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Foi campeão em Malta, está há quatro meses sem clube e confessa: "É uma sensação de vazio"

Chico Teixeira conquistou o campeonato de Malta
Chico Teixeira conquistou o campeonato de MaltaArquivo Pessoal, Flashscore

Do bairro para o topo do futebol português. Chico Teixeira cresceu em Marvila, fez toda a formação no Oriental e chegou ao principal escalão do futebol português pela porta do Belenenses SAD. Pelo caminho, cruzou-se com figuras como Silas e Petit, viveu a instabilidade dos azuis, passou pelo Penafiel e aventurou-se no estrangeiro, onde se sagrou campeão ao serviço do Floriana, em Malta.

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Aos 28 anos, o médio ofensivo atravessa um dos momentos mais delicados da carreira. Está há quatro meses sem clube, treina praticamente três vezes por dia e aguarda por uma oportunidade para voltar a fazer aquilo de que mais gosta. Uma espera que admite ser difícil de gerir, sobretudo do ponto de vista psicológico, mas que não lhe retira a convicção de que ainda tem muito para oferecer ao futebol.

Em entrevista exclusiva ao Flashscore, Chico Teixeira abre o livro sobre as origens, recorda os bastidores da chegada à Liga, aborda os problemas que marcaram a experiência em Malta e fala sem rodeios sobre o presente e as (in)certezas do futuro.

Chico Teixeira fala sobre o seu amor ao futebol
Chico Teixeira fala sobre o seu amor ao futebolOpta by Stats Perform, Arquivo Pessoal

"O bairro ensinou-me a ser humilde e a nunca esquecer de onde vim"

- Nasceu em São Sebastião da Pedreira, em Lisboa, mas cresceu em Marvila, na zona de Chelas, onde começou a jogar futebol na rua, muitas vezes descalço e sem grandes regras. Que memórias guarda desses tempos?

Guardo muitas memórias. Passei praticamente toda a infância e adolescência a jogar futebol no Oriental e foram dos melhores anos da minha vida, porque vivia o futebol na sua forma mais pura. Quando somos crianças, não pensamos na profissão, no rendimento ou em qualquer outra coisa. Só queremos ter a bola nos pés, fintar, marcar golos e divertir-nos.

Aproveitei ao máximo esses anos com os meus amigos e companheiros de equipa. Acho que essa paixão enorme pelo futebol também foi uma das razões que me permitiu chegar a outros patamares. Era o meu sonho chegar ao mais alto nível do futebol português e, se possível, ir ainda mais longe. Felizmente, consegui alcançar a Primeira Liga, mas nunca tive como objetivo chegar lá e ficar por aí.

- O que é que ainda hoje leva daquele miúdo para dentro de campo? O que lhe ensinou o futebol de bairro que dificilmente aprenderia numa academia?

Acho que o bairro nos ensina muitas manhas, sobretudo na forma de jogar e de lidar com a bola. Estamos constantemente a brincar e a jogar futebol. Acabamos por aprender a fintar de maneiras completamente diferentes, a experimentar coisas que, num contexto mais organizado, se tornam difíceis de fazer.

No bairro, jogamos com uma liberdade enorme. E acho que isso acaba por passar para o campo. Quando cresces habituado a jogar sem tantas limitações, consegues transportar alguma dessa liberdade para o futebol profissional. Claro que precisas de ter confiança em ti, mas essa capacidade de brincar com a bola ajuda muito. E há outra coisa que nunca perdi: o bichinho de jogar futebol.

Continuo a sentir aquelas borboletas na barriga antes de entrar em campo. A vontade de tocar na bola, de jogar e de me divertir é exatamente a mesma. Neste momento, estou sem clube, mas tento sempre dar uns toques com os meus amigos, também para não estar parado. A paixão continua intacta. É uma coisa que nunca saiu de mim.

Chico Teixeira cumpriu toda a formação no Oriental
Chico Teixeira cumpriu toda a formação no OrientalArquivo Pessoal

- Em 2021, Petit descreveu-o como um "jogador de bairro", numa altura em que já competia na Liga. Como recebeu essas palavras? Sente que essa identidade o beneficiou ou, por vezes, também o prejudicou?

