João Gonçalves recorda drama no Boavista e a rescisão com o AFS: "Estou melhor do que nunca"

João Gonçalves representou o AFS
João Gonçalves representou o AFSAFS, Flashscore

João Gonçalves trocou a segurança de um contrato longo pela incerteza de um novo caminho e não se arrepende. O guarda-redes português, de 25 anos, explica a decisão de sair do AFS, fala de um período de trabalho físico e mental fora dos relvados e admite que só aceitará um projeto que lhe garanta aquilo que mais procura nesta fase: estabilidade e minutos.

Há decisões que definem uma carreira e há momentos que a transformam por completo. João Gonçalves viveu ambos num curto espaço de tempo. Entre o risco assumido com a rescisão de contrato com o AFS, depois de perder espaço no emblema de Santo Tirso, e o desafio de reinventar o seu caminho longe dos relvados, o guarda-redes português atravessa uma fase de reflexão, crescimento e ambição renovada.

Nesta conversa de coração aberto com o Flashscore, o guardião, de 25 anos, fala sobre o risco de sair da zona de conforto, a importância do trabalho mental num período de incerteza e a forma como uma lesão grave acabou por moldar a sua forma de ver o jogo... e a vida. Pelo meio, não esquece o Boavista, uma mágoa que ainda hoje perdura, e garante que encara o futuro com a mesma clareza com que defende dentro de campo: com foco, convicção e vontade de chegar mais longe.

João Gonçalves garante estar bem fisicamente
João Gonçalves garante estar bem fisicamenteOpta by Stats Perform, AFS

A rescisão no AFS: "Podia ter ficado na minha zona de conforto, mas assumi o risco"

- A 29 de janeiro, acaba por rescindir contrato com o AFS, apesar de, na altura, ter assinado até 2028. Perguntava-lhe o que levou a essa decisão?

Quando fui para o AFS, foi-me apresentado um projeto ambicioso, numa fase em que eu vinha de uma lesão e era exatamente aquilo de que precisava: voltar à Primeira Liga e, ainda por cima, perto de casa. As pessoas acreditaram muito em mim.

O que aconteceu depois foi que houve um conjunto de alterações. As pessoas que me contrataram já nem estavam no clube, houve uma grande reestruturação e os resultados também não estavam a ajudar. Acabei por perder algum espaço com a chegada de um novo guarda-redes. Perante esse cenário, eu e o meu empresário entendemos que fazia sentido procurar um projeto mais alinhado comigo, mais ambicioso para esta fase da minha carreira e que me pudesse dar outra estabilidade. A decisão foi tomada já muito perto do fecho do mercado, mas decidimos arriscar, conscientes de que isso podia significar ficar algum tempo sem clube.

- Se calhar, o mais confortável até seria agarrar-se ao contrato que tinha até 2028. Ainda assim, considerou que era melhor procurar outro tipo de projeto. Agora que já passou este mês e meio, sensivelmente, em que ponto está hoje? Como é que se sente depois de tudo aquilo que aconteceu nos últimos tempos?

Foi isso mesmo. Eu podia ter ficado na minha zona de conforto, tranquilo, agarrado ao contrato que tinha. Mas sou muito ambicioso e sinto que estou numa idade em que posso arriscar e procurar realmente aquilo que quero. Nesta fase, tenho-me sentido bem porque tenho investido muito em mim. Tenho treinado todos os dias e procuro manter exatamente a mesma rotina que teria se estivesse num clube. Além do trabalho de campo, tenho investido muito na parte mental, que considero cada vez mais importante no futebol. Acima de tudo, sinto que estou a aproveitar esta fase para me potenciar ainda mais e para estar preparado quando surgir o novo projeto.

Os números de João Gonçalves
Os números de João GonçalvesFlashscore

- Sabemos que a posição de guarda-redes é muito específica e isso também lhe acaba por limitar um pouco as opções, porque normalmente as equipas já têm o seu grupo de guarda-redes fechado. Como é que tem sido essa gestão, sobretudo a nível mental? 

