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"Nunca senti que existisse algum entrave por ser rapariga"
- Como é que o futebol apareceu na sua vida? Sei que tens um irmão gémeo e que começaram a jogar juntos. Conte-me um pouco desse percurso e de como chegou até aqui.
Comecei a jogar na escola, nos intervalos, com os meus amigos. Achava piada vê-los jogar, queria estar com eles e também queria jogar. Depois surgiu a oportunidade de entrar numa equipa aqui da zona onde vivo, no Sobral de Monte Agraço. Fui com o meu pai e com o meu irmão e ele inscreveu-nos aos dois, mas eu tinha mais o bichinho do futebol do que o meu irmão. Acho que ele também foi um pouco porque eu fui. Pensou: "Já que ela vai, eu também vou." Foi assim que tudo começou. Joguei cerca de seis anos numa equipa mista, sempre com rapazes. Era a única menina.
- Olhando agora para trás, que balanço faz desse início? Sentiu dificuldades?
Não, achei zero difícil. Estive sempre muito integrada e tratavam-me praticamente como se fosse um deles. A única diferença era ter de me equipar antes deles ou num balneário à parte. De resto, foram sempre muito respeitadores. Acho que também ajudou o facto de ser colega da maioria deles na escola e de já nos conhecermos. No fundo, estávamos todos ali para nos divertirmos. Nunca senti que existisse algum entrave por ser rapariga. Foi uma experiência muito boa e acho que constituiu uma base muito importante para aquilo que veio depois.

- Houve algum momento particularmente marcante em que percebeu não só que era isto que queria fazer, mas também que tinha capacidade para fazer do futebol a sua profissão?
Até há relativamente pouco tempo, encarei sempre o futebol como um hobby. Mesmo quando assinei o meu primeiro contrato profissional, continuava a estudar em simultâneo, estava na faculdade e pensava: 'Está a tornar-se sério, mas existe também aquele outro caminho.'
Acho que só quando terminei os estudos é que comecei a olhar para o futebol como algo mais do que um plano B para o meu plano A. Apesar de o curso que tirei ser também algo em que me imaginaria a trabalhar, o futebol é aquela paixão. É algo que vem connosco desde pequeninos, está cá dentro. E poder fazer daquilo que nos dá tanto prazer a nossa profissão é meio caminho andado para termos ainda mais empenho e para as coisas poderem correr bem.
- E de que forma é que a formação em Ciências Farmacêuticas a ajudou no percurso enquanto jogadora?
As matérias em si têm pouca aplicação no futebol e no desporto, mas todo aquele percurso foi muito importante para mim enquanto pessoa, sobretudo ao nível da responsabilidade e da capacidade de gerir o tempo. Eu sabia que queria estudar algo que não estivesse relacionado com o desporto. Se alguma coisa não corresse tão bem neste lado, queria ter uma alternativa completamente diferente. Se tivesse escolhido algo também relacionado com o desporto, provavelmente iria sofrer mais se o futebol não corresse como esperava. Por isso, quis sempre que fossem duas áreas muito distintas.
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- Chegou a ter a possibilidade de fazer um estágio nessa área, mas acabou por recusá-lo para apostar no futebol. Como tomou essa decisão?
Quando estava no SC Braga, que foi quando comecei a jogar a nível profissional, já sabia que, quando terminasse os estudos, queria dedicar o primeiro ano após a conclusão do mestrado exclusivamente a uma das duas vertentes. Desde que me lembro de jogar futebol, tive sempre as duas áreas em simultâneo: os estudos e o futebol. Queria perceber o que poderia acontecer se, durante um ano, me dedicasse a 100% apenas a uma delas.
Já estava mentalizada de que seria assim e foi por isso que optei por rejeitar essa proposta de estágio e dedicar-me totalmente ao futebol. A partir daí, a ideia era avaliar ano após ano. Felizmente, as coisas têm corrido bem e tenho-me mantido por aqui.

