Exclusivo com diretor da formação do Sporting: "Formamos jogadores, mas acima de tudo pessoas"

Tomaz Morais é o Diretor Geral de Formação do Sporting
Tomaz Morais é o Diretor Geral de Formação do SportingSporting CP

À frente de um dos pilares mais emblemáticos do Sporting, Tomaz Morais fala com paixão sobre o legado da Academia Cristiano Ronaldo, que celebra mais de duas décadas a formar campeões. O Diretor-Geral de Formação explica como o clube combina modernização, valores humanos e excelência técnica para preparar não apenas jogadores de futebol, mas pessoas completas.

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"O talento está em todo o lado e teremos de continuar sempre atentos"

- A Academia do Sporting, agora Academia Cristiano Ronaldo, foi inaugurada a 21 de julho de 2002 e completou recentemente 23 anos. Apesar de algumas melhorias, como a adição de mais um ou outro relvado, a estrutura mantém-se em grande parte igual. Existem, no entanto, planos de expansão. O que é que está neste momento em cima da mesa para o futuro da academia?

A Academia mantém a sua essência original, o que é muito importante, porque tem uma identidade reconhecida mundialmente. Inserida num ambiente rural, oferece um contexto único: os jogadores gostam de estar aqui, sentem-se bem e trabalham num espaço calmo e saudável. Mais do que o termo "academia", falamos de um legado formativo.

Apesar de preservar essa “cara” inicial, a Academia passou por grandes transformações internas. Foram renovados os gabinetes das várias áreas - técnica, scouting e suporte multidisciplinar - e estão praticamente concluídos novos balneários, incluindo um para cada equipa, rouparias e balneário para os treinadores. Portanto, temos vindo claramente a fazer melhorias na formação, porque no lado profissional também existiu uma grande remodelação e, ao dia de hoje, tem boas condições. 

Atualmente, tanto os relvados do futebol profissional como o relvado do Estádio Aurélio Pereira são relvados de última geração, híbridos. É um relvado que, como se costuma dizer, é nota 10. No fundo, é uma Academia com história, mas totalmente modernizada por dentro e preparada tanto para a formação como para o alto rendimento. 

- Durante vários anos, o Estádio Aurélio Pereira recebeu os jogos oficiais de quase todas as equipas da formação. 

Sim, e continua a ser um dos nossos desafios. Hoje temos muitas equipas a trabalhar na academia - desde os Sub-14 até à equipa B e à equipa A feminina, que também joga no Estádio Aurélio Pereira. Há fins de semana com três ou quatro jogos no mesmo relvado, o que naturalmente o desgasta.

Por isso, fizemos um investimento muito grande num novo relvado, mais resistente e duradouro, capaz de suportar maior carga. No fundo, o relvado é o mais importante para o jogo, se não for de qualidade, nada mais funciona.

- Daí também a necessidade de expandir, de criar mais campos, mais infraestruturas…

Como sabemos, a formação desportiva e o futebol são altamente dinâmicos e o crescimento no Sporting tem sido muito grande nessa área. Nós queremos continuar o crescimento e a expandir com mais campos. No entanto, e como temos vindo a fazer, estamos a olhar geograficamente para outras zonas onde poderemos vir a ter algumas Academias Sporting, principalmente perto de meios urbanos onde já temos a funcionar muito bem os Pólos Sporting Norte (Santo Tirso), Coimbra, Aveiro e Algarve. O talento está em todo o lado e teremos de continuar sempre atentos. Em Lisboa, no Estádio Universitário, estamos a fazer um investimento considerável em infraestruturas, local de treino e jogo dos jogadores até aos Sub-13. Estamos neste momento em obras de remodelação e tencionamos em 2026, estender essas alterações aos edifícios e bancadas que dão suporte aos campos. Queremos proporcionar aos nossos jogadores, de qualquer idade, as melhores condições de preparação e competição.