Tem sido um pouco de tudo. Como disse, a nossa posição é muito específica e, neste mercado, ainda mais complicada. Tenho aproveitado muito esta fase não só para refletir, mas também para me reorganizar, alinhar objetivos e perceber melhor o caminho que quero seguir. Vejo este período como uma fase de investimento. É quase como semear agora para colher mais à frente. Não olho para isto como uma fase negativa, mas sim como uma fase de progressão. Foi um risco que assumi e encaro-o como um investimento no meu futuro.

- Mas já sente saudades do balneário e de jogar ao fim de semana?

Muitas, muitas. Essa é, sem dúvida, a parte mais difícil e também aquela em que o trabalho mental mais me ajuda. Nós, jogadores, habituamo-nos muito à rotina e, no meu caso, eu adoro a rotina do futebol: acordar cedo, ir treinar, chegar ao clube, tomar o pequeno-almoço, ir ao ginásio, fazer o treino, recuperar. Gosto mesmo muito disso. Se calhar, é até a parte de que mais gosto no futebol.

Claro que deixa saudades não estar a viver isso neste momento. Mas sei que será por um curto espaço de tempo e tenho tentado lidar com isso focando-me noutras coisas e, acima de tudo, naquilo que controlo. Ou seja, procuro criar uma rotina o mais parecida possível com a que teria num clube.

- E muito nervoso, ansioso para saber quando é que o telefone toca, para falar com o empresário e perceber se aparece alguma coisa?

A ansiedade faz parte desta fase. Estaria a mentir se dissesse que não me sinto ansioso ou que não fico à espera daquele telefonema. O telefone já tocou várias vezes, mas, como saí do AFS porque senti que precisava de um projeto alinhado com aquilo de que necessito neste momento, que é, acima de tudo, jogar, também não queria aceitar qualquer coisa. Não olho propriamente para país ou para liga; procuro um projeto ambicioso.

Sinto que esse projeto ainda não apareceu. As hipóteses que surgiram não iam ao encontro daquilo de que preciso neste momento. Por isso, claro que essa ansiedade existe, pela espera do convite certo, do clube certo. Mas tenho tentado controlá-la com o treino e mantendo-me ocupado, tirando o máximo partido deste período, tanto física como mentalmente.

- Nesses planos futuros, por exemplo, o estrangeiro é uma possibilidade? Nunca jogou fora de Portugal, mas é uma hipótese que também consideraria?

Claro que sim. Não descarto nada, nem Portugal, nem qualquer divisão, mas gostava muito de ter uma experiência no estrangeiro. Tenho 25 anos, ainda sou jovem, mas a verdade é que jogo futebol desde os cinco anos e nunca saí da zona do Porto. Isso, por um lado, é uma sorte. Ter conseguido jogar na Primeira Liga sem sair da minha zona é algo muito positivo. Mas, por outro, sinto que está na altura de dar esse passo, de arriscar, de conhecer outra cultura, outro tipo de futebol e outras vivências. Por isso, sim, é claramente uma possibilidade, embora não descarte absolutamente nada.

João Gonçalves não esquece passagem pelo Boavista
João Gonçalves não esquece passagem pelo BoavistaPATRICIA DE MELO MOREIRA / AFP

O drama no Bessa: "Enquanto houver um boavisteiro, o Boavista não morre"

- João, recordando agora um momento certamente muito difícil da sua carreira, que foi a lesão grave que teve e que o afastou durante 13 meses da competição, ainda por cima numa fase em que estava muito bem. Tinha vindo de uma época sempre a jogar, como titular no Boavista e na Primeira Liga, certamente aquilo que sempre ambicionou. E depois acontece essa lesão. Como é que foi viver esse tempo todo sem competir?

Não foi um período fácil. Acho que foi claramente o período mais difícil da minha carreira até agora. Estava num momento muito importante, quase num ano de afirmação. Tinha feito a época anterior toda como totalista e começado muito bem a nova temporada, também a nível individual. No primeiro jogo fui homem do jogo e, nos primeiros quatro jogos, fizemos quatro pontos com o Boavista, numa fase em que a equipa tinha muitas limitações e nem podia inscrever jogadores. Depois acontece a lesão. E, naqueles primeiros momentos, parece que o mundo cai. Surgem os porquês, a pergunta “porquê a mim?”. Mas, olhando agora para trás, vejo que foi também uma fase que me deu muito.

