Exclusivo com Nayeli Rangel, figura histórica do Tigres: "Os portugueses são muito bem vistos no México"

Nayeli Rangel construiu uma história de sucesso no México
Nayeli Rangel construiu uma história de sucesso no MéxicoClub Tigres Femenil

Nayeli Rangel é uma das figuras mais carismáticas do futebol mexicano. A média, que passou de adepta fervorosa a jogadora do Tigres, vive uma nova fase da sua carreira na Turquia, onde partilha balneário com a portuguesa Ana Dias, e continua a sentir que tem muito para dar dentro dos relvados. Esta é uma entrevista exclusiva ao Flashscore.

Acompanhe o Fomget GSK no Flashscore

“Não estavam preparados para ver uma rapariga jogar futebol.”

A frase resume bem o ponto de partida de Nayeli Rangel, num contexto em que o futebol feminino ainda lutava por afirmação no México. Entre jogos com rapazes no bairro e a ausência de estruturas organizadas para mulheres, a média cresceu movida pela paixão e pela convicção de que podia ir mais longe.

Lutou pelo seu sonho nos Estados Unidos antes de atravessar o Atlântico rumo à Europa, onde acreditava que faria carreira. No entanto, o amor ao Tigres falou mais alto e “La Hincha que Juega” regressou ao México para fazer história, despedindo-se ao fim de oito anos, 200 jogos e muitos títulos.

Nesta entrevista exclusiva ao Flashscore, Nayeli revisita as origens, aborda as dificuldades iniciais, recorda conquistas e reflete sobre a evolução do futebol praticado por mulheres no México e no mundo, sem esquecer a amizade com a portuguesa Ana Dias e o que ainda a move todos os dias: a paixão pelo jogo.

Nayeli viveu momentos de glória no Tigres
Nayeli viveu momentos de glória no TigresČTK / imago sportfotodienst / JONATHAN DUENAS

"O futebol ainda não era bem visto para as mulheres"

- Quais as primeiras memórias que tem relacionadas com o futebol?

O meu pai sempre foi muito ligado ao futebol, assim como toda a família. Tenho dois irmãos mais velhos e, em Monterrey, vive-se intensamente o jogo. Sendo todos homens lá em casa, ninguém esperava que eu, ainda tão nova, também me apaixonasse pela modalidade.

Acho que nasce muito desse contexto: crescer rodeada de irmãos com uma grande paixão pelo futebol e de um pai que jogou e vive o jogo de forma muito intensa. Foi a observá-los e a sentir essa paixão que comecei a criar também a minha ligação ao futebol.

Lembro-me de pensar: eu também quero jogar, também quero dedicar-me a isto. Desde muito nova senti essa ligação muito forte.

- Quando surge a oportunidade de integrar pela primeira vez um contexto de clube?

Em Monterrey era muito complicado. Estamos a falar de há cerca de vinte anos, numa altura em que, no México, o futebol ainda não era bem visto para as mulheres. Se quisesses seguir esse caminho, muitas vezes só o podias fazer já na universidade ou procurando oportunidades noutro país.

Por isso, durante muitos anos joguei sempre com rapazes. Foi assim praticamente toda a minha infância, sem um contexto competitivo organizado, apenas na comunidade, no bairro. Só por volta dos onze anos, já na escola, tive o primeiro contacto com uma equipa feminina mais estruturada. E senti que, de certa forma, já vinha tarde... Mas, naquela altura, era mesmo muito difícil.

Nayeli teve passagem de sucesso pelo Tigres
Nayeli teve passagem de sucesso pelo TigresOpta by Stats Perform, Arquivo Pessoal

- A comunidade aceitava bem uma rapariga no meio dos rapazes?

Não era algo comum. Era quase como se não estivessem preparados para ver uma rapariga jogar ou gostar de futebol. Havia comentários pouco apropriados, sobretudo por parte dos miúdos, e muitas vezes não levavam a sério o facto de eu gostar mesmo da modalidade.

