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"Nunca pensei realmente que pudesse ser profissional depois da universidade"
- Shelby, quais são as suas primeiras memórias ligadas ao futebol?
Começou muito cedo. Tenho uma irmã mais velha que começou a jogar quando eu ainda era muito pequena e eu queria ser como ela. Por isso, comecei a jogar futebol aos quatro anos, numa equipa.
Os meus três irmãos mais novos também começaram a jogar e tenho muitas memórias ligadas aos campos de futebol. Ou estava a jogar, ou estava a ver a minha irmã jogar enquanto brincava com os meus irmãos. Também passávamos muito tempo no jardim a jogar. No fundo, o futebol esteve sempre muito presente na nossa infância.

- Quando começa a jogar em clubes, foi sempre em equipas femininas ou também jogou com rapazes?
Desde os quatro anos joguei sempre com raparigas. Venho de uma realidade um bocadinho diferente.
- E como é que essa paixão foi crescendo? Chegou também a jogar na universidade?
Sim, joguei na universidade. Mas quando era mais nova experimentei vários desportos. Nessa fase ainda não sabemos exatamente do que gostamos. Mas o futebol foi sempre aquele que mais me marcou. Também porque era algo muito presente na família. Era o desporto que mais me fazia feliz, por isso quis continuar.
- E o que estudou na universidade?
Tirei um double major, que significa estudar duas áreas ao mesmo tempo. Fiz Gestão Internacional e Espanhol. Aliás, aprender espanhol acabou por me ajudar bastante depois a aprender português, porque as línguas têm algumas semelhanças.
- Nessa altura já pensava em seguir uma carreira no futebol?
Na verdade, não. Isto foi há cerca de oito anos e o futebol feminino não tinha a visibilidade que tem hoje. Não havia tantas oportunidades nem tanta informação. Nunca pensei realmente que pudesse ser profissional depois da universidade. Depois de terminar o curso fui para o Chile, para trabalhar e melhorar o espanhol, onde acabei por ficar um ano e jogar no Santiago Morning, tendo conquistado o campeonato e a qualificação para a Libertadores. Foi lá que voltei a apaixonar-me pelo futebol.
Nessa altura estava cansada, jogava desde os quatro anos e sentia que precisava de uma pausa. Mas quando voltei a jogar percebi que ainda queria tentar. Regressei por algum tempo aos Estados Unidos e, pouco depois, surgiu a oportunidade de vir para a Europa.

A chegada à Europa e a ligação a Portugal: "A Liga tem vindo a crescer muito"
- Qual foi a sua primeira experiência no futebol europeu?
Primeiro fui para a Suécia, onde estive meia época. Depois joguei dois anos em Espanha e só depois é que vim para Portugal.
- E como surgiu a oportunidade de vir para Portugal?
Foi através do meu agente, que tinha uma boa relação com o Valadares Gaia. A oportunidade surgiu praticamente à última hora, já no final de janeiro. Na altura estava há cerca de seis meses sem equipa e até estava a ponderar deixar o futebol e começar uma vida diferente. Mas acabei por vir para Portugal...
- E o que a fez permanecer tantos anos?
Várias coisas. A Liga tem vindo a crescer muito e tive a oportunidade de acompanhar essa evolução ao longo dos anos. O nível competitivo está cada vez mais alto. Além disso, sinto-me feliz aqui. Esse equilíbrio e a felicidade que encontrei na vida fora de campo é muito importante para o bom rendimento dentro do campo. Se não estivesse feliz fora do campo, provavelmente não continuaria em Portugal. Gosto muito!
- O que costuma dizer aos seus amigos nos Estados Unidos quando lhe perguntam sobre Portugal?
Uma das primeiras coisas que digo é que adoro o facto de estar perto do mar. Sou de Kansas City, que fica mesmo no centro dos Estados Unidos, muito longe da praia. Por isso, viver perto do mar é algo incrível para mim.

- O que sente que evoluiu mais em si desde que chegou a Portugal?
Nos Estados Unidos dá-se muita importância à parte física - intensidade, dedicação, esforço. Mas não se trabalha tanto a vertente tática. Em Portugal tive de aprender muito mais sobre o jogo, sobre posicionamento e leitura tática. Isso tornou-me uma jogadora mais completa. Também aprendi a adaptar-me a diferentes posições e a valorizar mais o lado técnico.
- Qual foi a sua primeira impressão sobre a jogadora portuguesa?
Achei que as jogadoras portuguesas têm muita criatividade. Nos Estados Unidos jogamos num ambiente mais estruturado, que por vezes acaba por limitar essa criatividade. Além disso, lá não se pensa tanto o jogo como aqui, onde é muito importante perceber bem o que está a acontecer em campo.
- E olhando para a evolução do campeonato português?
Vejo melhorias claras. Hoje já temos VAR, melhores condições e maior investimento. Tudo isso ajuda a aumentar o nível competitivo. Na minha opinião, este é o campeonato mais equilibrado desde que cheguei. Qualquer equipa pode ganhar ou empatar com outra. Já não há jogos fáceis e isso é muito positivo para a evolução da Liga.

