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Aos oito anos a treinar com seniores: "Fase muito marcante e engraçada da minha vida"
- Quais são as primeiras memórias que a ligam ao futebol?
Não sei ao certo quando comecei a jogar, sem ser já num clube. Lembro-me de, no infantário, jogar sobretudo com os rapazes, num contexto em que tive de provar que sabia jogar para me deixarem participar.
Também na minha aldeia, só havia campo na escola primária e eu estava muito ansiosa por começar por causa disso. Mas, na véspera, parti o braço e achei que já não ia poder jogar. Ainda assim, no primeiro ano, fui jogando com algumas limitações. Foi aí que a professora Rosa teve um papel importante. Viu-me a jogar no recreio e disse ao meu pai que eu tinha algo especial e que, desde que continuasse a estudar, devia ir para o futebol. E foi um pouco por aí que tudo começou.

- E quando é que entra para um clube?
Na altura, não havia muitos clubes femininos e o meu pai não quis que jogasse com rapazes. Acabei por ir para o Freamunde, com oito ou nove anos. Como não existiam escalões intermédios, fiquei até aos 12 ou 13 apenas a treinar com as seniores.
Era uma criança no meio de mulheres já adultas, muitas a trabalhar e algumas casadas. Não havia sequer roupa do meu tamanho e elas ajudavam-me em tudo, até me davam banho. Durante quatro anos, até poder competir, limitei-me a treinar.
- Como é que recorda esses tempos?
Foram tempos muito bons. Cheguei a pensar como teria sido jogar com rapazes, porque essa hipótese existiu, mas acabei por criar uma ligação muito forte com aquelas mulheres. Na escola jogava sempre com rapazes, por isso aquele ambiente era diferente e especial.
No início tinham muito cuidado comigo, evitavam entrar mais duro. Mas tudo mudou quando fiz um cabrito a uma delas e levei uma pancada. Algumas ficaram chateadas, mas outras disseram logo que, se queria jogar ali, tinha de ser tratada como as outras. Hoje olho para isso com graça. Foi uma fase muito marcante e engraçada da minha vida.
- Em que momento percebe que queria mesmo seguir carreira no futebol?
Quando comecei no Freamunde, não tinha grande noção do que existia no futebol. Sabia que havia a Seleção A, mas não fazia ideia de que existiam sub-17, sub-19 ou sequer a seleção distrital. Só mais tarde, ao ser chamada à seleção distrital é que comecei a perceber melhor o contexto. Vinha de um clube pequeno e, de repente, estava com jogadoras de equipas como o Boavista, o que para mim era quase surreal.
Acabei por ir a um torneio interassociações e, um dia, no Freamunde, disseram-me que tinha sido chamada à Seleção. Pensei que fosse novamente à distrital, mas foi aí que percebi que era a Seleção Nacional. Ainda assim, nos primeiros momentos, via tudo como uma oportunidade.
Depois, foi com o interesse do SC Braga que senti, pela primeira vez, que isto podia mesmo ser a sério. Ao conviver com jogadoras de outros contextos, comecei também a perceber que podia ambicionar mais e que, talvez, pudesse viver do futebol.

