Acionistas da SAD do Sevilha lançam acusações: "Sergio Ramos enganou-nos"

Sergio Ramos, antigo internacional espanhol
Sergio Ramos, antigo internacional espanholMARCO LUZZANI / GETTY IMAGES EUROPE / GETTY IMAGES VIA AFP

Os acionistas da SAD do Sevilha vieram a público defender-se, após o fiasco que representou a tentativa de compra de Sergio Ramos.

A crise institucional do Sevilha ganhou um novo capítulo, depois de os principais acionistas do clube terem responsabilizado publicamente Sergio Ramos pelo fracasso das negociações para a venda da entidade.

Os proprietários garantiram que o ex-futebolista alterou de forma inesperada as condições que tinham sido discutidas durante meses, o que acabou por provocar a rutura definitiva de um acordo que parecia encaminhado.

De acordo com a versão dos acionistas, a proposta apresentada na fase final reduzia consideravelmente o alcance económico da operação e alterava a estrutura prevista para a aquisição do clube. Além disso, colocaram em causa a solvência dos novos investidores integrados no projeto e adiantaram que irão analisar possíveis reclamações pelos prejuízos causados durante um processo que manteve o Sevilla envolvido em negociações exclusivas durante vários meses.

A carta completa: 

"Sevilha, 1 de junho de 2026

Os acionistas do Sevilla FC SAD abaixo assinados, perante recentes propostas para a compra de pacotes relevantes de participações do capital social, consideram conveniente comunicar:

1. Há meses que diferentes grupos de investidores interessados no Sevilla FC se aproximaram dos principais acionistas da entidade, cujas propostas foram analisadas cuidadosamente, tendo em conta que fossem benéficas para o Clube, bem como para os seus legítimos proprietários, e permitissem também acelerar a recuperação da atual situação desportiva e económica da entidade.

2. No passado dia 26 de janeiro de 2026, foi celebrado, por dois dos principais grupos de acionistas, ao qual aderiram posteriormente os outros dois grupos principais, um acordo de venda de até 85% do capital social, por um preço por ação a ser pago a pronto e com a obrigação de executar posteriormente um aumento de capital no valor de 80 milhões de euros, com base na formalização de uma carta de intenções vinculativa com o grupo Five Eleven Capital e Sergio Ramos.

3. Esta carta de intenções foi realizada com a convicção de que a participação ativa da figura do ex-jogador do Sevilla FC constituía o seu aval pessoal, como nos assegurava com veemência, para o sucesso da futura transação; tanto do ponto de vista do cumprimento do acordo, como para o futuro da entidade. Entre os investidores que apoiavam e davam suporte à referida oferta vinculativa, dos quais nos foram apresentadas cartas de compromisso, encontravam-se três grupos internacionais solventes, nenhum dos quais era o DMI, grupo que só apareceu na penúltima reunião.

4. Este acordo foi ratificado no passado dia 11 de maio de 2026 numa reunião entre as partes, após os acionistas aceitarem novos pedidos dos potenciais compradores, como um adiamento do pagamento e a redução do preço da transação, assumindo os acionistas a maioria das perdas da época, apesar de esse ajuste já estar implícito na proposta anterior. Estes pedidos, segundo os Srs. Ramos e Ink, provinham de um “novo investidor”, o grupo mexicano DMI.

5. No passado dia 27 de maio de 2026, a poucos dias do termo do acordo, o Sr. Ramos e os seus assessores declararam expressamente a sua vontade de não cumprir o acordo, revelaram-nos que o Grupo DMI era, na verdade, o seu único investidor, tendo desaparecido os restantes, incluindo a própria FIVE ELEVEN, mudaram os interlocutores e apresentaram uma abordagem totalmente diferente, tanto na forma como no conteúdo, das condições já fechadas.

A mudança radical no perfil do investidor, de natureza muito distinta dos anteriores que tinham desaparecido, gerava até dúvidas sobre o futuro do património imobiliário da entidade. Um incumprimento que, de forma evidente, a parte compradora sabia que iria inviabilizar a operação, pois o acordo estava fechado meses antes e tinha sido ratificado publicamente pelo próprio Sr. Ramos desde o dia 11 de maio.

Este engano, no qual o Sr. Ramos e o seu círculo nos mantiveram até esse mesmo dia, como sabem todas as pessoas que tiveram algum contacto com ele, não foi algo inesperado, como agora pretende fazer crer de forma absurda, estava preparado há meses, meses de engano em prejuízo do Sevilla FC, com maquinações que vieram a público.

