Farioli abre o livro: Arbitragem, Jorge Costa, o caso Mora, relação com AVB e a famiglia portista

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Farioli durante o treino aberto do FC Porto
Farioli durante o treino aberto do FC PortoJOSÉ COELHO/LUSA

Leia abaixo as declarações do treinador do FC Porto, Francesco Farioli, em entrevista à Sport TV emitida esta segunda-feira à noite.

A filha como exemplo da Famiglia Portista

Já se sente em casa no Estádio do Dragão: "Sim, claro. Vocês (Sport TV) escolheram uma zona especial, foi aqui que vi o primeiro jogo no estádio, contra o Inter de Milão, há alguns anos. É bom estar nesta zona do estádio, é uma perspetiva diferente, mas um local onde me sinto em casa".

Atmosfera do Dragão: "É fácil explicar. A energia, o barulho e o apoio dos adeptos é fantástico, mas sente-se a paixão pelo futebol e pelo clube quando andamos pela rua. Quando estamos num restaurante vemos como as pessoas se dedicam ao clube e fazem-nos sentir a importância do que estamos a fazer e a responsabilidade. É a melhor sensação e privilégio".

Família na bancada: "Sempre, a minha esposa, o meu filho e a minha filha estão sempre aqui. Especialmente a minha filha é uma verdadeira portista. Vi algures a referência da famiglia portista e se lhe perguntar quem somos ela diz famiglia portista. É algo interiorizamos em casa, temos o canal do FC Porto no YouTube quase 24 horas por dia, sabe todos os cânticos e o hino do FC Porto. Como devem imaginar, a imersão é total, mas é uma grande sensação. É algo que nos faz sentir o privilégio do nosso trabalho. Não podia estar mais grato".

Critérios da Famiglia Portista: "Isso é algo que referi na minha primeira conferência de imprensa, esteve relacionado com a primeira reunião com o presidente. Partilhou comigo os valores do clube e o que era importante fazer regressar ao clube. Quando falamos de trabalho árduo, dedicação, empenho, paixão, desejo de colocar bravura e coragem em campo... Tudo isso são elementos que fazem parte de quem são e do futebol que quero ver. Lembro-me de quando o presidente começou a referir essas coisas, a minha mente começou a processar toda a informação e senti imediatamente que este era o ambiente indicado para mim. A outra sensação da famiglia portista é sentires-te em casa muito depressa".

Farioli e FC Porto vêm de uma temporada anterior complicada: "Na primeira reunião com o presidente foi muito especial. Ambos nos entendemos em relação a algumas coisas, as últimas épocas do FC Porto não foram positivas, da minha parte vim de uma época que, na minha opinião, foi boa, mas é difícil descrever o que aconteceu no último mês (perda de título de campeão com o Ajax). De cabeça fria diria que a época foi positiva, mas a dor do que aconteceu no último mês é algo que ficará comigo para sempre. Não posso negar isso. Tentamos refletir, analisar e tentar encontrar respostas, apesar de às vezes termos que aceitar as coisas. A partir daí tentar compreender. Falamos muito da dinâmica de que as coisas só acabam no fim. A partir daí é seguir em frente. As minhas palavras para a equipa foram muito claras, falámos das cicatrizes que tínhamos, não temos de ter vergonha delas, tem de estar na nossa pela como uma memória. Não como uma boa memória, mas faz parte de compreender que faz parte da vida e do desporto, esses momentos de desilusão. Isso tem de servir de motivação adicional, ser gasolina e temos de usar isso como fome constante para melhorar todos os dias".

Considera-se um treinador italiano (defensivo)?: "É um misto de experiências. Talvez ainda existe esse conceito, todos os países têm a sua marca, mas o facto de ter passado em tantos países e treinado em ligas diferentes, me tenha tornado um trota-mundos. As pessoas que estão comigo na equipa técnica vêm de todo o mundo, é um staff muito internacional e vejo isso como um ponto forte. Também há dificuldades, culturas diferentes, línguas diferentes, mas o que ganhamos do outro lado é ter uma abordagem diferente. Digamos que há um gosto diferente em relação a pequenos pormenores. Isso faz de nós um grupo mais entrosado, mais completo e coeso. As pessoas têm a sua opinião e podemos discutir, é algo muito especial e que queria desde o meu primeiro emprego.

