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Exclusivo com André Marques: "Palhinha é o melhor número seis português"

André Marques ao lado de Miguel Veloso
André Marques ao lado de Miguel VelosoVINCENT JANNINK / ANP / AFP

André Marques terminou a carreira muito cedo, aos 29 anos, mas guarda as melhores recordações de tudo o que viveu no futebol. Ligado ao Sporting desde cedo, elege Paulo Bento como o treinador que mais o marcou. Admirador dos antigos colegas João Moutinho e João Palhinha, considera que o atual médio do Benfica vai ser um jogador fundamental na seleção portuguesa, com Jorge Jesus.

"As lesões tiraram-me rendimento e qualidade de vida"

- Vamos recuar um pouco, falar da sua carreira e também abordar a atualidade, mas começo por si. Terminou a carreira de futebolista muito cedo. Porquê?

Desde já, obrigado pelo convite, João. É com enorme prazer que estou a fazer esta entrevista para o Flashscore. Relativamente à minha carreira, é tudo muito simples. Apareci muito cedo na primeira equipa do Sporting, fiz o trajeto pela Primeira e Segunda Ligas e estive também no estrangeiro, mas, ao longo da carreira, foram aparecendo algumas lesões que me foram retirando rendimento e qualidade de vida.

A última delas surgiu aos 28 anos, no Moreirense. Foi uma lesão grave no ligamento cruzado anterior, que me obrigou a uma recuperação mais lenta e demorada. Percebi claramente, junto dos médicos, que não iria conseguir continuar a minha carreira e estar ao mais alto nível.

Foi, por isso, uma decisão ponderada. Arriscada, não, porque percebia que, mesmo que avançasse para uma nova operação e uma nova recuperação, seria muito difícil voltar a estar a um nível profissional de topo. Daí ter tomado essa decisão, da qual não me arrependo. A vida continua e a minha ideia era essa: acabou o futebol, mas não acabou o futebol na minha vida. Certamente que iriam aparecer outras oportunidades dentro da área de que gosto, que é o futebol.

- As pessoas ligam-no muito ao Sporting, onde teve um longo trajeto, mas a verdade é que representou outros grandes emblemas. Teve também experiências no estrangeiro, nomeadamente na Grécia e na Suíça. Como foram essas passagens?

Na Grécia, ainda fui emprestado pelo Sporting. Foi um ano em que houve, inclusive, a minha estreia na Liga dos Campeões pelo Sporting, mas também uma saída atribulada de Paulo Bento. Depois de um ciclo grande de Paulo Bento no Sporting, em que não conseguiu o título nacional, mas conquistou algumas Taças e Supertaças, o mister acabou por sair. O novo treinador, na altura Carlos Carvalhal, tomou a decisão de não contar comigo para o plantel.

Surgiu então a oportunidade de rumar à Grécia. Estive no Iraklis, de Salónica, e foi aí que tive a minha primeira experiência no estrangeiro e também a primeira experiência com uma lesão grave. Tive uma lesão no menisco. Em princípio, seria uma operação com uma recuperação relativamente rápida, mas acabou por ser mais demorada e perdi os últimos seis meses dessa época desportiva. Depois acabei por regressar a Portugal.

André Marques jogou com Gattuso no FC Sion
André Marques jogou com Gattuso no FC SionArquivo Pessoal

- E depois surgiu a Suíça.

Sim. Depois da passagem pelo Beira-Mar, tanto com Leonardo Jardim como com Rui Bento, na Primeira Liga, as coisas correram bem. Tive minutos e jogos. No segundo ano, antes de ir para a Suíça, tive a primeira lesão realmente grave de um jogador de futebol: no ligamento cruzado anterior.

Consegui, na altura, uma recuperação recorde de cinco meses. Recuperei rapidamente a titularidade e ainda consegui competir nessa época desportiva, o que agradou aos responsáveis do FC Sion. Na altura, era um dos melhores clubes da Suíça, com condições e a lutar por títulos, muito de acordo com aquilo que eu tinha como objetivo de carreira: ganhar títulos.

Correu muito bem. Tive um primeiro ano fantástico. Joguei numa posição que, inicialmente, era desconhecida para mim, como médio defensivo ou o tal oito. Jogávamos muito em duplo pivô, com Gattuso e comigo, eu pela esquerda. Correu muito bem. Aprendi francês, criei amizades e a minha família também estava comigo. A minha mulher foi comigo e criámos grandes relações. Por isso, só tenho a dizer bem da Suíça.

