Inglaterra, Itália, Brasil, Emirados Árabes Unidos, Argentina e muitos outros países em que Mauro Zárate competiu durante a sua carreira como futebolista profissional. Um verdadeiro globetrotter que marcou golos em todo o lado e que, graças a este grande desempenho em campo, desfruta agora de uma vida tranquila e confortável. Embora tenha mais tempo para desfrutar dos seus entes queridos, também admite que voltaria a calçar as chuteiras... para jogar por uma das suas antigas equipas.
- Mauro, obrigado. Antes de mais, como é que é a vida sem ser um futebolista profissional hoje em dia?
- Estou a gostar. Aproveitando a vida, aproveitando a minha família, acompanhando os meus filhos nas suas coisas, nas suas atividades... e aproveitando o futebol, agora no exterior.
- Falemos da sua vertente de treinador, que sei que vem aí, mas primeiro... imagine que o telefone toca e lhe dizem "Estou, é o Román, quero que jogues na Libertadores". Voltaria a jogar?
- Sim, sem dúvida. Há coisas que se respondem sozinhas.
- Mas pelo Boca Juniors?
- Sim, pelo Boca.

- Não por outro clube?
- Não, é isso. Seria isso, porque é lindo.
- Já tinha em mente o que ia fazer depois de terminar a carreira? Era assim tão claro que ia ser treinador?
- Sim, sim, era claro para mim há vários anos. Além disso, gosto e divirto-me muito. E gosto de ensinar tudo o que aprendi com todos os treinadores e jogadores que tive ao meu lado.
- E em que momento pensou em reformar-se, houve uma pausa, um ponto de viragem?
- Em Itália, quando me lesionei. Depois do Platense, ia para Cosenza para jogar lá e passar os últimos anos em Itália. Bem, rompi o ligamento e foi aí que disse "chega; vamos embora, vamos ficar na Argentina, vamos juntar-nos ao futebol, vamos gozar a vida e pronto".
- Mas se não, teria ficado em Itália.
- Sim, sim, em Roma.
O estilo de jogo de Zárate, o treinador
- Agora que vai ser treinador, gostaria de ter Mauro Zárate como jogador?
- Sim, sim, gostava de ter esse tipo de jogador.
- Porquê?
- Porque é muito fácil ajudá-lo e dizer-lhe as coisas mínimas que tem de fazer para ajudar a equipa defensiva e taticamente, e depois deixá-lo fazer o que quiser.
- Conhecemos Zárate como jogador, mas o que dizer de Zárate como treinador? Obviamente que depende muito dos jogadores, mas qual será a ideia? O que é que vai procurar?
- Muito trabalhador. Penso que não vou depender dos jogadores, como por vezes se diz, mas vou prepará-los e vou precisar de muito tempo. É por isso que quero começar com uma pré-época e não quero precipitar-me, porque vou precisar de tempo para utilizar os jogadores que tenho e chegar ao que quero fazer com eles. Se os jogadores forem acrescentados, se lhe derem a oportunidade de se integrar e tudo isso, então é bom.
- E qual seria a sua formação tática, por exemplo?
- Gosto da formação 3-4-2-1.
- Manter a bola ou contra-atacar?
- Não, manter a bola.
- E como vê o estilo de ponta de lança nesse sistema?
- No 3-4-2-1 podem ser dois avançados ou dois médios que podem ser dois extremos, a quem explico para jogarem um pouco mais fechados e tirarem partido da vantagem, ou ensino-os a jogarem um pouco com a marcação na retaguarda e a tentarem virar-se rapidamente.
- Jogar bem ou ganhar de qualquer maneira?
- Não, as duas coisas. Uma é uma consequência da outra. Sim, acho que temos mais hipóteses de ganhar se jogarmos bem.
- Em que ideias e equipas se baseia para criar o seu estilo?
- Eu gostava quando estava com o Heinze, gostava daquele Velez. Há muitos treinadores. Gosto do Liverpool de Slot e gosto muito das equipas de Conte. Muito, muito mesmo. Também gosto muito quando o Argentinos Juniors joga.
"Gostaria de treinar durante muito tempo no futebol argentino"
- O que é que faz na sua equipa quando há um jogador que, por vezes, sai para festejar? Dá-lhe autorização ou tem mão firme?
