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Aos 32 anos, o lateral português está agora na terceira temporada na China, uma experiência que lhe mudou sobretudo a forma de olhar para a vida fora das quatro linhas. Surpreendido pelo nível competitivo do campeonato e rendido à organização e segurança do país, Manafá admite que gostaria de continuar a carreira na Ásia, apesar de terminar contrato no final do ano.
Em entrevista exclusiva ao Flashscore, Wilson Manafá recorda o percurso improvável desde Oliveira do Bairro, revela que recusou uma proposta para renovar com o FC Porto, fala do impacto de Sérgio Conceição, da grave lesão que marcou a passagem pelo Dragão, da aventura na China, da paternidade e de um futuro ainda em aberto. No final, resume uma carreira que superou tudo aquilo que imaginava quando era mais novo numa frase simples: "O futebol deu-me tudo."

Do Oliveira do Bairro ao Sporting: "Nunca pensei"
- Wilson, começou no clube da sua terra, o Oliveira do Bairro, e acabou por passar pelo Sporting, FC Porto, LaLiga e agora pela China. Quando olha para trás, qual foi o momento em que percebeu que a sua carreira tinha ultrapassado aquilo que imaginava quando era mais novo?
Se calhar, no FC Porto. Comecei no Oliveira do Bairro, fui para o Sporting nos juniores e depois estive na equipa B. Obviamente que já era algo de que não estava à espera, mas depois chegas a um patamar diferente, que é jogar na Primeira Liga. Aliás, até volto um bocadinho atrás. No Portimonense, quando fomos campeões da Segunda Liga e depois jogámos na Primeira Liga. Para mim, ter chegado à Primeira Liga já foi um passo muito grande.
Olhando para trás, nunca pensei. Saí dos juniores do Oliveira do Bairro para o Sporting. Estamos naquela idade em que pensamos: 'Estou nos juniores do Oliveira do Bairro, daqui, no máximo, vou jogar por aqui ou, se calhar, numa Segunda Liga.' Por isso, para mim, chegar à Primeira Liga com o Portimonense já foi muito bom.
- É um percurso muito diferente do de muitos jovens que encontrou depois no Sporting e no FC Porto. Esteve no Oliveira do Bairro até aos 17 ou 18 anos, começou por baixo e conseguiu chegar ao topo. O que sente que esse percurso diferente lhe deu? Normalmente, falamos de jogadores formados no Sporting, FC Porto ou Benfica, mas o Wilson esteve até essa idade no clube da sua terra e só depois deu o salto.
Na altura, estava nos juniores do Oliveira do Bairro, dava muito nas vistas e fazia muitos golos. Jogava na frente, era um jogador muito rápido e, obviamente que não era fácil, mas destacava-me dos outros. Chegou uma altura em que jogava 45 minutos pelos juniores e depois ia jogar pelos seniores, porque a equipa estava com dificuldades para se manter. Acabámos por descer de divisão, mas foi uma experiência boa para mim.
Nessa altura, saía do Oliveira do Bairro e ia treinar ao Sporting, aproveitando aqueles períodos de férias e feriados. Na altura, o treinador era o Sá Pinto e alguns jogadores dos juniores do Sporting iam para a seleção, por isso eu ia lá, depois voltava e jogava no Oliveira do Bairro. Fui lá duas vezes e depois decidiram: 'Olha, no próximo ano vens para cá.'
- E como era para si, um jovem habituado à realidade de Oliveira do Bairro, ter essa experiência de ir para Lisboa, treinar no Sporting e depois voltar?
Era completamente diferente. No Oliveira do Bairro, estava com os meus amigos e era um futebol mais tranquilo. Tínhamos a escola e depois treinávamos à noite. Cheguei a Lisboa e eles treinavam de manhã, jogavam na seleção e a qualidade era completamente diferente. Eram muito mais fortes, também porque faziam ginásio. Eu, no Oliveira do Bairro, não fazia ginásio nenhum e era muito magro (risos). Ao pé deles, era tudo muito diferente.
