Recorde aqui as incidências do Coreia do Sul-Japão
"Não vou cumprir o serviço militar!", celebrou o capitão da equipa que disputou os Jogos Asiáticos, Lee Gi-hyuk, visivelmente eufórico após a vitória na final diante do Japão (1-0), no início do mês.
O defesa acrescentou que teria tido de apresentar-se no quartel nove dias depois se a equipa não tivesse ganho.
Outro vídeo, no qual surge Park Seung-soo, jovem avançado do Newcastle, sorridente e com um boné de desmobilização inclinado, inflamou ainda mais uma polémica que não terminou, apesar de os dois futebolistas terem pedido desculpa.
"Uma recompensa"
"O que esta polémica deixou claramente patente é que as isenções militares passaram a ser encaradas como uma recompensa, embora apenas algumas dezenas de pessoas beneficiem delas todos os anos", explicou à AFP um responsável sul-coreano sob condição de anonimato.
Quando os privilegiados se gabam abertamente das suas isenções como se de prémios se tratasse, "o serviço militar transforma-se simbolicamente num castigo para os cerca de 180.000 jovens mobilizados todos os anos para servirem o seu país", acrescentou.
A Coreia do Sul impõe à maioria dos seus cidadãos do sexo masculino aptos entre 18 e 21 meses de serviço militar. Na verdade, tecnicamente continua em guerra com a Coreia do Norte, uma vez que o conflito de 1950-1953 terminou com um armistício e não com um tratado de paz.
Ao abrigo de um sistema criado em 1973, os atletas que conquistam uma medalha olímpica ou uma medalha de ouro nos Jogos Asiáticos, assim como os artistas distinguidos em concursos designados, podem beneficiar de uma isenção em nome da "valorização do prestígio nacional e da promoção da cultura".
As personalidades elegíveis continuam igualmente obrigadas a cumprir três semanas de formação militar básica e a prestar 544 horas de serviço cívico relacionado com a sua especialidade durante um período de 34 meses.
Rever o sistema
O antigo capitão do Tottenham, Son Heung-min, faz parte do grupo de desportistas que obtiveram uma isenção, depois de ter conduzido a seleção de futebol à medalha de ouro nos Jogos Asiáticos de 2018, na Indonésia.
No entanto, mostrou-se mais prudente do que os seus companheiros: "Mais do que pensar nisso, viemos aqui para ganhar este torneio", declarou na altura.
Em resposta à recente polémica, o ministro da Defesa sul-coreano, Kang Shin-chul, comprometeu-se a reduzir progressivamente estas vantagens, com o objetivo de as eliminar por completo a longo prazo.
Perante a pressão crescente a favor de uma reforma, a Administração de Pessoal Militar está atualmente a proceder a uma revisão do sistema, em particular dos critérios de elegibilidade e das obrigações de serviço público.
Prevê-se que este estudo fique concluído até meados de novembro.
Segundo Kim Seong-sheen, professor da Universidade de Hanyang, este debate reflete as profundas transformações da sociedade sul-coreana desde a implementação deste sistema, há mais de meio século.
"O sistema de isenções criado em 1973 foi fruto de uma época em que os êxitos alcançados em competições desportivas internacionais estavam estreitamente ligados ao prestígio nacional", afirmou.
Mas esta controvérsia põe em evidência até que ponto os tempos mudaram, uma vez que "mais de 50 anos depois, a Coreia do Sul enfrenta uma redução do número de recrutas, a comercialização do desporto e exigências crescentes da população em matéria de equidade", acrescentou.
