Exclusivo com João Simões: "Estou a viver o meu sonho, no clube onde sempre quis jogar"

João Simões conversou com o Flashscore na Academia de Alcochete
João Simões conversou com o Flashscore na Academia de AlcocheteSporting CP

Das longas viagens de autocarro entre o Algarve e Lisboa ao sonho concretizado em Alvalade, João Simões é hoje um dos rostos da nova geração leonina. Natural de Portimão e no Sporting desde 2018/19, o jovem médio, campeão nacional de iniciados e de seniores em 2024/25, fala ao Flashscore sobre o percurso, os sacrifícios, a ligação à família e a ambição de chegar à Seleção A.

Acompanhe o Sporting no Flashscore

Das viagens de autocarro do Algarve à Academia: "Estou onde sempre quis chegar"

- Natural de Portimão e no Sporting desde 2018/19, o João Simões é campeão nacional de iniciados, campeão nacional de seniores na época 2024/2025 e vencedor da Taça de Portugal na mesma temporada. Como é que foi o caminho até chegar ao Sporting?

Comecei a jogar no Silves e depois fui para o Portimonense. No Portimonense chamaram-me para fazer uma captação, a primeira vez em 2014. Correu tudo bem e, a partir daí, comecei a participar em torneios. Em 2018/2019, comecei a vir aos fins de semana com o Gabriel Silva, de autocarro, de Portimão até Lisboa, todos os sábados.

- Ainda é uma grande viagem, não é verdade?

Sim. Íamos os dois sozinhos. Apanhávamos o autocarro às oito e meia, em Albufeira ou em Portimão, dependia. Chegávamos cá, jogávamos às 15:00, voltávamos às 18:30 e chegávamos a casa por volta das 22:00, 22:30. Isto durante três anos, até chegarmos à academia em Sub-14, onde passei a residir e a fazer o meu percurso.

João Simões deixa rasgados elogios à Academia do Sporting
João Simões deixa rasgados elogios à Academia do SportingOpta by Stats Perform, Sporting CP

- Que mudanças encontrou ao sair do Portimonense para um clube como o Sporting?

Encontrei muitos jogadores com enorme qualidade e talento. A forma de trabalho era muito diferente, um nível superior. Foi um choque positivo e também uma grande alegria, porque queria muito vir para cá.

- Era sportinguista desde pequeno?

Sim, sempre fui.

- Portanto, está a cumprir um sonho.

Sem dúvida. Sempre foi um sonho vir para o Sporting. Claro que exigiu uma grande adaptação e muito sacrifício. Estar longe da família foi difícil, mas o sonho falava mais alto. Sempre disse aos meus pais que queria vir para cá, e isso fez com que as dificuldades não me abalassem. Sabia que estava a lutar pelo meu sonho e pelo deles também, porque a minha felicidade é a felicidade deles. Então vinha para cá de cabeça tranquila, sabia que tudo o que estava a fazer me ia recompensar.

- E acabou por recompensar. Jogou quase sempre um patamar acima da sua idade?

Sim. A partir dos sub-15, fomos campeões. Depois subi para os Sub-17, depois para os Sub-19 e, a seguir, para a equipa B e depois para a equipa A. Hoje estou num patamar onde sempre quis chegar.

João Simões destaca papel de Aida na Academia
João Simões destaca papel de Aida na AcademiaSporting CP

"Academia dá-nos tudo o que precisamos para chegar à equipa principal"

- Durante os anos de formação, como era o seu dia-a-dia entre treinos e escola? Que tipo de apoio tinha?

O Sporting sempre deu muito apoio. Os valores do clube estão bem definidos e a escola está sempre em primeiro lugar. Só podíamos jogar ou treinar se tivéssemos boas notas, por isso não havia espaço para facilitar. O apoio da senhora Aida, que é como uma mãe para nós, e dos supervisores era essencial, eram figuras paternas. Quando um dia corria mal, eram eles que nos davam aquele abraço que faltava dos pais. Todo o pessoal da academia - supervisores, pedagogia, psicologia - é fundamental para o nosso sucesso, dentro e fora do futebol.

-Mas também depende de vocês.

Claro, mas sem a ajuda deles seria impossível chegar onde queremos.

- Em termos de colegas, dividia quarto com alguém?