Posso contar uma história: No meu primeiro clube, quando fui negociar o contrato, propuseram um valor para mim e um adjunto e eu decidi não receber qualquer euro no meu primieiro cargo. Preferi dividir esse valor para levar quatro ou cinco pessoas comigo para cumprir a minha função. Isso diz muito sobre a forma como a equipa técnica pode impactar o grupo. Esta época, o trabalho da equipa técnica está a ser surreal, estão a ter um impacto enorme em termos de desenvolvimento a nível individual e coletivo. É muito próxima dos jogadores, para perceber o seu sentimento e estado de espírito. Para termos uma época bem-sucedida muitas coisas têm de estar no sítio certo e não pode ser o trabalho de uma só pessoa, mas de um grupo com o contributo de cada pessoa no trabalho diário. Se alargar um pouco a análise, o impacto da equipa médica, de desempenho, de apoio, os funcionários do clube... Desde o Jardel, o nosso roupeiro super energético e apaixonado pelo que faz, além de pormenores que ninguém imagina, até ao nosso presidente que é a referência e que lidera o clube com uma postura incrível, atitude e empenho para que as coisas aconteçam da melhor forma possível".

"Não podia pedir um presidente melhor"

Relação com um presidente que é ex-treinador como André Villas-Boas (AVB): "É uma situação estranha porque ele é, de longe, o diretor ou o presidente com maior conhecimento de futebol. O que ele fez na sua carreira como treinador fala por si. É a pessoa com quem falo menos sobre tática porque, na primeira reunião, preparei coisas para lhe mostrar e ele já sabia tudo. Por isso, falamos mais sobre o ambiente e como gerir as coisas. A primeira vez que abri o computador para lhe mostrar algo já estava aqui no Porto, isso diz muito sobre a sua preparação e sobretudo o respeito que tem pelo trabalho, que também o fez muito bem. A nossa comunicação é muito aberta e direta, vemos as coisas de forma clara e de ângulos diferentes, o que torna as conversas mais ricas. Está muito presente, vem ao (centro de treinos do) Olival duas ou três vezes e está na véspera dos dias de jogo. Aparece, cumprimenta, com boa energia.

Não podia pedir um presidente melhor ou uma pessoa mais presente. Mais do que o seu papel e o que representa, temos uma ótima relação humana. Trocamos mensagens para falar de futebol pela noite dentro, às vezes às 06:00 quando acordo já tenho uma mensagem dele para falar de um jogador ou para falar sobre melhorias. Vim com o rótulo de ser um treinador muito esforçado e, de alguma forma, há pessoas que trabalham mais ou o mesmo do que eu. Isso é incrível Não só o presidente, mas as pessoas próximas dele, é muito claro quem somos e para onde queremos ir. Não há melhor forma do que liderar pelo exemplo.

AVB dá opiniões sobre a prestação da equipa?: "Falamos sobre o desempenho da equipa, como vemos os jogos, do momento em que estamos. Se há coisas que achamos que temos de melhorar, sou alguém que gostar de receber opiniões. Um exemplo: numa das primeiras reuniões, o presidente disse que para ele o Samu não podia defender o primeiro poste num canto. Fui ver algumas coisas e, como podem ver, agogra o Samu nunca lá está. Às vezes, quando chegamos, se acreditarmos nas pessoas e confiarmos no que nos dizem, pode ajudar a acelerar o processo. Também é importante chegar com uma mente fresca e fazer a nossa avaliação, mas também receber dicas é muito importante. Gosto de ouvir e criar uma forma colaborativa de trabalhar, senão não teria sentido ter uma equipa técnica tão grande, que todos os dias cresce, e todos têm de acrescentar algo respeitando os seus papéis. Todos podem contribuir no grande quebra-cabeças para colocar as peças nos sítios certos".

