Mais de duas décadas depois da sua inauguração, o Sporting abriu as portas da sua academia ao Flashscore. As fotografias dos bolas de ouro Luís Figo e Cristiano Ronaldo parecem dar as boas-vindas, sobretudo aos novos jogadores, que entram na porta da ala de formação.
Bolas de Ouro nas boas-vindas
No acesso ao refeitório, um mural apresenta aos mais novos os oitenta e oito jogadores formados em Alcochete, que já se estrearam na equipa principal. Há sempre um lugar em aberto que diz: “O próximo podes ser tu”. Noutro local, uma fotografia dos “Aurélios”, a dezena de jogadores formados no clube que foram campeões europeus em França, no Euro-2016. Tudo isto contribui para relembrar aos jovens jogadores que andam pelos corredores da ala da formação, que o Sporting, além de ser um clube de grande dimensão, também tem uma enorme capacidade de lançar talentos no futebol português e no mundo.

“São marcos significativos da nossa formação”, referiu o co-diretor geral da Academia Cristiano Ronaldo, Tomaz Morais, ao Flashscore. Os nomes, que estão ligados à história, “contribuem, não só para atrair talento, mas também para a responsabilidade das mais de duas centenas de pessoas que neste momento trabalham para o futebol de formação, porque o facto do Sporting ter no passado contribuído para a formação de dois Bolas de Ouro, como foram o Luís Figo e o Cristiano Ronaldo, este ainda atualmente, em que continua a um desempenho de excelência e a romper recordes, dá-nos uma responsabilidade ainda maior de todos os dias e em todos os jogadores que por aqui passam, deixar a nossa marca. Fazemos questão que as pessoas sintam que além do peso que esses dois nomes têm, passaram por aqui jogadores de excelência, não só no passado, como no presente, como é o caso do Nuno Mendes que joga no Paris Saint-Germain."
"Aqui faz-se um trabalho de excelência, para saírem jogadores de excelência. Primeiro para a equipa do Sporting, como para o futebol mundial”, reforçou Tomaz Morais.
João Simões como um dos últimos exemplos
João Simões é um dos mais recentes casos de sucesso. Com pouco mais de um ano de integração na equipa principal, já tem mais jogos na Liga dos Campeões do que no campeonato e fala com enorme admiração sobre a qualidade de uma formação que leva alguns ao topo.
“É um grande reflexo do que é a formação do Sporting. Não apenas o Figo e o Cristiano e os que foram campeões da Europa, mas também outros, como o Nuno Mendes, Eduardo Quaresma, Gonçalo Inácio, Quenda e tantos outros. O mural do lado da formação, mostra bem a qualidade e o talento que existe aqui”, afirmou o médio dos leões ao Flashscore.

Para quem aos 14 anos entra pela primeira naquela porta, o impacto dos nomes e dos títulos são a primeira abordagem para transmitir os valores que os levaram a um patamar de sucesso, ao alcance de poucos.
“Orgulhamo-nos disso e passamos esses valores a todos os escalões e tudo o que eles representam. Naturalmente com o Cristiano Ronaldo como valor mais alto”, referiu o treinador dos sub-14, Filipe Santos, ao Flashscore.
“Quando o Cristiano começou a ser profissional, nenhum destes jovens era nascido. O trabalho, a humildade e profissionalismo podem levar a uma carreira longa como a do Cristiano, que aos 40 anos ainda está num nível altíssimo. Por isso é que temos diversos departamentos envolvidos a auxiliarem a sua evolução, como a performance, a nutrição, a psicologia e a área técnica. Todos nós, adultos, estamos envolvidos para que um miúdo se possa desenvolver em todas as vertentes para chegar longe. É esse exemplo que dá o nome a esta academia, é o exemplo maior e máximo do que é o nosso clube, mas também o nosso país”, acrescentou.