6. Consideramos tudo o que aconteceu como uma manifesta falta de respeito para com os acionistas e o Clube, a cinco dias do fim do período de exclusividade desde janeiro até 31 de maio de 2026, do qual beneficiou de forma privilegiada a parte alegadamente compradora.

Consideramo-lo, ainda, impróprio de uma figura tão respeitada e relevante no mundo do futebol como o Sr. Ramos, que à partida representava uma garantia para o futuro do Sevilla FC.

7. Em todo o momento, o Clube colaborou de forma proativa, com aprovação do seu Conselho de Administração, e disponibilizou aos interessados, para facilitar a due diligence, informação relevante de todo o tipo. O referido processo foi contratado pelos interessados, começou a 9 de fevereiro de 2026 e durou 45 dias, concedendo os acionistas mais 2 semanas aos alegados compradores para a elaboração do seu relatório, concluído a 13 de abril, data em que já detinham toda a informação e as suas conclusões.

Estas auditorias transacionais do Clube resultaram em relatórios satisfatórios, segundo declarações públicas dos próprios interessados. Na reunião de 11 de maio de 2026, já com o DMI reconhecidamente envolvido, os alegados compradores voltaram a confirmar a sua concordância com os resultados do processo de due diligence, algo que, de facto, fizeram chegar a todos os meios de comunicação, como confirmam as diversas informações citando a parte alegadamente compradora.

8. A situação económica do Clube, em todo o caso, é absolutamente transparente e pública, e as suas contas anuais, auditadas de forma correta e verdadeira, estão disponíveis ao público no site do Sevilla FC. Além disso, não coincidem de todo com aquela que, de forma prejudicial para a reputação da entidade, está a ser divulgada pelo círculo do Sr. Ramos, com violação grave dos acordos de confidencialidade assinados com o Clube e com os acionistas para proteger a sua informação.

Cientes do período que atravessamos, deixamos também claro que essa alegada delicada situação económica nunca seria argumento válido para que qualquer interessado no Sevilla FC quisesse aproveitar-se dela ou a utilizasse como moeda de troca para alterar de forma ardilosa condições já acordadas, como foi o caso, agravado pelo facto de, além disso, terem sido usadas para prejudicar a reputação do Clube.

9. É necessário esclarecer que, a todos os grupos, particulares ou fundos de investimento interessados em adquirir um pacote maioritário de ações do Clube, é exigido desde o primeiro momento que, imediatamente após a transmissão das ações, executem um aumento de capital que possa acelerar a recuperação da entidade. Não é uma escolha dos compradores, mas sim uma exigência dos vendedores, e desde o início das negociações foram obrigados a aumentar em 80 milhões de euros.

10. Estamos já a trabalhar na recuperação de determinadas propostas de grupos sólidos e com garantias para assumir o Sevilla FC, que tinham ficado suspensas devido ao período de exclusividade que mantínhamos com o Sr. Ramos. Estas outras ofertas permaneceram em espera durante todo este tempo. Os contactos já foram retomados desde esta segunda-feira.

11. Neste período de transição para uma possível futura venda, sabemos que, por parte do Conselho de Administração da entidade, continuarão a ser tomadas as medidas necessárias para manter o seu plano de saneamento, tendo presente que algumas serão difíceis a curto prazo, mas que ajudarão a consolidar uma situação melhor e mais sustentável a médio e longo prazo.

12. Evidentemente, resultante desta situação, estamos conscientes da dureza deste processo, mas também de que é o caminho de recuperação que devemos seguir para alcançar o equilíbrio desportivo, corporativo e a continuidade institucional do Clube.

13. Entendemos que a atual situação económica e desportiva do Sevilla FC não é a melhor nem corresponde à história do Clube. Tal como noutros momentos levámos a entidade a patamares históricos de excelência, fazemos autocrítica sobre o que aconteceu nas últimas épocas, que conduziram à atual situação global da entidade, e somos extremamente sensíveis a esta realidade e partilhamos a natural inquietação provocada nas últimas temporadas.

14. Informa-se, adicionalmente, que esta manhã foi enviada uma comunicação direta ao Sr. Ramos e à FIVE ELEVEN, denunciando o seu incumprimento, reclamando-lhe o pagamento da cláusula penal, advertindo-o de que a sua conduta dolosa e fraudulenta implicará a reclamação de outros danos e prejuízos, não incluídos na penalidade reclamada, e exigindo-lhe que cesse de imediato o incumprimento do seu dever de manter a absoluta confidencialidade relativamente à informação do Clube a que teve acesso graças à documentação disponibilizada para que pudesse realizar a Due Diligence, para o que foram assinados pactos expressos de confidencialidade."