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A história de Roony Bardghji começa muito longe do calor da Catalunha. Começou quando os seus pais se conheceram em Alepo, na Síria, antes de ser exilado no Kuwait por causa do trabalho do pai. Desde os três anos de idade, o pai Samir apercebeu-se de um dom excecional. "Sempre disse que Roony tinha um bom pé, por isso obrigou-o a treinar", conta a mãe num documentário intitulado "Roony Bardghji, 372 dias" (o tempo entre a sua chegada ao clube como sub-17 e o seu primeiro jogo com os profissionais) produzido pelo FC Copenhaga.
No Kuwait, não existem clubes de prestígio: o talento é forjado no asfalto. "Havia um campo do outro lado da rua onde morávamos", conta o jovem de 15 anos, que prefere ser chamado de Roony, pois o seu nome é muito difícil de pronunciar. "Todos os dias pegávamos em algumas bolas e íamos treinar". Já estava a jogar contra rapazes muito mais velhos que diziam ao pai: "Vai ser o melhor jogador do mundo".
Em 2012, quando fez seis anos, a família mudou-se para a Suécia para ter uma vida melhor. Roony não fala a língua, mas tem a sua bola. A mãe lembra-se dos seus primeiros passos no novo bairro: "Fui dar um passeio... Nunca tínhamos visto tantos campos de futebol. O Roony tinha uma bola com ele e começou a jogar. Dois rapazes vieram ter comigo e perguntaram-me porque é que ele não se juntava ao clube". Foi ali, entre os blocos de betão, que aprendeu sueco a driblar.
Descoberto por Mikkel Køhler, chefe de olheiros do Copenhaga, depois de "destruir todas as equipas" durante a Taça Audi com o FC Rödeby, Roony juntou-se aos sub-17 do Copenhaga em 2020. O olheiro recorda: "Ele era absolutamente extraordinário. Podia decidir o destino dos jogos com o seu pé esquerdo excecional. Conseguia finalizar jogadas, romper pelo meio, driblar e colocar os companheiros na melhor posição possível com passes decisivos. Nunca desistia, mesmo quando falhava à primeira. Era um jogador técnico e tático. É muito criativo".
Acordar às 5 da manhã e deitar-se às 21:00
É aqui que o talento em bruto se encontra com os padrões profissionais. Para Roony, entrar para a academia do Copenhaga não é um privilégio, é um sacerdócio. Vivendo do outro lado da ponte, em Malmö, na Suécia, a sua rotina diária é a de um soldado-monge: "Levanto-me todas as manhãs às 05:00, tomo o pequeno-almoço e às 06:00 saio de casa, o meu pai leva-me à estação para apanhar o comboio". Depois das aulas das 08:00 às 12:00, é tempo de treinar e às 19:30 regressa a casa. "Como e vou dormir", explica com sobriedade.
No clube dinamarquês, Roony não é apenas um aluno atento, é também um investigador. Passa os raros momentos de descanso estudando os vídeos do homem que hoje é seu antecessor histórico no Barça: Lionel Messi. "Nunca aprendi a driblar, era algo que tinha dentro de mim", recorda. "Nasci com um cérebro futebolístico. Eu costumava ver o Messi na TV o tempo todo. Devo ter visto esse vídeo mil vezes. Tento copiar um pouco o estilo de jogo dele".
Este estudo obsessivo fascina os seus treinadores. Stefan Madsen, diretor de desenvolvimento, recusa-se a assumir o crédito pelo seu sucesso: "Ninguém pode afirmar que lhe ensinou tudo isso. Jogar na rua ou em campos diferentes dá-lhe uma paleta completa". Mas esta criatividade não o faz esquecer os seus elevados padrões de exigência. Roony é o seu maior crítico, apesar de ter crescido com uma geração de jogadores de topo como Rasmus Højlund, Noah Nartey, Hákon Haraldsson e Orri Óskarsson: "As minhas expectativas em relação a mim próprio são elevadas para tudo... Se perdermos, fico muito aborrecido. Sempre fui assim. Algumas pessoas disseram-me que eu mudaria quando crescesse, mas continuo a ser assim".
Os sacrifícios de uma família, o sonho de um filho
Por detrás da ascensão de Roony está a sombra protetora dos seus pais. A mãe, que por vezes trabalha o equivalente a três dias de 24 horas, prepara tudo com antecedência para que ele se possa concentrar no seu objetivo. "Fazemos tudo por ele", diz com humildade, enquanto termina os tupperwares para as refeições seguintes.
Esta gratidão é a força motriz de Roony. Cada sessão extra depois do treino, "um hábito raro na idade dele", admite Madsen, é dedicada aos seus entes queridos: "Quero fazer a minha família feliz, quero que o meu pai veja os meus progressos". E aceitou sacrificar parte da sua adolescência pela sua paixão: "Não vejo os meus amigos, mas isso não é um problema. Tenho de guardar a minha energia para o campo. É o meu trabalho".
Nesta quarta-feira, quando Roony Bardghji entrar em campo no Camp Nou com a camisa blaugrana, encontrará os rostos daqueles que o ajudaram a crescer. Em particular, vai reencontrar os seus dois treinadores dos sub-17 e sub-19, agora promovidos à equipa principal, que o viram marcar sete golos em 19 jogos do campeonato durante a sua primeira época com os profissionais do Copenhaga em 2023/24, depois de ter começado nas reservas aos 15 anos.
Mas para Roony, a emoção não se sobrepõe à ambição. O seu sonho é claro desde o primeiro dia na Dinamarca: "O futebol sempre foi a coisa mais importante para mim, porque tenho um sonho, jogar nas maiores ligas do mundo, nos maiores clubes do mundo e um dia ser o melhor jogador do mundo".
Depois de ter duvidado da realização do seu sonho quando uma grave lesão no joelho o afastou durante mais de um ano na época passada, o jogador mais jovem de sempre do Copenhaga espera agora brilhar no relvado de um estádio que viu tantas vezes na televisão da sua sala. O "Messi sueco" já não se limita a copiar o seu ídolo, está agora a escrever a sua própria história.