- O feminino era muito diferente do que é hoje.
Não tínhamos muitas condições, é verdade, mas também havia uma forma diferente de olhar para as coisas. Hoje ainda há problemas, mas sinto que algumas condições já são vistas como garantidas. Lembro-me de jogar em campos com balneários muito precários, às vezes sem porta ou quase sem condições, e não reclamávamos tanto. Talvez porque o futebol, naquela altura, fosse mais puro, mais de rua.
- De que forma é que foi construindo a sua maneira de jogar?
É difícil explicar como desenvolvi a minha parte técnica, porque sempre foi algo muito natural. Nunca senti que tivesse treinado especificamente para isso, simplesmente era algo que fazia parte de mim. Não lhe sei dizer: “Treinei isto assim e assim.” Acho que essa parte técnica nasceu comigo.
No Freamunde, tive um treinador que soube equilibrar bem as coisas. Valorizava a minha técnica, mas também me fez perceber que o futebol não é só isso. Cheguei a ficar sem jogar por falta de compromisso, e isso ajudou-me a crescer, sem nunca me tirar a liberdade dentro de campo.
A técnica sempre foi uma das minhas principais características e não acho que um jogador ou uma jogadora tenha de abdicar disso no futebol atual. Hoje em dia, sinto que o futebol está mais mecânico e que, por vezes, se perde um pouco da criatividade e da beleza do jogo.
- Fala-se muito na questão da formação, mas às vezes parece mais formatação. Ou seja, são quase todos formatados para serem todos iguais.
Sim, sinto isso. Hoje em dia, muitas vezes ganha quem está mais bem organizado, num futebol mais mecânico e com pouco risco. Claro que a organização tática é importante, mas não deve anular a individualidade. Se um jogador tem qualidade técnica diferenciadora, isso deve ser preservado. Não faz sentido moldá-lo completamente ao coletivo só porque a equipa não tem essas características. É importante haver espaço para manter essa identidade.

As passagens por SC Braga e Sporting: "Sentia que tinha de provar que merecia estar ali"
- Olhando para trás, e antes de irmos ao presente no Valadares Gaia, o que é que as passagens pelo SC Braga e depois pelo Sporting lhe deram enquanto jogadora, mas também enquanto pessoa?
SC Braga e Sporting deram-me coisas muito diferentes. No SC Braga, apesar de estar mais perto de casa, foi mais difícil, porque fui para lá com 15 anos e tive de aprender a viver sozinha de um dia para o outro. Foi também aí que comecei a ganhar dinheiro com o futebol e a lidar com essa realidade. No plano desportivo, foi marcante: joguei na Primeira Divisão, ganhei títulos e partilhei balneário com jogadoras da Seleção A, que eram referências para mim. No início, até ficava nervosa só por treinar com elas. Sinto que foi no SC Braga que cresci mais, dentro e fora de campo, e onde, de certa forma, me tornei adulta.
- E no Sporting?
No Sporting, senti o peso de chegar a uma equipa que, na altura, era a mais titulada em Portugal. Ainda não estava totalmente afirmada no SC Braga e isso, juntamente com os comentários exteriores, obrigou-me a trabalhar muito a forma como lidava com os comentários das pessoas.
Apesar disso, adaptei-me bem em Lisboa e tive colegas que me ajudaram bastante. Foi também uma fase importante a nível pessoal, porque já não podia refugiar-me em casa sempre que as coisas corriam mal, o que me fez crescer e aprender a lidar com as coisas sozinha.
- De que maneira é que aquilo que gira à sua volta a influencia?
É algo que tenho vindo a trabalhar, porque houve momentos em que questionei o meu próprio valor por causa do que as pessoas diziam. Claro que toda a gente tem direito a opinar, mas muitas vezes esquecem-se do impacto psicológico. No futebol, estamos muito mais expostos do que noutras profissões. Um erro pode gerar dezenas de críticas nas redes sociais, e isso pesa. No Sporting, esse foi talvez o maior desafio: sentir constantemente que tinha de provar que merecia estar ali.

- Uma jogadora que passou pelo SC Braga, pelo Sporting e soma cerca de 70 internacionalizações jovens pode mesmo achar que tudo isso foi apenas sorte?
Agora não, claro que não. Mas na altura questionava um bocadinho.
- Depois de duas passagens marcantes em Portugal, segue para o estrangeiro, primeiro para a Suécia e depois para a Turquia. Como é que viveu essas experiências?
Foram duas experiências muito diferentes, porque a Suécia e a Turquia não têm nada a ver. No geral, gostei de ambas, mas se tivesse de escolher, seria a Suécia.
Senti que me acrescentou mais como pessoa. Sou alguém que gosta de tranquilidade, talvez por ter crescido numa aldeia, e na Suécia encontrei exatamente isso: um ambiente calmo, seguro, onde me sentia bem em qualquer momento.

