Exclusivo com Prosinecki: "Luis Enrique sempre teve personalidade"

Robert Prosinecki a dar indicações como treinador
Robert Prosinecki a dar indicações como treinadorJURIJ KODRUN / GETTY IMAGES EUROPE / GETTY IMAGES VIA AFP

Robert Prosinecki, lendário jogador campeão da Liga dos Campeões pelo Estrela Vermelha, de Belgrado, fala numa entrevista exclusiva ao Flashscore.

Houve uma altura em que o futebol da Europa de Leste chegou a ser uma referência mundial. Tal como agora, os seus jogadores destacaram-se pelo trabalho físico, entrega e, sobretudo, pela sua personalidade combativa.

Robert Prosinecki (57 anos) foi um desses jogadores que, graças ao trabalho e ao carácter, deixou uma marca no futebol da sua região.

- Robert, porque aceitou o cargo de selecionador do Quirguistão? O que o convenceu e que mudanças gostaria de implementar em primeiro lugar?

Antes de mais, ainda gosto de trabalhar e a minha vida é o futebol e, bem, depois de um período no Montenegro, surgiu uma proposta do Quirguistão. Visitei o país. Analisei as infraestruturas, as ideias. Querem evoluir, querem fazer algo diferente. Estamos na Taça da Ásia no próximo ano. Isso é como o Europeu. Aceitei esta proposta e, neste momento, sou o selecionador do Quirguistão.

- Como encontrou o plantel?

Há muitos jovens. É uma seleção muito orgulhosa. Os que lá estão são profissionais. Talvez três ou quatro da sub-21 chamem a nossa atenção. Vamos ver se conseguimos fazer algo mais e melhorar em todos os aspetos.

- Robert, vamos falar do Estrela Vermelha de Belgrado. Se alguém lhe fala em Estrela Vermelha 1991, o que lhe vem à cabeça?

1991. Para todos nós que estivemos lá, são muitas memórias. Um plantel com muita qualidade, uma equipa da ex-Jugoslávia, onde havia jogadores de todo o lado. Estive lá quatro anos e guardo excelentes recordações. Joguei lá, talvez tenha sido a minha melhor fase no futebol e o Estrela Vermelha alcançou o melhor resultado connosco, vencer uma Liga dos Campeões é algo enorme, muito grande.

- Acredita que o Estrela Vermelha pode voltar a conquistar a Liga dos Campeões?

A equipa evoluiu. Não, não evoluiu assim tanto em termos económicos. A diferença para as equipas inglesas ou espanholas é enorme. Não creio que o Estrela ou qualquer equipa da região consiga fazer algo semelhante. Ingleses, espanhóis e alemães investem imenso e contratam os melhores. No meu tempo, só podiam alinhar três estrangeiros. Agora é completamente diferente.

- O que significa para toda a liga e, sobretudo, para o Estrela Vermelha a contratação de Marco Arnautovic, na sua opinião?

O Estrela Vermelha passou por diferentes fases: os bons tempos de 1990, a irregularidade que se seguiu. Agora estão novamente na Liga dos Campeões. Quando participas na Liga dos Campeões, entra dinheiro. Arnautovic é certamente algo especial que pôde chegar ao Estrela Vermelha depois do Inter, onde jogava pela seleção da Áustria, que se qualificou para o Mundial. Acrescenta muito à equipa. Penso que ainda não mostrou o seu melhor, porque Arnautovic pode dar muito mais, é um grande jogador, pode oferecer muito mais do que mostrou até agora, mas significa imenso para o Estrela Vermelha e para os adeptos.

- Depois da sua passagem pelo Estrela Vermelha chegou ao Real Madrid com grandes expectativas. O que mais o marcou? A intensidade, a pressão mediática, a hierarquia no balneário? O que recorda melhor desse tempo?