Existia também aquela rivalidade típica: como é que uma rapariga podia jogar melhor do que eles? Criava-se um ambiente de competição constante. Ainda assim, cresci num contexto em que nunca me faltaram ao respeito. Os meus amigos estiveram sempre ao meu lado e os meus irmãos eram os primeiros a defender-me, o que me dava uma grande sensação de proteção.

Para muita gente, continuava a ser surpreendente. Ouvi muitas vezes: 'Jogas futebol?' ou até aos meus pais: 'Deixas a tua filha jogar?'. Ainda assim, tive sempre uma base familiar muito forte e senti que teria apoio, independentemente do caminho que escolhesse.

Nunca tive grandes inseguranças nem deixei que esses comentários me afetassem. O amor e o apoio da minha família fizeram toda a diferença.

- Tendo em conta que o futebol feminino no México ainda não estava tão desenvolvido nessa altura, quando é que sentiu que precisava de dar o passo em frente e sair do país? Como surgiram as oportunidades de ir para os Estados Unidos e, mais tarde, para Espanha, e o que pesou nessa decisão?

Já levava alguns anos na seleção, mas a realidade era sempre a mesma: regressava a Monterrey e voltava a treinar sozinha. Começou a tornar-se muito complicado e cheguei a pensar que nunca iria existir uma liga profissional no México. 

Entretanto, surgiu uma oportunidade através de uma parceria entre Canadá, Estados Unidos e México, que permitia às jogadoras integrarem uma nova liga nos Estados Unidos, numa tentativa de relançar a competição com maior equilíbrio entre equipas.

Nessa altura, estava dividida entre continuar os estudos, com uma bolsa universitária nos Estados Unidos, ou avançar para o profissionalismo. Era uma decisão importante: entre uma formação académica financiada e o sonho de me tornar futebolista profissional.

Apesar da dúvida, sempre senti que queria ser profissional. O meu pai apoiou-me em tudo e disse-me para pensar no meu sonho, lembrando que os estudos estariam sempre lá. Senti que, se não aproveitasse aquela oportunidade, me iria arrepender. Queria sair do país, testar-me e perceber o nível lá fora.

Acabei por seguir para os Estados Unidos e foi uma experiência muito enriquecedora. Cresci como jogadora e como pessoa, e percebi que precisava de continuar a desafiar-me. Se tivesse ficado no México, provavelmente não teria alcançado muitas das coisas que hoje consegui.

Nayeli sempre foi adepta do Tigres
Nayeli sempre foi adepta do TigresArquivo Pessoal

De adepta a jogadora do Tigres: "Vivi momentos inesquecíveis"

- Depois surge a possibilidade de regressar ao México. Quando recebe o convite do Tigres, um clube pelo qual já tinha uma ligação especial enquanto adepta, o que é que lhe passou pela cabeça nesse momento e até que ponto essa relação pesou na decisão?

Na verdade, não foi algo muito pensado. Quando fui para Espanha, dizia aos meus pais que não voltaria tão cedo, que ficaria pela Europa, fosse em Espanha ou noutro país. Sentia que estava num bom momento para crescer e expandir a minha carreira.

Mas não contava com o que viria a acontecer no México. O Tigres começava a apostar forte e surgia uma nova liga feminina. Cresceu em mim a vontade de fazer parte desse primeiro momento e, claro, de jogar no Tigres. Sempre foi o meu grande sonho desde pequena, embora durante muito tempo parecesse impossível.

Falei com os meus pais, como sempre, e o meu pai disse-me: 'Faz o que o teu coração disser'. Em Espanha queriam que renovasse, mas senti que tinha de voltar. Foi uma decisão de coração.

Com o tempo, percebi que foi uma das melhores decisões da minha carreira. Houve quem criticasse, por ter regressado ao fim de um ano na Europa, mas senti que era o caminho certo. Conquistei tudo o que queria com o Tigres, ganhei títulos e vivi momentos únicos. Nunca me vou arrepender.

- 4 de maio de 2018. É uma data muito importante, não é verdade?