- Quando tem oportunidade de voltar à sua terra e conviver com os mais novos, o que diria a um miúdo de 17 ou 18 anos que joga no distrital, sonha chegar ao futebol profissional e olha para o teu percurso como exemplo?
Normalmente digo sempre: 'Nunca desistas.' Se tens esse sonho e não consegues por um lado, tenta por outro. Eu, por exemplo, tive a sorte de ir para o Sporting nessa altura, mas há jogadores que saem do Oliveira do Bairro, vão para o CNS, destacam-se, passam para a Liga 3 e, a partir daí, já estão no futebol profissional e o sonho começa a aparecer.
É tentar estar sempre focado e fazer o melhor em todos os treinos e em todos os jogos. Costumo dizer também que o futebol tem um pouco de sorte. Eu tive essa sorte de ir lá treinar, eles viram-me, gostaram e tive a oportunidade de ir logo para o Sporting. Mas, se não tiverem essa sorte, tentem por outro lado. Se é mesmo esse o sonho que têm, nunca desistam.
- Depois de tudo aquilo que já viveu, o que ainda existe em si daquele miúdo de Oliveira do Bairro?
Gosto muito de jogar futebol. É uma paixão que sempre tive. Agora já tenho 32 anos. Ainda não estou assim tão velho (risos), mas continuo a ter aquela vontade de treinar e de jogar. Ainda me divirto muito. Por isso, acho que ainda tenho muito daquele miúdo que sempre quis ser jogador profissional. Tento aproveitar e desfrutar ao máximo e espero que as pernas aguentem mais uns aninhos.

O clique na carreira e a chegada ao FC Porto: "Casillas, Pepe, Brahimi... Foi o auge"
- Disse recentemente que o FC Porto foi o auge da sua carreira. Chegou ao Dragão em 2019 e saiu em 2023. Como foram esses quatro anos e o que aprendeu numa realidade que, até então, era um sonho para si?
Aprendi muita coisa. Quando cheguei ao FC Porto, ainda tinha muito pouco tempo naquela posição, porque sempre tinha jogado como extremo e só no Portimonense passei a atuar como lateral. O mister António Folha disse-me logo: 'Para mim, vais ser lateral na minha equipa.' Eu nunca tinha jogado nessa posição. É verdade que o Abel Ferreira, quando me treinou no Sporting, já me tinha dito: 'Acho que podes ser um bom lateral.' Mas, na nossa cabeça, queremos ser extremos, marcar golos e essas coisas. Na altura, não liguei muito à ideia de passar para lateral.
As coisas estavam a correr bem no Portimonense, mas, obviamente, ainda não tinha as bases para jogar numa equipa grande. No FC Porto temos de ser mais malandros e inteligentes, porque as equipas jogam mais em bloco baixo. É mais difícil do que no Portimonense, onde as equipas jogavam taco a taco. Era completamente diferente. Tive de aprender muitas mais coisas defensivamente, saber atacar e saber defender. No início, foi muita informação para mim. Era o começo numa nova posição.
- Sente que essa passagem para lateral foi o clique da sua carreira e que essa mudança lhe permitiu chegar a um patamar ainda mais alto?
Sim, porque foi a partir daí que fui para o FC Porto. Se calhar, como extremo, ainda estaria no Portimonense ou talvez já nem estivesse. Faz parte. Às vezes, o treinador vê uma coisa que o jogador não vê. Temos de tentar fazer sempre o melhor em qualquer posição em que o treinador nos queira colocar e dar sempre o máximo. Foi o que tentei fazer. Ele disse-me: 'Olha, vais jogar a lateral.' Tentei dar o meu melhor, comecei a adaptar-me, comecei a gostar e as coisas acabaram por correr bem.