"Sou obcecado com o aspeto físico do jogo"

Questão física é preocupação para a segunda volta: "Claro que é importante. O elemento físico, para mim, é um dos principais no trabalho que fazemos em campo, no perfil de jogadores que procuramos e no desenvolvimento dos jogadores que temos. Sou obcecado com o aspeto físico do jogo e julgo que a trajetória para onde o futebol vai é bastante clara. A partir daí, temos de tomar as decisões certas. Até ver, em todos os jogos temos corrido mais do que os adversários, às vezes até por 8 ou 9 quilómetros e isso é um grande número. É quase como jogar com um a mais. Quando jogamos com o Victor (Froholdt) temos um desempenho incrível, mas a verdade é que estes números e esta energia vem do trabalho de todos. Os nossos centrais fazem, normalmente, mais de 11 quilómetros por jogo para comprimir a equipa, os avançados pressionam muito a defesa adversária e trabalham sem bola para recuar. O número de desmarcações para atacar equipas em blocos baixos, temos de correr mais que os adversários e esticar a linha defensiva, não necessariamente para receber a bola, mas para abrir espaços. Acredito que a capacidade física é chave para conseguirmos certas coisas. A outra parte é a vontade de o fazer, precisamos de estar frescos nas pernas e na mente e é por isso que acredito na importância de todo o plantel para fazer rotação dos jogadores e ter toda a gente preparada para jogar e envolvida. Ao ter toda a gente envolvida, os treinos vão ser mais intensos e com dinâmicas diferentes. Isso pode fazer a diferença na imagem final".

Vantagem pontual sobre os rivais aumenta apoio dos adeptos: "O tipo de apoio que recebemos no Aeroporto antes de voar para os Açores e quando voltamos não é por estarem a celebrar algo. É para nos darem o incentivo e a energia certa, para nos lembrarem, de certa forma, das cicatrizes que todos temos. Penso que querem dar-nos um grande desejo. Nunca senti que estivessem a celebrar, aqui todos sabemos para onde queremos ir, estamos ligados na mesma página e esse entusiasmo e adrenalina à volta da cidade é algo que temos de continuar a trabalhar para que continue a crescer. Os nossos adeptos estão a fazer um grande trabalho, quer no Estádio do Dragão, quer quando jogamos fora, porque parece que jogamos em casa".

Elogios de José Mourinho e Rui Borges: "Acredito que as palavras do mister Mourinho são factos, é algo que é bem claro. Infelizmente, devo dizer que os recordes a meio da época não dão títulos ou qualquer vantagem adicional. O que estamos a fazer é algo especial, é um facto, mas como já disse, não é algo para celebrar ou para estagnar. O que está feito está feito, o futuro próximo é o mês de janeiro que será muito importante. Um jogo para a Taça (frente ao Benfica) que será especial, em casa, um Clássico, um jogo a eliminar. Vamos ter jogos importantes na Liga e, nesta Liga, não podemos perder pontos. Mesmo com esta caminhada extraordinária está tudo em aberto, os outros rivais estão próximos e vão competir até ao fim. Temos também dois jogos importantes na Liga Europa para nos qualificarmos para os oito primeiros porque é muito importante, não só pela qualificação, mas para fugir aos jogos de play-off que serão num calendário muito cheio. Se conseguirmos fugir a isso vai ser muito importante. Temos muito para fazer e não há tempo para celebrar.

Vamos para o Algarva para dar no duro, queremos voltar a ganhar uma boa condição física, refrescar a nossa mente, juntar toda a gente. Vamos com as nossas famílias para ter momentos de trabalho e criar uma ligação ainda maior entre nós. A famiglia portista são os adeptos, é o grupo de jogadores, mas também as pessoas que estão connosco diariamente, que nos esperam em casa quando voltamos do trabalho. Elas desempenham um papel fundamental na nossa vida e será ótimo tê-las connosco durante uns dias".

"Thiago Silva é um dos melhores cinco defesas da História do futebol"

Dificuldades quando adversários condicionam o médio defensivo: "Enfrentamos dificuldades e tivemos jogos difíceis, o que é bastante normal, não somos os únicos a tê-las. Jogamos numa liga muito competitiva, com ótimos treinadores, muito bem preparados. As equipas que jogam na Europa não têm muito tempo para treinar. É complicado manter a forma física, a energia e preparar os jogos, muitas vezes só com um treino, outras só com vídeo, ou só na manhã do jogo com 15 minutos em campo. O trabalho de treinadores em clubes grandes é acrescentar ideias, mas, na minha opinião, tentar ser muito eficaz no que se pode fazer porque não temos muito tempo. Precisamos de ser eficazes a passar a mensagem, a a forma como damos o treino e o tempo na sala de reuniões.