Sim, o primeiro campeonato com o Tigres. Foi, sem dúvida, o mais especial. Era o meu sonho e também o de todo aquele grupo. Lembro-me de pensar que, se conseguisse levantar um troféu com o Tigres, podia dar-me por realizada e encerrar a carreira tranquila comigo mesma. Era esse o peso que tinha para mim.

Foi um momento muito marcante e continua a ser até hoje. Curiosamente, não me recordo de tantos detalhes de outras finais, mas dessa lembro-me de tudo. Foi, claramente, a mais especial.

- Ficou conhecida como “La Hincha que Juega" ("a adepta que joga"). Como é que nasce e se constrói essa ligação tão forte ao Tigres? E, depois, ao representar o clube durante tantos anos, com tantos jogos e títulos, essa emoção manteve-se sempre presente dentro de campo?

Aproveitei muito essa etapa no Tigres. Houve altos e baixos, sobretudo as lesões, algumas das mais duras da minha carreira, mas vivi momentos verdadeiramente mágicos. Aproveitei tudo, tanto o bom como o mau.

A ligação com os adeptos surgiu de forma muito natural e rápida. O Tigres sempre fez parte da minha vida: desde pequena que o meu pai me levava ao estádio e cresci com aquelas cores e aquele ambiente. Antes sequer de existir a liga, para mim já só havia o Tigres.

De repente, passei da bancada para o relvado. Aquilo que sempre vivi como adepta comecei a viver como jogadora, o que também me obrigou a perceber melhor o meu papel e a ganhar alguma contenção. Ainda assim, essa identidade manteve-se. Sempre fui vista como “a adepta que joga”, alguém que representava dentro de campo o sentimento de quem estava nas bancadas.

Foram anos muito marcantes. Vivi momentos inesquecíveis, conquistei títulos e vi o clube crescer dentro e fora do país. Foram oito anos que valeram muito a pena e uma etapa muito importante da minha vida.

- Olhando para trás, que significado tem para si ver o seu nome ligado à história do Tigres?

Espero que o meu nome permaneça com o passar dos anos e que as pessoas se lembrem de mim não só pelo que a equipa conquistou, mas pela forma como defendi o clube: pela paixão, pela entrega e por ter dado sempre tudo em campo.

Para mim, foi também muito importante fazer parte do início da liga e acompanhar o seu crescimento. Estive lá desde o primeiro momento, numa fase em que nem todos os clubes investiam da mesma forma e havia grandes diferenças competitivas. Com o tempo, isso foi mudando: houve mais investimento, mais equilíbrio e o futebol feminino no México ganhou outra dimensão.

A chegada de jogadoras estrangeiras foi um sinal claro dessa evolução. O campeonato começou a crescer, a ganhar reconhecimento, e isso enchia-me de orgulho enquanto mexicana.

Lembro-me de ouvir comentários depreciativos, de quem dizia que no México nem sequer havia liga. Hoje, a realidade é completamente diferente. Ver tantas jogadoras estrangeiras a quererem jogar no país mostra bem esse crescimento.

Tenho muito orgulho nesse percurso e espero que a liga continue a evoluir, que se afirme entre as melhores e que o México seja cada vez mais reconhecido, sobretudo no futebol feminino.

- O dia em que disse adeus ao Tigres, depois de tantos anos e de uma ligação tão forte ao clube, foi especialmente difícil? Sentiu que estava a fechar um dos capítulos mais marcantes da sua vida?

Acho que foi das despedidas mais difíceis que já vivi. Foram muitos anos e muitos momentos, incluindo fases complicadas, como lesões duras, das quais consegui recuperar sempre com o apoio do clube. O Tigres esteve comigo em tudo isso, e isso pesa muito.

Chega a um ponto em que já não te imaginas noutro lugar. Eu sentia que estava exatamente onde queria estar: na minha cidade, no clube do meu coração, a viver o sonho que sempre tive. Para mim, fazia sentido ficar ali. Mas a vida muda e, às vezes, sair da zona de conforto é necessário. Foi uma despedida difícil e emotiva, mas sempre senti que ainda podia desafiar-me mais.

