Rita Coutinho: "O futebol às vezes magoa, mas vale por tudo quando as coisas correm bem"

Rita Coutinho em destaque no Marítimo
Rita Coutinho em destaque no MarítimoArquivo Pessoal, Flashscore

O Flash Feminino é a rubrica do Flashscore dedicada a destacar as principais protagonistas das Ligas Femininas em Portugal. Neste espaço, damos voz às jogadoras que brilham nos relvados nacionais. A nossa 36.ª convidada é Rita Coutinho, média do CS Marítimo.

Acompanhe o Marítimo no Flashscore

"Era a única rapariga da minha terra que jogava futebol"

- Quais são as suas primeiras memórias ligadas ao futebol?

Desde muito pequenina, sempre gostei de jogar à bola. Nunca liguei muito a bonecas, nem nada disso. O meu pai, sempre que íamos às compras, eu queria que me comprasse uma bola. Por isso, este gosto nasceu comigo, desde muito cedo.

Rita Coutinho é muito exigente
Rita Coutinho é muito exigenteOpta by Stats Perform, Arquivo Pessoal

- E quando é que surge a possibilidade de ir para um clube desejo de ir para um clube? Foi alguém que a convidou? Ou foi a Rita que insistiu com os seus pais?

Sinceramente, já não me lembro bem, mas acho que, provavelmente, fui eu que disse aos meus pais que queria jogar numa equipa. O meu pai sempre me incentivou e conhecia toda a gente por aqui (no clube da sua terra), eram colegas meus da escola, com quem eu já jogava nos recreios da escola.

- Como é que foram esses primeiros tempos a jogar com os rapazes? Era a única rapariga, certo?

Sim, sim. Aqui na minha terra era a única rapariga. Jogava num campo que ainda era de terra e o meu pai ia sempre comigo. Era ele que me ajudava a equipar, porque eu não podia estar no balneário com os rapazes. Muitas vezes, íamos até ao balneário dos árbitros. E, muitas vezes, a equipa ficava à espera que eu tomasse banho e só depois iam eles.

- Não era muito comum, sobretudo na altura, ver uma menina a jogar futebol. Sentiu algum tipo de discriminação?

Não, nunca senti discriminação. Pelo contrário, sentia até admiração. As pessoas achavam estranho uma menina jogar no meio dos rapazes, mas para mim era natural. Eu queria jogar à bola e nunca pensei “ai, tantos rapazes”, nada disso.

Rita na seleção distrital da AF Viseu
Rita na seleção distrital da AF ViseuArquivo Pessoal

- E ficou triste quando teve de deixar o futebol com rapazes para passar para o feminino?

Na altura acho que não fiquei triste. Já tinha jogado sempre com rapazes e foi uma experiência nova jogar só com meninas à minha volta. Não fiquei triste, mas é claro que o nível depois muda, pois é diferente do masculino para o feminino.

- Na altura, o Escola Futebol Clube Molelinhos era um clube com muita história no feminino. Como se sentiu?

Antes de entrar mesmo para a equipa das juniores, houve uma fase anterior. Na altura, a Francisca Martins, a Tânia Almeida e a Catarina Regalo - as três treinadoras - criaram uma equipa do Escola só com meninas, à exceção do guarda-redes, que era um rapaz, para podermos competir contra equipas masculinas da zona. Foi a minha primeira experiência no futebol feminino e foi muito giro.

- E o que é que mais a marcou nessa fase?

Foi muito giro ver a nossa evolução. No início levávamos goleadas e acabámos por terminar já muito melhor, mais competitivas.

- Depois o seu percurso segue para o Viseu 2001, onde fica cinco épocas. Nessa altura, como é que olhava para o futebol feminino em Portugal? Estamos a falar de 2012/2013/2014… ainda era tudo muito diferente do que é hoje.

Eu jogava, e ainda jogo, porque gosto. Nessa altura não via um futuro como profissional, como agora. Sinceramente, só queria era jogar. E, na primeira divisão com o Viseu, era difícil: havia equipas muito fortes, como o Clube de Albergaria, o Fofó (Futebol Benfica)...

- Quando é que começa a pensar: “se calhar isto até dá para construir uma carreira”?