"O ambiente no Valadares é muito bom, trouxe-me conforto"
- Que Ana Teles é que volta a Portugal?
Voltei com vontade de estar mais perto da família e de recuperar algum equilíbrio. Na Suécia joguei com regularidade, na Turquia nem tanto, e senti que precisava de respirar um bocadinho e do conforto de casa.
Regressei também com a sensação de querer provar algo, embora saiba que não precisava. Nem todas as jogadoras dão o passo de sair de Portugal, e isso, para mim, é motivo de orgulho. Nunca senti que tivesse sido um fracasso. Foram experiências que me fizeram crescer muito, mesmo que isso não se reflita em números.
Voltei para recuperar a felicidade de jogar, ter mais minutos e estar perto dos meus. Encontrei também uma Liga mais evoluída e equilibrada, o que reforçou ainda mais a minha motivação para continuar a crescer e fazer mais. Antes havia uma diferença muito grande entre Sporting, Benfica e SC Braga e o resto. Agora isso já não acontece da mesma forma. Por isso, voltei feliz, com a sensação de que ainda há muita coisa boa para fazer.

- O balanço destes seis meses em Gaia é positivo?
Tive de me adaptar a uma realidade diferente, porque em Portugal estava habituada a jogar em equipas que dominavam e tinham mais bola. Aqui percebi que nem sempre é assim e que as oportunidades são menos, o que obriga a ser mais eficaz. No início custou um pouco, mas sinto-me feliz com a equipa e acredito que, quando tenho oportunidade, tenho mostrado que quero mais. Agora é continuar a trabalhar e acreditar no que falta da época.
- Nestes dois últimos jogos, frente a Sporting e Benfica, teve um papel decisivo com três assistências. O que é que essas exibições lhe deram a si?
No jogo com o Sporting, quando vi a bola entrar na sequência do livre, senti logo que era o momento para ir para cima do jogo. Sabíamos que muitos nos davam como inferiores, mas isso também tirava pressão. Havia também um lado emocional, por já ter passado pelo clube e querer mostrar algo. Nos penáltis, marquei e senti que precisava mesmo daquele momento. No dia seguinte fui a casa e partilhei o momento com a minha família.
Depois, contra o Benfica, foi apenas o meu quarto jogo a titular esta época. E pensei logo: “Se é dia para mostrar, é aqui.” São campos em que uma pessoa quer mostrar-se. A relva é boa, está tudo impecável, tudo em condições. Sinto que esse jogo me deu coisas de que eu precisava. Mesmo jogando mais recuada e com menos momentos técnicos, aquela assistência para o golo fez-me sentir que não somos inferiores a ninguém. Saí com um sentimento agridoce pelo resultado, mas foi um jogo que me deu muita confiança.
- O que podemos esperar do Valadares até ao final da época?
Coletivamente, o campeonato continua em aberto e a exigência é sempre a mesma: ir buscar pontos em todos os jogos, seja contra quem for. A nível individual, tenho tentado focar-me mais no presente. Sempre tive tendência para projetar demasiado o futuro, mas percebi que isso pode desviar-me do essencial. Por isso, agora penso jogo a jogo, semana a semana, concentrada no próximo desafio.
- O Valadares tem feito boas campanhas nos últimos anos. Que clube encontrou e como descreveria o ambiente dentro da equipa?
O ambiente no clube é muito bom. Sinto que é um clube muito de pessoas, onde muitos trabalham por gosto e estão sempre disponíveis para ajudar. É um clube mais próximo, mais de terra, e isso trouxe-me muito conforto. Encontrei aqui pessoas muito humanas, algo que valorizo bastante. No SC Braga e no Sporting também senti isso, mas aqui a atenção é mais próxima e centrada, e isso faz a diferença.

