Tânia Mateus: "Eu persisti e trabalhei muito, dentro e fora das quatro linhas"

Tânia Mateus em destaque no Rio Ave
Tânia Mateus em destaque no Rio AveArquivo Pessoal, Flashscore

O Flash Feminino é a rubrica do Flashscore dedicada a destacar as principais protagonistas das Ligas Femininas em Portugal. Neste espaço, damos voz às jogadoras que brilham nos relvados nacionais. A nossa 41.ª convidada é Tânia Mateus, avançada do Rio Ave.

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Crescer na Madeira: "É necessário fazer um esforço extra para alcançar oportunidades"

- Quais são as primeiras memórias que guarda da sua ligação ao futebol? 

Desde que me lembro, sempre estive ligada ao futebol. Isto tudo começou em casa, com a paixão que a minha mãe tem pelo futebol, algo que também se transmitiu aos meus irmãos mais velhos. Com eles, ia todos ou quase todos os fins de semana jogar à bola com amigos, fosse na rua ou em campos que estivessem abertos. 

Comecei a pensar que poderia chegar mais longe quando, aos 15 anos, comecei a jogar pela equipa sénior do Marítimo. Foi nessa altura que percebi que podia ter um percurso mais ambicioso na modalidade.

- A Tânia é madeirense. Que importância têm essas raízes no seu percurso como jogadora?

Crescer na Madeira ensinou-me valores como a resiliência, o trabalho e a capacidade de superar desafios. Sendo uma ilha, é necessário fazer um esforço extra para alcançar oportunidades, e isso ajudou-me a desenvolver uma grande determinação. Levo sempre comigo o orgulho de representar a minha terra em qualquer lugar onde esteja.

Tânia Mateus decidiu play-off de manutenção/promoção
Tânia Mateus decidiu play-off de manutenção/promoçãoOpta by Stats Perform, Rio Ave FC

- Sei que também teve uma experiência no futsal. O que a levou a optar definitivamente pelo futebol?

Tenho a opinião de que, quando somos mais jovens, devemos ter a coragem de experimentar diferentes modalidades. No entanto, à medida que fui crescendo, percebi que me identificava mais com o futebol, pela dinâmica do jogo, pelo espaço em campo e pelas oportunidades que me proporcionava para evoluir como atleta. Acabou por ser uma decisão natural, baseada naquilo que sentia ser o melhor caminho para o meu futuro.

- Como era ser rapariga na Madeira e jogar futebol? Como é que as pessoas lidavam com isso? E de que forma a sua família encarou essa paixão?

Nesse aspeto, digo sempre que tive muita sorte. Ainda na escola, participava em torneios e lembro-me de ser a única rapariga no meio dos rapazes, mas sempre num ambiente muito positivo, em que apreciavam o facto de eu jogar futebol.

A minha família teve um papel muito importante neste percurso. Desde cedo apoiou-me e incentivou-me a seguir aquilo de que gostava, mesmo quando nem toda a gente compreendia a minha escolha. Claro que sempre com a condição de manter os estudos como prioridade, mas estiveram sempre ao meu lado.

- Passou vários anos no Marítimo. Que importância tem o clube no seu percurso e na sua vida?

Na verdade, foram sete temporadas no Marítimo, embora apenas três a nível profissional. Joguei no clube dos 15 aos 18 anos. Depois representei outra equipa na Madeira e foi nessa altura que passei pelo futsal. Mais tarde, regressei ao Marítimo e assinei contrato profissional em agosto de 2020, aos 21 anos.

Para mim, o Marítimo é e sempre será casa. Como referi, foi o clube onde assinei o meu primeiro contrato profissional e, por isso, ocupa um lugar muito especial no meu coração.

Tânia começou a época no Besiktas
Tânia começou a época no BesiktasArquivo Pessoal

Da "experiência extraordinária" na Grécia ao "peso emocional" na Turquia

- Seguiu-se a primeira experiência fora do arquipélago e até do país. Como descreve a passagem pela Grécia?

A Grécia foi uma experiência extraordinária. Foi a melhor época da minha carreira, na qual marquei 15 golos em 20 jogos. Tudo o que vivi lá foi sentido de forma muito intensa, o que me permitiu crescer em todos os aspetos, tanto dentro como fora de campo.

