O primeiro golo da história
Em 1930, o mundo era completamente diferente do que conhecemos hoje, mas o futebol já era um jogo muito apreciado. O primeiro Mundial, disputado no Uruguai, marcou o início de uma revolução desportiva e contou também com a presença de França. A federação local de futebol estava, por assim dizer, ainda a dar os primeiros passos, tendo sido fundada em 1904, e na estreia no Mundial não era considerada favorita.
Entre os convocados estava Lucien Laurent, natural de Saint-Maur-des-Fossés, perto de Paris. Já fazia parte da selecção nacional em 1928, nos Jogos Olímpicos de Verão, mas não chegou a jogar qualquer partida. Dois anos depois, a sorte sorriu-lhe e ao minuto 19 do duelo com o México, assinou o primeiro golo de sempre do Mundial, ao rematar de forma vistosa para o fundo das redes. França venceu por 4-1, mas após derrotas frente à Argentina e ao Chile, despediu-se do torneio.
Laurent era um futebolista amador e trabalhava numa fábrica da Peugeot para ganhar a vida. O seu patrão concedeu-lhe uma licença sem vencimento para que pudesse juntar-se à selecção. A viagem de barco Conte Verde até à América do Sul demorou 15 dias, durante os quais os jogadores treinavam a bordo.
Provavelmente nem o próprio Laurent imaginava o feito que acabara de alcançar naquele jogo. Apesar de ter sido convocado para o Mundial quatro anos depois, uma lesão afastou-o da competição. Com a camisola dos Les Bleus, disputou apenas dez jogos e, além do golo histórico, só voltou a marcar uma vez, frente à Inglaterra em Maio de 1931.
Em cativeiro
Durante a Segunda Guerra Mundial, a vida quotidiana parou em muitos países europeus. Laurent não foi exceção, tendo sido mobilizado para o exército francês e passado três anos como prisioneiro na Saxónia, sob vigilância dos soldados da Alemanha nazi. Durante a guerra, perdeu quase todos os seus bens, incluindo a camisola histórica de 1930.
"Felizmente, todas as minhas memórias ficaram aqui, bem guardadas num canto da minha velha cabeça. Essas ninguém me pode roubar", recordou anos mais tarde.
Mesmo após o fim do conflito, não deixou o futebol de parte. Depois de ser libertado em 1943, jogou pelo Besançon RC, onde mais tarde foi treinador e abriu uma cervejaria na cidade, que manteve até ao fim da vida.

Uma lenda discreta
Durante muito tempo, a história de Laurent foi pouco conhecida e não recebeu grande atenção. Com o passar dos anos, a situação começou a mudar e o relato do então já reformado despertou o interesse de cada vez mais pessoas. Ele, porém, manteve-se humilde.
"O nosso guarda-redes passou a bola para o defesa-central, que passou ao nosso extremo-direito (Ernest Libérati). Ele ultrapassou o defesa e cruzou, e eu consegui rematar de primeira, a cerca de 12 metros, colocando a bola no canto", descreveu Laurent o momento histórico numa entrevista ao The Independent.
"Na altura, claro que não podia imaginar a importância que aquele golo teria. Nem sabíamos se o Mundial iria sobreviver. Lembro-me que, quando regressei a casa, nos jornais havia apenas uma pequena referência", revelou ao Inside FIFA.
O círculo fechou-se
Em 1998, França queria finalmente triunfar no Mundial em casa. O que não foi possível à famosa geração de Michel Platini, conseguiu-o o treinador Aimé Jacquet e a sua equipa repleta de estrelas.
O grande triunfo do conjunto de Zinedine Zidane e Didier Deschamps foi também presenciado por Laurent, que era então o último sobrevivente do plantel de 1930. Quando França bateu o Brasil por 3-0 e conquistou o seu primeiro título, Laurent viu nisso um encerramento simbólico do círculo que ele próprio abrira com o golo frente ao México. Apesar de já ter 90 anos, viveu a vitória com grande emoção.
Após a final vitoriosa, vieram-lhe à memória momentos do passado. Enquanto a sua geração jogou no Uruguai perante menos de mil adeptos num estádio inacabado, em 1998 assistiu ao Stade de France cheio e a milhões de adeptos nas ruas.
Manteve, no entanto, um olhar crítico sobre o futebol moderno, incomodavam-no várias coisas, sobretudo as simulações e o comportamento geral dos jogadores. Em 2005, deixou-nos para sempre aos 97 anos.
Lucien Laurent tornou-se o símbolo de uma era em que se jogava futebol pela alegria e pelos momentos eternos, não pelo dinheiro. Ao longo da vida, foi uma ponte entre gerações, defendendo sempre que os verdadeiros valores estão na cabeça, não nos troféus.