Sem clones de Cristiano Ronaldo
O Sporting não procura tentar produzir clones de Cristiano Ronaldo, porque ele é único, mas procura introduzir nos jovens alguns princípios que possam aprimorar o que geneticamente existe em cada um deles. Aparece o modelo assente no jogador, que mereceu uma distinção da Associação Europeia de Clubes na categoria de futebol de formação.
Segundo Tomaz Morais, “é um modelo inegociável”, assente na “diferenciação individual para cada jogador. Nós sentimos que, até entregarmos o jogador ao alto rendimento — onde se trata de ganhar —, na formação, as vitórias são muito mais do que o resultado desportivo no final de um jogo. No alto rendimento, trabalha-se para uma equipa: regras de equipa, resultado da equipa. Na formação é o oposto: o que conta é o jogador. É aquilo que ele evolui ao final do dia, é aquilo que ele cresce ao final do dia. É termos na cabeça que existimos para potenciar e desenvolver jogadores. É o alinhamento de todas as áreas departamentais criadas para que ele possa evoluir, primeiro enquanto pessoa — característica base do modelo — e depois enquanto jogador. Acreditamos que, se ele for uma boa pessoa, bem construída, bem implementada naquilo que faz, vai estar muito perto de ser um bom jogador. Caso contrário, não acreditamos ser possível. É assim que trabalhamos cá dentro e é assim que nos formamos para esse modelo. E depois temos a intervenção técnica. Na formação, falamos de um treinador educador, formador, exemplo de comportamentos — porque é o espelho do jovem. O jovem segue o exemplo. Não há nenhum jogador na formação para quem o mister não tenha sido alguém especial para a vida."

"Ele, mais do que ser treinador de equipa, é treinador do Sporting. Essa é a grande diferença. Tem de ter capacidade de olhar para a floresta, para todos os jogadores, e não apenas para os onze que vai pôr a jogar ou para o grupo do plantel daquela época. Para mim, isso foi uma grande vitória no Sporting: acreditar no processo e trabalhar sobre o processo. E depois há as decisões técnicas do nosso modelo de transição de jogadores: muito interno, muito silencioso, muito nosso, com privacidade. A diretriz dada ao jogador, a escolha do contexto competitivo adequado — se joga no escalão A ou B, se precisa de mais adversidade ou menos, se precisa de mais dificuldade — é o segredo do processo", revelou Tomaz Morais.
"Isso tem permitido acelerar o processo de alguns jogadores nos últimos anos. Não falo só do Quenda, não falo só do Salvador Blopa, falo de outros que apareceram na equipa principal, alguns ainda lá estão, outros saíram para clubes de topo europeu. Isso deve-se ao facto de, no momento certo, termos dado a curva estratégica de desenvolvimento de que o jogador precisava. E isto às vezes fere resultados desportivos, porque tiramos jogadores de um escalão. Basta ver a equipa B: muitos podiam jogar no Nacional de Juniores e estamos a dar oportunidade numa Liga 2 e, ainda por cima, a equipa lidera, com jogadores muito jovens. Portanto, este é o modelo centrado no jogador", concluiu Tomaz Morais.
Recriar o que apaixonava Aurélio Pereira
Muito deste processo passa pelo departamento de desenvolvimento individual, liderado por Raul Ribeiro. Um departamento que nasceu quase anónimo, mas que envolve cada vez mais gente, e que se pretende estender a todas as academias existentes por Portugal, uma vez que começa com jogadores cada vez mais jovens.
“É um trabalho complementar ao treino coletivo. Isolamos determinadas ações e gestos técnicos para que ocorram mais vezes no nosso treino, algo que nem sempre acontece no treino coletivo. Damos grande propensão às coisas que queremos que aconteçam mais vezes. Preparamos para eles estarem mais perto de um patamar de elite. O nível de complexidade vai variando ao longo do percurso formativo, de acordo com a idade e o escalão”, afirmou ao Flashscore.