Recebi as palavras do Petit como um grande elogio. Acho que um jogador de bairro tem características diferentes de alguém que fez toda a formação num clube como o Benfica ou o Sporting. E eu não venho desses contextos. Fiz toda a minha formação no Oriental, porque adorava o clube. O Oriental é o meu clube de paixão. Nunca quis sair de lá. Durante a formação, tive alguns convites de outros clubes da região de Lisboa, alguns até em divisões superiores, mas nunca pensei seriamente em mudar. Gostava de estar com os meus amigos e saber que, às oito da noite, ia para o treino divertir-me. Isso fazia parte da minha essência.

Acho que foi também isso que o Petit quis transmitir. Sou uma pessoa do bairro, gosto muito de jogar futebol e tenho essa maneira de estar também nas relações pessoais. Dou-me bem com toda a gente e nunca fui uma pessoa de criar conflitos. Por isso, considero que essa identidade só me beneficiou.

É verdade que o futebol atual está muito mais padronizado. Hoje dá-se uma importância enorme aos dados e ao rendimento, e acho bem que assim seja. Mas também considero que não devemos perder a essência do futebol. O que nos dá alegria quando vamos ver um jogo? É ver um jogador fazer algo diferente, brincar com a bola ou marcar um golo de uma maneira inesperada. É isso que nos atrai ao futebol e, hoje em dia, talvez já não vejamos tanto esse lado do jogo.

- Muitas vezes, quando se fala em bairros sociais, surgem associações negativas. No seu caso, que valores e ensinamentos retirou de ter crescido num bairro? Como é que essa realidade o moldou enquanto pessoa?

Nunca vivi num bairro que considerasse problemático, longe disso. Durante os 18 ou 19 anos em que lá vivi, nunca tive problemas graves com ninguém. Podia haver uma ou outra desavença, mas nada de especial. O bairro ensinou-me muitas coisas, sobretudo a respeitar os outros, a ser humilde e a nunca esquecer de onde vim.

Quando alguém consegue construir uma carreira partindo de uma realidade com menos oportunidades, sente um orgulho enorme. E as pessoas do bairro também ficam orgulhosas desse percurso. Sempre que lá vou, é uma festa. Os amigos do meu pai perguntam-me como estão as coisas, querem saber da minha carreira e preocupam-se comigo. Às vezes, até tento desviar a conversa, mas eles insistem! É quase como uma família. Não somos propriamente uma família, mas existe um verdadeiro sentido de comunidade.

Claro que há aspetos negativos, como em qualquer sítio, mas também há muitas coisas positivas. Sempre tive educação e princípios. Nunca fui uma pessoa de faltar ao respeito aos outros ou de me envolver em situações erradas. Cresci num bairro social e tenho muito orgulho nisso, tal como tenho orgulho no percurso que construí. E acredito que as pessoas que continuam a viver lá também sentem esse orgulho por mim.

Chico Teixeira estreou-se na Liga com as cores da B SAD
Chico Teixeira estreou-se na Liga com as cores da B SADArquivo Pessoal

"O Petit gostou do que viu e disse logo: 'Este miúdo vai ficar cá'"

- Quando é que percebeu que o sonho de ser futebolista profissional podia tornar-se realidade? A passagem do Oriental para o Belenenses foi um momento decisivo?

Acho que a grande viragem aconteceu entre o meu primeiro e o segundo ano de juniores. No primeiro ano, tive uma pequena lesão e não jogava tanto quanto gostaria. Havia jogadores mais velhos, com mais experiência, e sentia alguma frustração porque acreditava que tinha qualidade para ajudar a equipa.

Nesse verão, o meu treinador, José Pedreira, chamou-me e disse: "Olha, este verão vamos para o ginásio. Vou trabalhar contigo para chegares à próxima época numa condição incrível." E foi isso que fizemos. Passei o verão inteiro no ginásio, praticamente todos os dias, com a alimentação muito controlada.

A verdade é que cheguei ao segundo ano de juniores e marquei 19 golos no campeonato. Acabei por ser chamado à equipa sénior, juntamente com outro jogador. Naquela altura, as oportunidades para os jovens eram muito escassas. Hoje, há equipas seniores que integram oito ou nove miúdos, mas, naquele tempo, subir um ou dois já era muito.

Comecei a trabalhar com o mister Toni Pereira, que me deu algumas reprimendas, próprias de quem estava a lidar com um miúdo. No início, era difícil jogar, porque havia futebolistas muito mais experientes. Mas, a partir de janeiro, tive uma oportunidade, marquei um golo e comecei a jogar regularmente até ao final da época.

