Fez toda a formação na Naval e estreou-se a nível sénior na “época desastrosa” de 2016/17, numa altura em que o barco estava prestes a afundar. Para ele, a Naval é "casa", e são muitas as memórias que guarda da autêntica montanha-russa de emoções que o clube viveu nas últimas décadas. Por isso, o convite para regressar este ano fez todo o sentido... Um regresso carregado de significado e sentimento.

"Estive cerca de treze ou catorze anos na formação, fiz todo o meu percurso na Naval. O ano em que saio é o ano em que o clube termina e depois nasce a Naval 1893. Mesmo estando fora, sempre acompanhei. Quando vinha a casa e não tinha jogo, ia sempre ver a Naval. É o clube da minha cidade, é o meu clube", confessa o camisola 10.

"Na Naval sinto sempre que tenho de dar um pouco mais, porque a confiança que depositaram em mim foi realmente muito grande. Sendo da Figueira, sendo uma das caras deste projeto e tendo passado aqui tantos anos, sinto também uma responsabilidade acrescida. Felizmente, as coisas têm corrido muito bem", sublinha.

Com a experiência de quem viveu de perto o encerramento e o renascimento do clube, Nuno André reforça a ideia de que “existe um plano claro para a Naval, pensado a médio e longo prazo, mas sempre com os pés no chão”.

"Desde o início ficou claro que o objetivo era consolidar a Naval nos campeonatos nacionais. O que me foi transmitido foi sempre a manutenção. Claro que nós, jogadores, queremos sempre mais, e quando as coisas correm bem pensamos naturalmente na subida. Mas o discurso foi sempre de pés bem assentes na terra. Garantir a manutenção seria um excelente resultado", sublinha.

Nuno André é uma das caras do projeto
Nuno André é uma das caras do projetoNaval 1893 SDQ

"As únicas escadas que vamos subir são as que dão acesso ao balneário"

Nesta equação há outra peça essencial: o treinador. Carlos Neves assumiu o comando técnico da equipa aquando da subida ao Campeonato de Portugal, e o “primeiro grande desafio foi construir um plantel com qualidade”.

"Encontrei um clube em fase de estruturação, a querer afirmar-se no Campeonato de Portugal e a sustentar-se nesta competição para que, ao longo do tempo, se possa recolocar nos patamares onde já esteve e continuar a crescer. É um clube ambicioso, com pessoas trabalhadoras. Apesar de ainda serem poucas para a dimensão que o clube já tem, são pessoas com ambição, com os pés assentes na terra e sempre à procura do melhor para o clube", conta o treinador, em declarações ao Flashscore, antes de revelar o que lhe foi pedido pela administração.

"Antes de mais, importa dizer que estamos muito satisfeitos com o apoio que nos tem sido dado, tanto pela sociedade como pelo nosso diretor-geral, que tem sido fantástico. Quanto ao que nos foi pedido, queriam, acima de tudo, que a Naval praticasse bom futebol e que o nome do clube voltasse a ser bem falado", explica.

"O objetivo passava por consolidar a equipa no Campeonato de Portugal nunca nos falaram em subida nem em lutar pelos primeiros lugares. Pediram apenas que a manutenção fosse garantida o mais rapidamente possível e que a equipa jogasse com qualidade", sustenta.

Carlos Neves com a sua equipa técnica
Carlos Neves com a sua equipa técnicaNaval 1893 SDQ

Os resultados validam o trabalho: a Naval ocupa o 3.º lugar na Série C do Campeonato de Portugal, com oito vitórias, dois empates e três derrotas, em igualdade pontual com o segundo classificado, posição que dá acesso à fase de subida.

Subida? O projeto traça como objetivo chegar à Liga 3 num horizonte de cinco anos - "temos tempo para crescer" -, por isso, é um passo de cada vez.

"Estamos muito satisfeitos, mas isto só é possível porque temos um diretor-geral fantástico. Tudo o que pedimos, ele tenta corresponder. A sociedade também nos tem ajudado e permite que, em termos financeiros, as coisas aconteçam: material, deslocações, chegar mais cedo aos jogos, almoçar perto do campo. Sem eles, seria tudo muito mais complicado. Mas é como disse: é um momento de cada vez, porque no futebol tudo muda muito rapidamente", confidencia.