- Encontrou um futebol muito diferente daquele a que estava habituada em Portugal? E como era a vida na Grécia fora dos relvados?

Na altura em que lá joguei, lembro-me de sentir algumas diferenças. Em Portugal, o futebol era muito mais tático, enquanto na Grécia o jogo era mais direto. Como foi a minha primeira experiência fora do país, os primeiros dias foram um pouco mais difíceis, mas isso passou rapidamente, muito graças ao excelente grupo que encontrei.

Em relação à vida fora do futebol, sim, era relativamente tranquila. Foi uma experiência diferente, com muitos aspetos positivos. Senti-me muito feliz na Grécia e guardo excelentes recordações dessa fase da minha carreira.

- O que a levou a regressar a Portugal? E por que razão escolheu o Damaiense, naquela que foi também a sua primeira experiência no continente?

A verdade é que o Damaiense apresentou-me uma excelente proposta e um projeto muito interessante, pelo que acabei por aceitar o desafio. Gostei, sobretudo, do grupo que tínhamos e do ambiente que se vivia dentro da equipa.

Terminei a época com 10 golos, mas acredito que, apesar das dificuldades que enfrentámos na altura, poderíamos ter alcançado uma posição melhor na tabela classificativa.

- Como surgiu a oportunidade de ir para o Besiktas e que recordações guarda dessa experiência?

A oportunidade surgiu quando me transferi para a agência da Daniela (Lopes). Foi ela quem me abriu as portas para o Besiktas, um clube que eu já acompanhava com interesse. Recordo essa passagem como uma experiência diferente e muito positiva. Foi um período que vivi com alegria e que me permitiu conhecer uma nova realidade, tanto a nível futebolístico como pessoal.

- Que diferenças encontrou, tanto a nível futebolístico como na vida do dia a dia? Istambul é uma cidade enorme e muito diferente da realidade portuguesa.

A maior diferença que encontrei, e que notei logo desde o início da minha passagem pela Turquia, foi o peso emocional e social que os clubes têm. Num sentido positivo, mas também com uma enorme pressão quando os resultados não aparecem.

Lá, os jogos não são apenas desporto. Um clube pode dividir bairros, famílias e até ambientes de trabalho. A intensidade e a paixão dos adeptos são, de forma geral, superiores àquilo que estamos habituados a ver em Portugal.

Quanto à vida fora do futebol, Portugal é muito mais tranquilo. A cultura turca é bastante diferente daquela que encontro no meu dia a dia, mas, no geral, foi uma experiência muito positiva. Istambul é uma cidade extraordinária, com uma energia única, e gostei muito de viver lá.

Rio Ave celebrou manutenção na Liga
Rio Ave celebrou manutenção na LigaRio Ave FC

Os dois golos decisivos para salvar o Rio Ave: "Mistura de felicidade e alívio"

- O que a levou a regressar a Portugal?

Na Turquia senti que o clube tinha todas as condições para dar certo: estrutura, ambição e potencial. No entanto, a cultura e a forma de viver fora do contexto do clube acabaram por ser um desafio para mim. A isso juntou-se uma situação familiar mais complicada, o que pesou na minha decisão de regressar. Ainda assim, não me arrependo da escolha que fiz. Foi uma experiência importante para o meu crescimento, tanto a nível pessoal como profissional.

- E como foi a experiência no Rio Ave e em Vila do Conde?

Tivemos algumas dificuldades em determinados momentos da época, mas, de resto, a equipa foi sempre muito acolhedora desde o primeiro dia. Sempre que precisei de apoio, o Rio Ave mostrou-se disponível e prestável, o que facilitou muito a minha adaptação.

Em relação a Vila do Conde, é uma cidade muito tranquila e organizada. O facto de estar tão perto da praia transmite uma sensação de bem-estar e serenidade. É um lugar que passa boas energias e onde me senti muito confortável desde que cheguei.

- Como foi terminar a época desta forma? Imagino que tenha sido difícil chegar ao play-off, mas acabou por ser decisiva, ao marcar dois golos fundamentais.

Aparecer no último jogo da época e marcar dois golos importantes tem um significado muito especial. Não é apenas pelos golos em si, mas sobretudo por tudo o que esteve por detrás deles: o trabalho silencioso, a paciência para continuar a lutar mesmo quando os resultados não apareciam. Eu persisti e trabalhei muito, dentro e fora das quatro linhas, para que tudo corresse da melhor forma.

