Vítor Campelos fala da luta pelo título na Eslovénia e assume: "Sou um saudosista dos antigos números 10"

Vítor Campelos abraçou novo desafio na Eslovénia
Vítor Campelos abraçou novo desafio na EslovéniaNK Celje, Flashscore

Vítor Campelos regressou ao ativo cerca de quinze meses depois de deixar o AFS e encontrou nos eslovenos do NK Celje o contexto ideal para voltar a sentir o "cheiro da relva" e fazer aquilo que mais gosta. O treinador português assumiu uma equipa que vinha de três derrotas consecutivas e respondeu de forma imediata.

Acompanhe o NK Celje no Flashscore

Três jogos, três vitórias, oito golos marcados e apenas um sofrido. Pelo meio, um triunfo europeu em Atenas que reforçou o impacto de um arranque que devolveu confiança e colocou o Celje na rota do título na Eslovénia.

Aos 50 anos, com mais de 80 jogos na Primeira Liga e perto de duas centenas na Segunda, Vítor Campelos mantém intacta a sua identidade. Entre a exigência do processo e a valorização do lado humano, continua a defender um futebol com identidade própria, mas também com espaço para a criatividade dos “números 10” que tanto aprecia, como deu conta nesta entrevista exclusiva ao Flashscore.

Vítor Campelos abraçou novo desafio na Eslovénia
Vítor Campelos abraçou novo desafio na EslovéniaOpta by Stats Perform, ČTK / imago sportfotodienst / Maciej Rogowski

O regresso ao ativo: "Possibilidade de lutar pelo título foi determinante"

- O Vítor chega ao NK Celje numa fase delicada, com a equipa vinda de três derrotas consecutivas, e a resposta é imediata: três vitórias em três jogos, oito golos marcados e apenas um sofrido, incluindo um triunfo em Atenas frente ao AEK. Que leitura faz deste impacto inicial?

Entrámos a 13 de março, após uma derrota pesada em casa frente ao AEK (0-4), e tivemos muito pouco tempo para trabalhar. Focámo-nos na organização da equipa e, sobretudo, em devolver confiança aos jogadores, que vinham de um momento difícil. O jogo em Koper (0-1), dois dias depois, foi decisivo, porque, se tivéssemos perdido, ficávamos apenas com dois pontos de vantagem. Era um momento importante na luta pelos primeiros lugares e a vitória, mais do que pela exibição, foi fundamental pela atitude e crença da equipa. Depois disso, tivemos alguns treinos para consolidar a organização defensiva e introduzir ideias no processo ofensivo.

Em Atenas, fizemos um jogo fantástico e vencemos por 0-2, embora na segunda parte se tenha sentido algum desgaste, num ciclo exigente de jogos. Seguiu-se uma vitória clara em casa frente ao Primorje, por 5-1. Agora, com a paragem, tivemos algum tempo para trabalhar, apesar das ausências nas seleções. Segue-se mais uma “final”, frente ao Maribor, que é segundo classificado.

- Depois de cerca de 15 meses de interregno, e perante várias abordagens que foram surgindo, o que é que este projeto do NK Celje teve de especial para o levar a dizer que sim? Sentiu que era o contexto certo para aquilo que procurava nesta fase da carreira?

Principalmente, o facto de ser um clube que luta por títulos. É um clube que, na Eslovénia, ambiciona ser campeão e fazer boas campanhas europeias. A possibilidade de chegar e lutar imediatamente pelo título foi determinante. Gostei muito da conversa com o presidente e com o vice-presidente. A ideia e o sonho que têm para o clube são muito claros. É um clube em crescimento e senti que era muito desejado aqui. Isso deu confiança, a mim e à minha equipa técnica, para abraçarmos este projeto com muita convicção.

- A equipa está na liderança, com nove pontos de vantagem, a nove jornadas do fim, e pode conquistar apenas o terceiro campeonato da história do clube. Sente que encontrou um grupo preparado para esse desafio ou houve necessidade de mexer muito na componente mental? 