"O Torreense tem apostado bastante num crescimento global"
- Esta é já a sua quarta época no Torreense. Quando chegou, o que encontrou no clube e como olha hoje para a evolução de um projeto que entretanto conquistou troféus e chegou às competições europeias?
Tem sido uma evolução muito boa. E acho que não acontece apenas no futebol feminino. O clube tem apostado bastante num crescimento global. Isso tem-se refletido nos resultados, primeiro na Liga Revelação, depois nos seniores masculinos e também em nós, na equipa sénior feminina. Mesmo na formação feminina temos conseguido bons resultados.
Nota-se que existe investimento e, acima de tudo, um gosto pelo clube e uma vontade de que as coisas corram bem. Há um esforço de todos e toda a gente procura remar para o mesmo lado. A evolução está mais do que comprovada pelos títulos que temos conseguido conquistar.
Falando especificamente do futebol feminino, é muito bom ver um clube fora dos chamados grandes querer apostar e dinamizar uma modalidade de que hoje tanto se fala e que tem crescido bastante.
- E como tem sido crescer lado a lado com o Torreense e viver momentos que, há alguns anos, talvez parecessem improváveis, como conquistar a Taça de Portugal, a Supertaça e chegar à Europa?
É ótimo. É muito bom ver as coisas evoluírem num bom caminho e poder acompanhar essa evolução por dentro. Obviamente que existem dores de crescimento. Há coisas pelas quais temos de lutar diariamente para conseguirmos sempre um pouco mais, porque o nosso objetivo é sermos melhores a cada dia.
Vamos passando por essas batalhas, mas é muito bom acompanhar de perto esta evolução quando sentimos que o caminho seguido é aquele que consideramos correto. Ainda há sempre algo a acrescentar. Queremos sempre mais para podermos continuar neste processo de crescimento e de conquista.
- Sente que os outros clubes e as próprias pessoas passaram a olhar para o Torreense de forma diferente depois das conquistas dos últimos anos?
Acredito que sim. Depois de ganharmos a Taça de Portugal, ainda poderia existir a ideia de que tinha sido um acaso. Mas, com a estabilidade que conseguimos manter na época passada, em 2025/26, e depois de conquistarmos a Supertaça e, mais tarde, a Taça da Liga, acho que as pessoas começaram a olhar para o nosso trabalho de outra forma.
- Esse crescimento levou-vos também à Europa. Como foi viver essa experiência, sobretudo o jogo com a Juventus, em que perderam, mas conseguiram deixar uma excelente imagem e criar várias oportunidades?
É um motivo de orgulho. Sobretudo porque sabemos aquilo por que passamos e o quanto trabalhamos diariamente para chegar a momentos como este. No fundo, queremos estar nestes palcos, onde existe uma exposição muito maior e onde encontramos jogos de elevada dificuldade.
Quando chegamos a esses jogos e, apesar de termos saído derrotadas contra a Juventus, conseguimos impor algumas das nossas ideias e criar dificuldades a uma equipa com a história e a dimensão da Juventus, é um orgulho enorme. Faz-nos querer continuar a trabalhar para termos mais oportunidades destas, porque são estes os jogos que queremos disputar. É muito bom para nós, enquanto jogadoras, e também para o clube.

Ambição sem perder a identidade: "Queremos continuar a ganhar"
- O Torreense já conseguiu alcançar muitas coisas importantes. O que é que ainda falta conquistar? O que sentem, dentro do balneário, que podem fazer mais?
Acima de tudo, temos de manter os pés assentes na terra. Não vamos conseguir alcançar nada se deixarmos de ser fiéis aos nossos princípios e ao trabalho que fazemos diariamente, porque é isso que nos aproxima dos troféus e das vitórias. Encaramos sempre os jogos da mesma maneira: queremos ganhar. Obviamente, quanto mais vezes ganharmos, mais perto estaremos, por exemplo, dos lugares de acesso à Liga dos Campeões. Trabalhamos diariamente para estar nos lugares cimeiros da tabela e, quando falamos de taças, entramos em campo com o objetivo de ultrapassar todas as eliminatórias.