- No FC Porto, partilhou o balneário com vários jogadores de topo, entre eles Pepe e Casillas, e foi treinado por Sérgio Conceição. Jogar com futebolistas deste calibre e ser orientado por um treinador desta dimensão superou aquilo que imaginava?
Claro. Quando cheguei ao balneário e vi aqueles jogadores todos... Por exemplo, quando fazíamos aquela brincadeira na escola de escolher o nosso melhor onze de sempre, eu colocava o Casillas. Éramos miúdos viciados em futebol e escolhíamos o Casillas, o Pepe... Depois chegas ao FC Porto e tens esses jogadores de elite mundial. Para mim, foi o auge. Acho que é o auge da carreira de qualquer jogador.
O Casillas, campeão mundial, o Pepe, campeão europeu. Depois havia outros jogadores de muita qualidade: Brahimi, Otávio, Corona, Herrera, Militão... Era um grupo espetacular, com uma qualidade absurda. Havia mesmo muita qualidade nos jogadores com quem joguei no FC Porto.

Quando cheguei, houve sempre aquele choque inicial e a necessidade de adaptação, de perceber como é que eles eram. Eu vinha do Portimonense e de equipas mais pequenas. Eles já estavam no FC Porto há muitos anos e, para eles, aquilo era normal. Para uma pessoa que vem de um clube mais pequeno, é sempre um choque inicial, ainda por cima com todos aqueles jogadores. Para mim, essa foi a melhor equipa da era Conceição.
- E como era entrar naquele balneário, olhar para Casillas e Pepe e pensar até na forma como se iria dirigir a eles?
No início pensava: 'Como é que vai ser agora? Pepe, Casillas... Como é que vai ser a abordagem?' No Portimonense jogava sempre e estava a ser um dos destaques. Depois cheguei ali e voltei a ser apenas mais um. Mas acolheram-me superbem. Eram super-humildes, era um grupo espetacular. Foi uma experiência top.
- E Sérgio Conceição? Era tão duro como treinador quanto aparentava?
Sim. Duro, mas era duro naquele ambiente do futebol. Gostava de puxar por nós, mas, fora dali, era uma pessoa espetacular, muito mais calma e muito mais inibido. Não tinha nada a ver. No futebol, ele queria ganhar, tal como nós queríamos ganhar.
- Também viveu um momento muito difícil no FC Porto, com uma lesão grave, provavelmente quando atravessava uma das melhores fases. Como é que esse momento o mudou? Estava a viver o sonho e, de repente, foi obrigado a parar.
Foi complicado porque foi a minha primeira lesão grave. Sendo no tendão, pensava: 'Será que isto vai voltar ao normal? Será que não? Será que vou conseguir voltar a jogar?' Havia sempre aquela incógnita porque nunca tinha estado numa situação dessas. Para mim, foi um grande choque.
Depois, as pessoas diziam-me: 'Essa lesão é complicada, mas vai correr tudo bem. Isso vai sarar, vai voltar ao normal. Ainda vais ficar com o tendão melhor do que estava antes.' Começaram a incentivar-me um pouco. Mas são muitos meses parado e é complicado. De resto, correu tudo bem, porque depois passa rápido.

"Pouca gente sabe, mas recebi uma proposta do FC Porto para renovar"
- Como foi fechar esse capítulo no FC Porto? Depois de vários anos num contexto de enorme exigência, num clube grande e com jogadores de topo, pode tornar-se difícil aceitar uma realidade diferente. Viveu grandes momentos, conquistou vários títulos e depois chegou a altura de pensar: 'Agora vou ter de fazer a minha vida longe daqui.'
Na altura, recebi uma proposta do FC Porto para renovar. Pouca gente sabe disso e também não costumo falar muito sobre o assunto. O FC Porto ofereceu-me outro contrato para continuar, mas senti: 'Já estou aqui há quatro anos e meio, a cidade é top, o clube é top, mas acho que quero experimentar outras coisas'. Na altura, também já não estava a jogar muito e pensei: 'Será que vou ficar com este contrato, permanecer aqui mais não sei quanto tempo e, se calhar, não vou jogar?' E já se sabe que o jogador gosta sempre de jogar. Por isso, optei por sair, tentar a sorte noutro lugar e foi por aí.