Tomaz Morais recebeu o Flashscore na Academia
Tomaz Morais recebeu o Flashscore na AcademiaSporting CP

Os exemplos Luís Figo e Cristiano Ronaldo: "É uma responsabilidade acrescida"

- Foi precisamente no Sporting que foram formados dois Bolas de Ouro: Luís Figo, em 2000 (ainda não havia esta Academia), e Cristiano Ronaldo, que fez aqui a parte final - e muito curta - do resto da sua formação. Ele foi cinco vezes Bola de Ouro. Até que ponto estes dois símbolos do Sporting contribuem para atrair talento para aqui?

Contribuem muito. Não só para atrair talentos, mas também para a responsabilidade de todos os profissionais que estão neste momento a servir o futebol de formação - são 217 -, que têm de ter no seu dia a dia trabalho essa responsabilidade e existência. Porque o facto de o Sporting ter formado dois Bolas de Ouro no passado, com a expressão que têm o Luís Figo e o Cristiano Ronaldo ainda atualmente, acaba por nos trazer a nós uma obrigatoriedade ainda maior: todos os dias tentarmos deixar a nossa marca em todos os jogadores que passam pela Academia. 

- É uma responsabilidade acrescida.

É uma responsabilidade acrescida, não tenho dúvida nenhuma. E toda a gente que entra na Academia do Sporting entra com esse olhar e essa missão. Tanto mais que nós fazemos questão de que as pessoas sintam que, além deles (Figo e Ronaldo), com o peso que têm no futebol mundial, muitos outros passaram por aqui e são pessoas e jogadores de excelência, até atualmente, a jogar em clubes que estão, neste momento, a ter desempenho desportivo fortíssimo. Como é o caso do Nuno Mendes, do Paris Saint-Germain, entre outros - não vou referir mais nomes -, mas é isso que nós queremos passar: aqui realiza-se trabalho de excelência para saírem jogadores de excelência, em primeiro lugar para a nossa equipa A e, a seguir, para o futebol mundial. 

- E não é por acaso que, dos 23 campeões da Europa em 2016, dez foram formados aqui no Sporting.

É outro marco significativo da nossa formação e que tem a base daquele que é aqui o nosso maior responsável e continua a ser: o senhor Aurélio Pereira. O senhor Aurélio deixou aqui um legado formativo enorme, não só em termos organizativos, como de conteúdo, como da forma como nós temos de nos relacionar com os jogadores, com os pais, com todos os stakeholders. Foi extraordinária a forma como ele passou essa mística e nos transmitiu isso a todos, e como nós todos os dias tentamos fazer o melhor com base no legado herdado. 

- O senhor Aurélio Pereira era um defensor assumido do chamado “futebol de rua”, uma realidade que tem vindo a desaparecer. De que forma é que o Sporting procura resgatar esse espírito formativo?

Tentamos incutir o espírito do futebol de rua desde os escalões mais baixos, com crianças de seis ou sete anos, valorizando o jogo divertido, criativo e a paixão pelo futebol. Hoje em dia, os jovens jogam menos fora do clube - já não há tanto o bairro ou a rua -, e isso limita a criatividade e a espontaneidade.

Para contrariar essa tendência, criámos em 2019/2020 o Departamento de Desenvolvimento Individual, que trabalha o detalhe técnico e estimula pilares do futebol de rua, fundamentais na formação do jogador criativo.

O futebol atual é muito tático e mecanizado, mas o que realmente faz a diferença continua a ser a criatividade, o drible, a capacidade de decidir no um contra um. É isso que queremos preservar: a magia do jogador.

- O Quenda foi um dos que absorveu esse conhecimento?

Sim, o Quenda trazia muito desse futebol. Mas não só. O Blopa, que agora também está a aparecer na equipa principal. São jogadores fáceis de caracterizar, na verdade, porque a alegria com que eles entram no campo, a forma como jogam, chama a atenção. E eu acho que o futebol hoje em dia tem de dar prazer a quem joga e a quem vê jogar.