Acho que foi com a entrada do Sporting e do SC Braga. A partir daí, com o investimento dos clubes grandes, as jogadoras começaram a pensar que talvez fosse possível ser profissional. Na minha perspetiva, antes disso, só seria possível no estrangeiro e mesmo assim era difícil ter uma oportunidade lá fora.

- Hoje já leva 157 jogos na Primeira Liga. Algum dia imaginou ultrapassar a centena?

Para mim é incrível. Eu adoro jogar futebol e, enquanto tiver esse “bichinho” e me sentir bem fisicamente, vou querer continuar. As lesões podem limitar muito, claro, mas enquanto puder jogar na primeira divisão, ao mais alto nível, contra as melhores, é incrível.

- Mas imaginava chegar a estes números?

Sempre tive ambição de estar ao mais alto nível. E sempre conciliei com os estudos, mas a minha prioridade estava no futebol. Por isso, esperava chegar a estes números e quero continuar, porque é para isso que luto e treino todos os dias.

Rita Coutinho esteve sem receber durante cinco meses em Itália
Rita Coutinho esteve sem receber durante cinco meses em ItáliaArquivo Pessoal

"Percebo que muitas jogadoras cheguem a um ponto em que desistem"

- A Rita tem mestrado em Educação Física. Ou seja, nunca abdicou de um “plano B”. Isso foi sempre consciente, tendo em conta as dificuldades do futebol?

Sempre tive isso presente e os meus pais também me alertaram muito. Quando surgia uma boa oportunidade longe de casa, a primeira pergunta era: “E os estudos, como é que vais fazer?” A verdade é que uma lesão pode mudar tudo e o futebol não dá garantias. Os contratos normalmente são de dez meses, há dois meses em que não recebemos… temos mesmo de ter um plano B. E, enquanto jogar, se conseguir conciliar com formação ou trabalho, sem prejudicar o futebol, para mim é uma porta aberta.

- Como foi conciliar tudo isso? Não deve ter sido fácil.

Não foi fácil. Tive sorte por os clubes por onde passei acreditarem em mim. Quando tirei a licenciatura em Vila Real, estava a estudar lá e a jogar no Viseu 2001, por isso só conseguia vir ao fim de semana, fazer um ou dois treinos e jogar. Depois, no segundo ano, fui para o Cadima. Ou seja, estava em Vila Real, ia para Coimbra, na quinta ou sexta-feira ia para os treinos, jogava ao fim de semana e voltava a Vila Real. No terceiro ano fui para o Albergaria: muitas viagens, muito carro, muita condução. No mestrado, em Coimbra, já conseguia treinar a semana toda.

- Mesmo assim era um ritmo puxado.

Sim. O clube dava-nos carrinha e muitas vezes era eu que conduzia. Chegava a casa tarde, fazia o jantar, no dia seguinte ia para aulas e estágio… o segundo ano de mestrado foi muito difícil.

- Ou seja: só com muita paixão é que se faz isto.

É preciso gostar mesmo. Percebo que muitas jogadoras cheguem a um ponto em que desistem, porque, sem gosto, não há outra forma.

- No meio disso, houve a sua experiência em Itália, no ano passado, na Série C. Como surgiu? E o que lhe deu, a nível pessoal e profissional?

Já há algum tempo que queria ter uma experiência fora e queria que fosse depois do mestrado, para estar mais livre. Surgiu a oportunidade em Itália. Eu queria a Série B, mas era difícil entrar porque só deixam ter cinco jogadoras estrangeiras e não me conheciam. A ideia foi ir para a Série C e depois subir para a B, ganhando visibilidade. A Série C, em Itália, eu diria que é equivalente a uma segunda divisão em Portugal, mas lá todas eram profissionais: treinávamos de manhã, tínhamos alimentação, alojamento e, financeiramente, valores mais elevados do que aqui.

- Acredita que Portugal pode chegar a essa realidade?

Acho que vai conseguir, mas é preciso apostar muito nas infraestruturas e em tudo o que está à volta: treinadores, nutricionistas, preparadores físicos… tudo mais especializado. E o futebol feminino precisa dessas condições específicas, porque as características são diferentes do futebol masculino.

