Do anonimato ao estrelato: a revolução de Giráldez no Celta

Claudio Giráldez, treinador do Celta de Vigo
Claudio Giráldez, treinador do Celta de VigoREUTERS

Com apenas 38 anos, Claudio Giráldez tornou-se muito mais do que o treinador do Celta de Vigo: é o arquiteto de uma autêntica revolução cultural na Galiza. Chegou em março de 2024 para suceder ao austero Rafael Benítez e, sendo um "filho da casa", transformou uma equipa moribunda que lutava pela manutenção numa das formações mais espetaculares da LaLiga. O clube celta ocupa a 6.ª posição no campeonato espanhol e está apurado para os oitavos de final da Liga Europa, em grande parte graças a ele.

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Nascido em Porriño, a poucos quilómetros de Vigo, Giráldez conhece cada recanto do clube. Antigo lateral-esquerdo formado no Real Madrid e no Atlético, a sua carreira como jogador foi discreta, mas foi no banco que revelou o seu génio. Subiu todos os degraus da estrutura do Celta: das equipas de formação ao Celta Fortuna (a equipa B), até assumir o comando da equipa principal a meio da época, após o despedimento de Rafa Benítez

Esta legitimidade permite-lhe falar ao coração dos adeptos. Para ele, treinar o Celta não é um trabalho, é um sonho de criança: "Este clube, este estádio, têm um lugar muito especial no meu coração. Vinha aqui quando era miúdo. Viver esta experiência é um privilégio e uma honra."

Enquanto Benítez defendia a ordem e a prudência, Giráldez impôs o caos organizado e uma ofensiva sem limites. O seu sistema preferido, frequentemente híbrido (um 3-4-3 ou 5-4-1 bastante flexível), assenta numa saída de bola limpa desde trás, numa pressão sufocante e numa verticalidade constante.

Real Madrid, Barça, Atlético: todos sofrem perante o Celta de Giráldez

Sob a sua liderança, o Celta já não se submete aos grandes, desafia-os. E o Real Madrid, que os Célticos voltam a defrontar esta sexta-feira, recorda-o bem: a 7 de dezembro de 2025, Giráldez e os seus homens venceram por 0-2 no Bernabéu, depois de dominarem completamente os merengues no meio-campo. Pouco depois de assumir funções, Giráldez também foi a Montjuic derrotar o Barça por 2-1, a 16 de maio de 2024, garantindo definitivamente a manutenção ao clube do seu coração.

Houve ainda o empate 1-1 frente ao Atlético em outubro e o oitavo de final frente ao Real, que acabou por ser ganho pelos Merengues por 5-2, onde o Celta lutou até ao fim para levar o jogo a prolongamento (2-2), acabando por ceder nos instantes finais. "A minha obsessão não é apenas ganhar, mas a forma como ganhamos. Quero que os meus jogadores sintam que podem vencer qualquer adversário, que se sintam superiores pelo futebol que praticam", repete Claudio Giráldez.

A sua maior conquista é a integração massiva dos jovens da formação. Conhecendo profundamente os talentos do Celta Fortuna, não hesitou em lançar jogadores como Hugo Álvarez e Damián Rodríguez, ambos com 22 anos, diretamente para o palco principal. "Penso sempre no futuro, não apenas no curto prazo. O meu trabalho é garantir que o Celta melhora todos os dias, que os meus jogadores evoluem. Já o fazia com os jovens e continuo a fazê-lo aqui", assegura.

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Um onze cada vez mais jovem, craques vendidos a peso de ouro

A metodologia de Giráldez traduz-se também num número impressionante: com uma média de idades entre 23,8 e 24,5 anos, conforme o onze escolhido, o Celta apresenta regularmente um dos onze mais jovens dos cinco principais campeonatos europeus. Para ele, a juventude não é um problema, é uma solução: "Não olho para a data de nascimento. Se um miúdo de 18 anos percebe melhor a pressão do que um veterano, é ele que joga. O talento não espera, e no Celta é a nossa única moeda de troca perante orçamentos gigantescos."