Nós não podemos jogar futebol só para nós; não podemos jogar futebol só para o resultado. Temos de jogar, acima de tudo, para o resultado, mas de forma a que o espectador goste de ver a forma como nós atingimos esse resultado. E jogando bonito, jogando bem, jogando com essa forma alegre de estar em campo, com essa magia de que falávamos, com essa capacidade criativa, eu acho que encanta mais.

- No fundo "jogar com um sorriso nos lábios”, que é o que o Cristiano Ronaldo ainda faz.

É isso que queremos ver em qualquer jogador: alguém que joga de forma natural, “despressionada”, sem medo. O Quenda é um bom exemplo, pela forma como aborda os lances, olha para a baliza e se entrega à equipa.

O nosso trabalho hoje já reflete o futebol atual e o que virá: mais intensidade, mais jogos, maior rotação. O treinador tem de ser um verdadeiro gestor de recursos humanos, capaz de tirar o melhor de cada jogador.

Nesse sentido, o Departamento de Desenvolvimento Individual tem sido fulcral, sustentando um modelo centrado no jogador que continua a fazer evoluir a formação do Sporting.

Tomaz Morais falou abertamente sobre a formação leonina
Tomaz Morais falou abertamente sobre a formação leoninaSporting CP

"Nenhum atleta deixa de estar sob o nosso radar"

- No meio de tantos jovens talentos, como é que o Sporting gere e identifica quem deve continuar o seu percurso de desenvolvimento na academia?

O que nós fazemos é: temos uma equipa no terreno, liderada pelo nosso diretor técnico, Nuno Figueiredo, que tem sob a sua alçada uma equipa de coordenadores técnicos que vão trabalhando com todas as idades, desde a base até aos Sub-23. São eles que fazem o processo de observação, análise e avaliação dos nossos jogadores e apresentam-nos os resultados de modo a que eu, em conjunto com o Paulo Gomes, co-diretor geral da Academia, possamos tomar decisões. 

Depois temos a nossa equipa de Estratégia, Avaliação e Talento, liderada pelo Ricardo Correia. Tem também uma equipa muito vasta de scouts e expert scouts, que vão analisando esses mesmos jogadores e trabalham numa sinergia completa com a área técnica. O saber estar em equipa e a liderança partilhada são as bases do sucesso da nossa estrutura formativa. 

E não nos podemos esquecer de que, no meio disto tudo, o agente desportivo com maior preponderância na relação com o jogador é o treinador. Os treinadores são ouvidos, fazem os seus relatórios, fazem as suas análises, e depois todos os jogadores são discutidos. E nós trazemos para a academia aqueles que consideramos que possam ter maior potencial e rendimento contínuo para, um dia, chegar ao futebol profissional da equipa A do Sporting. 

- Mas corre-se o risco de se perder algum talento pelo caminho?

Inevitavelmente, perdem-se alguns jogadores. Afinal, estamos a falar de avaliação humana. Apesar do grande apoio da análise de dados e do nosso Departamento de Observação e Análise, que tem feito um trabalho extraordinário, há sempre margem de erro. 

Cada observador vê o jogo e o talento de forma diferente, por isso o mais importante é manter critérios claros e avaliar com racionalidade, nunca com afetividade. As decisões têm de ser tomadas em função do que é melhor para os jogadores e para o Sporting. 

Naturalmente, alguns jogadores acabam por seguir outros caminhos e evoluir noutros clubes, o que também faz parte do processo

- E continuam a ser acompanhados?

Continuamos a acompanhar todos os jogadores. A nossa rede de observadores é vasta e está distribuída de forma a que nenhum atleta deixe de estar sob o nosso radar, seja emprestado, transferido ou cedido definitivamente. 

Muitos evoluem noutros contextos e acabam por regressar mais tarde, aos 16, 17 ou 18 anos, ou até já no futebol profissional. O importante é manter várias portas abertas, porque o talento pode surgir em diferentes momentos. 

