Feminino: La Masia salvou a época do Barcelona e permitiu reconquistar a Liga dos Campeões

La Masia foi essencial para o Barcelona
La Masia foi essencial para o BarcelonaČTK / imago sportfotodienst / Andres Lopez Sheridan / SPP

Este sábado, em Oslo, o Barcelona conquistou a sua quarta Liga dos Campeões feminina ao golear o OL Lyonnes por 4-0. Um triunfo brilhante, que esconde, no entanto, uma época construída sob uma grande limitação: a necessidade de recorrer massivamente aos seus próprios recursos. La Masia não serviu apenas para colmatar ausências e restrições orçamentais, salvou o projeto blaugrana.

Reveja aqui as principais incidências da partida

O verão de 2025 prometia preocupações. A situação do Barcelona foi manchete em Espanha: apenas 17 jogadoras com contrato profissional antes da pré-época, muitas saídas e poucas entradas, tudo isto sob o olhar atento do Fair-Play financeiro. O motivo? As restrições impostas pela LaLiga, que regula toda a massa salarial do clube, incluindo a secção feminina.

Para não ultrapassar os limites definidos, os dirigentes do Barça feminino optaram por apostar nas jogadoras mais influentes, recompensando-as melhor e evitando que saíssem, mesmo que isso implicasse sacrificar atletas como Jana Fernandez ou Fridolina Rölfo. E para preencher as lacunas, restava apenas uma solução: confiar na formação.

Clara Serrajordi: a resposta à ausência da melhor jogadora do mundo

A pior notícia da época chegou cedo: Aitana Bonmatí, três vezes vencedora da Bola de Ouro, iria falhar vários meses de competição. E não foi a única ausência de peso que o Barça teve de enfrentar. Mapi León, Patri Guijarro e Laia Aleixandri, chegada do Manchester City no verão anterior, estavam entre as muitas jogadoras que sofreram lesões prolongadas. Uma verdadeira vaga de lesões no meio-campo.

Foi neste contexto que Clara Serrajordi se afirmou em definitivo. Na véspera da segunda mão da meia-final da Liga dos Campeões feminina frente ao Bayern, Esmee Brugts resumiu o espírito do grupo: "A única coisa que podemos fazer é provar em campo que estão errados. A nossa força é conseguirmos abstrair-nos desse ruído exterior. Podemos ter menos jogadoras, mas não temos menos qualidade." A mensagem era clara para todos os que duvidavam de um plantel dizimado por lesões e restrições orçamentais.

Com o meio-campo fustigado por lesões sucessivas, o treinador das catalãs entregou um papel fundamental a Serrajordi: a jovem de 18 anos foi titular em três dos últimos seis jogos europeus do Barça, incluindo precisamente essa segunda mão da meia-final frente ao Bayern. A resposta em campo foi inequívoca: vitória por 4-2 e apuramento para a final de Oslo.

Serrajordi participou em 19 jogos na Liga F esta época, o segundo maior registo do plantel blaugrana, e tornou-se peça-chave na Liga dos Campeões. Nascida em Llinars del Vallès, formada em La Masia desde criança, há pouco tempo ainda assistia aos jogos de Alexia Putellas desde a bancada. Esta noite, em Oslo, foi titular na final, uma aposta de Romeu que já tinha resultado na vitória por 4-2 frente ao Bayern.

Pere Romeu nunca escondeu a sua filosofia sobre o tema: "Quando se está num sítio há muito tempo, sente-se uma pertença que não se tem quando se chega de fora. Por isso, para quem está aqui há anos, defender o emblema do Barça pode ser um sentimento mais forte do que para quem vem de fora."

Aicha Camara e Carla Julia: duas revelações na defesa

Se o meio-campo deu nas vistas, a defesa blaugrana também beneficiou do crescimento de duas jovens da Masia. Após várias épocas a subir degraus no centro de formação, Aïcha Camara foi oficialmente promovida à equipa principal como lateral-direita para a época 2025/26.

Nascida em Sabadell, ingressou em La Masia aos 15 anos e percorreu todos os escalões antes de bater à porta da equipa principal. Jogadora versátil, capaz de atuar como lateral-direita ou central, destaca-se pela força nos duelos e pela capacidade física para percorrer o corredor durante todo o jogo. Na Liga F, terminou a época com 14 titularidades, um golo e seis assistências, um registo impressionante para uma estreia entre as profissionais. No banco em Oslo no início do jogo, entrou nos minutos finais para fechar a festa.

Na esquerda, foi Carla Julia, 19 anos e também formada em Barcelona, quem deu o seu contributo. Com 6 golos e 4 assistências na Liga F, a jovem lateral, que também pode jogar como extrema, mostrou que tem lugar nesta equipa de topo.

Uma geração inteira a emergir

Para além destes três casos, foi toda uma geração de jovens talentos que irrompeu na equipa principal esta época. Martine Fenger, Ainoa Gómez, Adriana Ranera, Laia Martret e Maria Llorella estrearam-se todas pelo Barça esta época, um fenómeno que demonstra a grande confiança de Romeu na cantera blaugrana.

Rosalía Domínguez, com apenas 17 anos, também somou os seus primeiros minutos na equipa principal. A geração de 2006, onde se inclui Vicky López, 11 golos e 13 assistências em 43 jogos em todas as competições esta época, veio ocupar os espaços deixados pelas lesões com um talento e maturidade impressionantes.

Modelo que rivaliza com o OL Lyonnes

Pela frente, o OL Lyonnes representava um modelo radicalmente diferente. Sob o comando da bilionária americana Michele Kang, proprietária do clube desde 2023, Lyon reconstruiu o seu plantel com contratações de luxo: Jule Brand vinda do Wolfsburg, Marie-Antoinette Katoto atraída do PSG, Ashley Lawrence contratada ao Chelsea, e Ingrid Engen, precisamente chegada do Barça no verão anterior, formaram o núcleo de um recrutamento XXL. Ao leme, Jonatan Giráldez, antigo treinador do Barça feminino, escolhido para reconquistar a Europa.

De um lado, milhões de euros investidos para reconstruir uma equipa com internacionais. Do outro, uma equipa obrigada a confiar nas suas próprias jovens, formadas em casa, apoiando-se nas mais experientes e consagradas para as orientar. E, no entanto, foi o Barça quem venceu por 4-0 em Oslo, impondo uma pesada derrota ao universo Kang.

O Barcelona disputou uma sexta final consecutiva inédita, a sua sétima em oito anos. Um domínio que o clube catalão deve, em parte, ao seu centro de formação, de onde saíram nomes como Aitana Bonmatí, Alexia Putellas, Ona Batlle e Claudia Pina. Na euforia após o apito final, Caroline Graham Hansen resumiu a equação com uma sinceridade desarmante: "Foram anos difíceis, não vamos mentir. Faltou dinheiro em todo o lado, mas mantivemos o nível no topo graças ao excelente trabalho de muitos anos em La Masia."

Pere Romeu, por sua vez, não escondeu a emoção: "Estou extremamente orgulhoso. O que esta equipa está a conseguir merece ser reconhecido. Diziam que o nosso plantel era curto, mas a nossa ambição não tem limites. Espero que possamos repetir este feito na próxima época."