Creio que a nossa chegada trouxe uma nova energia. Os jogadores estavam a precisar disso. Apesar da posição que ocupamos, ainda faltam oito jogos, ou seja, 24 pontos em disputa. Temos de manter os pés bem assentes na terra. Tudo pode mudar rapidamente no futebol. Queremos manter esta distância pontual e, se possível, aumentá-la. Mas sempre com equilíbrio e foco no trabalho diário.

- Foi praticamente chegar, competir e ganhar, sem grande tempo para implementar ideias de raiz. Como é que se gere esse equilíbrio entre resultados imediatos e construção de uma identidade?

Há algo que nos agrada muito: temos jogadores com grande qualidade técnica, o que é fundamental para o nosso modelo. Fomos muito rigorosos na organização defensiva e escolhemos três ou quatro aspetos essenciais para melhorar rapidamente. Quanto mais organizados estivermos sem bola, mais preparados estaremos para atacar. Depois, introduzimos algumas ideias no processo ofensivo. As coisas foram surgindo com naturalidade, apesar do pouco tempo. A vitória em Koper foi decisiva para aumentar a confiança. A equipa precisava desse impulso e foi isso que procurámos dar.

- Cerca de seis anos depois da última experiência no estrangeiro, como tem sido o processo de adaptação a um novo país, uma nova cultura e um novo balneário?

Há sempre um processo de adaptação, mas também de aculturação. Somos nós que chegamos, por isso temos de nos adaptar primeiro. É importante conhecer os jogadores individualmente, perceber os seus objetivos e ambições. Tem sido uma experiência muito enriquecedora. Sentimos um grande apoio, tanto dos jogadores como da estrutura do clube, que tem estado sempre presente. Isso facilita muito o processo. Estamos muito satisfeitos e sentimos que o nosso trabalho é valorizado, o que nos dá confiança para continuar. 

- Olhando para este arranque e para o contexto competitivo, qual é o maior desafio nesta fase final da temporada: gerir a vantagem ou manter a equipa ligada e com fome de vencer?

As duas coisas estão ligadas. Se a equipa estiver focada e com vontade de vencer, conseguiremos manter a vantagem. O jogo com o Maribor será muito importante. Queremos ganhar e, se o conseguirmos, aumentamos a distância para um adversário direto. Mas, mais uma vez, pés bem assentes na terra. No futebol tudo muda rapidamente.

- Do ponto de vista pessoal, como se sente nesta nova missão, num clube que luta pelo título? É uma recompensa por todo o seu trabalho ao longo dos últimos anos?

É verdade, era um tipo de projeto que eu e a minha equipa técnica já ambicionávamos há algum tempo. Estamos num dos grandes clubes da Eslovénia e a mentalidade tem de ser sempre ganhar. Mesmo nas equipas anteriores, a ideia era sempre essa, mas aqui essa exigência é ainda mais clara. Temos qualidade e temos de assumir isso em campo.

- O que é que os adeptos do Celje ainda podem esperar desta equipa nesta reta final?

Tivemos algum tempo para trabalhar, embora com seis jogadores nas seleções, o que limita um pouco. Podem esperar uma equipa com muita energia, ambição e foco no objetivo: ganhar jogo a jogo. Queremos fazer uma grande reta final e, se possível, conquistar o campeonato.

- O futebol é igual em todo o lado, mas há diferenças. O que encontrou de mais distinto no futebol esloveno em relação ao português?

Há algumas diferenças interessantes. Aqui, muitas equipas utilizam marcação homem a homem, algo que também começa a aparecer mais em algumas ligas. Isso torna o jogo mais partido. Por isso, as equipas mais organizadas acabam por ter vantagem. Quem estiver melhor preparado, quer defensivamente quer nos momentos de transição, consegue tirar mais partido do jogo.

Vítor Campelos no jogo frente ao AEK na Liga Conferência
Vítor Campelos no jogo frente ao AEK na Liga ConferênciaREUTERS/Alkis Konstantinidis

O percurso até ao topo: "Fiz o meu caminho sem atropelar etapas nem ninguém"

- Para quem não conhece a carreira do Vítor Campelos, fale-nos um pouco sobre o seu percurso até chegar à Liga Portugal, onde já soma mais de 80 jogos?