É muito à base do jogo a jogo, mas sempre com a ambição de ganhar, impor o nosso futebol e a nossa identidade. O Torreense pode continuar a ganhar e a entrar em campo com essa mentalidade vencedora, mas sem colocarmos uma pressão extra sobre nós próprias. Acho que isso também tem sido uma das chaves do nosso sucesso.
Confiamos muito umas nas outras e no trabalho que fazemos. Isso acaba por se refletir dentro de campo. No fundo, temos de desfrutar do jogo. Quando desfrutamos, estamos mais perto de alcançar os nossos objetivos, sejam os três pontos no campeonato ou as vitórias nas diferentes eliminatórias das taças.
- Uma conquista podia ser vista como um acaso, mas entretanto chegaram várias. O que torna este clube e este balneário tão especiais? O que encontrou no Torreense para querer continuar no projeto durante tanto tempo?
Existe uma química muito boa entre todas. Acho que, mesmo quando saem jogadoras e chegam outras, temos uma grande capacidade para integrar rapidamente as novas pessoas no grupo. É um grupo muito coeso. Temos personalidades muito diferentes, mas essas diferenças, quando estamos todas juntas, tornam o ambiente muito divertido. No fundo, somos mesmo uma família. Apoiamo-nos muito umas às outras. Quando as coisas correm menos bem a alguém, tentamos puxar essa pessoa para cima. Existe uma vontade genuína de que as coisas corram bem a todas.
Sabemos que, se as nossas colegas estiverem bem, isso também será positivo para nós, porque estaremos mais fortes enquanto equipa. Se as individualidades estiverem bem, coletivamente também estaremos melhor. Temos muita consciência disso e, naturalmente, isso cria confiança entre todas e permite que as coisas fluam.
Também temos conseguido manter uma base do plantel ao longo dos últimos anos, sobretudo nos últimos dois anos e meio. Há muitas pessoas que continuam juntas e isso, naturalmente, torna tudo mais fácil.

- O que definiram como sucesso para 2026/27? A época já começou oficialmente, têm uma nova eliminatória europeia pela frente e o campeonato aproxima-se. O que seria uma temporada bem-sucedida para o Torreense?
Se conseguirmos igualar aquilo que fizemos na época passada, ou melhorar, já será um sucesso. Igualar permitir-nos-ia, por exemplo, voltar a disputar as competições europeias e a Liga dos Campeões. É verdade que continuamos agora na Europa, na Europa Cup, que também é um excelente patamar, mas a Liga dos Campeões continua a estar acima. Por isso, igualar já seria excelente. Mas procuramos sempre melhorar de ano para ano e de dia para dia. Se conseguirmos melhorar nem que seja 1%, já seria incrível.
- E, no seu caso particular, o que gostaria de acrescentar à Catarina Pereira nesta temporada?
Quero manter-me fiel àquilo que tenho trabalhado e continuar a evoluir. Por vezes, além das boas exibições, é importante conseguir transformar o nosso rendimento em números. Hoje olha-se muito para o futebol através da vertente estatística. Enquanto jogadoras, desfrutamos na mesma quando sentimos que as coisas correm bem, mas, olhando para a forma como somos avaliadas de fora, sabemos que essa componente estatística é importante.
Por isso, gostava de conseguir traduzir mais o meu jogo em números. Sejam golos e assistências ou, noutras vertentes, cortes, duelos ganhos e outros indicadores defensivos. No fundo, quero melhorar esses números, porque sei que também são importantes para dar visibilidade à jogadora.
- Voltando à Europa, que é também o vosso próximo desafio, esta participação acaba por ser um prémio por tudo aquilo que têm feito. Sendo a Catarina também da região, que significado tem levar o nome do Torreense e de Torres Vedras para a Europa?