Rita regressou a Portugal pela porta do Marítimo
Rita regressou a Portugal pela porta do MarítimoArquivo Pessoal

A mudança para o Marítimo: "Vamos dar tudo até ao fim"

- Depois volta a Portugal para o Marítimo. Foi uma decisão imediata?

Eu queria continuar em Itália, mas aconteceu que a equipa não nos pagou durante cinco meses. Eu estava a tentar resolver a situação e não podia arriscar voltar para um projeto que falhasse outra vez. Surgiu uma oportunidade na Série B, mas financeiramente não me compensava. Falei com o meu agente, o Alexandre, e conseguimos encontrar o Marítimo. Arrisquei e vim.

- Ainda ficou com esses cinco meses por receber?

Ainda estou. Estou a tentar resolver com o sindicato em Itália e todas as jogadoras estão à espera e a tentar resolver. A equipa entrou em insolvência, apesar de ainda ter a equipa masculina, e eu não percebo como é que não lhes acontece nada.

- Isso é duríssimo. E como é que lidou com isso?

Se não fossem os meus pais, teria sido muito complicado. Isto também nos mostra que é preciso ter cuidado com o destino, embora haja coisas que não controlamos. A equipa nunca tinha tido dívidas, mas aconteceu no ano em que eu lá estive. Eu queria mesmo era a Série B, pela visibilidade. Não sendo possível, quis regressar à Primeira Liga em Portugal e surgiu o Marítimo.

Marítimo segue na 8.ª posição da tabela classificativa
Marítimo segue na 8.ª posição da tabela classificativaFlashscore

- E como está a ser a experiência na Madeira?

Está a ser boa. O Marítimo já está há muitos anos na Primeira Liga e nota-se uma estrutura mais organizada. Olhando para a tabela, vai ser uma luta até ao fim para manter o clube na primeira divisão e estou cá para ajudar nisso.

- E agora vêm aí jogos muito difíceis, com Sporting e Benfica. Como encaram esta reta final?

São jogos que qualquer jogadora gosta de jogar, pois dão motivação extra. Faltam seis jogos e temos de encarar cada um como uma final. Nesta Liga, qualquer equipa pode roubar pontos a qualquer equipa. Vai ser uma luta até ao fim.

- A nível individual: tem 27 anos, volta ao campeonato português pela porta do Marítimo e tem dois golos e três assistências. Como se tem sentido?

Tenho-me sentido bem. Para mim era importante fazer uma boa época. Eu adoro fazer assistências e, para mim, uma assistência vale como um golo. Sei que muita gente olha para esses números, e é bom tê-los numa Primeira Liga. Mas, acima de tudo, é importante ajudar a equipa também a nível defensivo. Têm sido jogos duros fisicamente e acho que Itália me ajudou nisso, porque lá o futebol é mais físico e com mais agressividade. Sinto que evoluí.

- E o número 10 pesa?

Não (risos). Sempre adorei o 10 desde pequenina e sinto-me bem com ele.

- O que é que vocês, enquanto equipa, podem prometer até ao fim?

Que vamos pensar jogo a jogo e lutar até ao último minuto para dignificar o clube e a sua história. Vamos dar tudo até ao fim, porque não há outra forma.

Rita Coutinho cumpre primeira época no Marítimo
Rita Coutinho cumpre primeira época no MarítimoArquivo Pessoal

"O feminino não pode ser visto como mais um escalão do clube"

- A Rita disse numa entrevista passada que, quando houver maior competência de todos os lados, o futebol feminino vai evoluir. O que é que falta para essa evolução ser para todos? Para se ter, por exemplo, uma liga profissional?

Acho que é quando um clube for capaz de oferecer às equipas femininas as infraestruturas que dá às equipas masculinas profissionais. Por exemplo: é obrigatório jogar em relvado, mas quantas equipas treinam durante a semana em relvado? Isso faz diferença. E é preciso haver pessoas dentro dos clubes focadas no futebol feminino e dedicadas a dar melhores condições. O futebol feminino não pode ser visto como mais um escalão do clube. Se é para levar a sério, tem de ser tratado dessa forma.

- Como vê os próximos dez anos da modalidade?