Estou ligado ao futebol desde muito novo. Comecei a jogar aos seis anos no Vitória SC, onde fiz grande parte da formação, e passei depois pelo Vizela nos juniores, chegando ainda a competir na Liga 2. Nessa altura, optei por dar prioridade aos estudos e segui para a Faculdade de Educação Física, começando cedo a integrar equipas técnicas.

Passei por vários clubes, desde o futebol distrital até aos campeonatos nacionais, e cheguei à Liga Portugal com o professor José Gomes, no Paços de Ferreira. Tive também experiências na Liga 2 e participei na Taça Intertoto pelo Leiria, onde fomos eliminados pelo Hamburgo, que tinha uma equipa fantástica.

Mais tarde, surgiu a oportunidade de trabalhar com o mister Toni no Médio Oriente. Foram vários anos entre Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos e Irão, com passagens por clubes como o Al Ittihad e o Al Ettifaq, onde conseguimos resultados relevantes e participámos na Liga dos Campeões Asiática. Foram experiências muito marcantes, também do ponto de vista cultural. No Irão, por exemplo, cheguei a viver ambientes impressionantes. Recordo-me de um jogo da Liga dos Campeões Asiática frente ao Al Jazira que começou às 16:00 e às 12:00 o estádio já estava cheio. Era uma assistência incrível, com mais de 100 mil adeptos, e o mister Toni era quase uma figura divina naquele contexto.

Foi também nessa altura que o Mister Toni começou a dizer-me que eu tinha capacidade para iniciar o meu percurso como treinador principal. Tirei o quarto nível e iniciei esse percurso na equipa B do Videoton, na Hungria. Sempre fiz esse caminho com os pés bem assentes na terra, sem atropelar etapas nem ninguém. 

Regressei depois a Portugal, passei pelo Trofense e pela equipa B do Vitória SC, onde estive três anos, antes de seguir para o Moreirense e novamente para a Arábia Saudita, no Al Taawoun, onde voltámos a competir na Liga dos Campeões Asiática.

Com a pandemia, regressei a Portugal e aceitei o projeto do Chaves. Ficámos perto da subida na primeira época e, na seguinte, conseguimos a promoção à Liga Portugal, culminando depois num sétimo lugar. Seguiram-se Gil Vicente, AFS e, até agora, esse tem sido o meu percurso.

NK Celje segue na liderança do campeonato da Eslovénia
NK Celje segue na liderança do campeonato da EslovéniaFlashscore

- Quando é que sentiu que o mister Toni tinha razão e que o Vítor tinha mesmo capacidade para chegar à Liga Portugal?

Sempre acreditei muito em mim. O facto de ter passado por várias funções dentro de uma equipa técnica, desde preparador físico a treinador adjunto, ajudou-me a ganhar uma visão mais completa e a compreender melhor quem trabalha connosco. Foi sobretudo na fase em que trabalhei com o mister Toni, pela autonomia que me dava, que senti que estava preparado. 

Tinha essa consciência, apesar de saber que, sendo jovem e sem um percurso mediático forte enquanto jogador ou adjunto, o caminho seria mais exigente. Ainda assim, por tudo o que já tinha vivido, sentia-me preparado para dar esse passo.

- Costuma dizer-se que somos o resultado das experiências que vivemos e das pessoas com quem nos cruzamos. Como é que o treinador Vítor Campelos se foi transformando ao longo dos anos? Em que aspetos sente que evoluiu mais?

Tive a oportunidade de trabalhar com vários treinadores, como Manuel Miranda, Vítor Paneira, José Gomes e mister Toni, o que me permitiu aprender com perfis muito diferentes, desde ex-jogadores a treinadores de base mais científica. Foram experiências muito enriquecedoras. Mas ser adjunto é muito diferente de ser treinador principal, sobretudo pela responsabilidade que acarreta. Ao longo do tempo fui evoluindo, acompanhando também a própria evolução do futebol, cada vez mais exigente do ponto de vista tático.