- Nesta fase do futebol, não se tem a possibilidade de o permitir. Antes podia, agora não. Não tem hipótese. Não tem hipótese.
- Vai ser um treinador que, se tiver de mudar alguma coisa, muda a tempo ou morre com a ideia, como se costuma dizer?
- Vejamos, mudar não. Trabalho, trabalho e trabalho e trabalho até acertar. Mas adapto algumas coisas, se me pedirem. Quando se tem uma ideia na cabeça, é preciso convencer alguém a fazê-la.
- Uma equipa que gostaria de treinar?
- Gostaria de treinar durante muito tempo no futebol argentino.
- Não tem medo de começar de baixo? Se o projeto for bom...
- É isso que procuro. Quero começar bem. Quero começar de baixo. O Nacional é um grande torneio. Mas sinto que é o que me vai fazer bem na minha carreira.
- E se Roman o chamar para treinar o Boca? Se ele o chamasse hoje, por exemplo, seria muito difícil dizer não. Mas gostaria que, se amanhã o Roman ou quem quer que seja o presidente do Boca o chamasse, fosse porque está a fazer as coisas muito bem.
- Sim, porque fiz muito bem e estou a fazer muito bem. Tenho de provar que sou um bom treinador, caso contrário....

- Que equipa nunca treinaria?
- Acho que nunca teria a oportunidade de voltar ao Vélez. Por causa de tudo o que aconteceu e... é bom que seja assim. Desejo-lhe o melhor. A cada um o que é seu. Eles têm um grande treinador agora, estou muito feliz que Guille esteja aqui. Penso que é o treinador certo. Já começou muito bem, a ganhar troféus.
- Qual é a sua capacidade atual para dirigir uma equipa principal?
- Sou capaz, mas é diferente. Penso que há muito mais exigências e menos jogos. Talvez com uma pré-época de um mês de trabalho se possa conseguir o que se pretende. Mas bem, a Primera é como é. Três resultados que não se obtêm e... estás fora.
- Arrepende-se de alguma coisa na sua carreira?
- Sim, de várias coisas.
- Por exemplo?
- Já o disse várias vezes. Deixei a Lazio, o West Ham e o Boca.
- Se pudesse voltar à equipa que o apoiou.... Bem, o Miguel (Angel Russo) já não está, mas... Tentaria ter corrigido essa relação? Para que não levasse à sua saída.
- Sim, naquele momento estava à espera de dois dias para que a minha estupidez passasse. Penso que teria conversado primeiro com o Román e depois com o Miguel, e provavelmente teria continuado sem problemas.
Tensão na família
- Falou muito da sua mulher. Imagino que ela lhe tenha dito para tirar o pé do acelerador.
- Mas sem mais nem menos, eh, sem mais nem menos. Espera um pouco, acalma-te, estás a apressar-te... E bem, ela disse-me isso nas três equipas.
- Acha que a decisão de ir para o Boca ajudou ou prejudicou a sua carreira?
- É bonito jogar no Boca. Alguns jogadores podem sofrer, mas eu aproveitei ao máximo.
- Pela forma como deixou o Vélez, foi para o Boca com muita pressão e muito barulho, não foi?
- Não, não, não vim. Foi mais do que tudo o que gerei nos adeptos do Vélez. Eu digo sempre a mesma coisa. Peço desculpa ao povo do Vélez, faltei à minha palavra. Mas depois, não. Os títulos que ganhei no Boca... foi lindo. Estou muito feliz com o desempenho que tive. Os jogos que fiz, os golos, as assistências.... A verdade é que foram números muito bons. A única coisa que faltava era a Taça Libertadores. Estou muito feliz com tudo o que vivi.
- Gostava que me falasse do dia em que decidiu ir para o Boca. Quem foi a primeira pessoa com quem falou?
- Falei com a minha mulher. Ela disse-me para falar com os meus irmãos, que foi também a segunda coisa que fiz. Bem, eu já andava a falar com eles há muito tempo porque, bem, eles não se comportavam como eu me comportava com eles. Mas isso é passado e foi assim. Depois acabei por sair do clube, por isso o tempo deu-me razão.
- Continua a falar com eles?
- Sim, sim.
- Há alguma forma de regressar?