Trata-se de um setor que vai ao encontro do legado deixado por Aurélio Pereira, grande apaixonado pelo futebol de rua, onde descobriu, num recreio de escola ou em jogos na rua, grandes talentos.
“Também somos defensores disso. Hoje brinca-se cada vez menos e isso limita a liberdade corporal necessária para jogar futebol ao mais alto nível. Temos um espaço dedicado a isso — o campo sete — onde os jogadores passam por contextos semelhantes ao futebol de rua. Lá não treinam o jogo formal, mas tudo aquilo de que precisam para que o jogo depois seja mais fluido: futevólei, teqball, futeténis, jogos reduzidos com diferentes estímulos. Cada exercício é pensado para promover determinados gestos e graus de liberdade corporal. Queremos libertar os jogadores dessas amarras. Queremos que, no final do processo formativo, o corpo do jogador tenha sido exposto ao máximo de estímulos possível. Que o corpo compreenda tudo o que está a acontecer. O nosso 'tema zero' é a relação com a bola — que a bola seja uma extensão do corpo e não um problema a resolver. Tratar a bola por tu. Acredito muito no desenvolvimento. O João Simões, o Blopa e o Quenda não nasceram assim. Nós queremos dar mais armas para eles usarem em jogo. Se conseguem ser muito bons na capacidade do drible e a fugir para o pé forte, temos que lhe dar ferramentas para ser imprevisível ou de ter mais soluções para resolver determinado problema. O desenvolvimento leva tempo. Queremos que, no final da formação, todas as peças estejam bem encaixadas, criando jogadores sólidos, preparados para responder aos problemas do jogo sem perder equilíbrio”, referiu o técnico.
Uma Academia de cara lavada
A base da Academia Cristiano Ronaldo não sofreu muitas alterações externas nos seus edifícios base. Há uma ala destinada ao futebol profissional, com uso exclusivo de dois relvados, e outra destinada à formação, com mais 4 relvados naturais e dois sintéticos. Naturalmente que, duas décadas depois da sua inauguração, as necessidades são outras. Há mais equipas, há mais jogadores e o espaço não estica.

Contudo, há planos de expansão e não necessariamente no espaço que agora ocupa, embora já tenha sido tornado público um projeto, que até agora foi engolido pela burocracia e afetado por atos eleitorais, que tarda em ver a luz do dia, o que faz com que os responsáveis do Sporting procurem alternativas.
“Como sabemos, a formação desportiva e o futebol são altamente dinâmicos e o crescimento no Sporting tem sido muito grande nessa área. Nós queremos continuar a crescer e a expandir com mais campos. No entanto, e como temos vindo a fazer, estamos a olhar geograficamente para outras zonas onde poderemos vir a ter algumas Academias Sporting, principalmente perto de meios urbanos onde já temos a funcionar muito bem os Pólos Sporting Norte (Santo Tirso), Coimbra, Aveiro e Algarve. O talento está em todo o lado e teremos de continuar sempre atentos. Em Lisboa, no Estádio Universitário, estamos a fazer um investimento considerável em infraestruturas, porque temos lá os nossos jogadores até aos Sub-13. Estamos neste momento em obras de remodelação e tencionamos em 2026, estender essas alterações aos edifícios e bancadas que dão suporte aos campos. Queremos proporcionar aos nossos jogadores, de qualquer idade, as melhores condições de preparação e competição”, explicou Tomaz Morais.
Contudo, o trabalho na Academia não pode parar. “Quando referimos o termo Academia aqui no Sporting, é muito mais do que isso: é um legado formativo. Falamos em organização, falamos em liderança, falamos em metodologia e falamos em processo. É uma academia com a cara original, mas completamente renovada por dentro, e com mais campos. E, acima de tudo, a qualidade dos relvados. Ao dia de hoje, tanto os relvados do futebol profissional como o relvado do Estádio Aurélio Pereira são relvados de última geração, o chamado híbrido. É um relvado que, como se costuma dizer, é nota 10. Temos, neste momento, numa fase terminal, balneários: um balneário para cada equipa, coisa que a Academia não tinha. Balneários mais modernos. Em termos de espaço, não podemos andar muito, porque é o espaço que existe, é o espaço com que temos de trabalhar”, acrescentou o diretor.
400 milhões de euros de lucro
Foram 27 os jogadores criados na academia Cristiano Ronaldo, cujos passes foram transacionados até ao passado mês de março, e que renderam perto de 400 milhões de euros, com Geovani Quenda a ser o mais valorizado e já transacionado para o Chelsea, por 51 milhões. A Academia já estreou 88 jogadores na equipa principal, sensivelmente metade nos últimos oito anos - uns com mais, outros com menos sucesso, mas atualmente estão integrados na equipa A 13 jogadores da formação.
Há muitos que ficam pelo caminho e nunca cumprirão o sonho de João Simões, embora nada esteja ainda garantido. “Foi um sonho concretizado, mas não significa que o caminho esteja feito. É um percurso longo, com muitas dificuldades. Há muita gente que tenta chegar e não consegue. É preciso manter os pés assentes na terra, seguir com calma e ouvir os mais experientes. Só ouvindo os mais velhos é que é possível chegar lá”, referiu ao Flashscore o jovem médio.
Contudo, não conseguir assinar contrato profissional não significa que o sonho acabe. O Sporting continua a seguir os jogadores, mesmo os dispensados, e há casos em que regressam, como explicou Tomaz Morais: "Todos os jogadores são acompanhados. A nossa rede de observadores está por todo o lado. Os nossos jogadores nunca os deixamos. Mesmo um jogador que é nosso e o cedemos temporariamente a outro clube; mesmo um jogador que deixámos sair definitivamente; ou mesmo um jogador que não entrou: continuam a ser acompanhados”.
Uma situação que não é fácil de gerir, mas que muitas vezes tem de acontecer, reforça o treinador Filipe Santos: “Explicamos que o caminho não termina ali e damos exemplos de jogadores que saíram, cresceram noutros contextos e até regressaram. Ninguém tem uma bola de cristal, mas tentamos olhar sempre para o melhor caminho. O nosso objetivo é o bem-estar e a felicidade deles."