Ainda assim, sinto que o meu maior crescimento foi ao nível estratégico e, sobretudo, no lado humano e emocional, muito fruto da maturidade e das experiências em contextos distintos.

- O futebol mudou muito nas últimas décadas e, hoje, o lado humano parece ter um peso tão grande quanto o lado estratégico. Como é que equilibra essas duas dimensões? E que importância atribui a cada uma delas no trabalho diário?

Sempre tive uma ideia muito presente: antes de sermos bons profissionais, temos de ser bons seres humanos. No fim da carreira, mais do que o conhecimento, o que fica é a marca que deixamos nas pessoas. Espero que os jogadores sintam que os ajudei a evoluir, não só enquanto atletas, mas também enquanto pessoas. Como dizia o professor Manuel Sérgio, não há um penálti, há um homem que marca o penálti. Antes de tudo, temos a pessoa.

As experiências em diferentes culturas ajudaram-me a reforçar ainda mais essa visão. Sabemos que a performance assenta em fatores táticos, técnicos, físicos e psicológicos, mas tudo começa no conhecimento individual do jogador. Se tivermos 26 jogadores, temos 26 mundos diferentes. Só conhecendo cada um na sua individualidade conseguimos tirar o melhor partido do seu potencial enquanto jogador, porque o conhecemos primeiro enquanto pessoa.

Aliás, essa sempre foi uma preocupação minha. A minha tese de mestrado foi sobre a motivação no futebol sénior, precisamente para perceber melhor o que move cada jogador.

A forma recente do NK Celje
A forma recente do NK CeljeFlashscore

- Essa é uma questão muito interessante. Hoje, com a exposição constante às redes sociais e à informação, os jogadores lidam com mais pressão e expectativas. Como é que um treinador se adapta a essa realidade? E que tipo de comunicação é necessário gerir dentro de um plantel onde nem todos têm o mesmo espaço?

É fundamental conhecer a individualidade de cada jogador e ter conversas individuais para perceber as suas expectativas e o seu perfil. Ainda há pouco tempo estive com o Pedro Seabra (Emotional Performance) , que trabalha esta vertente comportamental, e ele fala muito da importância de identificar diferentes perfis. Através de entrevistas feitas logo à chegada ao clube, é possível traçar perfis dos jogadores. Ele divide esses perfis em cores - azuis, vermelhos, amarelos e verdes - e, a partir daí, consegue-se perceber como motivar melhor cada um, porque há jogadores que respondem mais à proximidade e outros ao afastamento.

Dou um exemplo simples: há quem se motive com a ideia de chegar a um grande clube e outros que reagem mais à pressão de poder descer de nível. A forma de comunicar tem de se adaptar a cada um. Lembro-me de um jogador no Chaves que precisava de reforço constante. Dizia-lhe que tinha qualidade para levar a equipa para a frente, e ele precisava de ouvir isso para acreditar. Outros são diferentes e exigem outra abordagem. O mais importante é perceber cada jogador para o motivar da forma certa.

Vítor Campelos assumiu destinos do NK Celje
Vítor Campelos assumiu destinos do NK CeljeJoao Rico / Joao Rico / DPPI via AFP

Construção da ideia de jogo: "Gosto de um futebol com qualidade e identidade"

- Os jogadores acabam também por influenciar a construção da sua ideia de jogo. E era precisamente sobre isso que gostava de falar consigo: nem sempre é possível trabalhar com os jogadores ideais, seja por entrar a meio da época ou por outras circunstâncias. Ainda assim, imagino que existam princípios inegociáveis. Como é que a sua ideia de jogo evoluiu ao longo do tempo e quais são esses princípios dos quais não abdica?

Há ideias que são muito claras. O ideal é que uma equipa tenha identidade própria e que, mesmo sem referências, se consiga perceber quem a treina. Isso significa que o trabalho está enraizado.

Claro que, quando chegamos a um clube, temos de olhar para os jogadores que temos. Costumo dizer que somos como um cozinheiro: vemos os ingredientes e tentamos fazer o melhor possível. Ainda assim, gostamos de ter uma equipa com posse, capaz de atrair o adversário e jogar entre linhas. Somos muito exigentes no posicionamento e na receção orientada para a frente.