Esta confiança inabalável transformou o clube numa autêntica mina de ouro. O surgimento dos jovens promovidos por Giráldez permite ao Celta estabilizar as suas contas ao vender as suas pérolas a peso de ouro, sobretudo para a Premier LeagueFer López, joia do meio-campo e produto puro da academia, transferiu-se para o Wolverhampton no verão de 2025 por um valor recorde de quase 25 milhões de euros (mais bónus), apenas um ano após a sua estreia na equipa principal. Uma transferência algo forçada pelo clube, cujas finanças não podiam prescindir de tal encaixe. Com falta de minutos, está atualmente emprestado pelos Wolves ao Celta, onde recuperou o brilho de outros tempos.

Outra grande venda do Celta: Jørgen Strand Larsen. Apesar de ter sido contratado ao Groningen por 15 milhões de euros em 2022, foi sob o sistema ofensivo de Giráldez que explodiu, permitindo uma venda monumental aos Wolves (cerca de 30 milhões de euros). O clube inglês, aliás, realizou uma mais-valia ao vendê-lo recentemente ao Crystal Palace por mais de 50 milhões de euros neste inverno.

A forma recente do Celta
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Esta estratégia de trading permite ao Celta reinvestir imediatamente nas suas infraestruturas e manter a competitividade sem se endividar. Com Giráldez, o centro de formação de A Madroa deixou de ser apenas um orgulho local, tornando-se o coração de uma equipa em que os nomes mais sonantes são os dos jovens formados no clube e idolatrados pelos adeptos locais.

Uma gestão positiva mas meritocrática

O sucesso em campo e no mercado de transferências não se deve apenas a esquemas táticos, mas a uma gestão humana elogiada pelos seus jogadores. "O Claudio dá-nos uma confiança que nunca tinha sentido antes", afirma Oscar Mingueza, antigo jogador do Barcelona que atingiu o seu melhor nível sob as ordens do treinador galego e conquistou as primeiras verdadeiras chamadas à seleção espanhola graças a ele.

"Ele não nos pede apenas para jogar, explica-nos o 'porquê' de cada movimento. A sua gestão baseia-se na honestidade: diz-te as coisas diretamente, sejam boas ou más, e isso faz-nos dar tudo por ele. Sentimos que acredita em nós, independentemente do adversário."

Uma abordagem própria dos seus anos como formador, insistindo na importância da aprendizagem e do progresso individual. Criou uma cultura de exigência em que o estatuto não protege ninguém, nem sequer Iago Aspas, capitão lendário do Celta de Vigo: "O Iago é insubstituível, é o melhor jogador da nossa história. Mas quando não está, a equipa tem de ter recursos para causar impacto de outras formas. Não podemos depender de um só homem."

Os próximos jogos do Celta
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Internamente, o clube explica que Giráldez conseguiu convencê-lo a tornar-se mentor da nova geração, ao mesmo tempo que o transformou num supersub, capaz de agitar os finais de jogo com o seu instinto goleador. O símbolo da força do coletivo, ao serviço do clube, é precisamente o valor central deste treinador, capaz de adaptar-se às diferentes mudanças provocadas pela situação financeira complicada do Celta: "O mais difícil no futebol não é fazer os jogadores correrem, é fazê-los acreditar numa ideia comum. O meu papel é ser o primeiro adepto dos meus jogadores, protegê-los quando duvidam, mas empurrá-los para que nunca se acomodem na mediocridade."

Em apenas duas épocas, Claudio Giráldez realizou o impensável: devolveu ao Celta de Vigo o orgulho e saneou as suas contas. Provou que, em Espanha, existe uma alternativa viável para enfrentar os gigantes financeiros: audácia, formação e uma identidade coletiva de jogo forte.

Enquanto os maiores clubes europeus começam a chamar o seu nome, o "feiticeiro de Porriño" parece, por agora, ter olhos apenas para o seu horizonte galego. Com contrato até 2027, devolveu a Balaídos o direito de sonhar, não só com uma manutenção tranquila, mas com um regresso em força ao palco europeu. Aconteça o que acontecer, Giráldez já venceu o seu desafio mais valioso: reconciliar todo um povo com o seu futebol.