Quis viver o futebol noutros contextos, noutras ligas, e não queria terminar a carreira com essa dúvida. Mesmo sem saber quantos anos ainda teria pela frente, quis arriscar e perceber até onde podia ir. No fundo, foi uma decisão de crescimento, pessoal e desportivo. Quis provar a mim mesma que ainda era capaz de acrescentar valor noutro contexto. Era uma incógnita, mas também uma oportunidade de continuar a evoluir e aprender.

Nayeli representou a seleção mexicana em Mundiais
Nayeli representou a seleção mexicana em MundiaisMIKE COMER / GETTY IMAGES NORTH AMERICA / GETTY IMAGES VIA AFP

Mundiais e a braçadeira de capitã na seleção do México: "Missão cumprida"

- Acredito que representar a seleção do México foi uma parte muito marcante da sua carreira. Que significado teve para si esse percurso e de que forma viveu cada etapa, desde as primeiras chamadas até à despedida?

Para uma futebolista, representar o seu país é o mais bonito e o mais importante. Vestir a camisola da seleção, ouvir o Hino e sentir o apoio das pessoas é algo muito especial. Está acima de tudo. Para mim, foi um enorme orgulho. Foram muitos anos, muitas competições e guardo memórias muito boas. Aproveitei cada momento e saí com a sensação de missão cumprida.

Quando deixei de ir, não senti saudade, porque senti que tinha dado tudo. Ficou por concretizar o sonho dos Jogos Olímpicos, mas sei o quão difícil isso é. Ainda assim, participei em Mundiais e em várias competições e vivi a seleção em diferentes níveis.

Saí tranquila, sem mágoas, também por sentir que era o momento de dar espaço a novas gerações. Sempre foi uma honra representar o meu país e ajudar a levar o nome do México mais longe.

Ser capitã foi igualmente muito especial. É um privilégio e uma grande responsabilidade. Despedi-me com um sentimento de gratidão por tudo o que vivi e aprendi. O futebol dá-nos muito mais do que competição: dá-nos crescimento.

- É difícil escolher um momento marcante na seleção?

Acho que tenho dois momentos muito marcantes. O primeiro foi no meu primeiro Mundial de sub-20. Usei a braçadeira de capitã, marquei o meu primeiro golo e conseguimos algo inédito: pela primeira vez, uma seleção jovem do México qualificou-se para os oitavos de final, depois de passar em primeiro lugar no grupo.

Foi um ponto de viragem. O jogo teve visibilidade, passou na televisão e ajudou a dar maior projeção ao futebol feminino e às seleções de formação. Depois, já na seleção principal, vivi outro momento especial. No ano seguinte, tive a oportunidade de disputar um Mundial, numa altura em que o México regressava à competição ao fim de vários anos.

Tinha 19 anos e fui titular. Na altura, talvez não tivesse plena noção da dimensão, mas hoje percebo o quão importante foi, até por estar ao lado de jogadoras muito experientes, como Maribel Domínguez, que era uma referência no México. Olhando para trás, são dois momentos que guardo com enorme orgulho.

Nayeli viveu momentos inesquecíveis na seleção do México
Nayeli viveu momentos inesquecíveis na seleção do MéxicoOpta by Stats Perform, Arquivo Pessoal

- A Nayeli é reconhecida por ser uma voz muito ativa em campo e por ter um perfil de liderança forte. Sente que essa capacidade nasceu consigo ou foi algo que foi desenvolvendo ao longo do tempo?

Às vezes penso que isso é algo com que já se nasce. Claro que a educação influencia, mas, no meu caso, sempre senti que fazia parte de mim. Desde muito nova que comunicava muito dentro de campo. Para mim, é difícil jogar sem falar. Sempre tive essa necessidade de orientar, ajudar e estar ligada ao jogo. Também tinha um lado muito competitivo, não gostava de perder e sentia-me responsável, até pelos erros dos outros, o que me fazia trabalhar ainda mais.