Acredito que a Primeira Liga vai ser completamente profissional e que vai haver cada vez mais investimento. As infraestruturas vão melhorar, não tenho dúvidas. A Segunda Liga está cada vez mais competitiva e espero que, daqui a dez anos, também seja profissional, ou muito próxima disso. E acho que muitas jogadoras já não olham só para o dinheiro: olham para as condições. O dinheiro é importante, mas eu preferia ganhar um pouco menos e ter melhores condições, porque, para termos rendimento, precisamos de condições.

- E a Seleção? A Rita foi internacional jovem. É um tema que ainda tem na cabeça?

Neste momento estou focada em evoluir e em dar o meu melhor individualmente. Se surgisse a oportunidade, seria incrível, adorava voltar à Seleção. Acho muito bom haver mais oportunidades para jogadoras de clubes fora dos “grandes”, porque dá esperança a quem está noutros contextos. Com a Liga mais competitiva, por que não? O nível não é assim tão diferente. Claro que o coletivo ajuda: quanto mais forte for a equipa, maior a probabilidade de alguém ser chamada. Mas, se surgir a oportunidade, agarro-a com unhas e dentes.

- A concorrência no meio-campo é forte. Como olha para isso?

O meio-campo é uma zona onde normalmente estão as jogadoras mais criativas e com mais qualidade. É difícil, claro, mas cada jogadora pode acrescentar algo diferente. É perceber o que a equipa precisa e usar as características de cada uma da melhor forma.

Rita Coutinho é a número 10 do Marítimo
Rita Coutinho é a número 10 do MarítimoArquivo Pessoal

Exigência e auto-crítica: "Tenho um caderno onde aponto as coisas boas e más que faço num jogo"

- Como é que a Rita encara o futuro? Gosta de ter as coisas planeadas?

Hoje penso menos no futuro a longo prazo. Quero fazer uma boa época e depois ver o que surge. Antes ficava muito stressada com o “para onde vou” e “o que vai acontecer”. Agora estou mais tranquila. Se aparecer uma boa oportunidade no estrangeiro, pondero arriscar outra vez. Se não, aqui em Portugal, ou mesmo no Marítimo… logo se verá. Não estou muito preocupada com isso neste momento.

- Se encontrasse hoje a Rita pequenina, que começou no Parada de Gonta, no pelado, o que é que lhe diria?

Para continuar a trabalhar, aproveitar cada tempo livre para jogar mais, como eu fazia, todos os dias contra a parede, com os amigos, na rua. Para nunca desistir, porque houve momentos em que pensei desistir, e para acreditar em si própria.

- E se o futebol fosse uma pessoa e se cruzasse com ele na rua, o que lhe diria?

(Risos) Que é um amor incondicional. Que às vezes magoa, mas que vale por tudo quando as coisas correm bem. Não consigo desligar do futebol. Mesmo nas férias ou quando venho a casa, estou sempre a pensar no treino, no que tenho de melhorar. 

- É muito crítica consigo própria? Revê jogos, toma notas?

Sim, sempre. Vejo sempre os jogos e tenho um caderno onde aponto: ao minuto X fiz bem isto, ao minuto Y tenho de melhorar isto. Às vezes até sou demasiado crítica comigo própria.

Os próximos jogos do Marítimo
Os próximos jogos do MarítimoFlashscore

- Que tipo de coisas aponta?

Por exemplo, duelos aéreos: “ao minuto tal, perdi um duelo”. Depois tento perceber porquê, se foi posicionamento, se devia usar melhor os braços, e penso no que fazer para melhorar no jogo seguinte.

- E aponta também as coisas boas?

Sim, mas aponto mais as más do que as boas. Sou muito crítica comigo.

- Para terminar: quando um dia deixar os relvados, como é que gostava de ser recordada?

Como uma pessoa trabalhadora e dedicada. E acho que transmito muita calma, dentro e fora de jogo. Muitas vezes perguntam-me se estou nervosa e se calhar por dentro estou, mas não demonstro. Tranquilidade, acima de tudo.

- E também como alguém que tinha um caderninho com notas…

Sempre.

Mais sobre o Flash Feminino

Entrevista de Rodrigo Coimbra
Entrevista de Rodrigo CoimbraFlashscore