"Seleção é um capítulo muito bonito da minha vida e não está fechado"
- A nível de crescimento pessoal, como é que se sente? Onde é que acha que ainda tem margem para crescer?
Sinto que hoje valorizo coisas diferentes. Em termos táticos, cobro-me mais e penso melhor o jogo. Antes queria ir sempre para a frente, agora sei quando pausar e decidir melhor. Também aprendi a lidar com fatores que antes me tiravam do jogo, como decisões de arbitragem ou provocações. Hoje consigo manter o foco. Percebi que não basta ter qualidade. É preciso crescer, lidar com frustrações, assumir responsabilidades e aceitar ser exigida para não ficar para trás.
- Apesar de privilegiar o dia a dia, que objetivos ou sonhos continuam a movê-la nesta fase da carreira?
Neste momento, o foco é acabar bem a época no Valadares. Depois, seja para continuar ou abraçar um novo desafio, logo se verá. Sinto que ainda posso ficar mais algum tempo em Portugal, mas também gostava de voltar a arriscar fora, agora com outra maturidade e visão. Não quero ficar na zona de conforto.
A Seleção é, claro, um objetivo, mas encaro isso com tranquilidade. Se estiver bem no clube e feliz a jogar, acredito que pode acontecer naturalmente. Não coloco demasiada pressão em mim por causa disso, porque há coisas que não controlamos.
- Podemos ir ao tema Seleção: 70 jogos pelas seleções jovens. Como é que foi esse capítulo da sua vida?
Foi um capítulo muito bonito da minha vida. Lembro-me de ir à Seleção sub-16 com muitas dúvidas, sem saber se voltaria a ser chamada, mas, com o tempo, fui ganhando confiança e sentindo que era uma aposta. Também foi especial por permitir à minha família acompanhar-me nesse contexto.
Ao mesmo tempo, a transição para o nível sénior é difícil. Há apenas uma Seleção A e não se podem levar 60 ou 70 jogadoras. Isso obriga-nos a lidar com o facto de, às vezes, não sermos chamadas, sem que isso signifique falta de qualidade. É uma fase exigente, porque estamos a falar de um sonho. Ver outras a serem chamadas faz-nos questionar quando chegará a nossa vez. É algo que custa, mas não é um capítulo fechado.
- Depois da experiência no estrangeiro e do regresso a Portugal, como vê a evolução do futebol feminino no país nos próximos anos?
Não tenho uma resposta fechada, mas há aspetos que ainda precisam de melhorar. Não passa só pelos relvados, porque nem todos os clubes têm capacidade para isso. A evolução também está nos detalhes, como horários, acessibilidades e condições para quem quer assistir aos jogos.
Das ligas que conheci, sobretudo a sueca, sinto que Portugal não está assim tão longe. A diferença está muito nas infraestruturas, com jogos em estádios partilhados com o masculino e melhores condições no geral.

"Mensagem para as mais novas é que trabalhem, mas que também valorizem o que têm"
- Se pudesse falar com a Ana de oito anos, em Sousela, que dava os primeiros passos no Freamunde, o que é que lhe diria hoje?
Dir-lhe-ia para desfrutar mais do futebol e para não se cobrar tanto...
- Se o futebol fosse uma pessoa e a encontrasse na rua, o que é que lhe diria?
Nunca tinha pensado nisso, mas acho que lhe diria “obrigada”. O futebol é um lugar onde muitas vezes nos refugiamos. Já fiz outras coisas, como hip-hop, mas nunca encontrei noutro sítio aquilo que encontro no futebol. Por isso, seria mesmo um agradecimento.

- Daqui a uns anos, quando decidir terminar a carreira, como gostaria de ser recordada?
Gostava que se lembrassem de mim como alguém que desfrutava dentro de campo e que jogava com alegria, com um futebol bonito. Claro que também ambiciono conquistar algo pela Seleção, mas, acima de tudo, quero ser recordada pela forma como vivia o jogo.
- Por fim, que mensagem gostaria de deixar às jovens jogadoras que olham para a Ana Teles como um exemplo?
A mensagem para as mais novas é que trabalhem, mas que também valorizem o que têm. Muitas das condições de hoje existem porque outras lutaram antes por elas. Que aproveitem as oportunidades, que desfrutem, porque a carreira no futebol é curta. E o mais importante é mesmo viver esse percurso ao máximo.
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