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Exclusivo com Gareca: "Tive de afastar os consagrados e acabar com o mito do jogador peruano"

Ricardo Gareca, ex-treinador das seleções do Peru e do Chile
Ricardo Gareca, ex-treinador das seleções do Peru e do ChileFoto por FELIPE ZANCA/PHOTOSPORT / PHOTOSPORT / PHOTOSPORT VIA AFP

Presença no Mundial-2026 como treinador e ídolo no Peru ao levar a seleção ao seu ponto mais alto no ranking FIFA, o argentino Ricardo Gareca, de 68 anos, falou em exclusivo ao Flashscore sobre o seu futuro e a sua visão do jogador peruano.

Depois da sua experiência como streamer, uma vivência que considerou muito enriquecedora, Gareca está já preparado para regressar ao relvado, seja no banco de um clube ou de uma seleção. El Flaco conversou com o Flashscore sobre o seu passado à frente da seleção peruana e tudo o que considera fundamental para o desenvolvimento do futebol inca.

- Em 1985, marcou o 2-2 que apurou a Argentina frente ao Peru. Mais de 40 anos depois, como recorda esse momento?

Esse jogo foi muito traumático, muito sofrido, porque o Peru tinha uma grande equipa e estávamos a perder 2-1 (na qualificação) para o México-1986, num ambiente muito tenso no estádio.

Burruchaga, desde o meio-campo, cruza a bola para a área – estávamos lançados no ataque -, Passarella domina no peito e cruza de pé direito. Acasuzo era o guarda-redes do Peru, toca na bola com a ponta dos dedos, a bola bate no poste e vai a rolar sobre a linha. Então, entro em velocidade e empurro-a para dentro. Foi muito traumático pelo facto de ser o 2-2 e esse empate dar-nos a possibilidade de nos qualificarmos para o Mundial, foi assim toda a sequência do lance.

- Jogou sob o comando de Menotti e Bilardo, duas ideias de futebol quase opostas. Se tivesse de ficar com um único ensinamento de cada um para explicar como treina hoje, qual seria?

São bastante diferentes, embora muito parecidos em alguns aspetos. Diferem na forma de comunicar, mas ambos gostavam de jogar bem, do bom futebol. O que acontece é que um é mais obcecado pelos detalhes do que o outro; por exemplo, o Bilardo era capaz de repetir uma jogada até sair bem inúmeras vezes.

O Menotti dava importância à segurança do jogador. Era mais comunicador, falava, seduzia com as palavras; e o Bilardo executava muito no campo, não deixava nada ao acaso: por vezes repetíamos um canto 30 vezes até sair bem. O Menotti também, mas era mais sedutor pela comunicação e pela capacidade de convencer o jogador.

Foram dois treinadores muito importantes, embora tenha sido mais influenciado pelo Bilardo pelo facto de ter estado com ele desde o início do processo de qualificação para o México-1986 até ao fim; já com o Menotti foi pouco tempo, na altura de Espanha-1982, onde não estive bem nessa fase da minha carreira, mas mesmo assim deu-me a oportunidade e gostei muito de trabalhar com ele.

- Teve uma boa passagem pelo Universitario. Se tivesse de escolher apenas um jogador dessa fase, qual seria e porquê?

Dony Neyra. Era um rapaz que começou a jogar como lateral-direito, defesa. Eu via que tinha um passe e um remate fantásticos, tinha muita visão de jogo; então, quando tens um jogador com grande visão e remate como ele, o que fiz foi colocá-lo mais à frente, numa posição ofensiva.

O Mayer Candelo lesionou-se e o Dony aproveitou a oportunidade. Começou a jogar nessa posição e foi um grande assistente do Hurtado e do Malingas, e além disso marcou alguns golos importantes e mantivemo-lo ali. Pode-se dizer que foi um jogador determinante para o Universitario dessa época. 

- O Cienciano voltou a chegar aos quartos de final da Sul-Americana, 23 anos depois do título histórico. O que sente ao ver uma equipa do interior a competir assim a nível internacional?

Não é só o Cienciano que é forte em casa, também conquista pontos fora; não só utiliza a altitude, sabe geri-la e fora é uma equipa que se tornou forte.

Isso leva-nos a pensar que não é só o treinador que está a fazer bem o seu trabalho, mas também soube potenciar bem jogadores como o Hohberg, que conheço e foi convocado por mim, e agora está a atravessar um momento brilhante, tornando-se o líder da equipa. O treinador colocou-o como um '10' solto e deu-lhe a possibilidade de ser o criador de jogo do Cienciano.

E ainda é uma equipa que joga compacta, que sai a jogar, utiliza bem os cruzamentos, etc. Portanto, sem dúvida, o treinador Melgarejo e a sua equipa técnica têm grande mérito. Além disso, está lá o Christian Ruggeri, sobrinho do Oscar Ruggeri: sei como trabalha e sei que é um grande conhecedor tático dos jogadores, por isso vemos um Cienciano que acumula mérito tanto em casa como fora.