- Olhando para trás, e sabendo agora aquilo que aconteceu, considera que foi a melhor decisão?
Acho que sim. Obviamente, foi o melhor clube onde estive. Se pudesse ficar lá durante o resto da carreira, ficava. Mas, às vezes, também temos de perceber que há ciclos que precisam de ser fechados e senti que, naquela altura, essa era a melhor opção.

- Às vezes, o futebol também pode ser ingrato. Os jogadores passam por grandes clubes, conquistam títulos e nem sempre sentem que aquilo que deram foi reconhecido. Com que imagem acha que as pessoas ficaram da sua passagem pelo FC Porto? Sente que foi reconhecido da forma que merecia quando saiu?
Acho que sim. Obviamente, as pessoas têm sempre os seus favoritos, aqueles que criticam mais e aqueles que criticam menos. Estou contente com aquilo que fiz no FC Porto, com aquilo que conquistei e, obviamente, com tudo aquilo que conquistámos enquanto grupo. Não sou muito de ligar àquilo que as pessoas dizem. Preocupo-me mais comigo e com aquilo que faço. Acho que os anos que lá estive e os títulos que conquistámos não há muito a falar. Por isso, sinceramente, não ligo muito a essas coisas, se falam bem ou mal.
- Antes de chegar à China, teve uma breve passagem por Espanha, pelo Granada. Como foi esse período da sua vida? Não terá sido aquilo de que estava à espera, até porque acabou rapidamente e depois mudou-se para a China. De forma resumida, como define essa experiência depois da saída do FC Porto?
Falaram-me muito bem do clube, que tinha acabado de subir à LaLiga e tinha um projeto para se manter. Interessei-me e eles também demonstraram muito interesse em que eu fosse. Só que acho que a equipa não estava muito preparada para aquilo que vinha da LaLiga. Ainda não estava muito bem organizada e tinha muitos jogadores da LaLiga 2.
Atenção, não estou a dizer que tinham mais ou menos qualidade, mas, obviamente, a LaLiga 2 não tem nada a ver com a LaLiga. Jogar com Barcelona, Real Madrid, Valência ou Villarreal é defrontar equipas que sabem jogar futebol. Acho que tivemos muitas dificuldades e foi aquilo que se viu. Depois, o Granada acabou por descer. Eu também não estava a jogar muito, por isso foi uma experiência de que não gostei muito. A cidade é boa, o clube até era organizado ao nível das instalações e de tudo o resto, mas não correu bem.
- Apesar de ter sido uma passagem curta e difícil, teve a oportunidade de jogar no Bernabéu, frente ao Real Madrid. Para alguém que cresceu em Oliveira do Bairro, é mais um daqueles momentos que certamente vais guardar.
Nunca pensei jogar no Bernabéu. Nunca pensei. Um estádio brutal, inacreditável.

A mudança para a China: "O campeonato surpreendeu-me"
- Depois surgiu a China. Como apareceu esta oportunidade e o que foi mais difícil nos primeiros tempos? Não apenas no futebol, mas também ao nível social, porque Xangai é uma cidade absolutamente gigante.
O mais difícil, obviamente, foi a língua. Mas, como Xangai é uma cidade internacional, até conseguimos falar com algumas pessoas, porque muita gente também fala inglês. Por isso, a adaptação até foi boa. Também tinha o João Teixeira, que já estava aqui. Ajudou-me logo em muitas coisas no início e a adaptação não foi muito difícil. Obviamente, quando cheguei, houve um choque. Para falar com as pessoas é muito complicado. Mas, depois de estarmos aqui e vivermos aqui, as coisas começam a tornar-se normais.