Deu-me, acima de tudo, resiliência e capacidade de encaixe. Quando estás lesionado, estás no posto médico a ver os colegas a irem treinar e não podes fazer aquilo de que mais gostas. Isso faz-nos dar valor a coisas simples, como poder treinar. Quando voltamos, o treino já sabe de outra forma. Apesar de tudo o que teve de difícil, acho que essa fase me deixou muita aprendizagem, outra forma de ver as coisas e mais valorização das pequenas coisas. E sinto que isso me vai ajudar muito no futuro.

- Aqui entra muito a questão mental. Foi o primeiro passo para essa reconstrução mental e para esse reforço? 

É isso mesmo. E os dias de jogo, acima de tudo, são muito difíceis. Vais ao estádio, estás com as pessoas, perguntam-te como estás, e tens de voltar a contar tudo outra vez. Ao mesmo tempo, vês os colegas a jogar e estás na bancada, sem poder ajudar. E isso custava ainda mais por ser no Boavista, que é o clube que me formou e um clube de que gosto muito. Ainda por cima, numa época tão difícil, que acabou com a descida, foi especialmente duro para mim por querer muito estar lá dentro e não poder.

João Gonçalves recorda época da descida
João Gonçalves recorda época da descidaOpta by Stats Perform, Boavista FC

- Como é que foi ter, por um lado, a mágoa de uma lesão difícil e, por outro, ver o rumo que foi tendo a temporada, que para muitos foi um desastre por tudo aquilo que aconteceu num clube que lhe diz tanto?

Foi muito triste. Muito triste mesmo. Acho que o Boavista e os adeptos não mereciam o desfecho que essa época teve, nem a situação em que o clube está hoje, porque o Boavista é um clube enorme. Estive lá oito anos, conheço muito bem a casa e sei o quanto aquela casa merece estar na Primeira Liga e lutar por títulos, porque ali vive-se um ambiente muito especial, difícil de encontrar noutro clube.

O mais triste foi não poder ajudar, ver a época acabar como acabou e sentir que, mesmo na última jornada, ainda podíamos ter conseguido. Não dependíamos apenas de nós, é verdade, mas ainda havia essa possibilidade. Teria sido algo épico, tal como tinha sido na época anterior. Depois, para além da descida, ainda houve tudo o que se seguiu: o clube não conseguir inscrever-se nem na Liga 2 nem na Liga 3 e acabar na distrital. Isso deixa-me ainda mais triste, porque o Boavista não merece isso.

Mas também aprendi lá uma coisa: enquanto houver um boavisteiro, o Boavista não morre. E eu acredito sinceramente que o Boavista ainda vai voltar ao lugar onde merece estar, que é a Primeira Liga.

- Os jogadores passam, os treinadores passam, os presidentes passam, mas o clube fica sempre. E, no seu caso, dentro daquele plantel, havia muitos jogadores que vieram para ajudar o clube, mas que depois seguem a sua vida e encontram outro projeto. No seu caso, ver este desfecho pesa muito?

Sim, pesa muito...

- Ainda tinha mais um ano de contrato e teve de negociar a saída. Como é que foi? Não era certamente a saída que queria.

Não, não era. Essa é uma das mágoas que ainda tenho. Olhar para trás e perceber que o meu último jogo foi, sem eu saber, o último pelo Boavista. Espero um dia voltar ao Boavista e, quem sabe, até terminar lá a carreira. Mas aquele último jogo deixa-me um sabor amargo, porque não fazia ideia de que seria o último. Foi na quarta jornada, depois lesiono-me e nunca mais volto a jogar pelo Boavista. Isso foi um momento triste da minha carreira, porque gostava de ter tido uma despedida diferente e de ter saído do clube de outra forma.

