Da alternância entre Lionel Messi e Cristiano Ronaldo durante uma década ao boicote do Real Madrid em 2024, furioso por Rodri ter sido coroado à frente do avançado merengue Vinicius Junior, não faltaram debates nos 70 anos de existência da Bola de Ouro.
Mas esta campanha de 2026 "é bastante inédita pelo seu ruído mediático", considera, em declarações à AFP, Pascal Ferré, antigo diretor editorial da France Football, o jornal que organiza a cerimónia.
Não são apenas os clubes, treinadores e companheiros de equipa que apoiam o seu candidato. Agora, o próprio jogador também passou a defender a sua candidatura.
"Não houve ninguém melhor do que eu na época passada", afirmou o avançado do Real e da seleção francesa Kylian Mbappé, dizendo que "sempre foi visto como o escolhido".

"Nunca fui o escolhido, mas trabalhei", respondeu-lhe Ousmane Dembélé, que quer conservar o troféu conquistado no ano passado.
A Bola de Ouro premeia "um jogador diferente", que "não tem nada que ver com o número de golos que marca", sublinhou o prodígio espanhol Lamine Yamal.
É um coro de candidatos que se transforma numa cacofonia, muito distante da campanha bem mais serena pela Bola de Ouro feminina, criada em 2018. Nessa corrida, a espanhola Alexia Putellas argumentou à AFP que "o futebol falava por (ela)".
"Isso também reflete o facto de, entre o futebol masculino e o futebol feminino, não existir o mesmo nível de notoriedade e, por isso, também não haver o mesmo nível de agitação mediática", considera Pascal Ferré.
"Máquina de fantasias"
E acrescenta, por outro lado: "Se a Bola de Ouro masculina desperta tanto interesse, é porque continua a ser uma máquina de fantasias, de pressão e de intriga". Uma prova de que se trata de um troféu "que não está a perder credibilidade ou legitimidade".
"A verdadeira viragem é os jogadores entrarem na batalha. Antes, tratava-se de uma campanha de lobbying mais institucional, menos assumida, com os clubes e as pessoas que rodeiam os jogadores", declarou à AFP Bruno Bianzina, diretor da agência de consultoria em comunicação Sport Market. "Hoje, é mais ofensiva, com a vontade de construir uma narrativa dos jogadores".

Se Mbappé falou nas páginas do jornal madrileno As, habitual porta-voz do Real, também concedeu outras entrevistas. Entre elas, destacou-se uma conversa com a Radio France Internationale (RFI), organizada, pelo contrário, pela sua própria equipa, segundo o jornalista Olivier Pron, que conduziu a entrevista.
"Eles (as pessoas que o rodeiam) estão em campanha e querem chegar a África", explica numa publicação em vídeo da RFI, acrescentando que alguns temas tinham sido excluídos: a política francesa, a crise de governação na FIFA ou a questão de Ceuta, o enclave espanhol em Marrocos.
A razão para tal investimento? "Não há favoritos que se destaquem na corrida. Cada jogador considera que tem uma oportunidade e tenta impor a sua 'narrativa', puxando os critérios a seu favor", avalia Bruno Bianzina.
Individual vs. coletivo
Os critérios oficiais da Bola de Ouro distinguem assim as prestações individuais e, consequentemente, também as estatísticas, das prestações coletivas, que ficam para segundo plano.
As primeiras podem reforçar as candidaturas de Mbappé, prolífico tanto no Real como na seleção francesa, melhor marcador do Mundial-2026, ou do inglês Harry Kane, muito mais discreto mediaticamente apesar de uma época extraordinária no Bayern Munique (61 golos em 51 jogos).
Mas nenhum dos dois levantou o troféu do Campeonato do Mundo, ao contrário de Lamine Yamal e Rodri, consagrados com La Roja, ou a Liga dos Campeões, como Ousmane Dembélé e Khvicha Kvaratskhelia, campeões europeus pela segunda vez consecutiva com o PSG.
Apesar destas campanhas individuais, "existe uma verdadeira coordenação entre os clubes e os jogadores", considera Bruno Bianzina. "A Bola de Ouro entra na mitologia do clube", insiste.

"É uma montra internacional sem paralelo", acrescenta Pascal Ferré, referindo-se à transmissão para todo o mundo "em 180 países".
Com 10 pré-selecionados entre 30, tal como no ano passado, o PSG afirma centrar a sua campanha no coletivo, sem querer comentar mais pormenorizadamente a sua estratégia. Isso não o impede de colocar Dembélé e Kvaratskhelia em entrevistas conjuntas, enquanto Fabian Ruiz teve direito ao seu momento de destaque, com algumas entrevistas individuais.
Lobby, argumentos estatísticos, batalha mediática: serão estas estratégias eficazes? "A Bola de Ouro não é um concurso de ruído mediático", recorda Pascal Ferré.
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