Fui crescendo com esse sentido de compromisso e responsabilidade. Nunca senti que tivesse aprendido a ser líder. Foi algo natural, também influenciado pela educação que tive e pela exigência do meu pai. Acabou por se tornar uma característica muito minha. Ainda hoje sinto isso: mesmo noutro país, com outra língua, faço um esforço para comunicar. Porque, se não o fizer, sinto que não sou eu dentro de campo.

- Ao longo da sua carreira enfrentou várias lesões difíceis. O que é que esses momentos lhe ensinaram e de que forma a moldaram como jogadora e como pessoa?

Sem dúvida, aquilo que sou hoje nasce muito dessas experiências. Tive lesões muito duras, seguidas, ao joelho, e até uma fratura na cara. Situações que podiam ter colocado um ponto final na minha carreira. Mas continuei a lutar e o futebol acabou por me recompensar. Hoje olho para trás e vejo que essas fases me deram uma força enorme. Tornaram-me alguém que não desiste, que não baixa os braços e que luta até ao fim.

As lesões moldaram muito o meu caráter. Tornaram-me mais trabalhadora, disciplinada e resiliente. Por estranho que pareça, ainda bem que passei por isso, porque sem essas dificuldades talvez não tivesse alcançado o que consegui. Foram momentos duros, mas essenciais para o meu crescimento. Ensinaram-me a valorizar o meu corpo, a perceber do que sou capaz e a acreditar que é possível voltar ainda mais forte.

Nayeli no treino do Fomget
Nayeli no treino do FomgetArquivo Pessoal

Novo capítulo na Turquia: "Não queria arrepender-me de não ter saído da zona de conforto"

- Agora, na Turquia, como está a ser esta nova experiência? Está a corresponder às suas expectativas e que balanço faz desta fase até ao momento?

É uma experiência muito diferente. Impacta-me em vários aspetos, porque é uma cultura completamente distinta daquilo a que estava habituada no México. O país, a língua, a comunicação… tudo influencia. Ao mesmo tempo, é um desafio. Não é fácil chegar e adaptar-me automaticamente, mas encontrei boas pessoas e senti que as minhas colegas souberam acolher-me. Também fui conquistando o meu espaço pela forma como trabalho.

Tem sido complicado, mas não impossível. A adaptação exige tempo, sobretudo quando surgem frustrações ligadas à língua ou a coisas que ainda não compreendo totalmente. Quando tomei a decisão de sair, sabia que podia ser um processo exigente. Tinha essa consciência e estou tranquila com isso. Estou focada em dar o melhor de mim e em aproveitar cada dia.

Acima de tudo, estou grata por esta oportunidade de viver uma realidade diferente e de conhecer outras formas de ver o futebol. Seja nas experiências boas ou más, há sempre algo a aprender.

- Foi também uma forma de se colocar à prova? Sentiu que precisava deste novo desafio, de sair da sua zona de conforto, de um clube onde estava há tanto tempo e do seu país?

Sim, senti claramente que era o momento certo para sair e perceber o que o futebol e a vida ainda tinham para me oferecer. Se corresse bem, ótimo; se não, sabia que outras oportunidades surgiriam. E casa será sempre casa. Não queria ficar com a sensação de não ter tentado. Ainda tinha ambição e vontade de ganhar noutro contexto. Senti que, no Tigres, já tinha conquistado tudo e precisava de um novo desafio. 

Não sabemos como estaremos daqui a dois ou três anos, por isso não quis adiar essa decisão. Mais do que o resultado, o importante era desafiar-me, física e mentalmente, num contexto diferente. Hoje estou tranquila, focada no meu trabalho e grata por continuar a jogar futebol, que é aquilo que mais gosto.

- Quais foram as principais diferenças que encontrou entre o futebol europeu e o futebol mexicano? Teve também a oportunidade de disputar competições europeias pelo Fomget. Na sua perspetiva, o que distingue atualmente estas duas realidades?

Acho que são contextos diferentes, mas, de certa forma, a Turquia está agora numa fase semelhante àquela por que o México passou há alguns anos. Ainda falta investimento, visibilidade e maior aproximação do público. Ao mesmo tempo, são realidades distintas. A cultura, a religião e a forma de viver influenciam o desenvolvimento do futebol, mas acredito que há margem para crescer com mais investimento e exposição.

