- Ivan, bem-vindo. Muito obrigado por aceitar a entrevista. Entrou para o Real Madrid em 1999 e fez parte de um período muito emblemático do clube. Que recordações guarda dessa época?
- Muito boas, porque, bem, era um sonho para mim poder ir para o Real Madrid. Depois de tantas etapas que tive, mesmo em Itália, muitas em Espanha. Foi sempre o sonho que eu quis desde miúdo, jogar no Real Madrid. Além disso, como diz, foi uma época maravilhosa, com muito bons companheiros de equipa. Havia muitos espanhóis, entendíamo-nos muito bem. E, bem, passámos momentos muito, muito bons. Estar oito anos no Real Madrid não é fácil para nenhum jogador e eu sou, penso eu, o 35.º ou 36.º jogador com mais jogos na história do Real Madrid e para mim é um orgulho. Foram tempos maravilhosos.
- Qual foi o aspeto mais exigente de jogar no Real Madrid?
- Bem, o mais exigente é quando se chega. Assim que se chega, sabe-se o que significa vestir a camisola do Real Madrid. E no início tinha muita pressão. Era muito jovem e não era fácil. Além disso, tinha muitos jogadores muito, muito bons. No início, é-se muito cauteloso, com muitos nervos e com muitas dificuldades. Mas, pouco a pouco, ganha-se confiança, vê-se que são todos humanos, que são todos muito boas pessoas. Todos eles me ajudaram e pouco a pouco é preciso fluir com o nosso futebol e as coisas correm bem.
- Queria perguntar-lhe sobre esses jogadores, porque eram grandes jogadores como Raúl, Figo, Zidane, Roberto Carlos, Beckham, Casillas? Como era esse balneário, era saudável?
- Bem, eu cheguei quando não havia muitos desses jogadores. Cheguei com Lorenzo Sanz como presidente, que foi quem me contratou. E também havia muitas estrelas, mas se calhar não se falava tanto delas. Mas Seedorf era uma estrela para mim. Fernando Redondo era uma estrela. Fernando Hierro, Raúl, Morientes... Alguns jogadores que fizeram muito pelo Real Madrid também estão um pouco esquecidos.
Obviamente Figo foi um craque, Zidane foi incrível, Ronaldo, Beckham... As pessoas lembram-se muito da era dos galáticos, porque juntar todos esses jogadores foi incrível, mas houve outros jogadores que foram impressionantes, como os que te estou a contar, e que não são tão mencionados, certo? Muitos dos jogadores de que estou a falar, quando cheguei ao Real Madrid, fizeram mais do que outros que são mais falados.

- Havia grupos, Iván, por exemplo, não sei, brasileiros com brasileiros, espanhóis com espanhóis... Ou eram um só grupo?
- Sim, havia, mas isso é normal. É o mesmo que aconteceu quando cheguei a Itália. É normal que os italianos falem italiano e se entendam melhor, porque conhecem os costumes, viveram certos momentos em Itália, estão lá desde pequenos e um pouco mais velhos. É a coisa mais normal do mundo que eles se dêem melhor uns com os outros. Aconteceu com os espanhóis, aconteceu quando havia alguns brasileiros. Havia o Batista, havia o Robinho, Roberto Carlos, Ronaldo. Claro que os brasileiros se juntam, é a coisa mais normal do mundo. Mas isso não quer dizer que eles não se tenham dado bem com os outros. É um bocado natural.
- Suponho que foram a muitas festas e coisas do género, celebrando também títulos? Isso é possível?
- Sim, mas isso é normal. Éramos jovens e gostávamos de sair. Eu, de facto, saí tanto como os outros, mas sabe-se as alturas em que se pode sair e as alturas em que não se pode. Quer dizer, jogámos num sábado, ganhámos, obviamente, por isso é claro que podíamos sair para beber um copo se não estivéssemos a jogar a Liga dos Campeões na terça-feira. O que acontece é que as pessoas confundem imediatamente os termos, não é? 'Já te vi a sair'. Sim, mas eu também podia sair, obviamente, porque era jovem e porque não tenho qualquer problema em sair num sábado se não tiver de jogar até ao domingo seguinte.
- Os jogadores também merecem uma vida normal?