E esse bem-estar começa em tudo o que a Academia Cristiano Ronaldo oferece aos jovens. O objetivo é formar jogadores, mas um bom jogador passa sempre por formar um bom homem, complementou Tomaz Morais.
“A formação é um projeto muito longo, uma maratona. E a maratona faz-se com consistência. Quanto mais consistência o filho tiver nos diferentes aspetos da vida, mais probabilidade terá de atingir o sonho. Mas também preparamos o jogador para algo que ele pode não vir a ter. Esse é o grande investimento do Sporting: a formação integral. Dar-lhe a oportunidade de não ser jogador e ter lugar no mercado de trabalho e ser bem-sucedido noutra coisa. Esse é o nosso objetivo: que ele seja bem-sucedido no que fizer e seja feliz. Os pais sabem isso. E nós próprios também temos as nossas expectativas bem suportadas. Todos serão homens e essa é a nossa grande particularidade: um dia cruzamo-nos com essa pessoa e dizemos: 'Excelente!' É um excelente aluno, um excelente mecânico, um excelente médico, um excelente profissional, um excelente pai de família. Alguns ajudam o futebol noutras áreas", explicou o diretor leonino.
Há algo que não muda com o passar dos anos: a cumplicidade dos jovens jogadores com a Academia. A cada subida à equipa principal, segue-se o acompanhamentos dos colegas que ainda não atingiram esse patamar.
"Costumo falar com os miúdos. Pergunto como estão, como vai a escola, dou conselhos e, às vezes, também umas duras quando é preciso. É importante lembrar de onde vim e estar disponível para eles. Nós somos pessoas normais. E eu coloco-me na pele deles e gostava que alguém da equipa principal viesse falar comigo”, afirmou João Simões. Este acompanhamento acontece, segundo Tomaz Morais, devido a conjunto de valores transmitidos desde muito cedo na Academia: ”Essa é uma marca do Sporting, muito difícil até de explicar, porque é preciso sentir, presenciar, vivenciar, para percebermos a qualidade da forma como nós, em termos humanos, damos dimensão aos nossos valores”.
A visão de José Roquette criou a primeira academia de futebol em Portugal. Hoje os desafios são outros, mas os princípios que tornaram o sonho realidade permanecem intactos. Continuam todos os dias a sair talentos da Academia Cristiano Ronaldo, que um dia disse sobre aquele local: “Desejo que tenham êxito e sucesso e dar-vos os parabéns por tudo o que alcançaram. Para mim é um orgulho dar o meu nome à Academia”.
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