Recorde as incidências do encontro
Sem corrida para a bandeirola, sem punhos erguidos ao céu, sem grito libertador a tomar o protagonismo. Apenas um olhar baixo, quase recolhido, enquanto os companheiros o envolvem num abraço que sabe a qualificação e a alívio. A noite do Allianz Stadium entrega ao Galatasaray os oitavos-de-final da Liga dos Campeões e leva a assinatura de Victor Osimhen, mas o momento que fica gravado não é o golo: é a forma como esse golo é absorvido, quase contido. E é aqui que começa a história.
Porque Osimhen não é um avançado qualquer. É instinto, fogo e puro teatro. Vive cada bola como se fosse a última, protesta, luta, inflama-se em cada duelo. Frente à Juventus também foi assim: confrontos constantes com Gatti, braços abertos a pedir explicações ao árbitro, aquela tensão emocional que sempre o acompanha. O seu idioma é feito de chamas. Por isso, aquele silêncio após o golo pesa a dobrar.
A explicação, pelo menos a oficial, tem um nome e um rosto bem definidos: Luciano Spalletti. O homem que o transformou no ponta-de-lança completo admirado em Nápoles, o treinador que agora ocupa o banco dos bianconeri e que representa uma parte decisiva do seu crescimento.

“Não era preciso festejar. Acho importante respeitar um homem a quem tive muito carinho e que teve um papel fundamental na minha carreira, falo obviamente de Spalletti”.
Nessas palavras há muito mais do que um simples gesto de educação desportiva. Há a memória de um Nápoles que o consagrou, de um treinador que moldou os seus movimentos: “O Spalletti tirou o melhor de mim, preocupava-se tanto que até dormia no centro de treinos. Estou-lhe em dívida”, confessou na véspera. E essa dívida emocional, de certa forma, materializou-se naquele golo sem celebração.
Uma mensagem para o futuro?
No entanto, por baixo da superfície do respeito e da gratidão, permanece uma dúvida que atravessa a noite europeia: terá sido apenas um gesto emotivo ou também uma mensagem? Porque poucos dias antes, Osimhen tinha deixado uma porta aberta que não passou despercebida: “Eu na Juve? Seria um privilégio”.
Palavras de peso, sobretudo vindas de um avançado que saiu de Nápoles entre fricções, mal-entendidos e a sensação de uma história terminada antes do tempo. Agora encontra-se na Turquia, num campeonato que lhe é pequeno para o talento e para a idade – 27 anos, pleno da maturidade futebolística – e que parece mais uma etapa do que um destino.
O seu golo aos bianconeri, seguido daquela ausência de celebração, parece quase um curto-circuito narrativo: marca à equipa “pela qual 90% dos jogadores sonham jogar”, fá-lo diante do treinador que o fez crescer e escolhe o silêncio. Uma atitude que, no futebol moderno, muitas vezes acompanha quem já está com a cabeça noutro lado, quem sente que o próximo capítulo está prestes a ser escrito.
Não há certezas, apenas pistas. Mas no futebol, como nas grandes histórias, são os detalhes que fazem a diferença. E aquele silêncio de Osimhen, num estádio cheio e numa noite de tudo ou nada, pode revelar-se uma pista nada desprezável.
