Em declarações à agência Lusa, o advogado e juiz da Câmara de Agentes do Tribunal de Futebol da FIFA reconheceu que o conflito entre Estados Unidos, Israel e Irão traça vários cenários, entre a presença da seleção iraniana, qualificada pela sétima vez para a fase final, e a sua exclusão administrativa por parte do organismo que tutela o futebol mundial.
A federação iraniana (FFIRI) pode optar pela ausência, sujeitando-se a multas entre os 250 e os 500 mil francos suíços (aproximadamente entre 277 mil e os 554 mil euros), definidos pelo artigo sexto do regulamento do Mundial-2026, caso não sejam consideradas “legítimas as razões da não participação”.
No entanto, segundo Gonçalo Almeida, poderá caber à FIFA decidir excluir o Irão da 23.ª edição do Campeonato do Mundo, por motivos de segurança.
O Irão, que nunca passou a fase de grupos, tem agendados jogos com Nova Zelândia, em 15 de junho, e Bélgica, em 21 de junho, ambos em Los Angeles, encerrando a poule G com o Egito, no dia 26 de junho, em Seattle.

Questionado sobre o paralelismo com a Rússia, que, em fevereiro de 2022, foi banida das competições desportivas, incluindo pela FIFA, após a invasão da Ucrânia, o especialista em direito desportivo reconheceu a complexidade de ter os Estados Unidos no papel de nação agressora e, simultaneamente, de anfitrião da prova.
Para o juiz do Tribunal de Futebol da FIFA, esta questão envolve uma análise política inevitável, uma vez que, no caso da Rússia, o afastamento ocorreu na fase de qualificação e não “a apenas três meses da fase final”.
Para Gonçalo Almeida, a exclusão dos Estados Unidos “não parece adequada”, apesar de reconhecer que a nação se coloca numa “posição frágil” ao organizar a competição enquanto assume o papel de “agressor”.
O jurista sublinhou que a tomada de uma decisão desta natureza seria “demasiado radical”, dadas as implicações logísticas e comerciais a poucos meses do arranque do torneio.
No limite, estando, como prevê o regulamento, o país agressor, neste caso os Estados Unidos, sob a alçada disciplinar da FIFA, o organismo poderia transferir os jogos para os outros coanfitriões, Canadá ou México, uma hipótese que, segundo Gonçalo Almeida, não parece colocar-se.
Apesar da aparente dualidade de critérios, o advogado ressalva que as questões são analisadas “caso a caso”, devendo atender-se ao contexto específico, ao momento do processo competitivo e ao papel diferenciado que cada país desempenha na organização do evento.

Outro dos pontos críticos pode prender-se com a eventual recusa na emissão de vistos, que os Estados Unidos podem utilizar para bloquear a delegação iraniana, tal como aconteceu em dezembro de 2025, quando vários dirigentes iranianos, incluindo o próprio presidente da FFIRI, Mehdi Taj, tiveram os vistos negados para o sorteio do Mundial-2026, realizado em Washington.
Gonçalo Almeida considera que um bloqueio total aos atletas constituiria, “em condições normais”, uma ingerência “tremenda” e “intolerável” nos poderes da FIFA.
O jurista reconhece mais provável o bloqueio de vistos a dirigentes da FFIRI, considerados representantes do Governo de Teerão, do que aos futebolistas, embora reconheça que o torneio permanece sob uma grande incerteza política e desportiva.
No sábado, o secretário-geral da FIFA, Mattias Grafström, reiterou que o “foco é ter um Mundial seguro com a participação de todos”
A Lusa questionou a FIFA sobre as questões que se podem colocar em torno do Mundial, nomeadamente eventuais sanções aos países envolvidos no conflito, sem, contudo, ter obtido qualquer resposta.
O jogo inaugural do Mundial-2026 está marcado para 11 de junho, na Cidade do México.
Os Estados Unidos e Israel lançaram em 28 de fevereiro um ataque militar contra o Irão, tendo matado durante a ofensiva o ayatollah Ali Khamenei, líder supremo do país desde 1989. O Conselho de Liderança Iraniano assume atualmente a direção o país que encerrou o estreito de Ormuz e lançou ataques de retaliação.
Desde o início do conflito, foram contabilizados mais de mil mortos, na maioria iranianos.