A existência de competições importantes também ajuda. Tive a oportunidade de disputar a Liga dos Campeões e a Taça Europa, o que permite contacto com equipas mais preparadas e contribui para a evolução.

Olhando para o México, o percurso foi semelhante: houve mais investimento, maior acompanhamento do público e o futebol feminino ganhou outra dimensão. Hoje, a liga está num nível muito elevado. Espero que esse crescimento aconteça também aqui. Onde quer que esteja, procuro um contexto competitivo e em evolução. Depois, há diferenças no estilo de jogo: no México é mais técnico e coletivo; na Europa, muitas vezes mais físico e direto.

Nada disso está certo ou errado, são apenas formas diferentes de jogar. O importante é que haja crescimento, porque isso faz parte do desenvolvimento de qualquer liga.

- Nayeli, o futebol feminino é hoje muito diferente do que era quando começou. Como foi acompanhar essa evolução ao longo da sua carreira e como imagina que estará daqui a dez anos?

Sempre digo às jogadoras mais jovens que devem valorizar o que têm hoje, porque tudo isto foi construído ao longo de muitos anos, com muito esforço e com o contributo de muitas pioneiras. A mim calhou-me já uma fase mais avançada desse processo, mas teria sido incrível viver isto mais cedo.

Para mim, a palavra-chave é valorização. Não só no México, mas em vários países. Espero que, dentro de alguns anos, o futebol feminino esteja completamente normalizado e que se fale das equipas femininas com a mesma naturalidade que se fala dos grandes clubes, como o Real Madrid, Barcelona ou Manchester United.

Acredito que vamos chegar a esse ponto, com mais investimento, mais visibilidade, mais talento e estádios cheios. Isso será positivo sobretudo para as gerações mais novas, que terão mais oportunidades de concretizar os seus sonhos. O mais importante é que este crescimento continue. O futebol feminino lutou muito para chegar até aqui e merece continuar a evoluir.

Nayeli com a portuguesa Ana Dias no treino do Fomget
Nayeli com a portuguesa Ana Dias no treino do FomgetArquivo Pessoal

Ligação a Portugal: "É muito fácil jogar com a Ana Dias"

- Gostava também de explorar a ligação a Portugal. Teve colegas portuguesas no Tigres, como a Ana Seiça e a Ana Dias, e agora volta a partilhar balneário com a Ana Dias no Fomget, além de ser representada por uma agência portuguesa. 

A verdade é que tive uma ligação muito boa com elas desde o início, desde que chegaram ao Tigres. Sempre foram muito trabalhadoras e responsáveis e senti logo uma grande afinidade. No México, os portugueses são muito bem vistos, pela proximidade da língua, da cultura e também pelo futebol.

Foi, por isso, fácil criar essa ligação, dentro e fora de campo. Sempre senti confiança e um carinho que iam além do futebol. Nos momentos bons e nos mais difíceis, estivemos sempre próximas. Agora, voltar a partilhar equipa com a Ana Dias também tem um significado especial. Ajuda muito estar num país diferente com alguém com quem já partilhaste experiências. Torna tudo mais simples e menos solitário.

Sentimo-nos mais confortáveis e seguras, como se tivéssemos um ponto de apoio num contexto novo. E isso faz toda a diferença numa fase de adaptação. No fundo, ter alguém por perto com quem já tens essa ligação torna tudo mais fácil. Para mim, tem sido muito importante e uma fonte de tranquilidade e alegria nesta nova etapa.

- Qual a sua opinião sobre o futebol da Ana Dias e onde acredita que pode chegar?

Para mim, é uma jogadora muito completa. Destaca-se pela capacidade física e pela forma como se adapta a diferentes contextos dentro de campo. Tem um grande instinto de golo, sabe posicionar-se e aparecer nos momentos certos. Além disso, transmite uma enorme determinação e uma vontade constante de competir e vencer, uma “fome” de ganhar que nem sempre é fácil de encontrar. Esse perfil é fundamental em qualquer equipa, porque eleva o nível do grupo.