Na época 2022/23, no Chaves, um estudo do CIES colocou-nos como a equipa com maior percentagem de passes frontais e receções orientadas para a frente, o que mostra bem a nossa ideia de jogo.

Vítor Campelos fala sobre a ideia de jogo
Vítor Campelos fala sobre a ideia de jogoOpta by Stats Perform, SOPA Images, SOPA Images Limited / Alamy / Profimedia

Acreditamos que quem joga melhor está mais perto de ganhar. Quando há continuidade de trabalho, tudo flui de forma mais natural, mas também gostamos de dar liberdade aos jogadores para decidir, porque muitas vezes encontram soluções ainda melhores do que aquelas que imaginamos.

Lembro-me muito disso no caso do João Mendes. Ele recebia a bola orientado para a frente e encontrava soluções que, muitas vezes, superavam aquilo que nós próprios imaginávamos. E acredito muito nisso: os jogadores que recebem para a frente são, muitas vezes, os que fazem a diferença, os que encontram o último passe ou aceleram o jogo.

Gosto dessa criatividade, dessa liberdade. Ainda sou um saudosista dos antigos números '10', dos jogadores que viam coisas que mais ninguém via. Gosto de um futebol com qualidade e identidade, e isso define-nos bastante.

- Porque é que acha que esse '10' está cada vez menos em voga? Será pela rigidez tática que hoje existe e que quase obriga todos os jogadores a cumprir determinados comportamentos, retirando-lhes liberdade? 

Acho que tem muito a ver com isso. Desde cedo, na formação, há uma grande rigidez tática que acaba por limitar a criatividade. Junta-se a isso a procura constante pelo resultado, que leva a jogos mais fechados e com menos espaço para a magia dos jogadores.

Também já não existe tanto o futebol de rua, onde se desenvolviam a técnica, o improviso e a irreverência. Hoje há menos contexto para isso.

Ainda assim, tive a sorte de treinar jogadores com esse perfil, como João Mendes, André Almeida, Haashim Domingo, Fujimoto ou Maxime Dominguez. São jogadores com características de '10' à antiga, e eu valorizo muito esse tipo de talento.

Vítor Campelos é um treinador apaixonado pela modalidade
Vítor Campelos é um treinador apaixonado pela modalidadeMiguel Pereira/Global Imagens/At / Zuma Press / Profimedia

"Preocupa-me ver equipas a jogar sem jogadores portugueses no onze"

- Que peso tem hoje o resultado na vida de um treinador, especialmente em Portugal? Ainda se sente essa pressão?

Costumava ouvir muitas vezes o mister Toni dizer: 'No futebol não há tempo para pedir tempo.' A verdade é que o tempo é fundamental. Precisamos dele para que os jogadores assimilem o processo. Não há mudanças imediatas.

O que sentimos é que as nossas equipas evoluem sempre muito ao longo da época. Há um crescimento claro, porque tudo é construído desde o primeiro treino: a forma de atacar, de defender e de interpretar o jogo. O problema é que nem sempre existe a paciência ou a estabilidade necessárias para consolidar esse trabalho. Há clubes que dão esse tempo, outros não. E, muitas vezes, é aí que o processo fica incompleto.

- Em relação ao futebol português, como é que olha para a sua evolução e em que ponto o coloca? Já tem uma identidade muito própria ou continua a ir buscar influências ao estrangeiro?

Acho que o futebol português está num bom nível, basta olhar para os resultados nas competições europeias. Há muita qualidade, não só na Liga Portugal, mas também na Liga 2 e na formação, onde se fazem trabalhos muito interessantes.

Ainda assim, há aspetos a melhorar. Por exemplo, preocupa-me ver equipas a jogar sem jogadores portugueses no onze. A longo prazo, isso pode ter impacto, e talvez faça sentido pensar em medidas que valorizem o jogador nacional.