- Bem, é preciso normalizar um pouco isso, porque mentalmente o futebolista acaba por ficar um pouco stressado. Há alturas em que também precisa de aliviar um pouco a pressão.
- O problema é que antigamente não havia tantas redes sociais como agora, e é por isso que a situação está a mudar...
- Mas também os jogadores já não saem tanto.
- Se olharmos para o Real Madrid neste momento e o compararmos com a época anterior, também têm superestrelas no balneário e há uma enorme pressão mediática.
- Sim, mas é porque os tempos mudaram. Agora é muito mais mediático, mas também é verdade que agora os jogadores não falam com a imprensa. Eu estou a falar mais do que qualquer outro jogador. Ultimamente faço mais podcasts e mais redes sociais do que qualquer jogador do Real Madrid. Agora eles divulgam muito através das suas redes sociais. Portanto, tiram-lhes muito, de se enganarem, sobretudo, o que é importante para eles, não darem uma entrevista e enganarem-se. Como vimos recentemente, por exemplo, com o Mbappé, que se meteu numa confusão. Porque eles não costumam dar entrevistas. Tínhamos de ir à conferência de imprensa todos os jogos e tínhamos de saber mais ou menos o que tínhamos de dizer, porque podemos cometer erros e não era fácil. Tudo mudou um pouco e por isso têm de adaptar-se aos novos tempos, aos novos jogadores.
- Foi treinado para saber o que dizer nas conferências de imprensa e para não cometer erros?
- O assessor de imprensa também nos ajuda um pouco, sabe para onde vamos. Por isso, antes, encontrávamo-nos com ele e ele dizia: 'Acho que nos vão perguntar isto, vão perguntar aquilo'. Isso ajuda-nos muito a saber o que podemos responder. É por isso que estou a dizer que eles não têm isso agora. Agora fazem o filtro nas redes sociais. Por isso é que muitas vezes quando querem falar rapidamente é como se fosse uma entrevista. Cometem muitos erros. É por isso que é preciso pensar, meditar e saber o que se tem a dizer. E acho que a maioria dos futebolistas sabe como fazer isso.
- Você mencionou a situação de Mbappé com Arbeloa e os quatro da frente... Pela sua experiência, como é que um treinador deve gerir esta situação?
- Não é a forma como geriste a situação ou como vais gerir a situação, desculpa. É a forma como geriu a equipa antes. O que fez com que isto acontecesse? Não foi bem gerido antes. De um treinador, Xabi Alonso, que era mais exigente, logo à partida, houve zero exigências de comportamento e de gestão grupo. Em teoria, valia tudo. Mas o Arbeloa, obviamente, do meu ponto de vista, tem muita culpa, mas também quem o colocou lá. Ele estava numa equipa de reserva, esteve cinco meses no cargo e não estava a correr bem. Não podemos saber se ele é bom, mau ou mediano como treinador, ainda por cima a treinar uma equipa como o Real Madrid. Por isso, não acho que tenha sido só o Arbeloa a gerir mal, acho apenas que ele nunca enfrentou estas coisas e obviamente cometeu erros. E muitos. Mas também aqueles que o puseram lá.
- É mais difícil gerir o Real Madrid agora do que antes, por exemplo, no seu tempo?
- Não, não, o mesmo. Os egos, o comportamento, a forma de estar dos jogadores, é absolutamente igual. A história diz-nos sempre, não só no futebol, como vamos agir e o que vai acontecer no futuro. E, no passado, o balneário do Real Madrid era tão difícil como é agora. Depende do treinador. Se ele é bom a fazer as coisas, é mais fácil do que parece, mas é preciso saber como o fazer. Não é fácil.
- Talvez não queira envolver-se, mas o seu candidato, o seu favorito número um para treinar o Real Madrid, quem seria?
- Para mim, sem dúvida, mas acho que ele não vai querer ser treinador, é o Jürgen Klopp. Taticamente gosto muito dele, porque dá muita intensidade às suas equipas, sabe gerir muito bem este tipo de coisas, já o demonstrou em muitas equipas boas e menos boas. Para mim, Jürgen Klopp seria o treinador ideal.