"Em relação à subida, até costumo brincar: as únicas escadas que vamos subir este ano são as do acesso aos balneários. Não podemos pensar nisso, é um bocado utopia. O clube ainda não está estruturalmente preparado para dar esse passo. Falta gente, falta estrutura. O mais importante é sustentar bem o clube, criar uma base sólida e só depois pensar em algo mais. Isso não significa que entremos em campo para perder - nunca - mas não pensamos na subida neste momento", esclarece.

Naval está de regresso aos campeonatos nacionais
Naval está de regresso aos campeonatos nacionaisNaval 1893 SDQ

Missão (re)conquistar os adeptos: "Vai ser um processo longo mudar mentalidades"

O caminho está a ser traçado. A Naval está viva, mas precisa que a cidade acompanhe este movimento. Das instâncias superiores, como a Câmara Municipal, que já demonstrou disponibilidade para apoiar o crescimento do clube, à sociedade civil - as pessoas, a verdadeira alma de um clube.

Os fantasmas do passado ainda pairam sobre a Figueira da Foz, e todos sabem que o processo será longo, exigindo paciência, união e perseverança.

"Ainda há muitos fantasmas. O nome 'Naval' ficou associado, infelizmente, às coisas más, porque a última memória foi essa, apesar de terem existido muitas coisas boas antes. Vai ser um processo longo mudar mentalidades. Já se começa a ver algo interessante: eu achava que seria a população mais velha a aparecer primeiro, por curiosidade. Mas, curiosamente, são os mais novos. Tenho gostado de ver bancadas com jovens. Isso mostra que estão a criar uma ligação ao clube da terra", descreve Gonçalo Tenreiro.

"Claro que gostava de ter mais gente, mas percebo perfeitamente o que aconteceu e a imagem que ficou. Isto tem de ser feito aos poucos: resultados desportivos, ligação à  cidade, passo a passo", remata o diretor-geral.

"Há sempre os fantasmas do que aconteceu no passado. Mas, com as coisas a correrem bem, acredito que as pessoas se vão voltar a identificar com o clube. Nos campeonatos nacionais, ganhando, as pessoas aparecem mais", corrobora o médio Nuno André.

E para os mais distraídos, o treinador Carlos Neves deixa o mote: "Quem vier ver a Naval vai ver uma equipa com um futebol atrativo, bom de assistir, longe de ser monótono. Vai ver uma equipa humilde, solidária, em que todos ajudam o colega. Uma equipa com luta, alma, crença e vontade. Já passámos por momentos difíceis e demos sempre uma  resposta forte. Isso mostra a alma e a crença do grupo. Somos uma família, como gostamos de dizer, e isso nota-se em campo".

Naval em destaque no Campeonato de Portugal
Naval em destaque no Campeonato de PortugalNaval 1893 SDQ

O caminho até à Liga: "No futebol, é preciso sonhar"

Os próximos capítulos permanecem, por agora, por escrever. Há confiança no presente e uma certeza no meio da incerteza sobre o que trarão os próximos anos da Naval 1893, um clube fundado em 2017, mas com uma alma profundamente centenária.

"O que quero é que jogadores, treinador e equipa técnica possam dizer: 'passei pela Naval, fui ajudado e tive condições para crescer'. Se eu conseguir ter um impacto positivo na vida de quem trabalha aqui, já é muito. Nem todos vão gostar de mim - faz parte - mas se eu conseguir contribuir para que as pessoas evoluam, para mim é uma vitória. E, quem sabe, um dia ver o estádio cheio, com miúdos a vibrar pela Naval, pelo clube da terra", preconiza Gonçalo Tenreiro.

"Temos de nos manter humildes: ainda há muito trabalho, mesmo muito trabalho. Estamos longe de estar onde queremos, em termos de estrutura e de preparação para patamares acima. O futebol é emoção e, às vezes, perde-se o controlo e entra-se em gastos ou euforias desnecessárias. Por isso: cabeça no lugar, sem deslumbramentos, jogo a jogo, com calma", defende.

E porque no futebol também é preciso sonhar, Nuno André admite que voltar a ver a Naval na Liga faz parte do seu imaginário.

"No futebol, é preciso sonhar. Caso contrário, não vale a pena. Claro que as decisões têm de ser racionais, mas esses pequenos sonhos fazem parte, e esse é um deles", termina.

Reportagem de Rodrigo Coimbra
Reportagem de Rodrigo CoimbraFlashscore