Produzimos muito talento, mas também o perdemos cedo para campeonatos com maior capacidade financeira. Ainda assim, o campeonato é competitivo. Apesar da diferença de orçamentos, há equipas fora dos grandes que competem muito bem e demonstram qualidade no trabalho.

- E como é que olha para a competitividade entre treinadores atualmente? E que leitura faz da discussão em torno dos técnicos que chegam à Liga Portugal sem o Nível IV?

É uma área bastante competitiva, até porque há muita qualidade e surgem constantemente novos treinadores, também por ciclos. Quanto à questão dos cursos, todos devem ter a oportunidade de os tirar. Se há competência, devem existir condições e vagas para que possam fazer esse percurso.

- Ou seja, o problema não é não terem o curso, mas sim não terem possibilidade de o tirar, porque não há vagas, certo?

Percebo todos os lados. Acho que os treinadores devem estar devidamente habilitados para trabalhar na Liga Portugal, mas também deveria haver mais oportunidades, mais vagas e maior regularidade na abertura dos cursos. O percurso entre níveis é longo e exigente, e isso pode dificultar o acesso. Portanto, compreendo a necessidade de exigência, mas todos deviam ter uma possibilidade real de chegar lá.

Vítor Campelos com longo trajeto no futebol português
Vítor Campelos com longo trajeto no futebol portuguêsČTK / imago sportfotodienst / Maciej Rogowski

"Gosto da ideia de que mais vale morrer de pé do que viver de joelhos"

- Hoje fala-se de um futebol mais estudado e, por vezes, mais previsível, com jogos mais fechados e menos irreverência. Isso resulta em que muitas pessoas percam o interesse pelo jogo. Concorda com essa ideia?

Depende muito do contexto. Em Inglaterra, por exemplo, muitos jogos não passam em sinal aberto e isso leva mais pessoas ao estádio. Em Portugal, com quase todos os jogos na televisão, muitos adeptos acabam por preferir o conforto de casa. Depois há a pressão por pontuar e a instabilidade dos treinadores, que levam muitas equipas a jogar de forma mais conservadora, o que limita a qualidade do jogo.

Da minha parte, procuro sempre jogar para ganhar, independentemente do adversário. Gosto da ideia de que mais vale morrer de pé do que viver de joelhos. Prefiro morrer com as minhas ideias.

- Para quem gosta de futebol, ter mais jogos pode ser positivo. Mas a crescente densidade competitiva, com mais competições, menos pausas e mais lesões, levanta outras questões. Para onde está o futebol a caminhar nesse sentido?

Isso está muito ligado aos direitos televisivos. Quanto mais jogos houver, maior é o interesse, e esse é um fator importante para sustentar o futebol. Depois, cabe-nos a nós adaptarmo-nos. Hoje, o treinador tem de gerir muito bem o microciclo, em função do calendário. Creio que os treinadores portugueses estão preparados para isso. No nosso campeonato, tirando as equipas nas competições europeias, a maioria joga apenas uma vez por semana, o que facilita a gestão da carga física.

- Em relação ao treinador português, já falámos aqui da sua qualidade e da forma como se tem distinguido ao longo dos anos por toda a Europa e também noutras latitudes. Mas o que é que nos distingue?

Acho que isso tem a ver com a nossa capacidade de adaptação, que já vem de trás. Os treinadores portugueses estão habituados a trabalhar em contextos exigentes e, muitas vezes, a fazer muito com pouco. Quando chegamos a campeonatos com melhores condições, juntamos isso à nossa metodologia e a diferença acaba por se notar. Não somos melhores nem piores, mas somos diferentes na forma de trabalhar e na forma de nos relacionarmos, o que também ajuda na integração.

Além disso, estamos muito habituados a resolver problemas. Quando encontramos estruturas mais desenvolvidas, isso potencia ainda mais o nosso trabalho. Dou um exemplo: no Videoton, na Hungria, tínhamos cinco ou seis campos para treinar, quando em alguns contextos em Portugal há equipas com apenas um. Essa diferença é significativa.

