Mourinho: "Sou convidado pelo SC Braga e o meu pai disse-me 'tem juízo'"

Mourinho no banco do Benfica
Mourinho no banco do BenficaSL Benfica

Em conversa com Rui Miguel Tovar, na Rádio Renascença, José Mourinho recordou os conselhos de Félix Mourinho e abordou as influências que recebeu do progenitor, antigo jogador do Vitória FC e Belenenses.

Carreira: "O meu pai, na minha carreira, quando começou a perceber que eu tinha pernas para trepar, foi mais espectador e deixou a responsabilidade toda nas minhas mãos, mas houve um momento específico em que me deu uma opinião. Dava poucas e quando aconteceia era muito objetivo. Eu estava no Barcelona e sou convidado pelo SC Braga. É o primeiro clube que me faz convite para ser treinador principal. Eu tenho aquele impulso e ele disse-me: 'Tem juízo'. E disse-me: 'Hoje o SC Braga, amanhã o Vitória SC, o Belenenses, o Marítimo, algum vai ser o primeiro, mas Barcelona, adjunto, a trabalhar com jogadores de alto nível, tem juízo, a tua hora vai chegar".

Eusébio: ""Conheci o Eusébio. Tive o privilégio de ser, não diria amigo, amigo, mas sabia que eletinha muito carinho por mim. Olhava com uma admiração fantástica. O nosso aniversário era com um dia de diferença e desde pequeno, não sei como é que o meu pai conseguia aquilo, mas houve um período da minha vida que eu tinha sempre uma prenda do Eusébio. Tinha uma camisola do Eusébio, um postal dele com a Bota de Ouro, tudo autografado por ele. Eles tinham uma boa relação e houve um período em que o meu pai me fazia ter este contacto com o Eusébio. Depois, volto a reencontrar o Eusébio, na Luz, na primeira Taça Eusébio, em que o jogo acaba, e no fim do jogo tive o impulso de pedir ao Massimo Moratti, a taça para mim. Eu tenho a Taça em casa. Já disse aqui no Benfica, que se a dona Flora, uma das filhas ou netas fizer muita questão de ter a primeira Taça Eusébio, que eu a dou. Mas até agora, ninguém me disse nada e a primeira Taça Eusébio está na minha casa".

Influência do pai: "Era um líder extraordinário, com uma tranquilidade incrível, com um controlo das emoções ao mais alto nível. Há uma coisa nele que eu agarrei e não mudo: Depois do jogo, não é o momento certo para falar com os jogadores, para expressar emoções, positivas ou negativas. É muito difícil alguém ver-me exaltado depois de um jogo, no balneário, como é muito difícil verem-me depois a dar uns pontapés nas portas. Ao intervalo, sim. No final, não. No final, não há nada a fazer. Isso recebi do meu pai. A honestidade, eu percebi desde cedo que os jogadores apreciavam muito. E aquela coisa do pai doce e do pai tirano, é uma coisa que se aplica desde que seja no momento certo. Honestidade, acima de tudo".

Final da carreira do pai: "Lembro-me quando ele decidiu deixar de jogar. Não sei especificamente o último jogo dele, mas ele tinha pensado acabar no final da época. Numa segunda-feira vai-me buscar à escola e diz-me: 'Vou deixar de jogar'. E eu pergunto o motivo. 'Porque o golo que sofri ontem, não tinha sofrido há um ano ou dois'. Acabou. Chegou ao Belenenses e disse que ia continuar a treinar e passar de primeiro para terceiro guarda-redes. 'Se tiver de ir a suplente, preparo-me até final da época, mas a minha carreira acabou aqui'. Depois lembro-me que tem de ir a suplente num jogo, com o Montijo, mas na minha cabeça, quando foi convocado para aquele jogo, ele ia jogar. Convenci-me que ele ia jogar e quando o vi no banco, foi quando interiorizei que tinha mesmo acabado".