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Portugal e o México defrontam-se na madrugada deste domingo pela sexta vez, mas num encontro histórico. É a primeira vez que a Seleção Nacional defronta a equipa azteca naquele país da América Central.
Nos outros cinco encontros, dois foram na Taça das Confederações de 201, na Rússia, um no Mundial-2006, na Alemanha e dois particulares em nos Estados Unidos e Portugal.
Contudo, esta não será a primeira vez que a equipa das quinas vai jogar em território mexicano. A primeira foi há quase 40 anos e fez abanar os alicerces da Federação Portuguesa de Futebol. Vamos então ligar a máquina do tempo para chegar até 1986.
Apuramento épico
Se em 2026 Portugal parte com uma possibilidade real de conquistar o Campeonato do Mundo, em 1986 o caso era muito diferente. Depois do pódio em 1966, a Seleção Nacional estava numa seca de presenças em Mundiais – as vagas também eram menos.
A assistir ao advento de uma nova fase de fulgor internacional (As meias-finais do Euro-1984 e o título europeu do FC Porto em 1987), Portugal chegou à última jornada da qualificação para o Mundial-1986 com mais um ponto que a Suécia e com uma viagem à Alemanha para fechar a fase final. Os nórdicos iam até Malta, a seleção teoricamente mais fraca do grupo.
Em Estugarda, Carlos Manuel desferiu um pontapé para a história que carimbou o bilhete para o México e garantiu a primeira vitória de sempre na Alemanha.
Sorteio e convocatória foram premonitórios
Portugal acabou por ficar no Grupo F, com adversários teoricamente acessíveis – Inglaterra, Polónia e Marrocos – para passar à fase a eliminar – os dois primeiros e os quatro melhores terceiros avançavam – mas com uma dificuldade extra: Com jogos divididos entre Monterrey e Guadalajara, ia sempre jogar em altitude.
Mais tarde outra dificuldade para os infantes – alcunha retirada à música de Carlos Paião a que Herman José deu voz – com a exclusão à última da hora de Veloso, por um controlo anti-doping positivo.
Fernando Bandeirinha, cedido pelo FC Porto à Académica, foi chamado diretamente para o aeroporto para render o jogador do Benfica, mas a decisão de José Torres – que já tinha deixado Manuel Fernandes, avançado do Sporting e melhor marcador do campeonato, de fora – gerou mal-estar na equipa, que acreditava na inocência do defesa.
Falta de condições
Os problemas acumularam na partida. Portugal não seguiu diretamente para o México, fez escala em Frankfurt e Dallas, por escolha da Federação Portuguesa de Futebol. Foi também a FPF que decidiu instalar a equipa em Saltillo, num hotel acessível a toda a gente – desde jornalistas a prostitutas locais – a um campo de treino inclinado, em que na primeira parte era jogado a subir e na segunda descer.
Os adversários de preparação foram apenas contra equipa locais. O particular com o Chile acabou por ser desmarcado devido ao valor avultado exigido pelos sul-americanos. As chamadas para as famílias em Portugal tinham valores absurdos e não estavam cobertas pela FPF que aparecia desprovida de liderança. Amândio de Carvalho, o vice-presidente, não tinha autoridade, enquanto o líder federativo, Silva Resende estava quase sempre na cidade do México.
A suposta greve
O pináculo da tensão aconteceu a 25 de maio. Depois de queixas dos jogadores para a melhoria dos prémios de jogo (recebiam 300 contos e queriam 700) e de problemas com publicidades para empresas contratualizadas pela FPF (queriam parte desses lucros), há relatos de uma suposta greve da equipa. Mais tarde, ao Diário de Notícias, Jaime Magalhães garantiu que foi mentira, apenas que a equipa virou um colete do avesso para não mostrar o logotipo da Sagres e fazer publicidade.
Uma situação ampliada pelo facto de este ser o primeiro Mundial televisionado
Desastre em campo
O caldo estava entornado. Silva Resende recusou todas as exigências dos jogadores, mas o plantel ainda assim decidiu aparecer em campo.
A prova começou bem, com uma vitória diante de Inglaterra graças a novo golo de Carlos Manuel, mas oi o único pouco positivo. A derrota com a Polónia (0-1) e com Marrocos (3-1) carimbaram o adeus de Portugal ao México, sendo que bastava apenas um empate para seguir em frente.
As ondas de choque
Saltillo acabou por marcar uma rotura no futebol português. José Torres demitiu-se do comando da equipa nacional e foi sucedido por Rui Seabra. Sila Resende manteve-se como líder federativo e decidiu excluir os jogadores que assinaram o comunicado lido por Bento a 25 de maio – os indisponíveis ficaram conhecidos.
O resultado? Um período de jejuns de provas internacionais, em que se inclui um malogrado empate com Malta no Funchal, um dos pontos mais baixos da história da FPF.
A reconstrução da seleção e da estrutura da FPF demorou 10 anos, com o regresso aos palcos internacionais a acontecer em 1996. Desde então, Portugal não falhou mais nenhum torneio de seleções e quase 40 anos depois regressa ao México para uma preparação que pretende tornar real o sonho do título mundial.