- E como era encarar as pessoas e perceber que, infelizmente, o clube não estava a conseguir seguir o rumo que pretendia? O João, infelizmente, não podia ajudar dentro de campo. Como foi essa ligação com os adeptos?

Não foi fácil, porque naquele clube uma vitória é festejada como se fosse um título e uma derrota é vivida quase como um luto. O ambiente no Boavista é mesmo assim, muito intenso, e isso também é o que o torna tão especial. Nós sabíamos que não jogávamos apenas por três pontos. Sabíamos que cada jogo podia significar uma semana feliz para um adepto, uma ida ao trabalho sem ser gozado, ou até, de certa forma, o futuro do clube.

Por isso, não poder ajudar era muito difícil. E depois ir ver os jogos, estar com as pessoas, sentir a tristeza delas, perceber que o clube não estava a seguir o caminho desejado… era duro. Mas, ao mesmo tempo, em termos de carreira, acho que isso me deu muito. Viver o Boavista foi tão intenso que sinto que um ano lá valeu por três noutro clube qualquer. Essas vivências vão certamente ajudar-me no futuro e, por isso, sou muito grato ao Boavista.

- Sem querer aprofundar demasiado as questões dos problemas que houve no clube. Com a pressão mediática, com o que se dizia cá fora, com o facto de quase nada ser positivo… Como é que um jogador vive esse dia a dia, sabendo que a situação é muito complicada e que um resultado desportivo pode fazer tanta diferença no futuro?

Olhando agora para trás, consigo perceber ainda melhor o peso que aquilo tudo tinha. Na altura, nós estávamos tão focados em atingir o objetivo, em jogar, em ganhar, em conquistar os três pontos, que isso, de certa forma, ficava um pouco de lado. Claro que afetava. Toda a gente sabia da realidade. Mas o foco da equipa era tão grande, e o grupo era tão unido, que conseguimos abstrair-nos muito do que se passava fora.

Aliás, só um grupo como aquele conseguiria levar o barco até ao fim como levou. Por isso é que foi tão triste não termos conseguido no último jogo. Aquele grupo merecia mesmo ter alcançado esse feito, porque teria sido algo histórico.

João Gonçalves regressou à competição pela porta do AFS
João Gonçalves regressou à competição pela porta do AFSAFS

O regresso, 13 meses depois: "Hoje posso dizer que estou melhor do que nunca"

- Virou a página, João, e regressa à competição 13 meses depois. Ainda se recorda desse dia? Foi contra o Fornos de Algodres… O que sentia nesse dia? Como acordou?

Naquele dia acordei e pensei: “Finalmente chegou o dia que esperei durante um ano.” Porque a realidade é essa: trabalhei durante um ano inteiro para aquele momento. Felizmente, foi um jogo que me permitiu desfrutar, porque acabou por ser relativamente tranquilo, e coincidiu também com a nossa primeira vitória da época. Por isso, foi um jogo muito especial e um dos mais marcantes da minha carreira.

Antes do jogo, senti muita ansiedade. Provavelmente foi o jogo em que estive mais ansioso para jogar, porque tinha esperado um ano inteiro por aquilo. Mas, acima de tudo, queria desfrutar. O mais importante que retiro desse momento é ter conseguido transformar a lesão em aprendizagem e chegar àquele dia sem limitações nem receios. Foi como fechar o capítulo da lesão e retomar a minha carreira.

- Em nenhum momento sentiu algum receio, algum medo? Pensou: “será que me pode acontecer outra vez?” Ou nessa fase já chega com uma mentalidade diferente?

Nessa fase já chego diferente. Eu, com seis meses, já estava a treinar. Depois havia toda uma questão burocrática relacionada com o seguro, que só permitia o regresso aos nove meses, no mínimo. O receio surge quando começa a treinar novamente. Há sempre aquele “será?”, aquela desconfiança em certos movimentos. Mas, como só voltei a jogar aos 13 meses, tive muito tempo para ganhar confiança. Na altura do primeiro jogo, já estava completamente confiante e sinceramente já nem pensava nisso. Esse tempo extra, apesar de ter sido difícil, acabou por ser importante para me permitir regressar sem receios.