- Já está na sua terceira temporada. Como é realmente viver na China depois de ultrapassada essa primeira fase de novidade? É um país bom para viver?
Muito bom. É muito organizado e muito seguro. Digo a toda a gente: 'Vocês falam da China, mas nunca vieram à China e não sabem o que é a China.' Neste momento, é muito mais organizada do que Portugal em muitas coisas. É seguríssima para os miúdos e é muito fácil movimentarmo-nos para todo o lado. É uma organização acima da média.
- Costuma dizer-se que alguns países asiáticos estão um pouco à frente em termos de desenvolvimento. Que coisas viste aí e pensaste: 'Isto é surreal'?
Há algumas coisas. Por exemplo, agora já inventaram os táxis sem condutor. Outra coisa é que, como aqui na China usam o telemóvel para tudo, existem power banks espalhadas pela cidade. Se estivermos a ficar sem bateria, vamos lá, utilizamos o QR Code, tiramos uma power bank, andamos com ela e, depois, quando encontramos outro posto, voltamos a colocá-la.
- Como é o campeonato? O nível competitivo surpreendeu? Há algum aspeto do futebol que seja melhor do que aquilo que imaginava quando chegou?
Surpreendeu-me. Pensava que não seria um campeonato tão competitivo. Achava que haveria uma ou duas equipas, no máximo, a jogar e o resto seria diferente. Mas não. É um campeonato competitivo e há muitos jogadores que também defrontei em Portugal, noutras equipas. Este ano está ainda mais competitivo, porque houve muitas equipas com redução de pontos e agora está tudo muito próximo.
- E ao nível das infraestruturas dos clubes? Estádios, campos e condições de treino, tanto no seu clube como naquilo que tem encontrado nos adversários...
No nosso clube estão a remodelar tudo agora. Estão a tornar tudo muito mais profissional. Temos vários campos para treinar e instalações onde cada um pode ter o seu quarto. Obviamente, Xangai é diferente das outras cidades, mas tentam também igualar as infraestruturas em todo o lado, porque aqui existe muito essa ideia de igualdade para todos. Acho que quem manda também tem esse pensamento e tenta fazer com que toda a gente tenha as mesmas coisas e a mesma organização. Naturalmente, existem equipas grandes e depois há diferenças nos detalhes. Mas, no geral, acredito que todas as equipas tenham boas condições para treinar.
- E os adeptos? Sabemos que há muita gente na China e particularmente em Xangai. Como é a relação das pessoas com o futebol?
Em Xangai, a equipa onde jogo é uma equipa grande. Daquilo que vejo, é a equipa que tem mais adeptos. Jogamos em casa e temos sempre muita gente, jogamos fora e também vai muita gente. O nosso estádio acho que tem capacidade para 70 ou 80 mil pessoas. Não conseguimos ter sempre o estádio cheio, mas vai muita gente, sobretudo ao fim de semana.

"Estou a gostar muito de estar fora e, no futuro, gostava de continuar por aqui"
- Em relação ao futuro, creio que termina contrato no final deste ano. É verdade?
Exato.
- Já começou a pensar no próximo passo ou queres deixar todas as possibilidades em aberto, incluindo continuar na China?
É isso. Como estou a gostar tanto da China, não sei o que o futuro vai reservar. Não sei se é para ficar aqui, se é para voltar a Portugal ou, se calhar, ir para o Japão, Tailândia ou outro lugar. Ainda estou a ver. Só o futuro dirá.
- Se aparecesse amanhã uma boa proposta em Portugal e outra para continuares no estrangeiro, o que pesaria mais na sua decisão neste momento?
Estou a gostar muito de estar fora. Tive aquele receio inicial porque sempre joguei em Portugal. Depois fui para Espanha, mas Espanha é praticamente Portugal, é ali ao lado. Como a minha mulher é de Portimão, de carro até Granada eram quatro horas. Agora foi a primeira experiência a sério que tive longe de Portugal. Estou a gostar muito da experiência e já é o terceiro ano. Se quiserem que continue, continuo aqui. Estou muito bem deste lado. Por isso, no futuro, gostava de continuar por aqui, mas isso também será o clube a decidir.
