Bruna Ramos: "Nunca pensei atingir estes patamares no Torreense"

Bruna Ramos em destaque no Torreense
Bruna Ramos em destaque no TorreenseArquivo Pessoal, Flashscore

O Flash Feminino é a rubrica do Flashscore dedicada a destacar as principais protagonistas das Ligas Femininas em Portugal. Neste espaço, damos voz às jogadoras que brilham nos relvados nacionais. A nossa 39.ª convidada é Bruna Ramos, defesa do Torreense.

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Do início no Sacavenense ao Sporting: "Difícil, mas inevitável"

– Qual é a sua primeira memória em relação ao futebol?

Comecei muito cedo. Ainda nem se podia chamar bem formação. Tinha seis anos e fui para o Sacavenense, a jogar com rapazes. Foi por causa do meu irmão (Márcio, quatro anos mais velho), que treinava lá. Eu ficava ao lado a dar uns toques na bola e o treinador reparou em mim. Falou com os meus pais e perguntou se eu queria treinar com a equipa. Na altura, o futebol feminino praticamente não existia como hoje. Confesso que, ao início, o meu pai estranhou um pouco, mas lá disse que sim. Fui treinar e adorei. Quando cheguei a casa disse logo: “Pai, eu quero jogar futebol.” Fiquei mesmo feliz e ele percebeu isso imediatamente.

– Como foi essa experiência de jogar com rapazes? Como lidavam consigo e como lidava com eles?

Houve aquele impacto inicial - era a menina -, mas fui muito bem recebida, tanto pelos colegas como pelos treinadores. Ao longo de todo o tempo que lá estive senti sempre muito apoio e sempre gostaram muito de mim, inclusive dos pais. Ainda hoje me acompanham e isso é muito especial.

Bruna Ramos começou a jogar no Sacavenense
Bruna Ramos começou a jogar no SacavenenseArquivo Pessoal

– Por volta dos 14/15 anos surge o Sporting. Como foi esse processo de saída?

Foi um bocado difícil, mas acabou por ser inevitável. A equipa onde eu estava passou para um patamar em que eu já não podia jogar. Isso acabou por facilitar a decisão, porque, se dependesse de mim, teria ficado a jogar com eles e não saía dali. Foram dos melhores anos da minha vida em termos de formação.

– E a chegada ao Sporting?

É aí que os sonhos se tornam mais reais. Começamos a ver jogadoras como a Ana Borges ou a Diana Silva e pensamos: 'Eu quero e sonho estar ali'. É a idade em que tudo parece possível. Foi uma mudança positiva. Já conhecia algumas colegas da seleção distrital, integrei-me facilmente e senti-me bem desde o início.

– Olhando com alguma distância para essa passagem, o que lhe deu essa passagem de quatro anos pelo Sporting?

Crescimento, aprendizagens e amizades. Foi o momento certo para dar o salto para outro patamar e conhecer novas realidades. Ajudou-me a evoluir muito.

– Em que momento percebeu que era possível atingir o patamar de Liga?

Comecei a sentir isso quando percebi que podia dar mais. Treinava bem, mas queria mais. Via colegas a chegarem a outros patamares e eu queria o mesmo. Como não estava a ter oportunidades no Sporting, percebi que tinha de procurar outro caminho. Às vezes é preciso dar um passo atrás para depois avançar e foi o que fiz.

Bruna Ramos com a Taça da Liga em Viseu
Bruna Ramos com a Taça da Liga em ViseuArquivo Pessoal

O boom do Torreense: "Nenhuma de nós tinha noção que isto ia acontecer"

– E surge o Torreense. Como explica o crescimento do clube até às três conquistas em 10 meses?

Acima de tudo, paciência, união e saber trabalhar no silêncio. Quando cheguei, o objetivo era crescer, ter minutos e mostrar-me para um dia estar noutros patamares. Nunca pensei que os patamares que queria atingir fossem no Torreense. O processo foi construído passo a passo. Criou-se um grupo muito unido, com uma identidade forte. Somos uma verdadeira equipa, quase uma família. Temos um carinho muito especial umas pelas outras, e esse espírito faz toda a diferença.

– Já têm noção do que conquistaram?

Temos e trabalhamos muito para isso, mas ao mesmo tempo parece surreal. Nenhuma de nós tinha noção que isto ia acontecer. Foi tudo muito rápido. Ainda assim, temos os pés bem assentes na terra. Sabemos que ganhámos com mérito, mas também que ainda há muito por conquistar. Temos a responsabilidade de mostrar que tivemos capacidade para ganhar esses troféus e vamos trabalhar para ganhar muitos mais.

– Ainda há espaço para mais fotos com as Taças? Já virou quase um meme

Mal acabou o jogo, já estava a receber mensagens a lembrar-me para não me esquecer da mítica foto (risos). Já é um ritual.

As fotografias icónicas de Bruna com as Taças
As fotografias icónicas de Bruna com as TaçasArquivo Pessoal

– O vosso balneário é muito falado. O que o torna especial?

A diversidade. Somos muito diferentes, e isso enriquece o grupo. Há sempre alguém a puxar pelas outras. Se uma não está a 100%, há outra que compensa. Por exemplo, se chego ao treino mais cansada, tenho logo a Raquel (Ferreira) a dizer: 'bora, energias positivas'. Depois existe respeito, mas também proximidade com a equipa técnica. Somos um grupo muito unido, dentro e fora de campo.