A passagem pela seleção peruana

- O arranque para o Mundial Rússia-2018 foi complicado: o que não mudou apesar da pressão e o que teve mesmo de corrigir?

Ter trabalhado no Peru ajudou-me muito. Conhecia a U e estava convencido da qualidade e criatividade do jogador peruano. Depois era preciso derrubar vários mitos que estavam muito enraizados, como o de que o jogador peruano não corre ou que tem de jogar nas melhores ligas, senão não pode competir… Fomos derrubando esses mitos e começámos a comprovar que podiam.

Colocámos câmaras em todos os estádios. Diziam que o futebolista peruano não corre e ele corre mesmo nas piores condições: corre e vai jogar a mais de 3.000 metros de altitude, joga com calor, corre em relvado sintético, que faz com que a borracha queime os pés... Isso de não correr provámos que era tudo mentira, só era preciso convencer o jogador, mostrar-lhe que podiam, e assim foi. O jogador foi-se convencendo e depois, tecnicamente, é muito bom. Era preciso demonstrá-lo internacionalmente.

- Nessa fase, a partir da sétima jornada deixou de fora nomes consagrados como Pizarro, Zambrano ou Vargas, e a equipa descolou até ao play-off, vencendo por 2-0 a Nova Zelândia após 36 anos sem Mundial. De todas as decisões que teve de tomar nesses sete anos, essa foi a mais difícil à frente do Peru?

Pode ser. Foi uma situação complicada, mas tivemos o apoio do então presidente da FPF, Edwin Oviedo. Foi fundamental porque começámos mal a qualificação e o Oviedo um dia convidou-me para almoçar e disse-me que eu não ia sair da seleção, que confiava no projeto e que, se não nos qualificássemos nesta fase, continuaria para o Catar, que trabalhasse tranquilo.

O Oviedo queria acabar com a ideia de mudar constantemente de treinador, algo que o Peru fazia sempre, e ele queria dar continuidade, dar confiança, e eu percebi rapidamente a mensagem. Então, deu-me liberdade para tomar qualquer decisão, e a primeira coisa que fizemos foi conhecer melhor o jogador do campeonato local e dar oportunidade a alguns rapazes que tinham uma qualidade espetacular. Assim, para funcionar como equipa, começámos a contar com vários jogadores novos e tive de tirar os consagrados; mas tinha o apoio do presidente Oviedo, apesar da pressão da imprensa para me afastar.

Com o Paolo decidimos que ficasse porque queríamos que fosse a figura, o capitão, e apostámos nele. Foi preciso tomar decisões muito drásticas e essa foi a mais complicada, mas os rapazes do campeonato local corresponderam e começou a criar-se uma prioridade, porque nunca duvidámos que davam tudo em campo.

Ricardo Gareca e Paolo Guerrero em conferência de imprensa durante a Copa América Brasil 2019
Ricardo Gareca e Paolo Guerrero em conferência de imprensa durante a Copa América Brasil 2019RAÚL ARBOLEDA / AFP / AFP / Profimedia

O que não gostávamos era de tudo o que antecedia, como o facto de, ao chegar à concentração, vermos que a seleção era uma ponte para reencontrar familiares, amigos. Então, a preparação prévia não era o que queríamos, queríamos uma concentração absoluta no jogo. Conseguimos que se concentrassem totalmente no jogo e era o único objetivo naquele momento. À família dávamos um espaço no hotel para visitar, para verem os filhos; mas a partir do momento em que chegava o primeiro jogador, concentrávamo-nos e não saíamos até terminarem as duas jornadas de qualificação.

Estávamos muito focados e eles perceberam. Depois incluímos o Farfán e o Advíncula, fomos acrescentando o Carrillo e todos eles, que depois foram fundamentais para conseguir a qualificação. O Claudio (Pizarro) também estava, mas sempre que vinha tinha uma queixa ou uma lesão. Isso impedia-o de trabalhar normalmente e começámos a apostar no Raúl Ruidiaz. Observávamos tudo e, no fundo, fomos encontrando um grupo muito consolidado.

- No Rússia-2018 perderam pela margem mínima com a Dinamarca e França, e fecharam com um triunfo por 2-0 frente à Austrália. Se tivesse de escolher apenas um jogo desse Mundial para explicar a alguém o processo completo, qual escolheria?

Acho que nos três jogos nunca abdicámos de jogar e agora que perguntas, não merecíamos perder com a Dinamarca, porque tivemos várias ocasiões de golo. Contra a França jogámos bem, mas a França por momentos superou-nos, tal como a Dinamarca, embora tenha sido um jogo oscilante porque controlámos a maior parte do tempo. Em nenhum momento abdicámos de jogar, tentámos sempre jogar de igual para igual, até com a França, que foi campeã do mundo. A Austrália foi difícil, mas acabámos por ganhar o jogo.