- Mas existe o desejo de terminar a carreira em Portugal ou nem pensa nisso?
Sim. Às vezes costumo brincar e dizer: 'Gostava de terminar no Oliveira do Bairro.' Mas muito mais para a frente (risos).
- Se pudesse sentar-se hoje com o Wilson Manafá de 20 anos, que estava a dar os primeiros passos e ainda sonhava chegar aos patamares a que chegou, o que lhe diria numa conversa de cinco minutos?
Diria que aquilo que ele pensou e queria, conseguiu. Quando tinha essa idade, só pensava: 'Se jogar numa equipa grande, já fico contente.' Ganhar os títulos que ganhei em Portugal e jogar pelo FC Porto... Diria: 'Fizeste uma carreira muito boa para aquilo de que estavas à espera.' Trabalhámos muito, sofremos também, mas foste feliz. Desfrutaste do futebol e é isso.
- A paternidade mudou muito aquilo que era como profissional?
Obviamente que muda, porque temos de pensar em tudo. Por exemplo, quando tomei a decisão de vir para a China, custou um pouco, porque o meu filho estava habituado a estar em Portugal. Mas está numa idade em que, como são tão pequenos, absorvem tudo.
Por exemplo, o inglês. Obviamente que o chinês é muito difícil, mas o inglês é uma coisa boa para ele. Pensei nisso também. É uma oportunidade que tem de comunicar em inglês e, se no futuro conseguir absorver algumas palavras, quando voltarmos para Portugal já leva uma boa bagagem. Acho que pode ser importante para ele no futuro.
- E em relação a si, é muito diferente daquele Manafá que chegou à China? O que mudou em si, a nível pessoal e profissional, ao longo destes anos?
Acho que não mudou nada. Continuo a ser a mesma pessoa. Obviamente, agora preocupo-me com outras coisas. Antes era mais futebol, futebol, futebol. Agora preocupo-me mais em desfrutar da vida, estar com a família e ter outras experiências. Estando deste lado da Ásia, também podemos visitar vários países, conhecer outras culturas e ver mais do que se passa à volta do mundo.
Obviamente que o futebol é importante, mas também temos de desfrutar um pouco mais, porque a nossa família sofre um pouco com isto. Quase não podemos fazer nada por causa do futebol. Estando aqui, aproveito para desfrutar um pouco mais, obviamente do futebol, como já disse, mas também da família e para ter várias experiências.

"O futebol deu-me tudo"
- No dia em que decidir terminar a carreira, seja quando for, e alguém perguntar quem foi Wilson Manafá, o que gostaria de ouvir como resposta?
Obviamente que se vão lembrar da altura em que joguei no FC Porto. Muita gente ainda se lembra e, às vezes, ainda recebo algumas mensagens. Mas gostava que dissessem: 'Olha, um miúdo vindo de Oliveira do Bairro, com uma carreira que parecia que não ia dar em nada e que, com a sua força de espírito, conseguiu ter uma carreira muito boa e era um bom rapaz.' Isso já seria muito bom.
- Se o futebol fosse uma pessoa e tivesse a oportunidade de o encontrar na rua e falar com ele, o que lhe diria perante tudo aquilo que lhe deu?
Diria que o futebol foi praticamente a minha vida. Costumo dizer: 'Se eu não jogasse futebol, ia fazer o quê?' Desde pequeno que foi sempre um sonho que tive. Sempre foi futebol, futebol, futebol. Acho que o futebol me deu muitas coisas. Deu-me experiência e muitas amizades. Deu-me também a possibilidade de conhecer a minha mulher. Eu sou de Oliveira do Bairro e ela é do Algarve. Se não fosse o futebol, nunca a conheceria na vida. É aquilo que digo: o futebol deu-me tudo.