A duração das nossas reuniões tornou-se uma história engraçada. O Eustáquio disse que estávamos a fazer uma série de Netflix na nossa sala de reuniões, que foi um dos meus primeiros pedidos ao clube, ter uma boa sala onde passamos muito tempo. É um dos locais mais importantes para nós porque é lá que construímos as nossas ideias, corrigimos e confrontamo-nos. No fim, há muitas coisas que são fatores cruciais a longo prazo: acrescentar novas ideias e, outras vezes, trabalhar bem porque é importante afinar os detalhes. Esta época mudamos muito, temos mais de 10 jogadores novos e unir as pessoas rapidamente foi algo muito positivo. Agora temos a necessidade de fazer as coisas ainda melhor, mas o nosso objetivo é não baixar o nível e a nossa paciência quando o jogo se complica".

Chegada de Thiago Silva pode desestabilizar a linha defensiva: "Não, vai adicionar experiência e qualidade. Acredito muito na gestão do golo, da partilha dos recursos físicos e mentais. Aqui ninguém questiona o palmarés do Thiago Silva ou o que ele fez no passado e nos últimos jogos, senão não estaria aqui. Não estaria aqui se não estivesse a um certo nível nos últimos jogos, se não estivesse focado - a conversa que tivemos provou que ele vem cá para ajudar a equipa. Não lhe prometi nada, disse que o queria cá para ajudar, quer fosse para jogar todos os jogos ou cinco minutos no final. Está totalmente ciente. Tem a ambição de fechar um ciclo, porque começou a carreira europeia aqui no FC Porto B, ganhou a Liga dos Campeões (pelo Chelsea) no Estádio do Dragão. Vem com a mentalidade de certa e com o objetivo pessoal de jogar no Mundial-2026. Está tudo a postos. Quando o conheci pela primeira vez ontem (domingo), estava com um grande sorriso e muita energia. É disso que precisamos. Estou muito curioso para começar a trabalhar com ele, é um jogador que provavelment foi dos melhores cinco defesas da História do futebol".

Samu, Froholdt e o 'caso' Rodrigo Mora

Crescimento de Samu: "Tem melhorado muito, sinceramente graças ao seu empenho e foco. No início da época tivemos dificuldades para o fazer entender os benefícios do que estávamos a fazer. No fim de contas, o Samu é incrível, é um jogador que quando ataca o espaço ou na área é um atacante de elite. Mas para uma equipa que quer dominar, ou tem capacidade de jogar no meio-campo adversário, havia coisas que tinha de melhorar. Primeiro, compreendeu os benefícios de algo que vai fazer dele um avançado mais completo que, no futuro, poderá jogar ao mais alto nível, numa das três melhores equipas do mundo. Ao ter essa ambição, um jovem como ele, não há alternativa a não ser melhorar e trabalhar. Ele está aberto a isso e a fazer algum trabalho individual que se faça nos sub-13, isso exige muita humildade, autocrítica e consciência. O Samu surpreendeu-me muito, está a sair-se bem, está a melhorar todos os dias a nível físico, tem capacidade de repetir ações intensas com mais frequência, pressiona como um monstro, corre para trás quando é preciso. E ontem (provou) que tem a capacidade de se tornar um avançado completo. Nessa nota, tenho de referir a importância do Luuk (de Jong) e do Deniz (Gul). Com a sua experiência, o Luuk teve várias conversas com ele para lhe explicar a importância de certas coisas. Todas as pessoas estão a desempenhar um papel especial e em 2026 é algo que temos de manter.

As últimas épocas de Samu
As últimas épocas de SamuFlashscore

Froholdt ainda surpreende?: "Era um jogador que não conhecia. Quando o presidente e o departamento de scouting me falaram dele fui ver alguns jogos e fiquei impressionado. Mas vê-lo em vídeo e vê-lo ao vivo... a capacidade tão rápida que tem para melhorar e compreender superou as minhas melhores expectativas. Estou feliz por tê-lo connosco e como está a evoluir a nível de personalidade e de liderança. Nunca me esquecerei no primeiro jogo que ele fez aqui no Dragão, entrou em campo e o estádio foi ao rubro. Desde então essa ligação está a crescer, temos claramente um jogador com o puro e absoluto ADN do FC Porto".

