Nem sempre o primeiro golpe é fatal, mas na Liga dos Campeões recente tem andado perigosamente próximo disso. Desde a abolição da regra dos golos fora, o guião das eliminatórias adquiriu contornos de uma crueza absoluta: quem sorri fora de casa na primeira mão, na esmagadora maioria das vezes, já tem um pé e meio na fase seguinte.
Os triunfos do Bayern de Munique no reduto do Real Madrid, do Atlético no Camp Nou e do Arsenal em Alvalade, no arranque destes quartos de final, são mais do que resultados de peso; são vaticínios estatísticos. Os números desde a alteração regulamentar revelam uma realidade incontornável: em 30 eliminatórias onde o visitante venceu o primeiro encontro, nada menos que 28 culminaram com o apuramento dessa mesma equipa. Um domínio quase hegemónico que deixa uma margem mínima para o imprevisto.
As duas exceções que confirmam a regra
Na verdade, o destino só divergiu deste rumo em duas ocasiões, rasgando um desfecho que parecia traçado. E não é por acaso que ambos os episódios contam com a assinatura do Paris Saint-Germain, emblema habituado a levar a imprevisibilidade da prova rainha ao limite.
A primeira reviravolta sucedeu nos quartos de final da temporada 2023/24. O Barcelona assaltou Paris com um 2-3 que parecia encaminhar a qualificação, mas, na segunda mão, o cenário transfigurou-se. Em pleno Camp Nou, o PSG operou uma reviravolta categórica com um 1-4: um duelo que começou com o golo de Raphinha, mas que descambou em goleada com os tentos de Dembélé, Vitinha e o bis de Mbappé.
A segunda exceção é ainda mais fresca na memória. Nos oitavos de final de 2024/25, o PSG caiu em casa perante o Liverpool por 0-1, mas em Anfield retribuiu o desaire com a mesma moeda, forçando a decisão nos penáltis. Foi na marca dos 11 metros que se completou a reviravolta, numa edição que ficaria eternizada pela conquista da tão almejada primeira Orelhuda dos parisienses.
Sporting e o balde água gelada de Havertz
A esta hercúlea tarefa estatística junta-se agora o Sporting. A equipa de Rui Borges lutou bravamente durante quase todo o encontro, mas a eficácia dos gunners gelou Alvalade no período de descontos. O golo de Kai Havertz, aos 90+1 minutos, foi um golpe duríssimo que deu ao Arsenal uma vantagem preciosa de 0-1.
Para os campeões portugueses, a missão em Londres ganha contornos de milagre estatístico: para além de terem de bater uma das equipas mais em forma da Europa no Emirates, terão de tentar tornar-se na terceira exceção a este paradigma recente, provando que a estratégia de Rui Borges ainda pode surpreender na capital inglesa.
Mística vs Realidade
É perante este cenário que o Real Madrid e o Barcelona também se encontram. A história recente nega-lhes o favoritismo, mas se há clube talhado para desafiar as probabilidades perante um colosso como o Bayern, é o emblema merengue. No caso dos blaugranas, a derrota caseira frente ao Atlético foi potenciada pela expulsão precoce de Pau Cubarsí, permitindo que Julián Álvarez e Sorloth construíssem a vantagem colchonera.
A próxima semana ditará se a Champions manterá o guião quase inevitável ou se Sporting, Real Madrid e Barcelona conseguirão redigir uma nova exceção. Por agora, a premissa mantém-se: na Europa, vencer fora de casa na primeira mão não é apenas uma vantagem; é, quase sempre, uma sentença.