A Shelby dentro e fora do campo: "Sou uma pessoa tranquila e consistente"
- Como se descreve enquanto jogadora e enquanto pessoa?
Acho que a personalidade acaba por se refletir no campo. Sou uma pessoa tranquila e consistente, e penso que isso também se vê na forma como jogo. Gosto de dar equilíbrio à equipa, tanto com bola como sem bola. Tento sempre ajudar a equipa a funcionar melhor.
- Que lições lhe ensinou o futebol ao longo da carreira?
A maior lição foi aprender a aproveitar cada momento. A carreira de futebolista é muito curta e frágil. Já estive perto de desistir várias vezes, tive momentos difíceis e também períodos de lesão. Mas sempre dei a volta por cima! Por isso aprendi a valorizar cada oportunidade de jogar. Amanhã pode acontecer algo e já não poderemos fazê-lo. É importante agradecer e desfrutar.
- Como surgiu a oportunidade de ir para o Racing Power?
Quem está dentro da Liga sabe que a estabilidade entre clubes pode variar muito. Nem sempre é possível ficar vários anos no mesmo clube. Fui muito feliz no Marítimo e fiz lá uma época muito especial, mas senti que precisava de um novo desafio. Queria jogar num clube com ambição de lutar por objetivos mais altos. Quando surgiu a proposta do Racing, senti que era a melhor oportunidade naquele momento.
- A época tem sido desafiante. Como a tem vivido?
Tem sido um ano muito difícil, sobretudo por causa das mudanças. Tivemos três treinadores em seis meses e isso não é fácil para ninguém. Mesmo assim sinto que estou a aprender muito e que estas experiências também ajudam a crescer.
- Faltam seis jogos para o final da temporada. O que é que o Racing ainda pode dar até ao final?
Acho que finalmente encontrámos alguma estabilidade. Agora temos mais tempo a trabalhar com o mister Albano e estamos a perceber cada vez melhor a ideia de jogo e a identidade da equipa. Acredito que ainda podemos fazer coisas boas nestes últimos jogos. Sabemos que não é fácil, porque não há jogos fáceis, mas estou confiante de que podemos terminar a época de uma boa forma.

- Como descreve o grupo de trabalho que encontraste no Racing Power?
É um grupo incrível, provavelmente o melhor que tive até agora. Nunca tinha estado numa equipa em que sentisse que podia falar com qualquer uma das colegas e em que todas estivessem sempre disponíveis para ajudar. Acho que foi isso que nos tem ajudado a ultrapassar as dificuldades desta época. Apesar de tantas mudanças, continuamos unidos como grupo. E isso faz muita diferença, porque é muito mais fácil ir trabalhar todos os dias quando gostamos verdadeiramente das pessoas com quem partilhamos o balneário.
- E a nível pessoal, como te sentes nesta fase?
Sinto que finalmente estou a jogar como sendo eu própria. Os primeiros meses aqui foram um pouco complicados, com várias mudanças, mas agora sinto que estou numa posição em que posso dar o meu melhor. Quero ajudar a equipa o máximo possível até ao final da temporada.
- Como imagina o seu futuro no futebol?
Não sei. A verdade é que sou muito feliz em Portugal e ficaria contente por continuar cá, mas também estou aberta a novas oportunidades noutros países. Vamos ver o que acontece.
- Se um dia sair de Portugal, o que diria que o país significou para si?
Portugal é como uma casa fora de casa. Foi aqui que aprendi muito e conheci pessoas incríveis. Mesmo que um dia vá para outro país, sei que vou sentir muitas saudades.
- Dá para perceber o carinho que sente pelo nosso país, daí também o facto de querer muito fazer esta entrevista em português. Foi difícil aprender a nossa língua?
No início foi complicado. Quando cheguei vivia com uma colega brasileira que não falava inglês, por isso tivemos mesmo de comunicar de outras formas. Mas viver no país ajuda muito. Estás sempre a ouvir a língua e tens oportunidades para praticar. O mais importante é não ter medo de errar.

"Nos Estados Unidos é completamente normal uma rapariga jogar futebol"
- Se pudesse falar com a Shelby de quatro anos, o que lhe diria?
Que daqui a uns anos vais falar português (risos). Diria para aproveitar mais cada momento. Houve alturas em que talvez não percebi totalmente as oportunidades que tinha ou o apoio das pessoas à minha volta, especialmente da minha família. O futebol tornou-se a minha carreira e às vezes esquecemo-nos simplesmente de desfrutar.
- Como tem lidado com a distância para a família?
É a parte mais difícil. Estou muito longe e sou a única que saiu de casa. Mas tenho muita sorte porque a minha família sempre me apoiou. Saber que eles estão felizes por me ver viver este sonho ajuda muito.
- O que ainda falta para o futebol feminino crescer mais em Portugal?
A mudança de mentalidade é fundamental. Nos Estados Unidos é completamente normal uma rapariga jogar futebol desde pequena. Aqui ainda existem alguns preconceitos. Quando essa mentalidade mudar, será mais fácil aumentar o investimento, melhorar as condições e tornar a liga mais profissional.

- Acredita que um dia a liga portuguesa possa ser 100% profissional?
Acho que sim. Já temos assistido a mudanças muito grandes em pouco tempo, por isso acredito que é algo possível no futuro.
- Se o futebol fosse uma pessoa, o que lhe diria?
É uma pergunta interessante (risos). Diria obrigado. Nunca imaginei que o futebol me pudesse dar tantas experiências, tantas pessoas incríveis e tantas memórias.
- Como gostaria de ser recordada quando terminar a carreira?
Gostava que as pessoas me vissem como um exemplo de que não existe apenas um caminho para chegar ao futebol profissional. Cada pessoa pode ter o seu próprio percurso. Também gostava de inspirar outros jogadores a saírem da zona de conforto e a perseguirem os seus sonhos. Acima de tudo, espero que quem me conheceu se lembre de mim como alguém que deu sempre o seu melhor e que foi muito feliz a jogar futebol.
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