Depois houve um período mais negro no segundo ano, quando se perspetivava uma época ainda melhor e de continuidade. Surgiu, na altura, o interesse do Toronto para rumar à MLS. Houve alguma precipitação por parte da estrutura do FC Sion, que não me deixou sair e complicou a minha vida. Tive muitos momentos depressivos, treinei sozinho e depois com a equipa B. Fui colocado na equipa B durante oito meses.

Depois de muita ponderação, no final do segundo ano de contrato, optei por regressar a Portugal, para o Moreirense. Tenho de agradecer ao Moreirense, na altura ao mister Miguel Leal e ao diretor desportivo Marco Couto. Foram pessoas que confiaram em mim, mesmo estando há muito tempo sem competir.

Tive uma boa época e, a meio da temporada, voltei a sofrer uma lesão no ligamento cruzado anterior, desta vez no outro joelho. Já sabia aquilo que me esperava. Como já tinha tido a tal operação ao menisco, iria implicar um tempo de recuperação maior. Na altura não sabia, mas, como já tinham mexido no menisco, iriam mexer novamente e é uma estrutura complexa.

Tive líquido constante no joelho, fiz muitas punções e treinava com dores. Estive um ano e tal em recuperação. Lembro-me de regressar depois para a Taça da Liga, contra o Benfica, e fazer 25 minutos muito bons. Mas, no dia seguinte, já tinha novamente o joelho com líquido. Foi aí que disse: 'Não. Vou preocupar-me em recuperar, deixar de treinar e, depois, decidir o melhor no final da época.'

Tive ali um ano de ponderação. Ainda tive a hipótese de ir para fora, mas acabei por não correr o risco de piorar ainda mais o meu estado e a minha condição física, porque havia uma vida a seguir, com filhos, e também não queria condicioná-la.

André Marques deixa rasgados elogios a João Moutinho
André Marques deixa rasgados elogios a João MoutinhoČTK / AP / LORENZO GALASSI

De Moutinho a Palhinha, sem esquecer Paulo Bento: as figuras que mais o marcaram

- Partilhou o balneário com grandes jogadores. Queria começar pelo João Moutinho, que acaba de fazer 40 anos e continua a um nível extraordinário. Como vê esta longevidade do João?

O João, na altura, é engraçado, porque nós éramos juniores e ele não era titular, era suplente. Entrou no plantel principal do Sporting como suplente dos juniores. Estamos a falar de um jogador que, quando jogava, já se percebia claramente que era diferente de todos os outros. Hoje é fácil falar, mas, na altura, já dizia que era um jogador diferente, pelo raciocínio rápido e pelo profissionalismo.

O jogo parecia sempre fluido. Havia pressão, mas parecia não haver. Era um jogador com uma leitura de jogo excecional para a idade. Depois, rapidamente aproveitou a oportunidade. Na altura, lembro-me do Custódio lesionar-se e ele aproveitou a oportunidade e fez a carreira que fez, com a longevidade que tem.

É um dos jogadores mais internacionais de sempre e, aos 40 anos, continua a um nível extraordinário, muito também por aquilo que é a vida invisível. Acho que isso é importante quando falamos dos jogadores de futebol. A vida invisível é o mais importante num jogador: a maneira como se cuida, como se alimenta e como descansa. Isso tem depois influência no rendimento desportivo.

- Também trabalhou com João Palhinha...

Também. No Moreirense, numa fase em que estava emprestado, antes de rumar ao SC Braga. Na altura, percebia-se que o Palhinha vinha de um contexto Sporting, que era um jogador de qualidade, muito combativo, mas faltava-lhe amadurecer o jogo. Em muitos momentos, percebia-se que era precipitado com bola. Melhorou muito nesse aspeto. O SC Braga também lhe deu essa aprendizagem na tomada de decisão.

A leitura de jogo já a tinha, porque, para mim, é o melhor número seis português. É um jogador que, se a seleção precisar de jogar com um seis, é o melhor naquela posição.

Os últimos jogos de Palhinha
Os últimos jogos de PalhinhaFlashscore

- O Benfica acertou na contratação?

Sim. É uma das melhores contratações que o Benfica faz. Benfica, Sporting ou FC Porto, qualquer equipa que o contratasse para aquela posição específica, não há melhor jogador.

Para cobrir os laterais, é um jogador com uma grande capacidade de leitura. Depois, aprimorou também a chegada ao último terço. É um jogador que se aproxima cada vez mais de zonas de finalização e está perto de marcar, como vimos no Benfica.

É um jogador que aqui entra de cadeirinha, porque esteve num contexto de Bayern Munique e num contexto de Premier League. Não menosprezando a nossa Liga, é muito inferior à Premier League.

- Voltando a olhar para trás, qual foi o melhor jogador com quem jogou e que o impressionou verdadeiramente? Aquele que o fez pensar: 'Este é um craque, é um jogador diferente.' E qual foi o melhor treinador? Se não conseguir escolher apenas um jogador, pode escolher dois.