É muito bom. É sentir que podemos levar um pouco mais de Portugal lá para fora e dar a conhecer outras zonas do país, para além de Lisboa, Porto ou Algarve, que são os locais que normalmente as pessoas conhecem melhor. É um motivo de orgulho podermos mostrar um pouco mais de Portugal e, sobretudo, esta região, que tem tanta coisa boa. Sendo daqui, naturalmente que ainda sinto mais orgulho. É ótimo poder fazer aquilo de que mais gosto perto de casa e, agora, conseguir também levar o nome desta região para fora do país.

Do crescimento à ambição: "Queremos fazer mais comichão a quem domina"
- Conhece muito bem o campeonato português. Como tem sentido a evolução da Liga? Sente que o fosso para os clubes que têm dominado o futebol feminino tem diminuído? E o que falta para aumentar ainda mais a competitividade?
Acho que a Liga está cada vez mais competitiva. A entrada de mais um clube com grande dimensão no futebol masculino (FC Porto) também pode contribuir para aumentar essa competitividade e tornar o campeonato mais atrativo, não apenas para as jogadoras portuguesas, mas também para as estrangeiras. Se conseguirmos trazer mais jogadoras de qualidade para Portugal, além daquelas que já temos, isso também pode ajudar a aumentar o nível competitivo.
A redução para dez equipas diminuiu o fosso em termos de resultados, porque anteriormente existiam alguns jogos muito desequilibrados. Mas, ao mesmo tempo, também retirou jogos ao calendário. Há meses em que temos muito menos competição e, nesse sentido, acho que fazem falta mais equipas. Ainda assim, de ano para ano sentimos que o campeonato está melhor e que o fosso para quem tem dominado está a diminuir.
O nosso objetivo, e acredito que também o das restantes equipas que lutam pelos lugares cimeiros, é fazer cada vez mais 'comichão' a essa equipa e tornar as competições mais interessantes. Quando o destino e o desfecho são sempre os mesmos, acaba por se tornar aborrecido. Se conseguirmos alterar um pouco esse rumo, quem está de fora também começará a olhar para o futebol português de outra maneira. Deixará de existir aquela ideia de que há apenas uma equipa forte e o campeonato tornar-se-á mais atrativo.
- Faz parte de uma geração que já beneficiou de um crescimento muito significativo do futebol feminino. Chegou ao futebol sénior com 15 ou 16 anos, numa altura em que começava uma transformação importante, com o Euro-2017 no horizonte e a entrada de clubes como Sporting e SC Braga. Naquela altura, como imaginava que seria o futuro? Aquilo que aconteceu correspondeu ao que esperavas?
Sim. Pouco depois de eu entrar no futebol sénior surgiu o convite a clubes com outra dimensão para entrarem no futebol feminino, nomeadamente SC Braga e Sporting, e acho que esse convite foi um sinal de mudança. Mostrou que a própria Federação começava a olhar para o futebol feminino de outra forma e isso potenciou também a entrada de mais meninas na modalidade.
Olhando agora para trás e para o ponto em que estamos, acho que seguimos o caminho que imaginava naquela altura. Existem mais equipas profissionais e a jogadora portuguesa já consegue olhar para o futebol como uma possibilidade de futuro. Ainda estamos longe dos patamares de alguns clubes e campeonatos europeus, mas temos de continuar a trabalhar nesse sentido.
Tanto a jogadora portuguesa como as atletas que chegam ao nosso campeonato têm qualidade. Se conseguirmos continuar a melhorar as condições, as infraestruturas e os recursos humanos dos clubes, estaremos mais perto de alcançar ainda mais sucesso.
- O futebol feminino português cresceu muito nos últimos dez anos, embora ainda exista bastante margem para melhorar. Olhando agora para os próximos dez, como gostaria de encontrar o nosso campeonato?
Gostaria de ver mais equipas e também mais clubes com sucesso no futebol masculino a investirem no feminino. São clubes que, à partida, têm mais infraestruturas e capacidade para proporcionar boas condições. Gostava que esse investimento não acontecesse apenas nas equipas seniores, mas também na formação feminina, porque é a base necessária para que as equipas principais possam ter sucesso.
