Ex-treinador de Kinsky acredita que guarda-redes vai recuperar: "'Uma tragédia desportiva"

Antonin Kinsky verifica os pitons após sofrer o primeiro golo
Antonin Kinsky verifica os pitons após sofrer o primeiro goloReuters/Matthew Childs

Foi, sem dúvida, um dos momentos mais insólitos da história do futebol, deixando especialmente os guarda-redes incrédulos. Antonin Kinsky foi enviado para o balneário ao fim de apenas 17 minutos no jogo da Liga dos Campeões entre o Tottenham e o Atletico Madrid, a contar para os oitavos de final, após cometer dois erros.

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Como é que a mente de um guarda-redes lida com uma noite tão humilhante? Martin Shejbal, treinador de guarda-redes do Chrudim e que trabalhou anteriormente com Kinsky, procura responder a essa questão numa entrevista ao Flashscore.

O duelo entre Atletico Madrid e Tottenham foi verdadeiramente fora do comum. Os espanhóis chegaram ao 3-0 em apenas quinze minutos, com cada golo a surgir após um erro dos visitantes: Kinsky escorregou ao tentar afastar a bola, depois Micky van de Ven perdeu o equilíbrio antes do segundo golo. O terceiro foi antecedido por mais uma falha do guarda-redes checo.

E depois surgiu uma reação decisiva: após o segundo erro grave, o treinador dos Spurs, Igor Tudor, retirou Kinsky do relvado sem hesitar.

"O Antonin e eu mantemos uma relação próxima, e ele enviou-me uma mensagem de manhã a dizer que ia ser titular. Disse aos meus amigos mais próximos que o Tony estava de regresso. Quinze minutos depois, tudo terminou... Fiquei completamente atordoado. Foi uma verdadeira tragédia desportiva," afirma Martin Shejbal, que treinou Antonin Kinsky no Pardubice.

- O Antonin contactou-o antes do jogo. E depois?

Enviei-lhe uma mensagem durante o jogo, quando vi o que estava a acontecer. Mas ainda não respondeu. Compreendo, provavelmente reagiria da mesma forma. Creio que vai voltar a entrar em contacto daqui a algum tempo.

Depois de um momento destes, é preciso espaço. Mas fico satisfeito por ver uma onda de solidariedade entre guarda-redes de todo o mundo. Muitos verdadeiros ícones manifestaram-se. Peter Schmeichel, Joe Hart, David De Gea – são homens que têm algo a dizer sobre isto. Por isso acredito que vai recuperar em breve, sobretudo ao ver estes nomes a apoiá-lo.

- É treinador de guarda-redes. O que aconselharia ao treinador principal numa situação destas?

Foi uma situação rara e, mesmo olhando para trás, não teria feito uma substituição imediata. Quando um guarda-redes está na baliza, espera sempre por uma oportunidade para compensar um erro. Normalmente, a sorte acaba por voltar. Mas, apesar de dizer isto, não quero juntar-me às críticas ao treinador que vêm de todos os lados.

- Defenderia Igor Tudor?

Agora todos criticam o Tudor, dizem que destruiu a carreira de um jovem guarda-redes. Mas não penso que seja esse o caso. Não acredito que a substituição tenha sido dirigida especificamente ao Tonda (Kinsky). O resultado era 3-0 e era preciso agir. Foi um pouco como no hóquei no gelo. Por vezes, manda-se um jogador para iniciar uma luta ou troca-se o guarda-redes para agitar as coisas. O jogo parecia perdido, mas ainda se tenta virar o resultado. Ele optou por esta solução. De certa forma, compreendo-o.

- Tudor pareceu consultar o defesa central Cristian Romero. Por outro lado, não precisou da opinião do treinador de guarda-redes...

Também entendo isso. Se está no banco, precisa de contacto com quem está em campo. O treinador de guarda-redes não é tão relevante nesse momento. Há muito pouco tempo para reagir e resolver a situação. Por isso, consigo imaginar o treinador a chamar o defesa central e perguntar: 'Conseguimos lidar com isto? Temos o que é preciso?'

Naquele momento, a pessoa mais importante era o capitão em campo, e era ele que tinha de dar a sua opinião ao treinador.

- Os erros do Kinsky não foram os únicos – vários jogadores dos Spurs escorregaram. Acredita que estavam com as botas erradas?

Hoje em dia, os relvados são preparados de forma muito diferente e escolher as botas é quase como escolher os esquis. Antigamente, o terreno era ou mole ou duro, mas agora há muitos relvados que são macios à superfície mas não agarram bem, por isso pode-se escorregar mesmo com pitons. Disse ao Tonda que cinco jogadores escorregaram antes dele e outros dez depois. Mas infelizmente, ele é a última linha, por isso os seus erros foram fatais. No primeiro golo, deslizou completamente – não foi apenas um escorregão. O relvado era mesmo muito específico. Mas era evidente que o Atletico estava habituado ao seu próprio terreno.

- Como vai reagir o Kinsky? Quão forte é a sua mentalidade?

Ele ficou certamente abalado após o jogo – era visível quando saiu do relvado – mas, fora isso, penso que é mentalmente muito forte. Trabalhei com vários guarda-redes no futebol checo e ele sempre transmitiu confiança. Apesar do golpe em Madrid, acredito que não vai pôr em risco a sua carreira. Tudo depende da mente, e a dele é forte. Está rodeado de pessoas excelentes que o vão ajudar. Precisa de conversar com alguém, e penso que o seu pai não vai abordar o assunto apenas como pai, mas também como antigo guarda-redes de topo.

Acredito que vão ultrapassar isto juntos.

- Há algo positivo a retirar deste momento?

Um minuto após a substituição, já é história. Fica com ele, mas não volta – só tem de recuperar. Para mim, o mais positivo foi ver os colegas a ir apoiá-lo no balneário. Foram simplesmente dar força ao seu companheiro. Cada revés tem o seu lado bom. E a energia positiva que surgiu dessa reação foi fantástica.

- Ainda assim, seria benéfico para o Kinsky mudar de clube?

O Tonda e eu falámos sobre esta questão. Discutimos um possível empréstimo, porque ele não estava a jogar e tinha perdido ritmo competitivo. Na altura, não tinha agente. Penso que saiu da Sport Invest em setembro passado. Mas depois chegou o Thomas Frank, que queria dois guarda-redes igualmente fortes e valorizou bastante a qualidade do Tonda, por isso acabou por não querer deixá-lo sair.

- Mas agora a situação é diferente…

Tudo depende da química e da energia, de como a equipa se adapta ao guarda-redes. Do meu ponto de vista, a situação será muito difícil para o Kinsky, mesmo que comece a jogar. Foi reintegrado na equipa após uma longa pausa por duas vezes, e em nenhuma delas correu bem. É mais complicado em Inglaterra porque os adeptos são implacáveis e os mais críticos. Além disso, penso que o Tottenham tem atualmente uma das piores defesas da Liga inglesa. Os erros dos seus defesas e a forma como defendem dificultam a vida a qualquer guarda-redes.

Por isso, na minha opinião, um empréstimo seria benéfico, e não teria de ser necessariamente na Liga inglesa.