Foi depois disso que surgiu o Belenenses Pelo que sei, o Silas foi assistir a um jogo de preparação entre o Oriental e o Torreense. Penso que estava interessado noutro jogador, o Bura, mas acabou por reparar em mim. Entretanto, fui contactado pelo Belenenses. Também existiu a possibilidade de ir para o Vitória SC, mas essa hipótese não avançou. Acabei por aceitar o convite do Belenenses e foi aí que começou uma nova etapa da minha carreira.

- Depois de tantos anos no Oriental, como foi a adaptação ao Belenenses? E como explica essa passagem tão rápida dos sub-23 para a equipa principal?

No início, foi um choque. Tinha passado toda a formação no Oriental e, de repente, estava num clube diferente, com outra realidade e outras exigências. Mas, ao fim de alguns meses, comecei a sentir-me muito bem.

Na época seguinte, com Pedro Ribeiro nos sub-23, estava a fazer uma boa temporada. Entretanto, os jogadores da equipa principal começaram a descer aos sub-23 e precisavam de jogar. Como eu também queria ter minutos, surgiu a possibilidade de ser emprestado ao Real SC.

Cheguei lá numa quinta-feira. O treinador era o Toni Pereira, que já me conhecia do Oriental, e disse-me que não iria convocar-me para o jogo desse domingo, mas que contava comigo na semana seguinte. Acabei por não chegar a jogar pelo Real Massamá.

Na terça ou quarta-feira seguinte, o Pedro Ribeiro assumiu a equipa principal do Belenenses e ligou-me: "Olha, vais voltar. Quero-te aqui." Foi tudo muito rápido. Estive cerca de uma semana no Real SC e regressei ao Belenenses. Inicialmente, continuei nos sub-23, porque não podia ser inscrito na equipa principal. Joguei regularmente até dezembro, altura em que tive uma lesão. Entretanto, o clube decidiu fazer-me um contrato profissional.

Mais tarde, em junho, estava a trabalhar com o Júlio, o treinador de performance. Como ele não queria que treinasse em relvado sintético, pediu ao Petit, que estava na equipa principal, autorização para eu fazer alguns treinos em relva natural. Fui treinar com a equipa principal e as coisas correram muito bem. Estava solto, confiante e consegui mostrar as minhas qualidades. O Petit gostou do que viu e disse logo: "Não, este miúdo vai ficar cá." E foi o que aconteceu.

Se olharmos para trás, houve dois ou três acontecimentos que mudaram completamente o meu percurso. Claro que também tive alguma sorte, mas gosto de acreditar que estava destinado a acontecer.

- E como viveu o momento da estreia na Primeira Liga, depois de um percurso tão ligado ao futebol de formação e aos escalões inferiores?

Foi uma sensação espetacular. Lembro-me de ter vivido a estreia com muita felicidade e de ter tentado aproveitar cada segundo. Estar dentro de campo, na principal competição do futebol português, foi uma sensação incrível. Era aquele bichinho de que falávamos há pouco, mas agora num palco completamente diferente. Estava mesmo muito feliz. Aproveitei cada minuto como se fosse o último.

- Olhando para o seu percurso, já com alguma distância, sente que poderia ter sido diferente? A instabilidade vivida na B SAD acabou por condicionar uma fase importante da sua carreira?

Quando olho para trás, sinto sempre orgulho no percurso que fiz, independentemente de ter tomado decisões melhores ou piores. Mas é evidente que houve momentos em que as coisas poderiam ter corrido de outra forma. Na B SAD, por exemplo, acredito que uma maior estabilidade entre o clube e a SAD teria sido muito benéfica para mim.

Tinha acabado de renovar por quatro anos, estava num contexto de Primeira Liga, em Lisboa, e via aquela oportunidade como uma forma de continuar a valorizar-me. Depois, assistimos a toda aquela instabilidade e as coisas acabaram por descambar. Não foi bom para mim nem para os restantes jogadores. Também tive algumas lesões, que são circunstâncias que não conseguimos controlar. Felizmente, neste momento, sinto-me bem fisicamente.

Depois, há a questão dos contextos desportivos. Às vezes, uma equipa está preparada para jogar de determinada maneira e as tuas características podem não ser as mais adequadas àquilo que o treinador procura. Sempre fui um jogador que tentou contribuir para um bom ambiente no balneário. Nunca gostei de criar problemas e procuro encarar as situações com tranquilidade. Claro que fico frustrado quando não jogo. Acho que qualquer jogador fica. Se não ficasse, alguma coisa estaria errada.

