Entrevista Flashscore a Cris Vieira: "Nunca imaginei a minha vida sem o futebol"

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Entrevista Flashscore a Cris Vieira: "Nunca imaginei a minha vida sem o futebol"
Cris Vieira tem sido um dos destaques do Valadares
Cris Vieira tem sido um dos destaques do Valadares
Valadares Gaia F.C. Futebol Feminino
O Valadares causou sensação ao eliminar o SC Braga nos quartos de final da Taça da Liga feminina. Um marco histórico para o clube de Gaia, numa época em que também já venceu o Sporting (2-0), em jogo da 2.ª jornada da Liga. Equipa sensação? As jogadoras são imunes a rótulos e seguem concentradas apenas no trabalho.

O futebol é "paixão". O futebol é "conquista". É assim para Cristiana (Cris) Vieira. A média do Valadares cresceu numa época em que o futebol feminino estava em franco desenvolvimento em Portugal e, hoje, é muito feliz a fazer aquilo que há alguns anos julgava "impensável": ter o futebol como trabalho.

De cabeça bem levantada e de sorriso no rosto, Cris vive um bom momento. Aos 23 anos, é uma das principais figuras da equipa liderada por Zé Nando e um dos talentos emergentes na Liga Feminina. "Nunca imaginei a minha vida sem o futebol". Assumiu nesta entrevista ao Flashscore. E a verdade é que também já começa a ser difícil imaginar um Valadares sem o talento de Cris Vieira.

Cris Vieira sobre o bom momento do Valadares
Valadares Gaia F.C. Futebol Feminino

"A minha avó adora ver-me jogar"

- Como surgiu a paixão pelo futebol?

- Creio que apareceu por volta dos sete anos. Honestamente, não sei de onde surgiu, porque o meu irmão e os meus primos jogavam voleibol e não tinha ninguém na família que gostasse ou praticasse futebol. Comecei a jogar na escola com os meus amigos e lembro-me de chegar a casa com um papel de um clube que havia ao pé de minha casa e dizer: 'Mãe, já não tens desculpa. Achas que posso ir treinar?' Ela acedeu logo e tudo começou aí. Até hoje...

- Então a família reagiu bem a essa escolha?

- Sim, super bem. Tive e tenho muita sorte nesse sentido. Sei que o processo foi mais complicado com algumas colegas, mas comigo foi sempre tudo muito saudável. Hoje toda a gente adora futebol. A minha avó, por exemplo, adora ver-me jogar. Se não for ver-me ao estádio, vê os jogos na televisão.

- Começa por jogar com rapazes. A integração correu bem?

- Eles andavam comigo na escola e sempre me respeitaram e protegeram muito. Na altura, jogava comigo também a minha amiga Inês Maia e éramos as primeiras a tomar banho. Sinceramente, não me lembro de os rapazes serem mauzinhos.

Cris Vieira tem sido um dos destaques do Valadares
Valadares Gaia F.C. Futebol Feminino

- Seguiu-se a passagem para o feminino. Encontrou muitas diferenças?

- Estava com rapazes da minha idade e quando passei para o feminino, notei que estava a competir com raparigas mais velhas. Mas não senti grande diferença, sinceramente. Tinha 12-13 anos, era miúda e, para mim, era futebol, não era rapazes ou raparigas.

- Boavista, Braga...

- Ainda tive uma passagem pelo Pasteleira, que foi a minha primeira equipa no feminino. Tive a sorte de passar por boas formações, sempre com boas equipas e essa competitividade ajudou-me muito na formação. Também tive sempre bons treinadores.

- Quando percebe que era possível seguir o caminho no futebol até fazer disso vida?

- Não tive muito tempo para pensar nisso, honestamente, porque o primeiro contacto que tenho com a Liga foi num contexto já profissional (no Famalicão). Felizmente, tive essa sorte. Apesar de não ter jogado muito nesse ano, em virtude de termos um plantel muito rico, foi um ano muito bom e foi aí que percebi que era isto que eu queria. Pelo meio entrei para a faculdade.

- É verdade. Conciliou o futebol com a licenciatura em Serviço Social. Percebeu que era importante ter outra alternativa?

- Foi sempre um objetivo. Sempre gostei muito de estudar e foi algo que esteve sempre nos meus planos. Nem sempre foi fácil conciliar com as competições, mas apaixonei-me também pelo que era Serviço Social. Concluí a licenciatura e o meu foco, neste momento, é total no futebol.

Cláudia Neto regressou ao Sporting no verão de 2022
Sporting CP

"Cláudia Neto é minha a maior referência"

- Ao longo deste processo houve alguma jogadora que admirasse? Alguma referência no feminino?

- A Cláudia Neto é a minha maior referência. Gosto mesmo muito dela e já tive a oportunidade de lhe dizer isso. Tem caraterísticas com as quais me identifico. É verdade que ainda olhava muito para as referências masculinas quando era mais nova, mas hoje em dia acredito que as miúdas olhem para as jogadoras da Seleção e mesmo para as jogadoras da Liga como referências.

- Já teve a oportunidade de defrontar a Cláudia Neto algumas vezes, a última talvez de má memória para ela (derrota do Sporting em Valadares). Como foi?

- Posso partilha que, no ano passado, o meu último jogo foi contra o Sporting e a Cláudia Neto ofereceu-me umas chuteiras novas. Curiosamente, são as que estou a jogar agora, usei-as no encontro com o Sporting (risos). Ela é uma referência para mim e estar a competir com ela é pensar: 'uau, incrível, o que ela fez e deu ao futebol feminino, dentro e fora de Portugal'.