Acreditamos que o nosso processo é hoje muito fiável, embora saibamos que haverá sempre perdas pelo caminho. Isso faz parte da formação. Gostamos de nos pôr em causa e discutir o nosso modelo. Só assim podemos corrigir e progredir constantemente 

Tomaz Morais apresentou o trabalho desenvolvido na Academia
Tomaz Morais apresentou o trabalho desenvolvido na AcademiaSporting CP

"O balneário é a forma como representamos o Sporting"

- O João Simões destacou o forte vínculo humano que existe na formação, referindo-se à Dona Aida como uma “mãe” e aos colegas como “irmãos”. Esses valores transmitidos ao longo do percurso formativo refletem-se depois dentro de campo?

Faz toda a diferença. Essa é uma marca do Sporting, algo que se sente e vive diariamente. Não é só ter valores, é transmiti-los pelo exemplo, pelas decisões e pelo nosso modelo centrado no jogador, que é inegociável.

Esses valores - rigor, exigência e disciplina - estão presentes em todos os departamentos e são a base da transformação do potencial em rendimento.

Criámos até um Departamento de Pedagogia, que antes estava integrado na Psicologia, para reforçar essa missão. É isso que distingue o Sporting: a forma como forma pessoas e jogadores preparados para corresponder dentro e fora do campo.

- Os jovens precisam de ter uma estrutura mental muito forte.

Muito forte. Tem de ter a mentalidade certa e essa mentalidade certa é trabalhada passo a passo, ação a ação. Não há uma fórmula. Nós temos uma metodologia, mas não temos uma fórmula mágica em que dizemos: “Fazendo isto, o jogador vai chegar lá…” 

- Não há uma varinha mágica.

Não. Temos de conhecer muito bem cada jogador e orientar o trabalho diário em função do caráter que ele tem, da pessoa que ele é e, acima de tudo, das necessidades que vai tendo. E essas necessidades acabam por ficar expostas numa ferramenta que temos: um Plano de Desenvolvimento Individual, onde marcamos estratégias de intervenção.

E uma delas é como tornar esses jogadores elementos do balneário, sendo “balneário” uma expressão filosófica. O balneário é muito mais do que as quatro paredes antes do treino ou do jogo. O balneário é a forma como representamos o Sporting, como sabemos estar no Sporting e como somos chamados a jogar em qualquer equipa do Sporting. A determinação, o empenho e a forma como deixamos tudo é a mesma. Isso é o mais importante. Por isso, os valores e a atitude aqui são inegociáveis. Tal como é inegociável o modelo centrado no jogador.

- Gostava que falasse um pouco mais sobre essa ideia, que foi distinguida com o Prémio da Associação Europeia de Clubes na categoria de futebol de formação. De forma objetiva, pode explicar-nos em que consiste exatamente esse conceito?

O nosso modelo assenta na diferenciação individual de cada jogador. Até ao momento em que o entregamos ao alto rendimento, onde o foco passa a ser ganhar, na formação as vitórias medem-se de outra forma: pelo crescimento, pela evolução e pelo desenvolvimento pessoal e desportivo de cada atleta.

A grande diferença está precisamente aí. Na formação, trabalhamos para o jogador, não para a equipa. O objetivo é que cada um saia daqui melhor do que entrou, mais preparado, mais completo. Todas as pessoas envolvidas, desde os treinadores até aos funcionários, professores e departamentos de apoio, partilham essa responsabilidade e procuram acrescentar valor ao jogador.

O modelo centrado no jogador é o alinhamento de todas as áreas da academia em torno desse propósito: fazer o jogador evoluir primeiro como pessoa e depois como atleta. Acreditamos que, se for uma boa pessoa, equilibrada e consciente, estará sempre mais próximo de ser um bom jogador. Esse é o princípio que norteia todo o nosso trabalho na formação.

- De qualquer forma, tem de haver uma linha condutora, em termos técnico-táticos, estratégicos, de jogo, que cruza toda a formação até ao profissional. Como eles, em conjunto, conseguem aplicar essa ideia, não é verdade?

Depois, há a intervenção técnica. Eu venho do alto rendimento, onde o treinador é um gestor de recursos humanos, estratégico, técnico e tático. Mas na formação o papel é outro: o treinador tem de ser educador, formador e um exemplo, porque o jovem aprende sobretudo pelo modelo que tem à frente. Todos nós lembramos os treinadores que nos marcaram, e é isso que queremos aqui. 