Tanto na B SAD como no Penafiel e no Floriana, dei sempre o máximo para ajudar os meus colegas e a equipa. O meu objetivo foi sempre continuar a crescer, valorizar-me e chegar a competições cada vez mais exigentes. Houve percalços, é verdade, mas não mudava o orgulho que sinto naquilo que construí.

E acredito que ainda tenho muito para dar. A minha carreira está longe de terminar e estou convencido de que ainda vêm coisas boas pela frente.

Chico Teixeira jogou no Floriana
Chico Teixeira jogou no FlorianaArquivo Pessoal

O título em Malta: "Queria mostrar o meu valor fora de Portugal"

- Depois de duas épocas no Penafiel, surgiu a oportunidade de jogar no estrangeiro, mais concretamente em Malta, ao serviço do Floriana. O que o levou a aceitar esse desafio? Foi uma decisão desportiva, financeira ou também uma forma de recuperar protagonismo dentro de campo?

Foram duas épocas algo difíceis no Penafiel, sobretudo porque não joguei tanto quanto gostaria. A decisão de sair foi essencialmente profissional. Queria abrir portas noutros mercados, mostrar o meu valor fora de Portugal e encontrar um contexto em que pudesse continuar a crescer.

Na altura, Malta não era propriamente a primeira opção. Estávamos à procura de oportunidades em campeonatos com maior visibilidade, onde pudesse valorizar-me mais. Mas surgiu o Floriana, com uma boa proposta, e houve um fator que pesou bastante: a possibilidade de lutar pelo título. Estávamos a falar de um clube histórico, com 26 ou 27 campeonatos conquistados, que habitualmente luta pelos primeiros lugares.

Até então, tinha vivido realidades diferentes. Na B SAD, passámos muito tempo a lutar pela manutenção e acabámos por descer de divisão. No Penafiel, também estávamos habituados a disputar campeonatos com esse objetivo.

É verdade que, no meu segundo ano em Penafiel, começámos muito bem. Chegámos a estar no primeiro lugar e batemos um recorde do clube em termos de resultados nas primeiras jornadas. Mas, a meio da época, as coisas deixaram de correr tão bem.

Por isso, a oportunidade de representar uma equipa que lutava para ser campeã e que podia disputar as fases de qualificação das competições europeias pareceu-me muito interessante. Era também a minha primeira experiência fora de Portugal. E a verdade é que comecei muito bem. Cheguei lá em excelente forma e, nos primeiros dois jogos, marquei um golo e fiz duas assistências.

- A estreia foi precisamente particularmente feliz, com um golo de livre. O que aconteceu depois desse início tão prometedor?

O início foi realmente muito bom, mas depois surgiram algumas situações complicadas fora do futebol. Tive alguns atritos, o que nem sequer é habitual em mim, porque gosto de levar as coisas com tranquilidade e de manter boas relações com toda a gente. Foram questões exclusivamente extradesportivas, que acabaram por me prejudicar.

Talvez pudesse ter lidado com a situação de outra maneira, de forma a não sair tão prejudicado, mas foi um período delicado e difícil de gerir. Acredito que, se tivesse conseguido jogar regularmente durante toda a temporada, a continuidade no Floriana poderia ter sido uma possibilidade. Mas aqueles problemas acabaram por afetar a relação com algumas pessoas. O clube decidiu não continuar comigo e eu também já não me sentia totalmente bem naquele contexto.

- Em termos desportivos, que realidade encontra em Malta? Como avalia o campeonato, as infraestruturas e as condições de trabalho, comparando com aquilo que tinha conhecido em Portugal?

Encontrei uma realidade muito diferente daquela a que estava habituado em Portugal. Há aspetos em que o futebol maltês ainda precisa de evoluir bastante para se aproximar de campeonatos como a Primeira e a Segunda Liga portuguesas.

Um dos grandes problemas são os campos. As equipas treinam habitualmente em relvados sintéticos, muitos deles com pouca qualidade. Depois, para os jogos, existem poucos recintos disponíveis, incluindo dois campos de relva natural e um sintético com boas condições. Isso significa que vários clubes acabam por disputar os seus encontros nos mesmos estádios, com uma utilização muito intensa ao longo de cada fim de semana. Naturalmente, essa sobrecarga acaba por prejudicar o estado dos relvados.

