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“O Sporting fez um milagre. Perdemos em Inglaterra com dois penáltis que não existiram, mas acreditámos que íamos dar a volta à eliminatória. Em Lisboa, o público queria ver Denis Law, Bobby Charlton ou George Best e assistiu à melhor exibição de sempre do Sporting”, notou à agência Lusa o antigo defesa direito internacional português Pedro Gomes, de 84 anos, que atuou pelos ‘leões’ nos relvados (1960-1973) e treinou-os em 1984/85.
A 18 de março de 1964, o Sporting goleou o Manchester United no antigo Estádio José Alvalade (5-0), em Lisboa, e inverteu a derrota sofrida três semanas antes em Inglaterra (4-1), rumando às meias da Taça das Taças.
Treinados há duas décadas pelo escocês Matt Busby, os red devils eram norteados em campo pelo compatriota Denis Law, Bobby Charlton e o norte-irlandês George Best, todos vencedores da Bola de Ouro naquela década e determinantes no primeiro título de campeão europeu do clube, conquistado face ao Benfica em 1967/68 (4-1, após prolongamento), em Wembley.
João Morais e os brasileiros Osvaldo Silva, autor de três golos - um de penálti e outro de livre direto -, e Geraldo Carvalho, mais conhecido por Géo, construíram a reviravolta dos verdes e brancos, numa competição disputada pelos vencedores das taças nacionais dos países filiados na UEFA.
“Tocou-me defender o Best, que era o mais habilidoso deles. O treinador falou comigo e disse que eu seria o ‘best’ (o melhor, em tradução livre) do jogo. Nem sabia falar inglês, mas fiquei esclarecido com a ajuda do (colega de equipa) Alexandre Baptista e motivei-me muito”, contou Pedro Gomes.
Os adeptos marcaram presença massiva nas bancadas e até na pista do ciclismo em redor do relvado, inspirando o Sporting a reagir ao desaire de Old Trafford, selado por Bobby Charlton e pelo escocês Denis Law, cujo hat-trick incluiu dois penáltis, por entre o golo leonino de Osvaldo Silva.
“O Law era um goleador imparável, mas demos tudo por tudo em casa, não tivemos grandes problemas nem mudámos de estratégia. No regresso de Inglaterra, o (então diretor para o futebol) Mário Cunha tinha dito no avião que daria 20 contos (a cada jogador em caso de passagem). Dito e feito”, vincou o ex-defesa, totalista nas duas mãos e parte de um “coletivo unido”.
Perante a formação orientada pelo escocês Matt Busby, o Sporting utilizou treinadores diferentes, pois o brasileiro Gentil Cardoso foi demitido a meio da eliminatória e Anselmo Fernández, um dos arquitetos responsáveis pelo projeto do antigo estádio do clube, assumiu o comando da equipa, ficando o cargo de técnico de campo atribuído ao argentino Francisco Reboredo.
“O Anselmo era um grande motivador, acreditava sempre e tinha uma ideia do futebol diferente, apesar de não ser treinador. O Gentil dizia sempre o mesmo e já se estava a tornar um pouco aborrecido. A troca foi muito boa, sobretudo psicologicamente, pois não tínhamos muita fé no Gentil”, referiu.
O Sporting não conquistou troféus nacionais e foi terceiro classificado no campeonato, a 14 pontos do campeão Benfica, mas eternizaria a época 1963/64 com o único troféu internacional futebolístico, ao capitalizar um golo de canto direto de Morais na finalíssima diante do MTK Budapeste (1-0), em Antuérpia, após uma igualdade com os húngaros em Bruxelas (3-3).
Para trás tinham ficado, além do United, os italianos da Atalanta, os cipriotas do APOEL Nicósia, que sofreram em Lisboa a vitória mais ampla de sempre na história das provas europeias (16-1) - os seis golos nesse encontro de Mascarenhas também são recorde -, e os franceses do Lyon.
“É o único título europeu ou mundial do Sporting no futebol e deu grande riqueza ao clube”, terminou Pedro Gomes, justificando com a supremacia dos adversários a ausência de novos êxitos internacionais dos leões, que estão atrás dos rivais FC Porto e Benfica, com sete e dois, respetivamente.
Desde a reviravolta sobre os red devils, o Sporting nunca mais retificou as seis eliminatórias europeias iniciadas com derrotas por três ou mais golos, cenário que tentará contrariar na terça-feira, ao receber o Bodo/Glimt na segunda mão dos ‘oitavos’ da Liga dos Campeões, volvido o desaire na Noruega (3-0).