No modelo centrado no jogador, o treinador é muito mais do que responsável pela sua equipa: é treinador do Sporting. Tem de olhar para todos os jogadores, não apenas para os onze que coloca em campo. Esse foi um passo decisivo - trabalhado com muita formação interna - e que hoje define a nossa forma de estar.

Há reuniões técnicas regulares, formação obrigatória e partilha constante de conhecimento. A direção técnica define a metodologia e o “jogar à Sporting”, fase a fase, garantindo coerência em todo o processo.

Já o modelo de transição de jogadores é discreto e estratégico: escolhe-se o contexto competitivo certo para cada atleta, ajustando desafios conforme a sua maturação. Essa gestão tem permitido acelerar o desenvolvimento de vários jogadores que hoje estão na equipa principal ou em grandes clubes europeus.

Isso tem permitido acelerar o processo de alguns jogadores nos últimos anos. Não falo só do Quenda, não falo só do Salvador Blopa; falo de outros que apareceram na equipa principal, alguns ainda lá estão, outros saíram para clubes de topo europeu. Isso deve-se ao facto de, no momento certo, termos dado a curva estratégica de desenvolvimento de que o jogador precisava.

Por vezes, essa lógica até sacrifica resultados imediatos, como quando colocamos jogadores de um determinado escalão num contexto superior e mais exigente. Mas é esse o nosso foco: o crescimento do jogador acima de tudo. É este trabalho silencioso e discreto que queremos fazer, porque é o que resulta na formação. Não gostamos de alimentar nem criar egos. 

João Simões abraça Quenda, dois jovens produtos da formação leonina
João Simões abraça Quenda, dois jovens produtos da formação leoninaPATRICIA DE MELO MOREIRA / AFP

43 produtos da formação na equipa principal nos últimos sete anos

- Atualmente, há 13 jogadores formados na Academia a integrar a equipa principal, e desde a sua fundação já 88 se estrearam com a camisola do Sporting. Estes números refletem o que o clube ambiciona ou há metas ainda mais altas?

Queremos sempre ir mais além. O Sporting é, por natureza, um clube competitivo e isso começa na formação. Se o jogador deixar de ser competitivo, as equipas deixarem de ser competitivas e quem as lidera não tiver veia competitiva, não podemos servir o desporto de alto rendimento, que é para o que a formação serve.

Os 88 jogadores formados que chegaram à equipa principal representam muito: deram rentabilidade, sustentabilidade e apoio ao clube em momentos difíceis. Mas não nos satisfaz, queremos mais. Mas também sabemos que, nos últimos sete anos, tivemos grande percentagem desses 88. Houve uma porta mais aberta e uma estratégia conjunta.

O nosso papel é preparar o maior número possível de jogadores com capacidade para integrar o futebol profissional. Essa estratégia é definida pela administração e pelo presidente, e cabe-nos a nós colocá-la em prática com rigor e ambição.

- Foram 43 desde 2018.

Estamos a falar de mais de metade. É um número que fala por si e traduz o modelo centrado no jogador. Por isso, também temos muitos jogadores que acreditam que, vindo para o Sporting, têm um caminho mais definido para um dia poderem jogar futebol profissional, no Sporting ou noutro clube. E é isso que queremos cimentar, melhorar e continuar a procurar: talento. Porque eu costumo dizer: sem termos talento cá dentro, sem termos bons jogadores connosco, também não os conseguimos fazer chegar lá.

Por isso, é um trabalho que nunca termina. É um trabalho que não tem férias, porque em todo o lado pode estar um bom jogador e nós temos de estar atentos e trazê-lo.

- O Sporting já marcou presença numa final four da Youth League, em Nyon, embora não tenha conseguido chegar à final. Este ano, a equipa volta a estar bem posicionada e é orientada pelo treinador da equipa B, integrando jogadores desse escalão e também dos mais jovens. O que é que isso representa no contexto da formação do Sporting?