- Apesar dessas dificuldades, conquistou o campeonato pelo Floriana. Que balanço faz da sua primeira experiência no estrangeiro e o que leva consigo dessa passagem por Malta?

Foi uma experiência muito positiva, sobretudo porque tive a oportunidade de conhecer um país e uma cultura completamente diferentes. E, acima de tudo, porque consegui ser campeão. Era um dos principais motivos que me tinham levado a aceitar o desafio e conseguimos concretizar esse objetivo. Isso é algo que ficará comigo para sempre.

Daqui a alguns anos, quando tiver filhos, vou poder regressar a Malta com a minha mulher e a minha família, mostrar-lhes as fotografias e dizer-lhes que fiz parte da história daquele clube. O meu nome ficará associado a uma conquista do Floriana, e isso tem um significado enorme para mim.

Claro que também houve dificuldades. O futebol maltês tem ainda muito caminho para percorrer e há várias condições que precisam de melhorar. No entanto, apesar dos obstáculos, guardo essa passagem com orgulho.

Chico Teixeira jogou duas temporadas no Penafiel
Chico Teixeira jogou duas temporadas no PenafielArquivo Pessoal

O desemprego aos 28 anos: "Sinto que podia estar a ajudar uma equipa"

- Aos 28 anos, depois de experiências em diferentes escalões do futebol português e também no estrangeiro, como se sente nesta fase da carreira? O que é que o Chico de hoje pode oferecer a um novo clube?

Sinto que sou um jogador mais experiente e preparado para abraçar um novo projeto, seja em Portugal ou no estrangeiro. Passei por diferentes realidades e procurei sempre dar o meu máximo. A experiência em Malta, por exemplo, podia não ter terminado da melhor maneira, mas fui campeão e trouxe de lá muitas aprendizagens.

Neste momento, estou há quatro meses sem clube, mas isso não significa que esteja parado. Muito pelo contrário. Treino praticamente três vezes por dia. Continuo a trabalhar com o Júlio, que conheci no Belenenses e que é o meu treinador de performance. Tenho um acompanhamento específico para me manter nas melhores condições físicas.

O que me custa é não estar a competir. Sinto que podia perfeitamente estar a ajudar uma equipa e, em vez disso, estou à espera de uma oportunidade. É uma sensação de vazio, porque aquilo que mais quero é jogar futebol.

- Como tem lidado psicologicamente com essa espera? Está constantemente à espera que o telefone toque ou consegue manter alguma tranquilidade?

Os meus amigos estão sempre a dizer-me: "Mano, não percebo como é que consegues estar tão tranquilo." Mas a verdade é que, por dentro, sinto muito esta situação. Quero jogar, quero ajudar uma equipa e voltar a fazer aquilo de que mais gosto. Simplesmente, sei que entrar em desespero não me vai ajudar.

Se começar a desesperar, posso acabar por aceitar uma proposta apenas porque quero voltar rapidamente ao futebol, sem avaliar se é realmente a melhor opção para mim. Por isso, tenho procurado manter o equilíbrio, sobretudo do ponto de vista psicológico. Acho que essa é a parte mais difícil de gerir neste momento.

A minha mulher tem sido fundamental. Está sempre ao meu lado, apoia-me em tudo e ajuda-me muito a manter a estabilidade emocional. Tenho de lhe agradecer por isso. Procuro estar bem com as pessoas de quem gosto, aproveitar os momentos com a família e os amigos e manter uma atitude positiva.

Acredito que vai surgir uma boa oportunidade. Não posso deixar que esta fase me coloque numa espiral negativa, porque isso acabaria por afetar também a minha vida pessoal. Quero continuar a ser feliz e a transmitir essa felicidade às pessoas que estão à minha volta.

Chico Teixeira fala sobre o período sem clube
Chico Teixeira fala sobre o período sem clubeOpta by Stats Perform, Arquivo Pessoal

- No início do mercado, chegou a ter algumas abordagens, mas optou por esperar. Olhando agora para trás, arrepende-se de não ter aceitado alguma dessas oportunidades?

No início do mercado, tive algumas abordagens, mas decidi não aceitar porque acreditava que poderia surgir algo melhor. Às vezes, penso que, se tivesse aceitado uma dessas propostas, talvez estivesse agora num bom contexto e, acima de tudo, a jogar futebol. Mas não posso ficar preso a isso. Foi uma decisão minha, tal como tantas outras que tomei ao longo da carreira. Algumas foram boas, outras menos boas. Se esta foi uma decisão acertada ou não, só o futuro o dirá. O importante é continuar tranquilo, manter-me preparado e acreditar que vai aparecer uma oportunidade.

