Análise: Francesco Farioli e Alessio Lisci, os treinadores italianos de sucesso no estrangeiro

Francesco Farioli, treinador do FC Porto
Francesco Farioli, treinador do FC PortoREUTERS/Rita Franca

Francesco Farioli e Alessio Lisci, um toscano e um romano, são dois treinadores que cresceram com ideias bem definidas e ambições elevadas. Radicados na Península Ibérica, estão a viver uma época que reflete não só as suas aspirações, mas também a sua eficácia. Voltarão algum dia a Itália?

Os cerca de 766 km que separam Porto de Pamplona poderiam ser percorridos em cerca de um mês por um peregrino destemido, daqueles que aproveitam o Caminho de Santiago para pôr à prova o corpo e o espírito.

Nestes dois extremos, que fazem parte de rotas distintas do famoso percurso até ao túmulo do apóstolo na Galiza, hoje ouve-se um pouco de italiano. Culpa, ou mérito, de Francesco Farioli e Alessio Lisci, respetivamente treinadores do FC Porto e do Osasuna.

São estes dois os italianos ambiciosos que, depois de terem sentido o futebol jogado apenas por volta dos vinte anos, decidiram desde cedo apostar na formação. E mais na teoria do que na prática. Hoje, com 36 e 40 anos, o toscano e o romano dão que falar na Península Ibérica, pelos resultados e pelo entusiasmo. Farioli chegou ao clube mais bem-sucedido da história moderna de Portugal, enquanto Lisci aceitou o desafio de uma praça conhecida pela paixão, apesar de um palmarés praticamente vazio.

Ascensão rápida

Nascido em 1989 e já aos 22 anos adjunto na Serie D, Francesco Farioli mostrou desde cedo uma inteligência tática fora do comum. Licenciado em filosofia, conquistou o seu espaço no futebol de topo depois de treinar a seleção sub-17 do Catar e de se juntar a Roberto De Zerbi como treinador de guarda-redes, primeiro no Benevento e depois no Sassuolo. Mas o seu objetivo era liderar, e aos 33 anos, como treinador principal do Alanyaspor, impôs um claro 4-2 ao Karagumruk orientado por um certo Andrea Pirlo.

A partir desse momento, iniciou uma ascensão que passou pelo Nice e depois pelo Ajax, onde conseguiu revitalizar uma realidade brilhante que há demasiado tempo estava ofuscada por maus resultados. O título de 2024/2025 escapou-lhe de forma dramática no final, depois de perder nove pontos de vantagem para o PSV Eindhoven a quatro jornadas do fim, o que o moldou. E levou-o a continuar a reinventar-se.

Chegou ao FC Porto por decisão de André Villas-Boas e, mesmo sem dominar o português, conquistou de imediato o coração dos jogadores e dos adeptos. Defensor de um futebol vertiginoso e frequentemente ofensivo, neste momento lidera o campeonato, após vencer 21 partidas, e ostenta a melhor diferença de golos, tendo sofrido apenas oito golos e marcado 47. Na Liga Europa, onde terminou em sexto lugar na fase de liga, vai agora defrontar o Estugarda para provar que também na Europa pode impor-se.

Trabalho de base e mérito

Alessio Lisci, por sua vez, também veio de baixo, mas subiu gradualmente ao topo do futebol europeu. Depois de enviar currículos a vários clubes espanhóis, contando apenas com uma experiência como treinador nas camadas jovens da Lazio, construiu o seu pequeno sonho no Levante, chegando a treiná-lo na Primera División. A passagem pelo Mirandés, com o qual esteve perto de garantir a promoção à principal liga espanhola, projetou-o definitivamente para o círculo dos grandes.

Agora que está no Osasuna, uma equipa que sempre apostou nos jovens, parece ter colhido todos os frutos do que semeou. Totalmente integrado na realidade espanhola, também a nível cultural e linguístico, faz do pressing alto e das transições as suas principais armas para surpreender os adversários. Que o diga o Real Madrid, derrotado há menos de duas semanas no Sadar, por 2-1. Atualmente a meio da tabela e praticamente salva, a equipa navarra vive do entusiasmo transmitido pelo treinador romano, que passou de aposta a certeza.

Ambos seguiram os passos de Roberto De Zerbi e Enzo Maresca, que em França e Inglaterra mostraram recentemente não só criatividade, mas também resultados, além da alegria de jogar futebol. Hoje, totalmente adaptados ao estrangeiro, Farioli e Lisci representam melhor do que os jogadores aquela Itália que, com a bola, quer iluminar e divertir. E, talvez por isso mesmo, possam nunca regressar, ou melhor, chegar à Serie A. Um campeonato em que aos jovens, sejam jogadores ou treinadores, não se oferece nem espaço nem paciência.