A Youth League reflete a visão transversal do nosso modelo centrado no jogador. Ao termos o treinador da equipa B a liderar o grupo, garantimos continuidade com o futebol profissional e damos visibilidade a todos os jovens, desde os Sub-16, que possam representar o Sporting.

Queremos competir para ganhar e o nosso percurso tem sido muito positivo. No ano passado, só fomos eliminados pelo Estugarda depois de uma série de vitórias e grandes exibições. Mesmo assim, servimos o principal objetivo: lançar jogadores na equipa A, inclusive na Liga dos Campeões.

Já estivemos numa Final Four e acreditamos que temos potencial para conquistar a Youth League. No entanto, depende sempre de alguns fatores não controláveis. É um projeto de rendimento sólido e um reflexo da qualidade da nossa formação. 

- Com essa estratégia, passam a visão aos jovens de que é possível.

É um sinal claro da cultura de rendimento que queremos transmitir. As equipas técnicas trazem a maturidade e as exigências do futebol profissional, ajudando os jovens a perceber o que é competir e render ao mais alto nível.

Ao abrir o treino a vários jogadores, criamos novas dinâmicas e contextos que os fazem crescer. Apostamos muito na Youth League, mas também na Premier League, onde jogamos com a equipa técnica dos Sub-23. No último jogo com o West Ham, por exemplo, o treinador dos Sub-16 integrou a equipa técnica, o que mostra bem a transversalidade do nosso modelo.

Estas competições são de grande exigência, sobretudo a Premier League, onde as equipas inglesas alinham jogadores mais velhos, e obrigam o Sporting a manter um nível elevado de rendimento e de formação.

- Esse tipo de experiência acaba por preparar melhor o jogador para o momento em que surge a oportunidade no futebol profissional, certo? O João Simões é um bom exemplo disso, pois chegou a ter mais jogos na Liga dos Campeões do que no próprio campeonato português.

É verdade. O João foi um líder do processo. O Quenda também o foi. O Blopa e o Flávio estavam a ter um papel muito importante este ano e agora tem estado sempre na equipa principal. Estas são as nossas vitórias na formação. As vitórias que festejamos, a alegria que temos, é quando vemos um jogador nosso saltar para a equipa principal, independentemente de nos deixar mais fragilizados ou não, porque a nossa capacidade na formação tem de ser suprimir essas ausências. 

O impacto do ataque à Academia: "Houve uma mudança de mentalidade"

- O ataque a Alcochete marcou uma fase difícil na história do Sporting e afetou também a formação. Quando chegou à Academia, ainda encontrou consequências desse episódio, nomeadamente na relação com as famílias dos jogadores? Acredita que essa confiança já foi plenamente restaurada?

Sim, completamente. Quando cheguei, no final de 2018, ainda se sentiam as marcas desse episódio infeliz. O Paulo Gomes tinha chegado um pouco antes e foi-me transmitindo o que encontrava, por isso pude preparar-me. Mesmo assim, só quando entrei percebi verdadeiramente o impacto que tudo aquilo teve nas pessoas.

Encontrei profissionais de enorme qualidade, dedicação e competência, mas que estavam emocionalmente marcados. Era importante devolver confiança e criar um ambiente diferente. A administração fez um excelente trabalho nesse sentido, e dentro da Academia procurámos mudar a cultura: instaurar otimismo, espírito de equipa, partilha e uma liderança mais humana, que valoriza o diálogo e a autonomia. Um ambiente formativo e aquisitivo necessita, acima de tudo, de estabilidade e experiência. 

Hoje, todos têm voz. Cada pessoa, seja qual for a função, tem espaço para decidir, contribuir e crescer. Acreditamos que é assim que se forma talento, dentro e fora de campo. Essa mudança de mentalidade, baseada na confiança e na responsabilidade, foi o melhor antídoto para ultrapassar um momento triste e reconstruir o orgulho de estar no Sporting. Diria que, neste momento, está plenamente superado. Aproveitamos a adversidade para a transformar numa oportunidade de crescimento. 