Já falámos do Moutinho, mas um jogador com quem joguei e que fazia tudo parecer fácil era o Liedson, sobretudo no momento da finalização. Estive com ele no Sporting. Excelente pessoa, excelente profissional, mas, naquilo que é o golo, fazia parecer tudo muito simples.

Depois, há a questão do Moutinho, de que já falámos. Mas houve um jogador que sempre me impressionou muito pela qualidade do pé esquerdo. Era um jogador com quem me dava muito bem na formação do Sporting: Miguel Veloso. Não teve a carreira que eu esperava. Esteve muitos anos no Dínamo Kiev e muito tempo num nível que eu achava que não seria o dele...

- Também esteve em Itália.

Em Itália, em equipas modestas. Mas, pela batida de bola, pelos passes de 30 ou 40 metros e pela facilidade com o pé esquerdo e com o pé direito, impressionava-me. Fazia lateral-esquerdo, jogava no meio-campo... Era um jogador que me impressionava.

Quanto a treinadores, não posso deixar de falar no mister Paulo Bento. Ainda hoje temos uma relação muito próxima. É uma pessoa que me diz muito. Foi quem apostou em mim, quem me deu nas orelhas quando tinha de dar e quem me fez crescer como pessoa e como atleta. Ainda hoje falamos. É, de facto, o treinador que mais me marcou na carreira.

Jorge Jesus assumiu comando técnico da seleção
Jorge Jesus assumiu comando técnico da seleçãoFPF

"Jorge Jesus vai trazer liderança à seleção"

- Atualmente, está ligado ao futebol como comentador televisivo. Como está a ser essa experiência?

Fez agora quatro anos que estou na Sport TV. Olhando para aquilo que foi a minha carreira, houve uma altura, no final, em que pensei muito na vertente de treinador, em estar no campo diariamente com os jogadores. É uma coisa de que gosto. Fiz o nível I e o nível II de treinador.

Entretanto, há quatro anos, apareceu o convite da Sport TV. Gosto muito da casa e sinto-me muito à vontade. É um canal neutro, temos a nossa opinião e ninguém nos julga por isso. De facto, é um canal que me abriu também as portas da comunicação. Acho que melhorei muito nesse capítulo. Não é que fugisse muito às entrevistas, nunca fugi, mas não me sentia muito à vontade. Hoje sinto-me cada vez mais confortável. É uma casa de que gosto, onde continuo a trabalhar e acho que o futuro também passará por aí.

- Para terminar, André, estamos quase a entrar num ciclo de seleção e nos primeiros jogos com o novo selecionador. O que perspetiva? Espera uma seleção diferente daquela que tivemos no passado com Roberto Martínez?

Questionamos sempre as opções e vamos continuar a questioná-las, independentemente do selecionador. Acho que o mister Jorge Jesus vai trazer uma coisa diferente: liderança. Por mais que se queira aprender a língua portuguesa, não sendo português, acho que há sempre alguma divergência. Sendo o treinador português consensual muito pela liderança e pela parte tática do jogo, acho que temos muito a melhorar nesse aspeto.

Os próximos jogos de Portugal
Os próximos jogos de PortugalFlashscore

Por exemplo, olhando para a carreira de Jorge Jesus, vejo Palhinha como o número seis. Não sei se isso vai acontecer, mas, por onde passou, teve sempre exemplos desse tipo de jogador: Matić, Witsel, William Carvalho... Lembro-me de vários jogadores treinados por ele com essas características. Por isso, não sei o que vai fazer, mas acho que vai trazer liderança.

- Acha que Palhinha vai ter um papel determinante nesta "nova" seleção portuguesa?

Não sei se será determinante, mas acho que vai ser solução. Ou, neste caso, opção. Poderá fazer muitos jogos. Digo isto muito por aquilo que é a carreira de Jorge Jesus e pelo tipo de jogador de que gosta para aquela posição. Podemos depois questionar onde joga Bruno Fernandes ou onde joga João Neves. Não podem jogar todos. Mas, olhando para a carreira de Jorge Jesus, ele gosta daquele tipo de jogador.

Se Palhinha mantiver no Benfica este registo, acho que vai ser opção e vai ser convocado. Mas isso também tem muito a ver com o adversário que Portugal vai encontrar. Agora, aquilo que espero é que a seleção ganhe mais títulos e volte a estar perto disso. Ficou muito aquém na competição anterior, muito por aquilo de que falamos: temos muita qualidade, mas parece que jogamos pouco. Acho que, com Jorge Jesus, vamos jogar muito mais e melhorar muito a nível tático.

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