– No lance do golo decisivo no Fontelo (na final da Taça da Liga), o que lhe passou pela cabeça?

Só comecei a correr! Até disse à Ingrid: 'Já estava tão cansada, porque foste a correr para o outro lado' (risos). Senti que o golo ia acontecer. Estávamos a insistir muito. Acreditamos sempre até ao fim. Provámos isso na Taça e na Supertaça, somos muito persistentes. Quando a bola entrou, só quis correr e celebrar com a equipa. Se elas fossem para o balneário eu ia atrás delas (risos). Foi um momento incrível.

Bruna Ramos é internacional sub-23
Bruna Ramos é internacional sub-23Arquivo Pessoal

"O sonho é chegar à seleção A"

– Depois da conquista, como está a mentalidade? Segue-se o jogo contra o Benfica. 

Já festejámos, agora é voltar ao trabalho. Temos agora um jogo muito importante. Ainda há campeonato para disputar. A época não acabou e temos plena consciência disso.

– Como tem visto o campeonato este ano?

Muito mais equilibrado. Com menos equipas, há mais qualidade concentrada. Já não há jogos fáceis. Isso aumenta a competitividade e torna a liga melhor.

– Que significado tem uma final entre Torreense e Valadares?

Mostra que o futebol feminino está a evoluir. Já não são só os grandes a investir. Há mais projetos a crescer, como o projeto do FC Porto, e isso é muito positivo para o campeonato.

Bruna Ramos destaca união da equipa
Bruna Ramos destaca união da equipaOpta by Stats Perform, Arquivo Pessoal

– Gostava de falar de outra camisola que costuma vestir: a da seleção. Que significado tem representar Portugal? Recorda-se da primeira chamada?

Foi inesperada. Ainda jogava com rapazes no Sacavenense, tinha 13 anos, e fui chamada para substituir uma jogadora lesionada nas sub-15. Foi aí que nasceu o sonho da seleção. Desde então, tenho passado pelas várias seleções jovens e representar Portugal é sempre especial.

– A seleção principal é um objetivo claro?

Sim, é um sonho. Mas não penso nisso todos os dias. O foco está no trabalho diário no clube, que me ajuda a ir à seleção. Quando a oportunidade surgir, quero estar preparada.

– Ver colegas do Torreense, como a Rute (Costa), a Bárbara (Lopes), a Carolina (Correia) e a Raquel (Ferreira), a chegar à seleção ajuda?

Muito. São referências para mim, porque vejo o trabalho delas todos os dias. Eu vejo o quanto se esforçam para estar lá. Isso motiva-me e mostra que é possível.

- Então, são elas as suas referências?

Sim! A Carolina Correia, a Bárbara, a Rute e a Raquel que já esteve lá. Enche-me de orgulho poder ajudá-las a chegar lá, assim como elas me vão ajudar um dia a chegar lá.

A posição do Torreense na Liga Feminina
A posição do Torreense na Liga FemininaFlashscore

– Com 21 anos, como olha para o seu percurso?

Superou as expectativas. Nunca imaginei conquistar isto tudo tão cedo. Tem sido incrível. Só posso estar agradecida ao Torreense e às minhas colegas todas. Mas isto é só o início... sonho com muito mais.

– E o futuro?

Tenho pensado cada vez mais. Quero continuar a crescer. O futebol feminino em Portugal está a evoluir, mas lá fora ainda está num nível diferente. Ter experiências fora é um objetivo.

Bruna Ramos disputa a bola com Beatriz Fonseca, do Sporting
Bruna Ramos disputa a bola com Beatriz Fonseca, do SportingArquivo Pessoal

"Não consigo viver sem o futebol"

– Que jogadora e pessoa é a Bruna?

Uma jogadora trabalhadora, ambiciosa e que quer sempre mais. Humilde, amiga, mas exigente comigo própria e com os outros. E uma jogadora que tem muito para evoluir e que gosta de trabalhar sempre mais. Como pessoa, alegre, disponível para ajudar e muito ligada ao grupo.

– Se o futebol fosse uma pessoa e tivesse a oportunidade de falar com ele, o que lhe diria?

Que é a minha vida. Não consigo viver sem ele. O início de época foi atribulado, com algumas lesões, e sempre disse que não conseguia viver sem o futebol. O futebol é muito mais do que o jogo, são as pessoas, as amizades, a família. Diria 'obrigado'.

– Por falar em família, como é que ela tem vivido todo este seu sucesso?

Hoje veem o futebol feminino de outra forma. Acompanham-me muito, estão presentes em tudo. Eles sentem o que eu sinto. São um apoio fundamental e uma motivação extra.

Os próximos jogos do Torreense
Os próximos jogos do TorreenseFlashscore

– Como gostava que o futebol evoluísse nos próximos dez anos?

Com mais investimento e melhores condições. Espero que daqui a dez anos existam mais meninas que possam sonhar e ter oportunidades ainda melhores do que as que eu tive.

– Por fim, no dia em que decidir colocar um ponto final na sua carreira, como é que gostaria de ser lembrada nesse dia?

Acima de tudo, uma pessoa irreverente e especial. Como alguém que nunca desistiu, que manteve sempre o sorriso e deu tudo em todos os momentos. Quero deixar uma marca positiva por onde passar.

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