Vítor Campelos trabalhou na Vila das Aves
Vítor Campelos trabalhou na Vila das AvesČTK / imago sportfotodienst / Maciej Rogowski

"Um dos trabalhos de que mais nos orgulhamos foi no AFS"

- O que é que as últimas experiências em Portugal, nomeadamente no Chaves, onde conseguiu a subida e depois fez uma época extraordinária na Liga Portugal, no Gil Vicente, também com trabalho muito positivo, e depois no AFS, onde as coisas talvez não tenham corrido tão bem, lhe ensinaram? Que reflexão fez sobre essas três passagens?

É curioso porque um dos trabalhos de que mais nos orgulhamos foi no AFS, apesar de não ter tido a mesma visibilidade de outros. Saímos à 11.ª jornada com dez pontos e ainda na Taça de Portugal, dentro dos objetivos, tendo em conta o contexto.

Lembro-me de uma frase do mister Luís Castro: é tão campeão quem luta pelo título como quem garante a manutenção. Concordo plenamente. Foi um dos contextos mais difíceis que encontrámos, mas também um dos trabalhos mais consistentes que estávamos a desenvolver.

- E o que é que nunca vai faltar a uma equipa técnica liderada pelo mister Vítor Campelos?

Nunca vai faltar organização - porque somos uma equipa técnica muito estruturada -, nem uma ligação forte com os jogadores, com quem conseguimos criar relações sólidas. Procuramos sempre alinhamento com o clube. Se há confiança, estabilidade e condições para trabalhar, e se o treinador também entende os objetivos do clube, é mais provável surgir um bom trabalho.

Acredito também que as nossas equipas têm uma evolução consistente ao longo do tempo e que conseguimos valorizar jogadores, algo que se refletiu nos clubes por onde passámos.

- Tendo já trabalhado no estrangeiro e após a abordagem pública do Cardiff, sente que o processo de recrutamento é diferente do que se pratica em Portugal? Falta, por vezes, um critério mais definido no perfil de treinador em Portugal?

Acho que, em Portugal, também já começa a haver clubes a fazer entrevistas e a tentar conhecer melhor o treinador, não apenas a sua ideia de jogo, mas também aquilo que pode acrescentar ao clube e até a sua personalidade. Mas lá fora, de um modo geral, esse processo é mais aprofundado. Fazem mais do que uma entrevista. Procuram perceber não só o modelo de jogo, a forma de treinar e a metodologia, mas também a liderança, o perfil humano e outros aspetos muito relevantes.

Os próximos jogos do NK Celje
Os próximos jogos do NK CeljeFlashscore

- Qual foi o maior ensinamento que o futebol lhe deu ao longo destes anos?

Muitas vezes queremos que as coisas aconteçam muito depressa e, se calhar, deveríamos ter mais calma e criar mais estabilidade para que elas possam acontecer. Mas, acima de tudo, o futebol ensinou-me a importância dos contextos. Pelas experiências que fui tendo, percebi que os contextos ajudam muito a fazer os treinadores e a permitir-lhes alcançar o sucesso.

- Se o futebol fosse uma pessoa e o encontrasse na rua, o que é que lhe gostaria de dizer?

Dir-lhe-ia que, até agora, tem sido uma parte muito importante da minha vida. Desde sempre que estou ligado ao futebol e, na sua pureza, é das coisas mais bonitas que existem. Do futebol tiramos muitos ensinamentos para a vida, e da vida também tiramos muitos ensinamentos para o futebol. Há muitas analogias que podemos fazer entre uma coisa e outra. Mas o mais importante é fazermos aquilo de que gostamos e sermos felizes com aquilo que fazemos.

- Vítor, para terminar: no dia em que decidir colocar um ponto final na carreira de treinador, como gostaria de ser recordado? Quando alguém perguntasse 'quem foi o Vítor?', o que gostaria de ouvir como resposta?

Espero que, daqui a muitos anos, possa ser recordado pelos meus jogadores e pelas pessoas que trabalharam connosco como alguém que os ajudou a evoluir enquanto jogadores e a potenciar as suas qualidades. Mas, acima de tudo, gostava que me recordassem como alguém que, pela sua forma de ser e de estar, os ajudou a ser melhores pessoas.