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A memória do jogo de 5 de março de 2014 volta com força à mente dos adeptos, que veem no futebol algo muito maior. Nessa ocasião, sem hino, bandeira ou golos, o passo simbólico da seleção kosovar rumo ao reconhecimento internacional terminou com um empate sem golos frente ao Haiti.
O palco foi o enlameado relvado do estádio Adem Jashari, em Mitrovica, no norte do país. Mais do que o resultado, o jogo marcou a primeira vez que o Kosovo atuou no seu território.

Numa região marcada por guerras trágicas, sobretudo na década de 1990, o Kosovo declarou independência da Sérvia em 2008. Até hoje, dezenas de países não o reconhecem como nação, incluindo Brasil, Espanha, Rússia e a própria Sérvia.
Nesse jogo, a autorização para a realização do encontro foi acompanhada de restrições. A FIFA proibiu a execução de hinos nacionais e o uso de bandeiras ou outros símbolos oficiais do Kosovo, no meio das tensões políticas em torno da sua independência. Ainda assim, cerca de 17 mil adeptos encheram o estádio para assistir a um momento considerado histórico.
O plantel kosovar reunia jogadores com carreiras em clubes europeus e, em alguns casos, com passagens por seleções de outros países, refletindo a diáspora do território. O Haiti, membro pleno da FIFA, atuou como adversário num jogo que ajudou a legitimar a presença do Kosovo no panorama internacional.
Após o encontro, dirigentes do futebol kosovar celebraram o caráter histórico do amigável, enquanto a Sérvia protestou junto da FIFA, alegando que o evento tinha uma conotação política.

Seguiram-se então as competições oficiais, após o reconhecimento formal da FIFA. Em 2021, o Kosovo terminou em último no seu grupo de qualificação para o Mundial, com apenas uma vitória. Antes do sorteio para 2026, ocupava a 99.ª posição no ranking da FIFA, atrás até do Luxemburgo.
Num grupo com Suécia, Suíça e Eslovénia, era considerado o outsider - ainda mais após a derrota por 4-0 na estreia, em Basileia. Mas duas vitórias surpreendentes sobre a Suécia e outra frente à Eslovénia garantiram o apuramento para o play-off.
Disputar um Campeonato do Mundo seria um marco para um país que declarou independência em 2008 e só ingressou na FIFA e na UEFA em 2016. Caso consiga a qualificação, será uma das campanhas mais meteóricas da história do futebol moderno - algo semelhante ao que aconteceu com a Croácia na década de 1990.
O avançado Elbasan Rashani, nascido na Suécia e criado na Noruega por pais kosovares, faz parte desta história. Em entrevista ao jornal britânico The Guardian, recordou o início da seleção, quando o selecionador Albert Bunjaki percorria a Europa para convencer jogadores da diáspora a representar o Kosovo.
“Sempre acreditámos”, disse. O Kosovo esteve perto do Euro-2020, mas caiu no play-off, derrotado pela Macedónia do Norte em pleno contexto de restrições da pandemia.
Estádio Fadil Vokrri
O atual selecionador kosovar, o alemão Franco Foda, contará com o apoio de uma massa adepta apaixonada, que vive um verdadeiro conto de fadas, no estádio Fadil Vokrri, na capital Pristina.
Como o país tem uma população equivalente de 1,2 milhões de pessoas e uma área sete vezes superior à da cidade de São Paulo, não seria surpresa que mais de 100 mil kosovares quisessem encher as bancadas para ver o duelo com os turcos - uma nação considerada amiga desde os tempos do Império Otomano. No entanto, a capacidade do Fadil Vokrri é de apenas 17 mil lugares.
O próprio Vokrri, falecido em junho de 2018, aos 57 anos, será lembrado caso a qualificação se concretize. Foi presidente da Federação de Futebol do Kosovo durante todo o processo de reconhecimento do futebol nacional e deu nome ao estádio que serve de casa à seleção.

Vokrri destacou-se como avançado em equipas como o Partizan, da Sérvia, e o Fenerbahçe, da Turquia. É o único jogador do Kosovo a ter representado a Jugoslávia, estreando-se num amigável frente à Escócia, a 12 de setembro de 1984, no qual marcou o golo de honra na derrota por 6-1. Somou 12 internacionalizações e seis golos.
Na quinta-feira, numa das meias-finais do play-off europeu, a vitória por 3-4 sobre a Eslováquia (outro país que não reconhece o Kosovo) contou com contributos de nomes como Vojvoda (lateral do Como, da Serie A), Muslija (do Düsseldorf) e o avançado mais mediático da equipa, Muriqi, do Maiorca, de Espanha.
Todos os jogadores, apesar de não esconderem o favoritismo da Turquia, mantêm os pés bem assentes na terra e estão entusiasmados com a possibilidade de dar uma grande alegria aos adeptos do Kosovo - na sua maioria de origem albanesa e que, inclusive, defendem a unificação entre os dois lados.

