Acompanhe aqui as incidências e o relato do encontro
Os reencontros entre as duas selecções trazem sempre à memória uma longa novela iniciada em 1966. Em Wembley, nos quartos de final, o árbitro alemão Rudolf Kreitlein expulsou o capitão argentino Antonio Rattin após trinta e cinco minutos de um jogo duro. Sem cartão, por não existir esse mecanismo na altura, a expulsão transforma-se num incidente diplomático: a barreira linguística impede qualquer diálogo, Rattin recusa-se a sair e só abandona o relvado escoltado pela polícia, não sem antes se sentar, em provocação, no tapete vermelho reservado à rainha Isabel II.
A Inglaterra venceu por 1-0 e segue para o seu único título mundial, mas o selecionador Alf Ramsey apelidou os argentinos de "animais" e proibiu os seus jogadores de trocar camisolas.
20 depois, no estádio Azteca da Cidade do México, o encontro ganhou uma dimensão totalmente diferente. Quatro anos após a guerra das Malvinas, os quartos de final de 1986 tornam-se palco do bis mais comentado da história do futebol. Em apenas quatro minutos, Diego Maradona enganou primeiro Peter Shilton e o árbitro com a mão esquerda, a famosa "mão de Deus", antes de marcar o "golo do século" após um slalom desenfreado entre cinco defesas ingleses.
Maradona chegou a considerar este bis como uma "vingança simbólica contra os ingleses". A Argentina venceu por 2-1 e sagrou-se campeã do mundo poucos dias depois.
Em 1998, em Saint-Étienne, o cenário inverte-se parcialmente. Michael Owen, com apenas 18 anos, marca um golo memorável nos oitavos de final, mas a Argentina empatou antes do intervalo e beneficiou de um pontapé de David Beckham em Diego Simeone para terminar o jogo em superioridade numérica. O jogo terminou 2-2 e a Inglaterra é eliminada nos penáltis.
Beckham, apontado como o culpado ideal, sofre meses de ameaças e vaias no seu país. Em 2002, em Sapporo, vinga-se ao converter um penálti decisivo que dá à Inglaterra uma vitória por 1-0 na fase de grupos, contribuindo para a surpreendente eliminação, logo na fase de grupos, de uma Argentina que era apontada como favorita sob o comando de Marcelo Bielsa.
Scaloni, Tuchel e Kane querem recentrar o debate dentro das quatro linhas
À medida que se aproxima este novo capítulo, o discurso de ambos os lados converge. O selecionador argentino Lionel Scaloni deu o mote logo no sábado, após a qualificação da Argentina para a meia-final frente à Inglaterra:
"Isto é apenas um jogo de futebol, nada mais, ponto final. Não posso misturar as coisas, sobretudo por respeito ao que aconteceu. Foi um período muito triste. Misturar as coisas seria uma loucura nos dias de hoje. Há coisas a acontecer noutros pontos do mundo e criticamos o facto de haver guerra. E eu vou dizer que isto é mais do que um simples jogo de futebol? Parece-me completamente absurdo. Prestamos homenagem a essas pessoas. Não se deve confundir as coisas", reforçou, na conferência de imprensa de antevisão, a necessidade de não instrumentalizar o passado.
O selecionador inglês Thomas Tuchel adotou um discurso semelhante, reconhecendo, no entanto, a carga simbólica do duelo: "Acho que os jogadores sabem perfeitamente o que este jogo representa. Se um duelo destes gerou tantos momentos emblemáticos, é difícil dizer que é apenas mais um jogo de futebol". Ainda assim, garante que a sua equipa técnica trabalha precisamente para afastar os jogadores dessa pressão histórica e focá-los no que se passa dentro de campo.
O capitão Harry Kane segue a mesma linha: questionado pela ITV, admite que gerir a emoção em torno do encontro é "sim e não" um desafio, explicando que a história faz parte do contexto mediático, mas que, do ponto de vista dos jogadores, trata-se sobretudo de um "duelo frente a uma grande equipa, inteligente, táctica".
Este discurso de apaziguamento contrasta, no entanto, com o que se vive nas bancadas. O hino oficioso dos adeptos argentinos para este Mundial, "La cuarta estrella" ("A quarta estrela"), recupera a melodia de "Muchachos", popularizada no Catar-2022, com letras que evocam explicitamente as Malvinas e a memória de Maradona. O cântico "El que no salta es un inglés" ("quem não salta é inglês"), já ouvido nos estádios da Liga argentina, também ecoou após a vitória argentina por 3-1 frente à Suíça nos quartos de final, entoado desta vez pelos próprios jogadores perante os seus adeptos.
A posição delicada dos argentinos que jogam em Inglaterra
Este ambiente coloca numa situação particular os jogadores da Albiceleste que vivem no Reino Unido. Seis elementos do grupo de Scaloni actuam atualmente na Premier League: Emiliano Martínez, Lisandro Martínez, Cristian Romero, Enzo Fernández, Alexis Mac Allister e Marcos Senesi.
O caso de Mac Allister ilustra bem esta dupla pertença. A sua mãe, Silvina Riela, que viveu algum tempo em Inglaterra durante os anos do filho em Brighton antes da transferência para o Liverpool em 2023, contou ter mudado completamente a sua opinião sobre o país onde pensava, segundo as suas palavras, encontrar "pessoas frias" e que, pelo contrário, a "acolheram da melhor forma possível".
"A minha neta nasceu em Inglaterra, por isso, quando todos cantam 'Quem não salta é inglês', fico sentada com ela", garante.
O próprio Mac Allister fez questão de separar a rivalidade histórica das pessoas, explicando compreender "toda a rivalidade que existe devido ao que aconteceu e à história", mas recordando que isso não é "culpa nem do povo deles nem do nosso, mas sim de quem está acima".
Valentina Cervantes, companheira de Enzo Fernández, que joga no Chelsea, deu um testemunho semelhante ao falar do filho Benjamín, nascido em Inglaterra: "Ele nasceu lá. Não o deixamos saltar quando cantam 'quem não salta é inglês'. A Olivia também não. É um país que nos deu muito".
Mas, prova de que esta rivalidade está longe de estar ultrapassada, sobretudo do lado argentino: as declarações das famílias dos dois jogadores geraram fortes críticas dos adeptos nas redes sociais, recordando-lhes que a Argentina é o país que lhes deu tudo, mesmo que a Inglaterra financie hoje em dia grande parte do seu quotidiano. Ainda assim, Mac Allister não resistiu a uma pequena provocação aos Três Leões, acusando-os de "não aguentarem o ritmo que conseguem ter na Premier League".
Por esta ou outra razão, ambos quererão vencer na quarta-feira.