- A equipa do AFS não estava bem, não atravessava um bom momento, mas recordo alguns jogos em que esteve até relativamente bem do ponto de vista individual, com várias defesas. Depois deste capítulo todo, da lesão, do problema no Boavista, do regresso ao AFS e agora da saída, como é que está hoje? O que é que um clube, se o contratar hoje, vai ter do João?

Acho que hoje posso dizer que estou melhor do que nunca. Depois de passar pela lesão, regressar, mostrar ao país e ao futebol que voltei e que estou bem, e agora viver este período de progressão e reorganização, sinto que estou mais preparado do que nunca. Por isso, acredito que o clube que me contratar vai ter a minha melhor versão, porque estou mais preparado e com mais ambição e vontade do que nunca.

- Falava há pouco que hoje procura mesmo um projeto que lhe permita aquilo que quer, que é minutos. Ou seja, não está naquela fase de aceitar simplesmente um projeto qualquer. Tem sido paciente também nessa seleção?

Sim, tenho sido paciente, porque procuro um projeto que me dê minutos e, acima de tudo, estabilidade, que é algo de que um guarda-redes precisa muito. Ao longo destes últimos anos, não tive estabilidade praticamente nenhuma. E, quando pensei que a poderia voltar a ter, infelizmente, também não aconteceu, muito por causa do contexto coletivo. Por isso, neste momento, procuro sobretudo estabilidade e minutos, para me poder valorizar.

João Gonçalves estreou-se na Liga ao serviço do Boavista
João Gonçalves estreou-se na Liga ao serviço do BoavistaBoavista FC

"Valoriza-se cada vez mais o papel do guarda-redes"

- Gostava de lhe colocar algumas questões mais técnicas, referentes à sua posição. Como é que tem visto a evolução da posição de guarda-redes? Hoje em dia, parece cada vez mais imprescindível que um guarda-redes tenha determinadas características. Aliás, já vários treinadores procuram não só aquilo que o guarda-redes pode dar entre os postes, mas também na primeira fase de construção. Como é que olha para a evolução da sua posição?

Acho muito interessante a forma como a nossa posição está a evoluir e a importância crescente que tem no jogo. Hoje em dia, o guarda-redes do futebol moderno é quase um jogador muito mais ofensivo, alguém que joga muito bem com os pés e que participa diretamente na construção. É ele que muitas vezes inicia a primeira fase da equipa e serve de apoio quando a linha está mais subida. Além disso, ajuda muito a defender a profundidade, porque cada vez mais as linhas jogam altas e o guarda-redes precisa de cobrir espaço nas costas da defesa.

Vejo isso com muito bons olhos, porque a posição está a ser mais valorizada. Antigamente, talvez isso não acontecesse tanto. Hoje já vemos guarda-redes a serem reconhecidos também por essa importância no jogo e até por valores de mercado muito mais altos. Acho que isso obriga também os guarda-redes a trabalharem cada vez mais esses aspetos: o jogo de pés, os cruzamentos, o controlo da profundidade. Tudo isso é cada vez mais importante. Agora, também acho que não se pode olhar apenas para o jogo de pés. Hoje já se ouve muita gente a avaliar um guarda-redes quase só por isso, e eu não concordo totalmente. Jogar bem com os pés é muito importante, mas defender e ser forte entre os postes continua a ser essencial.

- E João, muitas vezes vemos os avançados a dizer que é importante saber ler o guarda-redes, perceber para que lado se vai posicionar. E os guarda-redes, como é que fazem esse trabalho em relação aos avançados ou aos médios? 

Sim, há um trabalho grande de análise, feito pelo departamento e pelo treinador de guarda-redes, que depois nos é passado de forma mais simples para conseguirmos fixar melhor para o jogo. Recebemos vídeo com os pontos fortes da equipa adversária, dos extremos, do ponta de lança, a forma como rematam, os movimentos mais característicos, as bolas paradas, os cantos, os livres, os penáltis. Tudo isso é muito importante para nós.