Sim. No primeiro ano, em sub-15, fiquei com o Tomás Mendes, colega da mesma geração. Está a fazer o percurso dele e continua cá no Sporting, felizmente. Depois, com um rapaz da Madeira, o Tomás Cerqueira, para o ajudar a integrar-se. Mais tarde, fiquei dois anos com o Miguel Gouveia e, no último ano de academia, com o Gonçalo Peregrino, também de Portimão. Era como o padrinho dele. Foi para o meu quarto para o tentar ajudar. Tive sempre bons colegas de quarto, foi uma boa experiência.

- Vocês eram o suporte uns dos outros, sobretudo os que vinham de mais longe?

Sem dúvida. Éramos como irmãos. Convivíamos, jantávamos juntos... éramos cerca de cinquenta ou sessenta. Todos com o mesmo sonho de chegar à equipa principal. Tentávamos sempre ajudar-nos uns aos outros, porque só assim é que conseguimos lá chegar.

- Como define a Academia do Sporting e o trabalho que se faz aqui?

É incrível. A academia dá-nos tudo o que precisamos para chegar à equipa principal. Em todos os setores. Temos acesso a tudo - treinos, ginásio, acompanhamento psicológico e pedagógico, alimentação, tudo. O espaço é pensado para nos manter focados. Isso ajuda muito. A estrutura está toda montada para formar cada vez mais jovens para a equipa principal.

João Simões é presença assídua nas seleções jovens
João Simões é presença assídua nas seleções jovensFPF

O sonho da Seleção A: "É o expoente máximo"

- Tem mais de cinquenta internacionalizações. O que significa para si representar Portugal sabendo que foi criado nesta academia?

Representar a Seleção é o topo. É o expoente máximo para quem joga no seu país. É um orgulho e uma grande responsabilidade, porque além de representar a nação, represento os meus pais e amigos. Todos sonhamos chegar à seleção A, sabendo que é muito difícil, mas é esse o objetivo.

- Está entre os seus sonhos futuros jogar pela seleção principal?

Sem dúvida. Não sei quando será, nem se vai acontecer, mas vou trabalhar para isso, consciente da dificuldade, do nível e da responsabilidade que implica.

- Estreou-se nos sub-17 com quinze anos e nos sub-19 com dezasseis. Jogar acima do seu escalão teve impacto?

Levei de forma natural. Quando era mais novo, jogava na rua com o meu irmão mais velho e com pessoas mais velhas, por isso já estava habituado. Sempre encarei o jogo da mesma forma, com naturalidade e alegria, assim como encaro hoje em dia. Tento levar comigo esse espírito do futebol de rua.

- Passou diretamente dos juniores para a equipa B. Como foi essa transição? 

Foi depois do Campeonato da Europa. Fiz cerca de nove jogos na equipa B e depois fui chamado pelo mister Amorim para treinar com a equipa A. Desde então, graças a Deus, fiquei até hoje.

- Como recebeu essa notícia de ir treinar com a equipa principal?

Tem a ver com valorização, mas muita responsabilidade. Às vezes nem temos noção do que é a equipa A. Foi uma felicidade enorme. Ver jogadores como o Morten (Hjulmand), o Morita, o Dani (Bragança), o Nuno (Santos), o Pote ou o Trincão, que têm história no clube, foi um orgulho. Para quem os via como adepto, foi especial. E também um choque bom, perceber que são pessoas normais e que eu também posso um dia fazer história no Sporting.

- Sentiu nervosismo quando entrou pela primeira vez no campo principal?

Não cheguei a tremer, mas senti aquele nervosismo natural. Foi um misto de muita felicidade e responsabilidade.

João Simões abraça Quenda, dois jovens produtos da formação leonina
João Simões abraça Quenda, dois jovens produtos da formação leoninaPATRICIA DE MELO MOREIRA / AFP

"Vou muitas vezes ver jogos dos sub-13 ou sub-14 e vejo muito talento"

- O mister Ruben Amorim ajuda a colocar todos à vontade.

Sim. O grupo recebeu-me muito bem desde o primeiro dia. É habitual jogadores da formação treinarem com a equipa principal, o que facilita a adaptação e aproxima os dois grupos.

- Olhando para a equipa B e para os escalões abaixo, achas que há mais jogadores capazes de atingir o teu patamar?

Sem dúvida. Eu e o Quenda vamos muitas vezes ver jogos dos sub-13 ou sub-14, e há miúdos com muita qualidade que podem chegar à equipa A. O caminho é longo, mas vê-se muito talento. É incrível.