- E as pessoas voltaram a confiar, os pais voltaram a confiar?

Sim, voltaram a confiar. E o primeiro passo foi garantir estabilidade. A formação precisa de um clima de trabalho estável. Não podemos mudar treinadores e colaboradores de dois em dois anos; é preciso tempo para crescer e consolidar processos. Hoje, a maioria está connosco há mais de quatro anos, o que dá continuidade e consistência ao projeto.

Quando chegámos, encontrámos um ambiente fragmentado, com pessoas desmotivadas e equipas a trabalhar em ilhas. A prioridade foi unir todos em torno de um propósito comum. Mostrámos que, se trabalharmos juntos, teremos mais sucesso do que cada um por si.

Essa cultura de colaboração, em que um treinador ou colaborador pede ajuda a outro, com humildade e espírito de equipa, tornou-se a nossa maior força. Hoje há um clima de trabalho saudável.

- Atualmente, o que é que mais convence um pai a entregar um filho aos cuidados do Sporting?

O pai acredita no Sporting e acredita no nosso modelo formativo. No Sporting, formamos jogadores, mas acima de tudo formamos pessoas. Acreditamos que o percurso escolar é tão ou mais importante do que o desportivo - se um jogador não está bem na escola, também não estará bem no futebol. Por isso, trabalhamos lado a lado com professores e pais, acompanhando de perto o desenvolvimento de cada jovem. Queremos que os jogadores venham para o Sporting pelas razões certas.

O nosso modelo é abrangente: envolve escola, família e campo. Promovemos reuniões regulares com os pais e sessões conjuntas com as escolas, porque só com essa proximidade conseguimos garantir equilíbrio e crescimento integral.

Os pais acreditam no Sporting porque veem um projeto que olha para o filho como um todo, um plano de formação que o ajuda a ser melhor aluno, melhor jogador e, sobretudo, melhor pessoa. É isso que nos diferencia.

Tomaz Morais estabelece as metas na formação do Sporting
Tomaz Morais estabelece as metas na formação do SportingSporting CP

"A formação é uma maratona e que o mais importante é a consistência"

- A gestão das expectativas dos pais é um desafio constante. Nem todos vão chegar ao topo. Como é que o Sporting trabalha esse lado emocional e ajuda as famílias a perceber isso?

Na formação desportiva, quem faz de si jogador é o próprio atleta. A vontade, a mentalidade, a forma como cuida do corpo e a capacidade de aprender são o que realmente o fazem crescer, não a pressão, questões financeiras ou as expectativas dos pais. 

O papel da família é viver o processo com o filho: apoiar, estar presente e perceber que o sucesso vem tanto das vitórias como das derrotas. Lidar bem com o fracasso é essencial. É aí que o jogador aprende a superar-se.

Trabalhamos muito com os pais para ajustar expectativas, mostrando que a formação é uma maratona e que o mais importante é a consistência e o desenvolvimento integral: escolar, social e desportivo.

Nem todos chegarão ao topo, e é por isso que o Sporting forma pessoas preparadas para a vida, com ferramentas para serem bem-sucedidas dentro ou fora do futebol. O objetivo é esse: que sejam realizados e felizes, qualquer que seja o caminho.

- No fundo, é isso: alguns chegarão a ser jogadores, outros talvez não, mas o objetivo é que todos saiam daqui como homens, certo?

Todos serão homens e essa é a nossa maior conquista. O importante é que, no futuro, possamos cruzar-nos com eles e dizer: “Excelente!”, seja um bom aluno, médico, mecânico, profissional ou pai de família. Há muitas formas de ser bem-sucedido e feliz, e limitar o sonho apenas ao futebol é reduzir o horizonte.

Ainda assim, o nosso objetivo é claro: formar jogadores de futebol. É para isso que existimos. Mas acreditamos que só se forma verdadeiramente um jogador quando se forma primeiro a pessoa. Esse é o caminho do Sporting: preparar seres humanos completos, para que, depois, possam atingir o mais alto nível no futebol.