Cheguei na fase pós-‘Quinta del Buitre’. Estávamos lá o Hagi, o Hugo Sánchez e eu. No meu primeiro ano no Real Madrid tive muitos problemas com lesões, em 1991 todos queriam contratar o Robert Prosinecki e eu queria ir para o Real Madrid. Era o melhor que me podia acontecer, estar no Real Madrid. Mas sabes que nessa altura também tive imensos problemas de lesões. Nem sei porquê, mas quando toda a gente começa a dizer que és de cristal, não jogas durante um ano, estás sempre lesionado e isso acaba por criar uma grande pressão. Nessa altura também havia a guerra no meu país. A minha família estava em Zagreb e, naturalmente, estava preocupado com tudo o que se passava. Não quero desculpar-me, é assim mesmo. A vida passa e estive três anos no Real Madrid e sou um pouco mais merengue do que do Barça e ainda hoje, porque foi realmente o meu melhor clube.

- Acredita que a sua carreira teria sido diferente se assinasse hoje pelo Real Madrid?

Não sei. Estou muito satisfeito com a minha carreira. Talvez não tenha dado tudo, mas sou um dos poucos que jogou nos dois melhores clubes e tive a sorte de estar no Real Madrid e no Barcelona, porque toda a gente sabe disso. Muito poucos jogadores podem dizer o mesmo. Não sei se hoje seria diferente, certamente se não tivesse tido tantas lesões, mudaria muita coisa. Sim, sem dúvida. O que também pensamos é que agora o departamento médico está noutro patamar, certamente seria um pouco diferente, mas pronto.

- Gerir um balneário como o do Real Madrid deve ser complicado. Queria perguntar-lhe por um antigo colega seu e atual treinador, Luis Enrique. Como era ele no dia a dia?

O Luis Enrique sempre teve personalidade e joguei com ele três anos no Real Madrid. Era um jogador que veio de Gijón, com muita personalidade, trabalhador e, além disso, podia jogar em qualquer posição, lateral, médio ofensivo, no centro. O Luis era um excelente colega. Agora, com o Paris Saint-Germain conquistou a Liga dos Campeões. Fez uma época impressionante, ganhou tudo. É uma pessoa cheia de energia, um grande tipo.

- Mostrou qualidades interessantes. Liderança, sinceridade, confiança. Já tinha essas características enquanto jogador?

Sim, para mim sim. Olha, não quero estar a dizer o que fez no Barcelona, também jogaram de forma impressionante, não? E teve resultados incríveis. O tiki-taka, o seu Barcelona não foi só tiki-taka. Com o Cruyff também se conquistou pela primeira vez a Liga dos Campeões, os campeonatos e aí começou tudo. Depois, o Guardiola, o Luis Enrique, modernizaram este estilo de jogo em que é preciso ter jogadores para praticar este tipo de futebol. Não é fácil jogar em 4-3-3, se não tiveres jogadores, se não tiveres quem segure a bola ou médios ofensivos como o Lamine. É preciso ter jogadores para este futebol, como os que formam em La Masía.

- Mencionou o Johan Cruyff. Qual foi a maior lição que aprendeu com ele nesses tempos no FC Barcelona?

Foi ele que me trouxe. O Cruyff, para mim, é seguramente o melhor treinador. É diferente de todos os outros, não é? Diferente. Primeiro, como jogador nem vale a pena falar. Foi um jogador extraordinário. A seleção dos Países Baixos. Depois, em Barcelona, o Ajax é algo especial. O Johan tinha as suas particularidades, o Johan criou um futebol que divide, ou gostas ou não, mas para mim o melhor futebol é aquele que te faz manter a posse de bola.

- Ele era obcecado pelos detalhes...

Era um homem atento aos pormenores. Se jogas na ala tens o 1x1, tens de cruzar. Ir para a área, aí tens mais liberdade. Nos treinos, a bola estava sempre presente, víamos muitos vídeos. Analisávamos onde falhávamos e onde podíamos melhorar. O Johan Cruyff tinha uma autoridade impressionante.

- Viu o Guardiola como jogador e agora como treinador.

Não era muito rápido, em termos de velocidade, mas a cabeça... Era muito inteligente, o primeiro toque... Era muito inteligente, tal como agora, enquanto treinador. O Johan chamava muitas vezes o Pep para ver os vídeos.

Não perca a segunda parte da entrevista a Prosinecki na sexta-feira