Decisão de Rodrigo Mora não sair foi a melhor decisão para ele?: "Se quiser falar de surpresas posivias, o Rodrigo foi outra. Na época passada, foi o menino de ouro, a grande estrela, fez coisas surreais para um jogador da idade dele. Esta época, ao voltar do Mundial de Clubes, houve algumas mudanças, jogadores novos e outra forma de jogar que exigiu um período de adaptação. Para ele, mas também para todos e para o clube, foi preciso perceber o que estava a acontecer e não foi fácil para ele. Chegou a esta época com o estatuto de estrela. No início, não desempenhou um papel importante ou principal, sabemos o que aconteceu no mercado, falou-se muito do que iria para a Arábia Saudita, muito dinheiro para o clube e para ele.... Quando falámos no final do mercado, voltamos a ser claros un com o outro. Comprometemo-nos um ao outro sobre a forma como queríamos fazer nos meses seguintes.

Do meu lado, é muito fácil: o meu papel é juntar as pessoas para bem do clube. Idealmente queremos ter sempre 25 jogadores, soldados alinhados na mesma direção, esse é o sonho de todos os treinadores. O mais difícil é encontrar jogadores - mas especialmente seres humanos - capazes de aceitar o seu papel, de aceitar decisões e desenvolver áreas que não são o seu forte. E ele... Wow! Não é uma evolução que se faça dos 0 ao 100 num só dia, mas que se vai acrescentando dia-a-dia. Nunca fez cara feia nos treinos ou nos jogos. Aceita jogar poucos minutos, da mesma forma que joga a titular. O seu impacto nos últimos jogos tem sido fantástico, a evolução enquanto futebolista e a sua maturidade. A palavra que melhor lhe assente é maturidade, ele sabe quais são os objetivos individuais e o que tem de melhorar. É um dos jogadores mais comprometidos com a equipa técnica em termos de desenvolvimento pessoal. Depois dos jogos partilhas clipes de vídeo com o staff, porque já está a rever o jogo em casa, analisa-o com o nosso filtro. Estou grato e orgulhoso de ter um jogador com esta qualidade a colocar-se ao serviço do clube. E, por outro lado, a responsabilidade de termos um dos grandes talentos portugueses. Não tenho dúvidas que a carreira do Rodrigo vai ser muito boa, a começar pelo desejo que tem de fazer algo especial pelo FC Porto porque é o clube dele e tem a ambição de celebrar com o seu clube. Depois, a sua carreira dele vai ser fantástica".

"Prefiro ter um amarelo e falta contra nós do que um livre fora de área em situação de penálti"

Clima do futebol português e arbitragem: "Claro que é um assunto. Nas minhas experiências anteriores criei uma espécie de anticorpos porque, em Itália, a arbitragem é sempre um assunto quente. Na Turquia pode imaginar e vimos recentemente o que aconteceu (casos de apostas). Tenho uma boa experiência nesse assunto. Da minha parte, nunca me coloco em situações polémicas. Nos quase 200 jogos que fiz como treinador principal recebi dois ou três cartões amarelos, comporto-me bastante bem, respeito e sou respeitado pelos árbitros. É isso que quero e gosto. Em Portugal é um assunto, desde o primeiro dia que cheguei vi logo na Supertaça. Como disse numa conferência de imprensa, é responsabilidade de toda a gente de acalmar as coisas. Para isso, pode ser preciso tomar algumas decisões em vários níveis. Da nossa parte (quem fala muito durante a semana), não pode ser possível haver logo dois ou três programas a falar de arbitragem mais do que do jogo, nos jornais há páginas de análises aos árbitros. Seria ótimo para um país como Portugal, com tanto talento, bons jogadores, boas equipas e treinadores, falar um pouco mais de futebol. O que todos queremos é ter uma competição justa. 

Para mim é muito relevante o uso do vídeo-árbitro, não só em Portugal, no geral. Há alguns anos, quando o VAR apareceu, era para ser uma ferramenta para ajudar o árbitro a tomar melhores decisões e tornar o jogo mais justo, com menos erros. A realidade é que hoje é uma ferramenta para julgar os árbitros, se receberem uma chamada do vídeo-árbitro têm uma dedução de pontos no seu ranking, se forem e mantiverem a decisão... tudo entra no sistema e, em vez de ajudar o árbitro, estamos a criar, de certa forma, um monstro porque há pânico em relação a todas as decisões. No treino, não eu, mas um dos meus colegas está a arbitrar, é difícil de gerir porque o jogo está a ficar cada vez mais rápido. Há jogadores em contra-ataque a correr a 37 quilómetros por hora, não é fácil acompanhar. Enquanto sistema, o árbitro, os assistentes, o quarto árbitro, assim como o VAR e o AVAR têm de estar lá para ajudar com a prioridade de ter um jogo justo, uma competição honesta e tentar minimizar erros".

