Do trauma no Ajax ao título no FC Porto: a leitura italiana do percurso de Farioli

Francesco Farioli, treinador do FC Porto
Francesco Farioli, treinador do FC PortoREUTERS/Rita Franca

O treinador italiano, de 37 anos, encerrou um ciclo de cinco anos na Turquia, onde somou a primeira experiência como técnico principal. No FC Porto, deu início a um novo capítulo, sustentado por uma abordagem moderna que, para já, o mantém longe do seu país natal.

Pela primeira vez com a camisola do FC Porto vestida. E pela primeira vez em português, depois de um ano a comunicar quase sempre em inglês. Francesco Farioli gritou a sua alegria de campeão de Portugal dizendo: "Voltámos a ser uma grande equipa, como dizia Jorge Costa, este título é nosso e conquistámo-lo todos juntos". 

Visivelmente emocionado e entusiasmado, o treinador italiano natural de Barga recorreu às palavras do ídolo do clube luso, falecido em agosto de 2025, para reforçar ainda mais a sua aura no Dragão. O triunfo em casa frente ao Alverca, no último sábado, abriu caminho à celebração de um título histórico, sobretudo para ele, a grande aposta de André Villas-Boas.

Domínio

Vinte e sete vitórias, quatro empates e apenas uma derrota compõem o registo dos Dragões, que marcaram 64 golos e sofreram apenas 15. E tudo isto sem um goleador de referência, ao contrário de Pavlidis no Benfica e Luís Suárez no Sporting, que foram, respetivamente, segundo e primeiro melhores marcadores com 21 e 25 golos. O espanhol Samu, com 13 golos, é o único jogador do FC Porto presente no top 10 dos melhores marcadores, ocupando o oitavo lugar.

Os comandados de Farioli dominaram ao longo de toda a época, mantendo o primeiro lugar desde a 4.ª jornada, precisamente após o triunfo por 1-2 em Alvalade frente a um rival direto. Chamado a revitalizar um clube desanimado após anos de insucessos e más escolhas técnicas, o italiano de 37 anos conseguiu dar a volta por cima também a nível pessoal, depois do drama psicológico da época passada no Ajax, quando desperdiçou uma vantagem de nove pontos para o PSV Eindhoven.

O top 5 da classificação do campeonato português
O top 5 da classificação do campeonato portuguêsFlashscore

Italiano no topo

Formado como treinador desde muito jovem, depois de ter sido guarda-redes nos escalões amadores, Farioli sempre demonstrou uma visão alargada e uma enorme liberdade de pensamento. O seu percurso como treinador de guarda-redes ao lado de Roberto De Zerbi serviu-lhe de trampolim para se dar a conhecer na Turquia e, mais tarde, ser recrutado pelo Nice. Desde 2021, mudou de equipa todos os anos para procurar novos desafios e, depois da marcante experiência nos Países Baixos, chegou ao Dragão mais maduro para construir a sua obra mais relevante.

Apreciador do risco na saída a jogar desde trás, mas também capaz de organizar a defesa com marcações preventivas bem assimiladas, viveu no FC Porto a sua primeira época de glória. E esta poderá ser apenas o início de um ciclo vitorioso numa referência histórica do futebol europeu, com a qual vai disputar a Liga dos Campeões na próxima temporada.

Farioli levado em ombros
Farioli levado em ombrosREUTERS/Rita Franca

Na época 2025/26, Farioli será, muito provavelmente, o único italiano a triunfar a nível de clubes. Em Itália, venceu Cristian Chivu, enquanto os outros treinadores italianos no estrangeiro, Simone Inzaghi e Cristiano Bergodi, seguem ambos em segundo lugar na Arábia Saudita e na Roménia. O seu mentor, De Zerbi, chegou recentemente ao Tottenham, onde luta pela manutenção, mas tinha sido anteriormente despedido do Marselha, tal como aconteceu com Enzo Maresca no Chelsea.

Respeitado no seu país pelo estilo de jogo versátil e pela inteligência, pode, no entanto, não regressar a Itália tão cedo. A sua vontade de experimentar não se encaixa facilmente nas exigências de vitória imediata que um grande clube da Serie A impõe. E há praças conhecidas pela sua impaciência. A hipótese de o ver como selecionador nacional faz lembrar o caso de Julian Nagelsmann na Alemanha. Fantasia? Por agora, sem dúvida. Depois, quem sabe se Villas-Boas não quererá fazer dele o Ferguson do FC Porto...