É também muito fácil jogar com ela. Tem boa leitura de jogo, movimenta-se bem e dá mais fluidez ao coletivo. Resumindo, é uma jogadora muito completa, com uma mentalidade forte e capacidade para fazer a diferença.

Nayeli conquistou vários títulos no México
Nayeli conquistou vários títulos no MéxicoArquivo Pessoal

"Sou muito grata ao futebol"

- Aos 34 anos, o que é que ainda quer conquistar? O que é que ainda a move dentro de campo e fora dele? Continua a acordar com a mesma paixão e ambição pelo futebol?

Acho que esse é o meu “problema”, no bom sentido: continuo completamente apaixonada pelo futebol. Nunca o vi como um trabalho, sempre foi a minha paixão. Às vezes penso na minha idade, mas rapidamente percebo que ainda tenho vontade de continuar. Só vou parar quando o meu corpo disser que já não dá mais.

Com o passar dos anos, há mais responsabilidade. É preciso cuidar melhor do corpo, descansar e ter outros cuidados, mas a ambição continua lá. Acordo todos os dias com vontade de ganhar. Hoje, os meus objetivos são diferentes. Quis sair do país, testar-me noutro contexto e perceber até onde consigo ir.

Tenho um objetivo claro: regressar ao México mais à frente na carreira, idealmente depois de conquistar títulos fora. Quero aproveitar ao máximo esta etapa e voltar com a sensação de missão cumprida, de que arriscar valeu a pena e de que fui capaz de vencer fora. Esse é, neste momento, o meu grande objetivo.

- Nayeli, se pudesse encontrar a Nayeli de oito ou nove anos, o que é que lhe diria?

Que nunca desista. Que a vida nem sempre será justa, mas que isso faz parte do caminho. Que siga sempre em frente, com força, sobretudo a nível mental, e que desistir nunca seja uma opção. Que, mesmo quando tudo parece escuro, o sol acaba sempre por voltar a aparecer. É isso que lhe diria, sem qualquer dúvida.

- E se o futebol fosse uma pessoa como nós, o que lhe diria?

Sou muito grata ao futebol. Tornou-me na pessoa que sou hoje, ensinou-me muito e ajudou-me a conquistar tudo aquilo que tenho. Também me fez crescer e perceber aspetos da minha vida que precisava de mudar. Mas, acima de tudo, destaco as pessoas que conheci através do futebol. É, talvez, o mais importante que levo comigo. Trouxe-me pessoas muito especiais, que vou guardar para sempre, e outras que, mesmo por menos tempo, deixaram a sua marca.

Não tenho nada a apontar ao futebol. Pelo contrário, sinto-me profundamente grata todos os dias. Diria apenas: obrigado.

- O que é que espera que digam sobre quem foi dentro e fora do futebol no dia em que decidir terminar a sua carreira?

Gostava que as pessoas se lembrassem de mim como alguém muito apaixonada pelo que fazia, mas, acima de tudo, como uma boa pessoa. Alguém que ajudou, dentro e fora do futebol. Mais do que os títulos, gostava que me recordassem pelo lado humano, pela forma como tratei os outros e pelo que consegui dar aos que estiveram à minha volta. Se, de alguma forma, consegui ajudar alguém, especialmente em momentos difíceis, então já valeu a pena.

- A sua carreira tem sido melhor do que alguma vez imaginou?

Acho que superou tudo aquilo que alguma vez sonhei. Consegui cumprir os sonhos que tinha em criança: jogar fora, representar o meu país, jogar no Tigres. Mas a realidade acabou por ir ainda mais longe do que imaginava.

Não esperava conquistar tanto, nem viver tantas experiências. E percebo que, mesmo quando achamos que já não há mais nada que nos possa surpreender, a vida acaba sempre por o fazer. Esse é também o lado bonito do futebol: ir além das expectativas. E, por tudo isso, só posso sentir-me grata.