Eu valorizo bastante esse estudo, mas também acho que o futebol, cada vez mais, faz com que os jogadores saibam que estão a ser estudados. E isso leva a que muitas vezes façam precisamente o contrário do que mostram com mais frequência. Por isso, procuro conhecer essas tendências, mas sem excluir outras possibilidades. Porque um jogador pode rematar normalmente para um lado e, naquele dia, optar pelo outro precisamente porque sabe que foi estudado. Acho que o estudo é muito importante, mas o futebol nunca pode ser levado ao extremo da previsibilidade, porque está longe de ser uma ciência exata.

- Acredito que acompanhe tanto os jogos da Liga como outras equipas lá fora. Pergunto-lhe quais são os guarda-redes de que mais tem gostado de ver em Portugal e no estrangeiro?

Acompanho bastante, sobretudo os guarda-redes. Quando vejo um jogo, o meu olhar vai quase sempre para eles. Em Portugal, o Diogo Costa é, para mim, um dos melhores guarda-redes do mundo. É muito completo. Gosto também muito do Rui Silva e vejo-o como uma referência. Lá fora, gosto muito do Ederson, sobretudo pelo jogo de pés. É a característica que mais aprecio nele. Gosto também muito do Ter Stegen. Infelizmente, passou por uma lesão grave, tal como o Courtois, que na altura da minha lesão acabou por me inspirar bastante.

Na altura saiu um documentário dele que me ajudou muito, porque pensei: “Se ele também passou por isto e conseguiu voltar, então eu também vou conseguir.” O Courtois marcou-me muito por isso. Já gostava dele, mas passei a admirá-lo ainda mais.

João Gonçalves foi chamado aos sub-21 em 2021
João Gonçalves foi chamado aos sub-21 em 2021FPF

"Gostava de poder olhar para trás um dia e dizer que fui internacional A"

- Por tudo aquilo que já viveu, se o futebol, ou neste caso a baliza, que é uma das suas melhores amigas na vida, fosse uma pessoa e tivesse a oportunidade de a encontrar na rua, o que é que lhe diria?

Acima de tudo, que a baliza é o meu mundo. Quando a equipa marca, todos festejam e o guarda-redes, muitas vezes, fica ali sozinho. No Boavista, por acaso, tínhamos um ritual com o Abascal e, quando havia golo, ele vinha ter comigo. Mas, na maior parte das vezes, o guarda-redes festeja sozinho. E quando sofre, também sofre sozinho. É uma posição muito solitária, mas muito especial, pelo poder de decisão que pode ter num jogo. Tanto para o bem como para o mal. Pode defender um penálti no último minuto e ser o homem do jogo, ou pode fazer uma grande exibição e, no último lance, sofrer um golo em que podia ter feito melhor, sendo depois crucificado. Essa é a dureza e, ao mesmo tempo, a beleza da posição.

- No dia em que decidir que já fez aquilo que tinha a fazer, quando olhar para trás, o que é que gostava de ter construído até esse dia?

Gostava de ter uma carreira reconhecida, claro. Mas, acima de tudo, há um ponto que para mim é o mais importante de todos. Já fui internacional sub-21, e isso é algo de que me orgulho muito. Mas gostava muito de, um dia, poder dizer ao meu filho ou ao meu neto, já mais velho: “O teu pai” ou “o teu avô foi internacional A”. Esse é, acima de tudo, o meu maior sonho de carreira. Poder olhar para trás, no fim, e dizer que fui internacional A por Portugal. Acho que, para qualquer atleta, esse é um dos pontos mais altos a que pode aspirar.

- O João teve essa oportunidade em 2021, nos sub-21. E, lá está, costuma dizer-se que, enquanto há vida, há esperança. Neste caso, enquanto houver carreira, há esperança também nesse sentido.

Sim, exatamente. Porque no futebol hoje uma coisa é de uma forma e amanhã pode ser completamente diferente. Tudo muda muito depressa. Por isso, o mais importante é continuar focado em trabalhar, dar o meu melhor todos os dias e acreditar que, se tiver de acontecer, vai acontecer.