Diria que foi um pouco contraditório, mas apesar de não termos passado a fase de grupos, deixámos uma boa imagem; pela atitude, entrega, pelo jogo e porque se percebia ao que jogava o Peru: a equipa tinha identidade e por isso as pessoas apoiaram-nos sempre. Fica-me a sensação de que podíamos ter dado mais, mas ficou uma boa imagem.

- Quais foram as sensações durante o segundo ciclo com a seleção, sendo vice-campeã da Copa América 2019 mas caindo no play-off do Mundial 2022?

É importante que as pessoas saibam que o Peru estava por volta do 60.º lugar do ranking mundial. Quando estás muito longe dos primeiros lugares não tens como competir. Quando enfrentas uma potência, podes ganhar ou fazer um bom jogo, mas no geral é muito difícil conseguir um resultado positivo.

O que conseguimos em 2017 foi estar entre as 10 melhores seleções do mundo, e mantivemos isso para o Catar. O Peru esteve sempre entre as 20 melhores seleções do ranking FIFA. Se estás entre as 10 primeiras podes alcançar o que quiseres, e se estás entre as 20 primeiras és potencialmente competitivo. Conseguimos manter um nível e isso permitiu-nos fazer frente à França, que foi campeã do mundo; depois vencemos a Croácia, que foi vice-campeã do mundo; vencemos o Brasil, fizemos frente à Argentina também…

Quando te colocas num ambiente desse nível, já estás num patamar superlativo e podes competir contra qualquer seleção, por isso atingimos esse tipo de qualidade e tornámo-nos uma seleção muito competitiva.

- Treinou mais jogos do que qualquer outro treinador na história da seleção peruana. Se tivesse de resumir a sua filosofia de jogo numa única ideia que nunca abdica, qual seria? E que conselho daria a Mano Menezes?

Tivemos um estilo bem definido, reconhecido tanto pela imprensa internacional como local e, no geral, tivemos apoio. Depois havia outro setor da imprensa que, enfim, era difícil de convencer porque, não sei… era como se fossem contra eu viajar para o estrangeiro, por exemplo, ir ver os rapazes que jogavam fora do Peru, eram contra determinadas coisas que achavam que deviam ser feitas de outra forma. 

Os jogadores pensavam que a seleção devia dar oportunidade a toda a gente e eu não dava oportunidade a todos, dávamos a quem acreditávamos que tinha possibilidade de estar na seleção, porque por mais que tivessem uma grande exibição, tinham de reunir condições importantes como estar em ótimas condições físicas e técnicas, porque onde íamos competir eram ligas de topo e a exigência era maior.

Tínhamos os nossos detratores, que infelizmente não confiavam muito nisso apesar dos resultados, mas reconheciam a forma como o Peru jogava, respeitando o seu estilo histórico. O que tentámos foi isso, respeitar a idiossincrasia de como o peruano gosta de jogar; não um jogo tão vertical, o que me interessava era potenciar a criatividade do jogador peruano.

E se me perguntas o que diria ao Menezes, que sem dúvida é um treinador com grande reconhecimento, ele saberá o que tem de fazer. Acho que o que procurei na altura foi acentuar a criatividade do jogador peruano. Acho que isso é importante porque o jogador peruano tem essa característica e fazê-la respeitar é importante, mas o Mano tem de viver a sua própria experiência.

Um futuro incerto

- Já treinou o Peru e o Chile. Também foi associado ao Paraguai, Equador e até ao Bahrain. Chama-lhe a atenção voltar a orientar uma seleção nacional ou prefere um clube?

Estou aberto a tudo, se tiver de treinar um clube, treinarei, não passa por aí. Embora sejam tempos diferentes, tenho uma equipa técnica muito ampla.

- Professor, o que todos queremos saber: o seu contrato com o canal de streaming durava até ao fim do Mundial-2026. Por essa cláusula recusou propostas como a do FBC Melgar, entre outras… Em que equipas pensou para regressar ao relvado?

Assim que terminou o programa, não tive nenhuma proposta concreta, como aconteceu durante a minha estadia no programa. Já tinha assumido esse compromisso com eles, algo que agradeço e foi muito produtivo e fez-me crescer. Foi um desafio muito importante.

Mas agora, concretamente, nada. Nessa altura falou comigo o Melgar, também o presidente do Talleres de Córdoba, mas nesse momento estava a fazer uma entrevista ao Valdano em Madrid para o programa.

- Entre os possíveis nomes, o Independiente de Avellaneda tem algo especial: foi aí que terminou a sua carreira como jogador. Como vê essa possibilidade e o que significaria para si regressar precisamente a esse clube?

Bem, agora estão em eleições políticas, escolher presidente é bastante complexo. O Independiente é um clube pelo qual tenho carinho porque foi aí que terminei a minha carreira desportiva e é sempre uma ilusão, mas agora há um novo treinador, é preciso ver como corre. Os treinadores estamos sempre dependentes dos resultados, não sabemos onde vamos acabar por treinar, porque às vezes pensas uma coisa e acontece outra.

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