Scolari e a primeira convocatória de Ronaldo: "Tenho Quaresma, Simão e vou olhar para um miúdo de 17 anos?"

Scolari com Cristiano Ronaldo
Scolari com Cristiano RonaldoMladen Antonov/ AFP

Numa extensa entrevista ao Globoesporte, Luiz Felipe Scolari recordou o momento em que chamou Cristiano Ronaldo para a seleção portuguesa pela primeira vez. Lembrou, também, uma discussão com Messi e falou sobre Abel Ferreira que treinou e agora orienta o Palmeiras.

Cristiano Ronaldo: "Não fui eu que o vi primeiro. Foi o Murtosa. Foi o Paulo Bento. O Paulo Bento era técnico dele nos juniores do Sporting. E o Paulo Bento tinha dito ao meu diretor, que na época era o senhor Carlos Godinho, da federação também. Trabalhava comigo todos os dia na federação. Disse que tinha que olhar o jogador tal. «Vou olhar para um jogadorcom 17 anos?'. A seleção portuguesa tem o Quaresma. Lembra-se do Quaresma? Jogava para caramba. Simão. Vou olhar para o miúdo? Pelo amor de Deus. 'Murtosa, vai tu lá'. Um jogo dos júniores e coisa e tal. Acabou por surgir uma oportunidade, e ele foi convocado. No segundo jogo marcou. Foi convocado pelas qualidades dele. Foi o Murtosa que incentivou a chamada. É uma pessoa espetacular. Tudo aquilo que vocês conhecem dele é real. É vaidoso, veste-se bem, blá, blá, blá. O que ele faz de solidariedade para muitas entidades ninguém sabe. Ele é espetacular".

Segredo da longevidade de Ronaldo: "Eu estive com ele há um ano e perguntei: 'Estás a trabalhar por causa dos mil golos? Mil golos? Vais trabalhar para isso?' 'Não, não, não, professor'. 'Ah... tu não me enganas. Não me enganas que tu estás a trabalhar para isso.' 'Não, não. Estou contente'.  Ele estavana Arábia, 'mas eu estou contente, estou satisfeito. Eles trata-me maravilhosamente bem', mas eu sei que ele está a trabalhar para isso. Eu acho que vai conseguir. Tem uma dedicação especial. Desde criança, que enfrentava as dificuldades vindo da Madeira para chegar a ao topo. Uma vez, convoquei-o para a seleção portuguesa, e ele vinha lá do Manchester United. E o Ferguson ligava e dizia assim: 'Felipão, fala para ele não bater livres aí hoje, porque ele bateu umas 30 faltas aqui.' Meu Deus. Então, era de amanhã, eu chegava de tarde e ia fazer o nosso treino, que era dois, três dias antes do jogo. E ele queria bater mais 30. 'Pelo amor de Deus, já fizeste isso. O Ferguson já me disse. Não faça isso'. Ele falava: 'Pode deixar'. Essa é a dedicação do atleta".

Jogo com a Rússia depois da morte do pai de Ronaldo: " O pai dele faleceu, e nós íamos jogar contra a Rússia, de apuramento para o Mundial-2006. Lembro-me que quando chegou a notícia, o Carlos Godinho, que é a pessoa com quem eu tenho amizade até hoje, disse: 'Felipão, aconteceu isso e isso'. Chegamos à conclusão que para dar essa notícia tinha que ser eu. Pela amizade, por tudo, pelo carinho. Eu chamei o Cristiano ao meu quarto na Rússia e, claro, passei a ele que já tinha vivido pela morte do meu pai e toda aquela situação. Abracei, chorei com ele, interagi e coisa e tal. 'Agora estás liberado, vai embora para o velório, para o falecimento do teu pai'. E ele disse: 'primeiro a nossa seleção. Primeiro eu vou jogar. O meu pai tinha certeza que ele queria que eu jogasse e que eu fosse o melhor em campo'. E ele foi. O melhor em campo naquele jogo foi ele. Se não me engano foi 0-0 na Rússia. E foi assim que eu passei a ter uma amizade maior com a família também. Agora a irmã do Cristiano, se não me engano, mora em Gramado. Tem lá os investimentos. Uma ou outra vez estou com ela".

Abel Ferreira: "Foi meu jogador. Sempre foi assim. Uma pessoa preocupada com o dia a dia e com toda aquela situação. Quando ele foi convocado, lembro que se preocupava com uma ou outra coisa naquela época, como jogador. Em falar, em conversar, em solicitar uma coisa ou outra para o amigo. Preocupava-se com a pessoa ao lado dele. Ele era jogador, não era diretor. Então eu vejo o Abel hoje, às vezes, em determinadas situações, reagindo como eu acho que ele reagiria se estivesse em Portugal. Ou se ainda fosse jogador. Por isso que entendo, aceito e acho que às vezes ele pode agir intempestivamente como eu agi em algumas alturas . Não me arrependo, era a minha forma de ser. Aconteceu. Mas acho que ele é alguém preocupado e é autêntico desde aquela época".

Messi: "Tive uma discussão com o Messi há tempos atrás. O Messi disse-me: 'chefe, nunca votou em mim na Bola de Ouro,votou no Cristiano'. Tenho de votar no Cristiano, é como um filho meu. O Messi é génio. Se ele fechar os olhos, sabe que a bola está ali. O Cristiano não é génio. O Cristiano fez-se génio pela vontade e pela dedicação. Ele também sabe que a bola está ali. Mas  sabe de outra forma. O Messi não. Aquilo é normal dele. É a mesma coisa que o Ronaldinho Gaúcho. O Ronaldinho Gaúcho não precisava de lhe darr tática nenhuma. Meu Deus do céu".