Acima de tudo, gostaria de ter um campeonato competitivo, em que começássemos cada época sem saber antecipadamente quem será o campeão. Que existisse uma verdadeira luta até ao fim, tanto no campeonato como nas taças. Mas não digo isto desejando que desapareçam os clubes que não têm tanta dimensão no futebol masculino. Pelo contrário. Essas equipas são fundamentais para a continuidade do futebol feminino e foram a base de grande parte do crescimento que tivemos durante muitos anos.
O Torreense é um exemplo. Não é um clube que esteja atualmente na Primeira Liga masculina, mas tem estrutura e capacidade para se manter neste patamar no futebol feminino.
Também penso em clubes como o Clube Albergaria ou o Futebol Benfica, onde joguei. Mesmo não estando agora na Primeira Divisão, continua a competir na Segunda Liga e é muito importante que essas divisões também tenham qualidade. É muitas vezes aí que encontramos jogadoras portuguesas que, no futuro, podem chegar à Primeira Liga. Por isso, também é fundamental termos escalões inferiores fortes e competitivos.

"Seleção? Não é descabido pensar nisso, mas também sei que exige muito trabalho"
- A seleção nacional acaba por estar sempre no horizonte de qualquer jogadora. No Torreense há vários exemplos recentes, como Bárbara (Lopes), Carolina (Correia), Samara (Lino), Raquel (Ferreira) e Rute (Costa). Que lugar ocupa esse objetivo neste momento da tua carreira?
Não escondo que é um objetivo. Como disseste, é algo que qualquer jogadora ambiciona, porque representar o nosso país é o expoente máximo da carreira. Tendo passado pelas seleções jovens, já senti um pouco aquilo que significa representar Portugal e, naturalmente, chegar à seleção principal seria algo muito especial. É um objetivo para o qual trabalho e também olho para as minhas colegas como exemplos. Sei que não é descabido pensar nisso, mas também sei que exige muito trabalho.
Obviamente que penso nessa possibilidade, embora não queira fazê-lo de uma forma que possa criar demasiadas expectativas e retirar-me o foco daquilo que deve ser prioritário. Mas penso nisso, claro. Ainda para mais quando tenho colegas que conseguem chegar a esse patamar e que são exemplos para mim.
- Portugal tem crescido bastante e a concorrência também é cada vez maior. Como olhas para a evolução da seleção e, em particular, para a competitividade que existe na tua posição?
Estamos muito bem servidos e tem existido uma grande evolução. Antigamente, olhava-se para o lado esquerdo e não existiam tantas opções, nem sequer tantas jogadoras canhotas para essa posição. Hoje existe muito mais matéria-prima. Há cada vez mais jogadoras e, consequentemente, mais opções por onde escolher. Isso facilita o trabalho da seleção, mas torna o nosso desafio de chegar lá ainda maior. Temos de trabalhar cada vez mais para conseguirmos essa oportunidade.

A evolução da seleção também está à vista. Temos conseguido estar regularmente nos Campeonatos da Europa, já estivemos no último Mundial e Portugal tem feito um bom percurso. A seleção tem evoluído e os resultados demonstram isso.
- Pegando precisamente no Torreense e na Seleção, as chamadas de várias das tuas colegas também vos mostram que é possível chegar à equipa nacional sem sair do clube?
Acho que qualquer jogadora, independentemente do clube que representa, deve merecer essa oportunidade se tiver qualidade e estiver a apresentar um bom rendimento. No nosso caso, ter jogadoras no Torreense que chegam à seleção permite-nos ter exemplos diariamente. Podemos perceber como trabalham, os cuidados que têm e aquilo que fazem para conseguir estar nesse patamar.