Não, é muito difícil. Já passou muito tempo e há muitas coisas que aconteceram pelo meio. Para além disso, quando se está calmo... Não fiz nada com os meus irmãos, para ser sincero.
- E a família não tentou mediar essa situação?
- Acho que sim, mas é difícil falar, é só isso. Eu não falo porque estou calmo. Quando se fala é porque se quer convencer a outra pessoa de que ela está errada.
- E quando tomou a decisão de deixar o Vélez, pensou muito nisso? Custou-lhe muito?
- Muito. Muito.
- Dois ou três dias?
- Muito mais tempo. Muitos mais meses em que não havia convocatória para nada. Nem para nos encontrarmos, nem para telefonar para Inglaterra para me comprar, nem para nada. E assim o tempo foi passando.
- Sente que foi levado a tomar essa decisão, que não mexeu em tudo o que devia ter mexido para fazer essa mudança?
- Sim. Acabei por não receber nada. Absolutamente nada. Voltei para dar uma ajuda, salvei-os e não me pagaram nada.
- Quem era o presidente do Vélez nessa altura?
- Sergio Rapisarda
- Considera que a relação com o Vélez é irremediável?
- Sim, eles têm a sua raiva e eu respeito isso. E está tudo bem.
De Messi a Coutinho
- Falou-se que uma das coisas que o Boca lhe disse foi "vem para cá, vais para a seleção de certeza". Até que ponto isso é verdade ou que alguém lhe prometeu a seleção?
- Diziam que eu ia para o Boca porque o Angelici me tinha prometido a seleção. E eu nunca falei com o Angelici. Fui para o Boca porque o Guillermo me telefonou, e ele telefonou-me durante um mês.
- Foi Angelici que negociou o contrato?
- Não. Falei mais com o treinador do que com o presidente. As questões financeiras ficavam em segundo ou terceiro plano, depois o que me interessava era a relação que ia ter com o treinador. Ele disse-me que os números não seriam o problema, mas sim a vontade, a decisão de vir para cá e tudo o que se tem de suportar por causa das suas palavras.
- Se não tivesse sido jogador de futebol, o que é que teria feito na vida?
- Quando era pequeno, gostava de engenharia, mas era muito, muito louco. Nada a ver com isso.
- Qual foi o melhor treinador da sua carreira?
- Tive vários bons treinadores. Mas acho que aquele que também me influenciou como treinador e tudo isso foi o Gringo Heinze, que me deixou muitas coisas.
- O que é que o marcou e em que é que o imitaria?
- O trabalho. Viste que a certa altura disseste que um treinador tem de se adaptar, e ele continuou com a sua ideia de jogo e a sua forma de pensar, e fez-nos mudar e melhorar. Convenceu-nos. Se não for assim, não vai ser um bom treinador. Por outras palavras, se não convencermos o jogador, ele quer muito mais ferramentas e exige muito mais de nós.
- A melhor equipa da sua carreira?
- A equipa onde joguei, o Inter de Milão.
- O clube que mais o surpreendeu?
- O West Ham. Fiquei surpreendido com a quantidade de adeptos. Não estava à espera de uma equipa tão importante.
- O melhor jogador que teve como companheiro de equipa?
- As poucas vezes em que treinei com Messi. O outro jogador que me surpreendeu muito foi o Coutinho.
- Há alguma coisa que o Mauro Zárate faça que o envergonhe? Pode ser dentro ou fora do campo.
- Bem, muitas coisas. Agora para te dizer, não sei, mas muitas.
- Sabia que na Wikipédia aparece como médio ofensivo?
- Sim, muitas vezes em Inglaterra, na Premier League, joguei muito como médio ofensivo.
- Em que formação, por exemplo?
- Era um 4-3-3, que era um 4-5-1.
- Alguma vez se envolveu numa discussão no balneário?
- Sim, às vezes acontece. Às vezes, essas coisas acontecem, sim. A mais engraçada foi com o Kolarov na Lazio. Tivemos uma briga, fomos para o balneário e ele fez uma piada. Bem, os sérvios são assim.
- Mas o quê? Nos treinos?
- Andámos à pancada quando entrámos no balneário e ele veio, fez uma piada e começou a rir-se. Não se pode fazer nada.
