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Cada carta é vendida num envelope por 5 bolivianos (cerca de 60 cêntimos), mas valem mais do que custam: cada cromo representa a esperança de voltar a ver a La Verde no Mundial.
Miguel Terceros, o Miguelito do Santos, é o melhor marcador boliviano nas qualificações Sul-Americanas com 12 golps, o guarda-redes Carlos Lampe, o defesa Luis Haquín e os médios Ramiro Vaca e Robson Matheus são alguns dos jogadores que constam na lista de convocados.
"Aqui na Bolívia há muita esperança quanto ao que a seleção fará no México", disse à AFP Víctor Quispe, estatístico do futebol boliviano.
A Bolívia precisa de duas vitórias para regressar ao Mundial, da qual não participa desde a edição de 1994, nos Estados Unidos. Esta quinta-feira, a equipa precisa de vencer o Suriname e, no dia 31 de março, bater o Iraque para garantir uma vaga no torneio deste ano na América do Norte.
A repescagem será disputada no estádio do Monterrey, no norte do México, onde adeptos bolivianos já estão reunidos, atraídos pelo apoio à seleção. Alguns fizeram um grande esforço para estar lá.
Lembrança distante dos Estados Unidos
Para Julio Pacheco, de 40 anos, chegar a Monterrey levou quase um dia: um voo de quase cinco horas de Santa Cruz de la Sierra para o Panamá. Do Panamá, foram outras cinco horas até chegar à Cidade do México, onde teve uma longa escala de 11 horas.
Da capital mexicana até Monterrey, mais um trajeto de uma hora e meia.
"Estou cansado da viagem, mas estou louco para o jogo começar. Estou muito ansioso! Se eu estou assim, como devem estar os jogadores?", diz.

"Cheguei e parece que nos podemos apurar", conta à AFP este adepto do Blooming, que gastou mais de 1.600 euros apenas com voos e hotel para uma estadia de 10 dias em Monterrey.
Victor Quispe, o especialista em estatística, partilha do entusiasmo, mas mostra-se cauteloso.
"Embora tenhamos esperança, também sabemos que somos muito limitados no futebol. Na qualificação, conquistamos apenas três pontos fora de casa, contra o Chile, e apurámo-nos para esta repescagem em sétimo lugar. Além disso, Suriname e Iraque também estão na luta".
"Estamos habituados a perder", admite Quispe, relembrando a humilde história da seleção boliviana em três Mundiais.
"Em 1930 e 1950, não sofremos com a qualificação. Em 1930, a seleção, que havia sido formada apenas quatro anos antes, foi ao Mundial como convidada, e em 1950 fomos porque a Argentina desistiu da qualificação", resume.
"Em 1994 foi inesquecível. Com aquela equipa, éramos uma potência no continente e apurámo-nos diretamente para o Mundial nos Estados Unidos. Com eles, a explosão foi total", relembra.
A esperança de um país
A seleção de 1994, liderada pelo falecido técnico espanhol Xabier Azkargorta, era uma verdadeira potência, com ídolos inesquecíveis do futebol boliviano como Erwin Sánchez, ex-Boavista, e Marco "El Diablo" Etcheverry.
"Eu lembro-me do Platini (Sánchez) com o seu remate de longa distância, do Etcheverry e os seus dribles, da garra do (Luis) Cristaldo, da atitude do (Marco) Sandy, da segurança do (Carlos) Trucco na baliza", recorda Julio, o adepto boliviano viajou a Monterrey.
Essa geração histórica enterrou uma espera de 44 anos sem marcar presença no maior evento do futebol.
"Depois de perdermos a vaga para o Mundial-1990 na diferença de golos, retomamos de onde paramos e as pessoas não acreditavam que estávamos entre os melhores", disse o ex-guarda-redes Carlos Trucco à AFP.
"O que eles queriam era que chegássemos a um Mundial, que trouxéssemos alegria às pessoas, e nós conseguimos, convictos de que estávamos a jogar o bom futebol que Xabier Azkargorta nos pedia", recorda emocionado.
Mais de três décadas depois, a seleção boliviana fortaleceu novamente o vínculo com os seus adeptos, assim como fez em 1994. Espera-se muita comemoração em La Paz caso a equipa se apure.
Trucco será um dos bolivianos a apoiar a La Verde na repescagem: "A minha filha, que nasceu em Santa Cruz de la Sierra, não pôde ver isso quando eu jogava, e ela disse-me: 'Pai, leva-me ao jogo em Monterrey. Quero viver isso'".
Aos 68 anos, o ex-guarda-redes espera ver os jogadores bolivianos que ganharam cartas assumirem a aura dos heróis da geração de 1994: "A equipa tem bom controlo de bola e joga bem. Estamos prontos para apoiá-los das bancadas".