Isso permite-nos pensar: 'Se elas trabalham desta maneira e conseguiram chegar à seleção, talvez também possa aprender alguma coisa com elas.' Podemos pedir-lhes uma opinião ou procurar perceber determinados pormenores, porque estão connosco todos os dias. Essa proximidade ajuda bastante. Acima de tudo, é muito positivo perceber que existem cada vez mais clubes com capacidade para ter jogadoras na seleção. Isso também é importante para o crescimento de todas nós.

"Quero deixar uma marca no futebol e levar pessoas comigo"
- Ainda tem muitos anos de carreira pela frente, mas já construiu o seu percurso no futebol. Quando chegar o momento de terminar e alguém perguntar 'quem foi Catarina Pereira?', o que gostarias de ouvir como resposta?
Além da vertente enquanto jogadora, gostava de ser recordada como alguém que conseguiu deixar uma marca no futebol feminino nacional. Mas valorizo muito a parte humana. Quando for uma das jogadoras mais velhas de uma equipa, gostava que as mais novas pudessem olhar para mim como um exemplo e pensar: 'Gostava de ter uma carreira como a Catarina teve.'
Acima de tudo, gostava de ser recordada como alguém que contribuiu sempre para um bom ambiente no balneário, que ajudou quem precisava e que foi uma boa colega e uma boa companheira. No fundo, acho que é isso que fica. O futebol acaba um dia, mas as amizades mantêm-se.
Naturalmente, também gostava de deixar uma marca enquanto futebolista e que alguém pudesse olhar para o meu percurso e desejar construir uma carreira semelhante. Seria um motivo de orgulho. Mas os valores enquanto pessoa são muito importantes. É também através do nosso trabalho que construímos muitas relações para a vida e, no futebol, acontece exatamente o mesmo. Quero conseguir deixar essa marca e levar pessoas comigo.
- Se o futebol fosse uma pessoa e se cruzasse com ele na rua, o que lhe diria depois de tudo aquilo que já lhe proporcionou?
Ainda não lhe diria 'obrigada', porque acho que ainda não estou na fase de agradecer (risos). Claro que agradeço tudo aquilo que já vivi, mas ainda não seria aquele agradecimento de conclusão. Acho que lhe diria: 'Bora lá. Bora lá continuar a fazer coisas boas.'

- O Torreense tem dado muitas alegrias às pessoas de Torres Vedras e vocês certamente também sentem esse carinho. Que mensagem gostaria de deixar aos adeptos?
Diria para continuarem a apoiar-nos, porque são fundamentais. Talvez há alguns anos, no futebol feminino, não se olhasse tanto para o fator casa nem se sentisse que os adeptos podiam fazer uma diferença tão grande. Hoje, com o aumento do nível e da competitividade, acredito que podem ser verdadeiramente determinantes. Isso sente-se sobretudo nos jogos em casa, onde é naturalmente mais fácil às pessoas da região estarem presentes.
Por isso, peço-lhes que continuem a apoiar-nos. É mesmo muito importante e não é um cliché quando dizemos que são o 12.º jogador. A força dos adeptos e a vontade que demonstram de ver o clube da terra ter sucesso são muito motivadoras para nós. É fundamental que continuem a acompanhar-nos.
- E, quando terminar a carreira e olhar para trás, que lugar acredita que o Torreense vai ocupar? Quando lhe perguntarem o que significou este clube na sua vida e na sua carreira, o que vai responder?
Vou dizer que foi maravilhoso poder conquistar coisas tão bonitas num clube que me é tão próximo, primeiro geograficamente e, hoje, também pela ligação e pelo carinho que as pessoas têm por nós e pelo futebol feminino. Certamente será um dos clubes mais importantes da minha carreira.
Foi aqui que conquistei a minha primeira Taça de Portugal, que é a prova rainha do futebol português, e foi também o Torreense que me permitiu disputar, pela primeira vez a nível sénior, competições europeias. Só esses dois momentos já dizem muito sobre aquilo que este clube vai representar quando, um dia, olhar para trás. E, felizmente, já conquistámos mais algumas coisas para juntar a essas memórias.
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