- Jogou com grandes treinadores: Vicente del Bosque, Carlos Queiroz, Fabio Capello... Qual deles lhe deu mais prazer?
- Todos.
- É difícil, não é?
- Não, é muito fácil. De muitos treinadores de que não gostava muito, apanhei muitas coisas más que não faria. De muitos treinadores muito bons, apanhei o tipo de coisas que faria. E depois tentas com a tua personalidade, com o teu caráter, com a tua maneira de ser, combinar tudo isso para, se quiseres ser treinador ou, dependendo das situações que te aconteceram no futebol, mesmo muitas vezes na vida, isso ajuda-te.

- Fala-se muito do possível regresso de José Mourinho ao Real Madrid. É o tipo de treinador de que o clube precisa neste momento?
- Este tipo de coisas sempre aconteceu: um treinador não ter tido mão de ferro, porque não acho que seja preciso ter, isso não vem ao caso. O que se passa é que isto sempre aconteceu: quando a equipa vai mal em fevereiro, fisicamente a equipa está muito mal e tal, porque perde jogos, não é? São clichés que devíamos eliminar. Porque, se ganhas, o preparador físico nem existe. Mas se perdes, então é culpa da preparação física. O treinador, se agora não teve mão dura, pelo que te disse antes, talvez por se ter deixado levar por ser demasiado bom, agora é de um com mão dura. Não, é preciso um bom treinador que saiba gerir a grande equipa que temos e que saiba fazer bem as coisas, nem mais nem menos. Não é que agora ninguém se possa mexer e tudo seja militar. Não, porque no final o jogador também se pode cansar.
E José Mourinho tem sido um treinador fantástico. Já o demonstrou em muitos lugares, mas é verdade que há muitos anos que não treina ao mais alto nível. Por isso, isso preocupa-me um pouco. E ainda por cima querem que ele tenha mão dura. Ora, não creio que, só porque o Mourinho venha, tenha de ser de mão dura com tudo o que se passa no Real Madrid. É preciso gerir bem o grupo e pronto. Se ele é capaz de o fazer? Sim, porque já treinou em muitos lugares, mas também é verdade que há muito tempo que não treina ao mais alto nível. Nesse aspeto, não sei se será adequado agora.
- E o que é que tem de mudar primeiro, a tática, o estilo de jogo, o balneário?
- Não se pode mudar o Real Madrid. O treinador não pode mudar o Real Madrid. É preciso saber o que é o Real Madrid. O Real Madrid é uma equipa e um clube sério que sabe sempre que competir é o mais importante e ganhar é o mais importante, mas tem certos valores e princípios. Não se pode agora entrar com mão de ferro e vale tudo.
O Real Madrid sempre foi uma equipa de classe e temos de tentar voltar àqueles primórdios, que se perderam bastante com tudo o que está a acontecer, dois anos sem ganhar... Estamos a enlouquecer porque o Barcelona ganhou. Não, não passa nada. O Real Madrid ressurge sempre e passou mais de trinta anos sem ganhar a Liga dos Campeões.
Jogando bem, a equipa do Butragueño não ganhou a Liga dos Campeões. Mas estávamos orgulhosos dessa equipa. Lutaram, trabalharam muito, mas havia um grande Milan, havia um grande PSV, mas nós estávamos orgulhosos dessas meias-finais que o Real Madrid fez. O Real Madrid também é assim, mesmo que não ganhe. Isso está a perder-se neste momento. Por isso, do meu ponto de vista, é preciso ter certos princípios e certos valores que o Real Madrid sempre teve, mesmo sem ganhar.
- Vamos falar um pouco sobre a seleção. A geração de Espanha do Mundial-2010 foi maravilhosa, vê semelhanças com a atual?
- Espanha tem um problema: é favorita demais. Em termos de linhas, é de longe a melhor equipa do mundo. Em termos de jogo, praticamente a mesma coisa. Para além disso, todos os jogadores se dão muito bem, porque o treinador sabe fazê-lo muito bem. Tudo aponta para que este seja um Mundial em que a Espanha pode fazer algo de importante. E esse é, na minha opinião, o problema. A pressão, o facto de nos deixarmos levar porque talvez pareça que não fomos sorteados num grupo difícil. No fim de contas, um Campeonato do Mundo é muito difícil. Basta um jogo mau e estamos fora. Por isso, é preciso ser muito bom, mas a Espanha tem uma equipa muito boa. Neste momento, em termos de linhas, é talvez a melhor equipa do mundo.