Os próximos jogos do Valadares
Flashscore

- Voltando a si. Como tem sido o seu crescimento enquanto futebolista?

- Tenho desenvolvido muito a minha capacidade física. A liga tem mais intensidade e é cada vez mais exigente nesse capítulo. Sinto também que hoje sou uma jogadora muito mais intensa e que consegue ter outro tipo de discernimento com bola. Consigo ler o jogo e perceber quando ele pede para acelerar ou abrandar. Tenho essa capacidade para olhar à minha volta e perceber o que a equipa me está a pedir. Depois, sem bola sou uma jogadora muito mais disponível para defender e correr para trás.

- Onde encaixa a importância do mental nessas contas?

- Na capacidade para gerir a emoção do jogo. Sou uma jogadora muito emotiva e tenho de ganhar maturidade nesse sentido. Mas as emoções fazem parte do jogo e eu sempre fui muito competitiva.

"O futebol não é de homens, nem de mulheres, é de pessoas"

- O que a levou até ao Valadares Gaia e o que encontrou no clube?

- Acreditava que ia ser um bom projeto e pareceu-me a melhor opção. Cheguei com a pré-época em andamento e encontrei um grupo fantástico. Não digo que percebi logo nos primeiros dias, mas com o passar do tempo cheguei à conclusão de que temos uma 'equipaça', em que podem sair cinco e entrar outras cinco que a qualidade mantém-se. Sinto que podemos fazer coisas inacreditáveis enquanto grupo.

Cris deixa elogios ao treinador Zé Nando
Valadares Gaia F.C. Futebol Feminino

- Acaba por reencontrar muitas colegas do Länk...

- Sim. Por exemplo, a Malu (Schmidt) também veio. É uma jogadora com quem me entendo muito bem a jogar e sinto que a nossa ligação está cada vez melhor.

- Já venceram o Sporting na Liga e eliminaram, recentemente, o SC Braga na Taça da Liga. Qual é o segredo?

- O segredo é o nosso trabalho. Podemos ter menos condições do que algumas equipas, mas estamos a caminhar nesse sentido. Passo a passo. Vemos o ruído que está a nossa volta, sabemos que já se fala que somos a equipa sensação, mas continuamos tranquilas e focadas no nosso trabalho. Não nos deixamos influenciar por aquilo que está à volta. O treinador também passa muito essa mensagem.

- O treinador é o Zé Nando, que está a trabalhar pela primeira vez no feminino. Como tem sido?

- Surpreendeu-me muito. É uma pessoa com muita sensibilidade. Posso partilhar um pormenor que considero delicioso. Ao início pedia-nos muitas vezes desculpa por utilizar algum vocabulário, como o "marcação homem a homem", e nós nem percebíamos porque é que ele nos pedia desculpa. Ele diz muitas vezes que não há nada diferente e tem uma frase que é: "o futebol não é de homens, nem de mulheres, é de pessoas". Não é por ser meu treinador, mas achei de uma humildade e honestidade a forma como ele chegou ao futebol feminino. Tem um currículo que está à vista de todos, com passagem pela Liga masculina, e podia ter chegado aqui de forma diferente. Mas quis muito aprender connosco.

Valadares tem sido uma agradável surpresa na Liga Feminina
Valadares Gaia F.C. Futebol Feminino

- Como se sente do ponto de vista individual?

- O meu objetivo é aumentar o número de golos e assistências. Quero muito ajudar a equipa. Depois é conseguir passar o próximo patamar: chamada à Seleção Nacional e/ou um salto para um dos grandes do futebol português. 

- O tema Seleção é algo que mexe consigo?

- É algo bom e que faria todo o sentido que acontecesse. Acredito que já mereci estar lá e não estive. Mas não é algo que me tire o sono. Gostava que acontecesse, mas, se não acontecer, vou continuar a trabalhar no clube. 

"O futebol une as pessoas"

- Como tem visto o crescimento do futebol feminino em Portugal?

- É um processo lento, mas nos últimos anos houve um boom no futebol feminino e olho para isso com orgulho. Mas temos de continuar a crescer. Precisamos de melhores condições de trabalho, melhores salários... Ainda há equipas que treinam à noite e é importante perceber que precisamos de evoluir nesse sentido. Temos VAR e acho muito bem, mas maior parte das jogadoras não tem contrato profissional. O grande objetivo é que as condições das equipas sejam homogéneas. Estamos bem e a evoluir, mas não podemos deixar que essa evolução aconteça apenas nos três grandes. É preciso que os outros clubes consigam acompanhar esse crescimento.

Os próximos jogos do Valadares
Flashscore

- Ainda há um longo caminho pela frente...

- Sim, mas também é preciso reconhecer o muito que já foi feito.

- Para fechar esta entrevista, o que significa o futebol na sua vida?

- (silêncio) Hoje em dia é mais o meu trabalho. 

- Mas acredito que seja um privilégio poder fazer o que mais gosta como trabalho.

- O futebol foi sempre a minha grande paixão. O futebol é paixão. Mesmo. Nunca imaginei a minha vida sem o futebol. Há uns anos, era impensável chegar aos 23 anos e só estar a jogar futebol. Por isso, hoje futebol também é conquista.

- Ainda melhor é jogar e ter a família a ver na bancada...

- É inacreditável o que o futebol consegue fazer. A minha mãe odiava futebol, não via, e hoje fica mal se nao conseguir ir ver um jogo. O futebol une as pessoas. 

Tabela classificativa da Liga Feminina
Flashscore