- Num passado recente, falar de formação era quase sinónimo de falar do Sporting, que acumulava títulos e dominava nesse campo. Nos últimos anos isso tem acontecido menos. A que se deve essa mudança? Também ao maior investimento da concorrência e à evolução de outras academias no país? Olhando, por exemplo, para a seleção de Sub-17 - campeã da Europa e do mundo -, há apenas um jogador do Sporting. Isso preocupa ou entristece de alguma forma? Ou é o reflexo de um processo mais longo, ainda em consolidação?

A formação desportiva vê-se muito a dez anos, como eu costumo dizer. Portanto, os nossos resultados vão ser tanto mais evidentes, se calhar, no final dos próximos quatro ou cinco anos. Não tenho dúvida nenhuma disso.

Nós ainda recebemos muito - e muito bom - trabalho feito por toda a equipa que trouxe excelentes jogadores para o Sporting e por toda a equipa que trabalhou esses jogadores.

- Quando tomou posse, o presidente reconheceu que havia lacunas na formação que não se resolveriam de um dia para o outro. Passados estes anos, sente que esses “gaps” estão a ser colmatados ou o processo ainda está em curso?

Sim, esses gaps existiam, mas temos vindo a suprimi-los com o trabalho conjunto da área técnica, da equipa de scouting e das áreas multidisciplinares. Os resultados das nossas equipas têm sido positivos e mostram essa evolução na colocação de jogadores no alto rendimento. 

Há gerações naturalmente mais fortes e outras com menos presença nas seleções nacionais - isso é cíclico. Já tivemos gerações muito ricas, como as de 2003, 2005 e 2007, esta última com quatro jogadores atualmente na equipa principal e outros já nos Sub-21 ou na Seleção A.

Nas convocatórias mais recentes, o Sporting voltou a ser o clube mais representado nos Sub-17 e Sub-16, e está empatado com o Benfica nos Sub-15. Ou seja, há sinais claros de recuperação.

O facto de termos tido apenas um jogador na seleção campeã do mundo não nos entristece; é o reflexo de diferentes ciclos formativos e também de decisões individuais. O mais importante é que Portugal foi campeão do mundo, isso valoriza todo o excelente trabalho de formação que se faz no país. 

O Sporting é parceiro ativo desse desenvolvimento. Trabalhamos de forma próxima com a Federação, partilhando informação e colaborando para o crescimento do futebol jovem. E estou convicto de que, em breve, voltaremos a ter muitas gerações do Sporting nas seleções e, quem sabe, novos campeões do mundo.

- A retenção de talento é hoje um dos grandes desafios do futebol português. Produzimos jogadores de enorme qualidade, mas muitos saem cada vez mais cedo. No caso do Sporting, o exemplo do Quenda é claro: aos 18 anos já é jogador do Chelsea, embora permaneça por empréstimo. Está cada vez mais difícil segurar estes talentos por dois, três ou quatro anos, certo?

Todos gostaríamos de ver o talento que formamos continuar no Sporting e em Portugal, isso seria benéfico para todo o futebol nacional. Mas o futebol é uma indústria global e reflete também a dimensão económica e social do país. Portugal tem uma enorme capacidade formativa, e o Sporting está entre os principais responsáveis por isso.

Não formamos apenas jogadores, formamos também treinadores e dirigentes. Há profissionais que começaram aqui e hoje estão em clubes de topo europeu, como o Manchester City. Essa é parte da nossa missão: preparar pessoas de excelência para o futebol em todas as vertentes.

Naturalmente, uns saem e outros entram, e é por isso que a nossa prioridade é garantir um ciclo contínuo de formação, produzindo cada vez mais e melhores jogadores. Se ficam ou partem depende do mercado e das circunstâncias, mas o foco do Sporting é claro: elevar constantemente a qualidade formativa e preparar atletas capazes de competir ao mais alto nível, em qualquer parte do mundo.

O futebol é universal e nós temos de estar preparados para o servir.

Reportagem Flashscore: Uma viagem pela Academia Cristiano Ronaldo, viveiro de talentos do leão