Tenho muita vontade de voltar a competir. Aos 28 anos, sinto que ainda tenho muito para dar e estou completamente disponível para abraçar um novo desafio. Quando essa oportunidade surgir, vou agarrá-la com unhas e dentes e dar o máximo, como sempre fiz em todos os clubes por onde passei.

- Imagina que é o empresário do Chico Teixeira e tem de convencer um diretor desportivo a contratá-lo. O que diria sobre o jogador e aquilo que pode acrescentar a uma equipa?

Sem querer estar a gabar-me, acho que sou um jogador com boa qualidade técnica e um bom pé esquerdo. Considero-me versátil. Posso jogar como número dez ou em qualquer uma das alas, dependendo daquilo que o treinador pretende. Se for necessário jogar por fora e cruzar, consigo fazê-lo. Se a ideia for aparecer em zonas interiores e procurar o remate, também me sinto confortável. Mas, acima de tudo, sou um jogador que trabalha sempre no máximo.

Acredito que posso acrescentar qualidade a muitas equipas, tanto pela minha capacidade técnica como pela disponibilidade para trabalhar. Depois, naturalmente, a decisão não está nas minhas mãos. São os clubes e os responsáveis desportivos que têm de avaliar se sou o jogador certo para aquilo que procuram.

Chico Teixeira cumprimenta Pepe
Chico Teixeira cumprimenta PepeArquivo Pessoal

"Aquele miúdo de Marvila fez de mim a pessoa que sou hoje"

- Gostava de voltar ao início da nossa conversa, a Marvila. Se pudesse encontrar aquele Chico que passava os dias a jogar futebol com os amigos, que conselho lhe daria, depois de tudo aquilo que já viveu?

Acho que lhe diria que fez um percurso exemplar e que devia sentir orgulho naquilo que conseguiu alcançar. Muito da pessoa que sou hoje deve-se àquele miúdo e às experiências que viveu durante a infância. Sobretudo, diria que nunca perdeu a sua essência. Continuo a ser feliz com as coisas simples da vida e a dar muito valor à família, aos amigos e ao futebol.

Tenho a sorte de manter muitas das amizades que construí quando era criança. Vários dos meus amigos de hoje são os mesmos com quem jogava no Oriental. São ligações de muitos anos, que nunca perdi e que faço questão de preservar.

Por isso, se pudesse falar com aquele Chico, dir-lhe-ia para continuar a ser quem é, porque foram essas vivências que fizeram de mim a pessoa que sou hoje. Estou muito orgulhoso do percurso que construí, mas acredito que ainda tenho muita história pela frente. E quero continuar a encarar o futuro com a mesma paixão e uma atitude positiva.

- Para terminar, se o futebol fosse uma pessoa e tivesse a oportunidade de o encontrar na rua, o que lhe diria?

Agradecia-lhe por tudo aquilo que me deu. O futebol mudou muito ao longo dos anos, mas continua a ser uma forma de as pessoas se divertirem, de esquecerem os problemas e de viverem momentos de felicidade. É um mundo muito especial.

Nós, que temos a sorte de ser profissionais, só podemos estar agradecidos. Fazemos da nossa paixão uma profissão e somos pagos para jogar futebol. Se me perguntassem, quando era criança, se estaria disposto a jogar futebol sem receber nada, responderia imediatamente que sim. Era aquilo que mais gostava de fazer. Jogava por paixão, sem pensar em dinheiro ou em qualquer recompensa. Por isso, poder viver do futebol é a cereja no topo do bolo.

Claro que há momentos difíceis. Às vezes, estamos cansados, temos semanas exigentes e sentimos a pressão da profissão. Mas também temos de reconhecer que existem trabalhos muito mais duros.

Não digo que seja um passatempo, porque o futebol exige muito trabalho e dedicação. Mas, para mim, é algo tão especial que nem o consigo encarar como um trabalho convencional. É uma paixão que tenho desde criança e que vou continuar a ter até morrer. Por isso, se tivesse o futebol à minha frente, só lhe poderia agradecer. Porque, sem o futebol, o Chico que sou hoje não seria a mesma pessoa.

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