Terminar a época assim não apaga as dificuldades que enfrentámos, mas transforma tudo isso numa grande aprendizagem. Dois golos podem parecer apenas números, mas, para mim, representam superação, resiliência e muito esforço.

- Assim que ouviu o apito final, qual foi a sensação? E qual foi o primeiro pensamento que lhe passou pela cabeça?

Quando ouvi o apito final, ainda estava um pouco desacreditada. Ter conseguido marcar dois golos num momento tão importante como o play-off provocou-me uma enorme mistura de felicidade e alívio. Foi um momento muito especial, sobretudo por tudo o que significava para a equipa e pelo esforço que tínhamos feito ao longo da época para atingir este objetivo.

- Que avaliação faz da competitividade do campeonato, tendo em conta os vários anos que já leva na prova?

A competitividade do campeonato tem vindo a aumentar de forma gradual. Quando comecei, existia uma diferença muito grande entre as equipas do topo e as restantes.  Hoje continua a haver clubes com maior capacidade de investimento, mas nota-se uma evolução geral das equipas, da organização dos clubes e da qualidade das jogadoras.

Atualmente já não existem jogos fáceis e qualquer equipa pode criar dificuldades. Isso obriga atletas, equipas técnicas e clubes a apresentarem-se sempre ao mais alto nível, o que acaba por contribuir para o crescimento e valorização do campeonato.

Tânia passou vários anos no Marítimo
Tânia passou vários anos no MarítimoArquivo Pessoal

O lado humano: "Diria à pequena Tânia que é mais corajosa do que aquilo que pensa"

- Terminada mais uma época, e aos 27 anos, como perspetiva o futuro da sua carreira?

Tenho 27 anos, mas sinto-me bastante jovem e até costumo dizer que aparento ser mais nova. Acredito que a idade é apenas um número e, neste momento, o meu objetivo passa por estar em clubes que me ofereçam excelentes condições para trabalhar e continuar a desfrutar do futebol. Quero aproveitar ao máximo esta fase da minha carreira, enquanto o meu corpo e a minha mente me derem sinais de que posso continuar a competir ao mais alto nível.

- Como é a Tânia fora do futebol?

Sou uma pessoa que procura estar sempre alegre e encarar a vida com um sorriso. Gosto de cuidar das pessoas que me rodeiam e de transmitir boas energias a quem está perto de mim. Também gosto muito de ler, porque considero importante estar informada e aprender constantemente coisas novas. Além disso, gosto de ver documentários, precisamente porque me permitem conhecer diferentes realidades e continuar a aprender.

- Se pudesse falar hoje com a pequena Tânia que cresceu na Madeira, o que lhe diria?

Diria que é mais corajosa do que aquilo que pensa. Houve momentos em que teve medo, mas conseguiu colocá-lo de lado e seguir em frente. E isso sempre esteve dentro dela. Diria também que é uma lutadora e que, daqui a uns anos, toda essa luta vai compensar. Hoje faço aquilo que amo e sou muito grata por isso.

- Sente-se orgulhosa de tudo o que já conseguiu alcançar?

Muito. Mas sinto que é um orgulho que ainda está em construção. Reconheço tudo aquilo por que passei e tudo o que já conquistei, mas sei que continuo a evoluir e adoro desafiar-me constantemente. Ainda quero ter muitas mais razões para me orgulhar no futuro.

- Se o futebol fosse uma pessoa e a encontrasse na rua, o que lhe diria?

Diria que ele mudou a minha vida sem pedir licença. Fez-me feliz como ninguém e, ao mesmo tempo, colocou-me à prova de formas que nunca imaginei. Mas também lhe diria que vou levá-lo comigo para sempre.

- Ainda faltam alguns anos para o final da sua carreira, pelo menos aqueles que entender jogar. Quando chegar esse dia, o que gostaria que fosse a resposta à pergunta: quem foi a Tânia Rita Pontes Mateus?

Gostaria que se lembrassem de mim, acima de tudo, pela pessoa que sou. Como uma jogadora que ajuda sem esperar nada em troca, que luta diariamente para contribuir o máximo possível para a equipa e para quem a rodeia. Gostaria de ser recordada como alguém com um coração puro, alegre e que procurou sempre deixar uma marca positiva por onde passou.

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