Ligue 1: Saint-Étienne e Nice, dois clubes à beira do abismo discutem um lugar na elite

Saint-Étienne e Nice, dois clubes à beira do abismo
Saint-Étienne e Nice, dois clubes à beira do abismoREUTERS

Entre o desgaste acumulado dos jogadores de Saint-Étienne e o ambiente tóxico que envolve o Nice, a primeira mão do play-off de acesso à Ligue 1 arranca sob enorme tensão esta terça-feira. Sem adeptos e mergulhado numa confusão administrativa em torno dos seus internacionais, o Nice joga a sobrevivência no Geoffroy-Guichard frente a uns verdes dispostos a tudo para regressar ao escalão principal.

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Há jogos que parecem escritos pelo destino. Esta terça-feira, às 19:45, o Saint-Étienne recebe o Nice no Estádio Geoffroy-Guichard para a primeira mão do play-off Ligue 1-Ligue 2. Em teoria, um duelo entre dois grandes nomes do futebol francês. Na prática, o encontro de dois clubes que falharam a época e que lutam, um pelo regresso ao topo, o outro pela sobrevivência.

Os verts, entre desilusões e desgaste acumulado

O Saint-Étienne tinha argumentos para ambicionar mais. Com um orçamento de 35 milhões de euros, o clube esperava subir diretamente sem passar pelo play-off. Não conseguiu. Os verts terminaram em terceiro lugar na Ligue 2, atrás do Troyes e do Le Mans, e ainda tiveram de sofrer para eliminar o Rodez no play-off de divisão, decidido nos penáltis por 7-6 após um 0-0 desgastante. Uma qualificação enganadora para uma equipa que parece ter deixado muita energia pelo caminho.

A história dos play-offs está ligada ao ASSE: em 2022, caiu frente ao Auxerre e desceu de divisão; em 2024, venceu o Metz e subiu. Desta vez, queria evitar este caminho… mas volta a estar nesta situação.

No banco, Philippe Montanier substituiu o norueguês Eirik Horneland a meio da época. Sem se deixar intimidar pela reputação do adversário, foi direto: "O Nice não estava destinado a estar aqui, mas não quero saber porque é que estão no play-off".

Nice, uma época de pesadelo

Para o Nice, este cenário estava longe de ser o esperado. Nove meses antes, o clube da Côte d’Azur disputou uma pré-eliminatória para tentar chegar à Liga dos Campeões frente ao Benfica (derrotas por 0-2 e 2-0). Desde então, entre uma campanha desastrosa na Liga Europa, na qual defrontou e perdeu com FC Porto (3-0) e SC Braga (0-1), problemas com adeptos e mudança de treinador, a época ficou marcada por dificuldades.

Franck Haise deixou o clube no final de 2025 após um grave incidente em dezembro, quando adeptos agrediram jogadores e equipa técnica no regresso de uma derrota em Lorient. O seu sucessor, Claude Puel, que já conhecia bem a casa por ter treinado o clube entre 2012 e 2016, não conseguiu inverter o rumo. O clube terminou em 16.º lugar e agora tem de lutar para se manter no principal escalão.

Não tem sido uma boa temporada para o Nice
Não tem sido uma boa temporada para o NiceFlashscore

Recorde aqui - Terem Moffi, Jérémie Boga e Florian Maurice agredidos por adeptos do Nice

Para piorar, o fim de semana antes do play-off foi especialmente duro: derrota na final da Taça de França frente ao Lens (3-1), seguida de incidentes na Allianz Riviera após o empate com o Metz (0-0) na última jornada do campeonato. A comissão disciplinar da LFP puniu o Nice com dois jogos à porta fechada, incluindo a segunda mão do play-off a 29 de maio. Os adeptos do Nice também estão proibidos de viajar para o jogo da primeira mão.

Claude Puel não escondeu a sua frustração perante estas decisões. "Acho que a sanção é muito pesada, demasiado pesada. Sabemos a importância dos adeptos nestes confrontos. Vamos jogar em Saint-Étienne com lotação esgotada. E em nossa casa seria à porta fechada. Acho esta decisão desproporcionada", afirmou em conferência de imprensa.

A guerra dos internacionais

Aos problemas desportivos e disciplinares junta-se uma batalha administrativa em torno dos internacionais, cuja disponibilidade é reclamada pelos clubes, já que os jogos coincidem com a janela FIFA, a poucas semanas do início do Mundial-2026.

Do lado do Saint-Étienne, o neozelandês Ben Old continua em dúvida, e Montanier revelou que o clube "ainda está a negociar" para saber se poderá contar com os ganeses Augustine Boakye e Ebenezer Annan.

No Nice, vários jogadores foram chamados pelas respetivas seleções. O Senegal acabou por libertar Antoine Mendy e Yehvann Diouf, e o mesmo aconteceu com Elye Wahi pela Costa do Marfim. No entanto, o avançado do Nice estará ausente em Geoffroy-Guichard: está suspenso após o quinto cartão amarelo visto frente ao Metz e só poderá jogar na segunda mão. As situações do argelino Hicham Boudaoui e do tunisino Ali Abdi continuavam em aberto na véspera do jogo.

Perante esta sucessão de obstáculos, o clube da Côte d’Azur enviou uma carta à LFP, considerando que "a coincidência entre os play-offs e a janela internacional FIFA era perfeitamente previsível e identificável há muito tempo" e que "esta situação representa uma clara violação do princípio fundamental da equidade desportiva". O Nice reserva-se o direito de avançar para a via judicial caso alguns dos seus internacionais faltem aos dois jogos.

Na adversidade, mas combativo

Apesar de tudo, Claude Puel recusa baixar os braços. "Vamos disputar este play-off na adversidade", reconheceu, garantindo que o grupo estará preparado mentalmente quando pisar o relvado do Geoffroy-Guichard. Para ele, a final da Taça de França, mesmo perdida, pode servir de preparação: "Uma final é importante. Pode ser a melhor forma, com um bom resultado, de preparar os dois desafios seguintes."

Ironia do destino para um treinador que orientou o Saint-Étienne entre 2019 e 2021: é precisamente no Geoffroy-Guichard que terá de encontrar forças para manter o Nice na Ligue 1.

Historicamente, os dois clubes conhecem-se bem: defrontaram-se 129 vezes em todas as competições, com ligeira vantagem para o Nice (13 vitórias contra 12 do Saint-Étienne nos confrontos recentes registados). Mas as estatísticas do passado pouco contam quando o objetivo é tão imediato.

O histórico de confrontos entre Saint-Étienne e Nice
O histórico de confrontos entre Saint-Étienne e NiceFlashscore

Dois jogos, dois clubes à beira do abismo e apenas uma vaga na Ligue 1 em disputa.