- Assinou contrato profissional em fevereiro de 2023. O que sentiu nesse momento?

Foi um sonho concretizado, mas não significa que o caminho esteja feito. É um percurso longo, com muitas dificuldades. Há muita gente que tenta chegar e não consegue. É preciso manter os pés assentes na terra, seguir com calma e ouvir os mais experientes. Só ouvindo os mais velhos que é possível chegar lá.

- Foi o João Pereira quem o lançou na equipa principal, no jogo da Taça de Portugal com o Amarante. Como recorda esse momento?

Foi um sonho tornado realidade. Desde que cheguei ao Sporting, sempre quis jogar em Alvalade. Além da realização pessoal, é também uma grande responsabilidade, porque os jovens da academia olham para nós como exemplo.

- Sente-se uma referência para eles?

Sim.

- E costuma falar com os mais novos?

Sim, todos os dias. Vou falar com a Aida, a minha "mãe" e do Quenda, e costumo falar com os miúdos. Pergunto como estão, como vai a escola, dou conselhos e, às vezes, também umas duras quando é preciso. É importante lembrar de onde vim e estar disponível para eles. Nós somos pessoas normais. E eu coloco-me na pele deles e gostava que alguém da equipa principal viesse falar comigo.

- Esse espírito é parte do ADN do Sporting?

Sem dúvida. Há muita entreajuda, somos todos irmãos. O grupo é muito unido e isso reflete-se em campo. Os valores estão muito bem definidos.

João Simões conversou com o Flashscore na Academia
João Simões conversou com o Flashscore na AcademiaSporting CP

"Sinto que ainda tenho muito para crescer e evoluir"

- Marcou o seu primeiro golo pela equipa principal contra o Nacional. Foi um momento especial?

Sim, muito. Pela minha reação dá para ver que foi algo muito importante. Marcar é sempre o objetivo do jogo, e fazê-lo pelo clube do coração, em Alvalade, com a família na bancada, e ouvir o nome do estádio, é indescritível. Parecia um sonho saído da televisão. Estou muito grato.

- Foi um momento que compensou todo o trabalho e sacrifício ao longo dos anos?

Sim. Só o facto de estar aqui já é uma enorme gratidão. Tudo valeu a pena. Estou a viver o meu sonho, no clube onde sempre quis jogar. Não podia pedir mais nada.

- Foi galardoado com o Prémio Stromp na categoria "Academia" e depois na categoria "Revelação". Sente-se uma revelação ou já uma certeza?

Sinto que ainda tenho muito para crescer e evoluir. Tenho apenas dezoito anos e muito para aprender. Vou continuar a trabalhar e a ouvir os mais velhos, sempre com calma e foco em ajudar o Sporting.

- Que conselho daria a um jovem a quem o Sporting batesse à porta?

Diria para dizer logo que sim. O Sporting dá um apoio incrível - pedagogia, psicologia, supervisão - e forma homens além de jogadores. No fim, a carreira acaba e o mais importante é o ser humano. Os valores que aprendemos aqui ficam para a vida.

Os próximos jogos do Sporting
Os próximos jogos do SportingFlashscore

- E nos estudos? Continua a estudar?

Sim. Acabei o 12.º ano e entrei na universidade, na FMH, em Ciências do Desporto.

- Sente que pode ser útil no futuro, quando terminar a carreira?

Sem dúvida. Nunca se sabe o dia de amanhã. A carreira de futebolista é curta, e conhecimento nunca ocupa espaço.

- Esses também são valores transmitidos na formação?

Sim. Sempre nos disseram que a escola é muito importante. Temos o Projeto, em Alcochete, com professores que nos ajudam e dedicam tempo extra. Aproveito para agradecer-lhes, porque são fundamentais.

- Por fim: o que sente ao passar o portão da Academia, sabendo que ali foram formados dois Bolas de Ouro, incluindo Cristiano Ronaldo?

É um grande reflexo do que é a formação do Sporting. Há muitos jogadores de enorme qualidade - Nuno Mendes, Quaresma, Inácio, Quenda e tantos outros. O quadro do lado da formação mostra bem a qualidade e o talento que existe aqui.

Reportagem Flashscore: Uma viagem pela Academia Cristiano Ronaldo, viveiro de talentos do leão