- Se excluirmos Lamine Yamal, que já é uma estrela mundial, qual é o espanhol que mais o entusiasma?
- São tantos. Para mim, é uma pena que o Nico Williams se tenha lesionado. Para mim, é outro jogador muito importante, porque já não há jogadores que saltem sobre as linhas ou que escapem aos laterais com tanta facilidade. Isso dá-nos muito. Jogadores como Vinicius, como Williams, como Lamine Yamal, são muito poucos hoje em dia, porque a tática melhorou muito. Há muita ajuda para os laterais, mas mesmo assim esses jogadores têm uma habilidade muito grande e eu gosto muito desse tipo de jogador.
- Vê Pedri como o sucessor de Xavi e Andrés Iniesta, o maestro da orquestra nesta Espanha?
- Não é que eu o veja, é que ele já o é. Talvez no início tenha sido demasiado elogiado. Era muito jovem e tinha muito bom controlo de bola, mas, não era o Iniesta nem o Xavi. Foi daí que vieram muitas das lesões do Pedri. Porque, para além de jogar muitos jogos, estava sob demasiada pressão. Aos 20 anos, ele queria ser Iniesta e Xavi. Agora está numa linha mais calma. Lamine e outros jogadores jovens acalmaram-no muito.
Agora gosto muito do Pedri. Agora ele é mesmo aquele Iniesta ou Xavi. Mas acho que muitos jogadores que vieram das camadas jovens lhe tiraram muita pressão e isso é muito bom para o Pedri, porque antes tudo tinha de ser feito por ele e estava sob demasiada pressão.
- Como vê a concorrência na baliza da seleção e quem considera ser o número um?
- Bem, qualquer um pode ser o número um. São todos muito bons. Acho que o Joan (Garcia) fez uma época impressionante. O Raya também, mas o Arsenal caiu um pouco mais nos últimos jogos e o Barcelona não. O Joan, pela época que está a fazer, porque quem deve jogar é quem está a fazer uma boa época. Mas bem, todos os guarda-redes que estão são fantásticos.
- Que jogador poderia ser a surpresa neste Mundial na seleção espanhola?
- É muito difícil. Acho que pode ser o ano do Lamine (Yamal). É um jogador tão jovem e está a fazer coisas tão importantes. Porque, para além disso, teve aquele problema da Liga dos Campeões. Imaginem poder ganhar um Mundial numa idade tão jovem. Isso coloca-o num lugar muito privilegiado entre os melhores jogadores da história. E um pouco de pressão também, porque se pede sempre mais a um miúdo tão novo. Pode ser muito bom para ele. Acho que ninguém ficaria surpreso se Lamine pudesse ser um dos melhores ou o melhor jogador do Mundial.
- Como ex-defesa e ex-médio da seleção, participou em grandes torneios. O que mais o impressiona nesta seleção?
- Em geral, a sinergia que se vive. Eles sabem o que têm de fazer, o que numa seleção não é assim tão fácil, porque treinam pouco. O bom ambiente que existe entre todos e, depois, o jogo em si, não importa em que momento se esteja, seja no ataque, na defesa ou na construção. Praticamente, é a todo o momento. É por isso que lhe digo que talvez seja o único problema que tem, pois, para mim, a Espanha é muito favorita para ganhar o Mundial.
- Até onde pode ir a Espanha neste Mundial?
- Sem dúvida alguma, é uma das favoritas. Depois, pode acontecer qualquer coisa num Mundial. Os confrontos são muito importantes. O Brasil também joga muito bem, mas Espanha em termos de controlo e nível de jogo, é bastante melhor. A França e a Alemanha nunca podem ser descartadas. Há muitas equipas. Sempre gostei da Inglaterra, mas no final nunca chega lá. Não é fácil, um Mundial não é fácil. Num jogo, tudo pode ir por água abaixo ou pode-se ser campeão do mundo. Mas a Espanha é uma das melhores, com grande diferença.