É possível ganhar em Portugal sem falar de arbitragem?: "Esperemos que sim... Da minha parte, adoraria falar mais dos jogos depois de termos estado envolvidos nalguns casos que são realmente difíceis de perceber. Num dos últimos jogos no Dragão há uma ação do Pepê que foi assinalada falta fora de área, mas a falta foi dentro. Podemos discutir se foi falta ou não, aproximei-me do quarto árbitro e disse-lhe para ir ao VAR porque se foi falta foi dentro de área e se não foi falta, é falta contra nós e amarelo para o Pepê, sem problema. Mas não podemos aceitar o facto de termos um livre direto quando toda a gente viu que foi dentro da área. Prefiro ter o amarelo ao Pepê e uma falta contra nós, do que ter um livre fora de área numa situação de penálti. Essa é a parte da justiça que falo. 

Erros fazem parte da qualidade dos árbitros ou do condicionamento?: "Não é fácil ser árbitro aqui, porque a pressão é acima do céu. Já tenho tanto que fazer como treinador que o meu trabalho não é julgar. Acho que há coisas como a utilização do VAR, em geral, deve ser repensada para ser usado de forma diferente. Para aliviar um pouco a pressão sobre o sistema e termos competições mais justas e honestas, é o que toda a gente quer".

Lema, compromisso e responsabilidade pela memória de Jorge Costa

Manter viva a presença de Jorge Costa:"Apesar de não ter passado muito tempo com ele, o que o Jorge foi, é e sempre será para o FC Porto é muito claro. Sentimos a sua presença em todo o lado, o seu legado vai perdurar para sempre, não só na camisola número 2, mas na forma de ser e de se comportar. O facto de o futebol português e internacional o ter homenageado diz muito sobre a lenda. É o eterno capitão. No último dia do ano, no dia 31, estava em casa e estava a dar o canal do FC Porto, recordei o dia da apresentação, desde que viajei de Amesterdão. O Jorge estava em quase todas as imagens a tentar ajudar-me e a passar-me o que é o FC Porto, o que representa e a sua opinião sobre como devia abordar esta experiência".

Mensagem marcante: "Sobre a mentalidade trabalhadora, o espírito, a ligação com a cidade, o facto de suar a camisola ser algo não negociável. Esteve connosco todos os dias a ver os treinos, a falar com os jogadores e a ver os jogadores a sofrer e quase a vomitar. É isso que vai ficar connosco, por isso não é difícil recordá-lo. Depois do jogo com o Atlético de Madrid, um dos seus comentários, que me contaram no dia em que tudo aconteceu, foi que 'voltamos a ter uma equipa'. Esse é o slogan perfeito para a temporada. É o nosso lema, o nosso compromisso e a nossa responsabilidade pela memória do Jorge. Temos sempre uma bandeira dele a voar aqui no Estádio para o manter connosco. Mas sobretudo por ele, pela sua família e pela famiglia portista que é quem nós somos, quem queremos ser e quem seremos. A luta pelo título também é por ele".

Renovação de contrato: "Ainda não falamos disso, a prioridade aqui é fazer bem as coisas pela equipa. Todos queremos ir na direção certa. Talvez seja a primeira vez na minha curta carreira em que sinto que podemos construir algo. Na época passada, senti que foi impossível lidar com a exigência (no Ajax). Aqui temos uma equipa jovem, um capitão que renovou há poucos dias, um líder de topo, um grande ser humano e um profissional de topo. Jogadores que se podem desenvolver, jogadores interessantes na equipa B que nos podem ajudar no futuro. Estamos no caminho certo e vamos continuar a trabalhar juntos, mas ligados ao presente e ao próximo passo. O próximo passo é o estágio no Algarve para uma semana de bom trabalho. Os jogadores não vão ficar felizes pelas horas extra, mas sabem porque estão a fazê-lo e estamos comprometidos com o desejo de fazer uma boa época e deixar os adeptos felizes".

Próxima entrevista com respostas em português: "Sim, no outro dia tentei o meu melhor, mas vou falar".