Exclusivo com Damian Pedrosa, o argentino que está a reconstruir o Zalaegerszeg de Nuno Campos

Damian Pedrosa no anúncio da aquisição do Zalaegerszeg
Damian Pedrosa no anúncio da aquisição do Zalaegerszegwww.ztefc.hu

O clube de futebol húngaro Zalaegerszeg está a escrever uma história interessante. Atualmente na sétima posição da principal divisão, a equipa escapou por pouco à despromoção na época passada, mas foi adquirida este verão por dois empresários argentinos, que agora vivem o seu sonho. Fizeram mudanças significativas no plantel, encheram a equipa de jovens sul-americanos e apostaram no português Nuno Campos como treinador. Damian Pedrosa, um dos proprietários e COO (chief operating officer) do clube, falou com o Flashscore sobre o projeto.

Pode ouvir a entrevista completa com o proprietário do Zalaegerszeg e ler abaixo as principais declarações.

Entrevista a Damian Pedrosa
Flashscore

- Qual o seu percurso até chegar a proprietário do Zalaegerszeg?

- O meu primeiro contacto com este mundo maravilhoso chamado futebol foi há cerca de quinze anos. É incrível como o tempo passa depressa. Começámos a trabalhar no Talleres de Córdova, na Argentina, na minha cidade natal, quando um grande amigo nosso e excelente profissional assumiu o clube e reuniu uma equipa de pessoas muito jovens com quem começámos a gerir o clube. Foi uma loucura, uma verdadeira montanha-russa, tudo aconteceu a uma velocidade incrível. Mas alcançámos todos os objetivos importantes. Trabalhei lá como CEO e Diretor de Operações. A parte mais difícil foi termos iniciado o nosso percurso na terceira divisão argentina. E para não tornar isto demasiado longo e aborrecido, em cerca de quatro anos chegámos à primeira divisão e até disputámos a Taça Libertadores. Foi um percurso muito interessante, mas também extremamente exigente. Estive lá seis anos e, sinceramente, fiquei bastante exausto com esse estilo de vida, porque a vida num clube não é nada fácil. É um trabalho a tempo inteiro, sem pausas. Por isso, fundei depois a minha própria empresa. Começámos a organizar eventos e, passados seis ou sete meses, já estávamos a ganhar bastante visibilidade, felizmente a crescer muito rápido. Em Córdova, organizámos muitos eventos ligados ao futebol e, de repente, a CONMEBOL, a Confederação Sul-Americana de Futebol, contactou-nos... Começámos a organizar torneios da Taça Sul-Americana e da Taça Libertadores, que se disputavam praticamente por toda a América.

- Porquê o Zalaegerszeg?

- Sinceramente, eu e o meu colega Andres estávamos simplesmente à procura de uma oportunidade para assumir um clube. Sentíamos que tínhamos potencial para voltar a fazer coisas muito boas num ambiente de clube, por isso começámos a procurar. Primeiro, olhámos para o Uruguai, porque somos da Argentina e era a opção mais próxima. Mas essas oportunidades, honestamente, não correspondiam ao que procurávamos. Não foi fácil encontrar um clube no Uruguai que preenchesse todas as nossas necessidades e expectativas, por isso descartámos essa hipótese. Depois viajei várias vezes a Itália; começámos a analisar oportunidades na Serie C e na Serie B… E, de repente, de um dia para o outro, surgiu a possibilidade de assumir um clube na Hungria. No início, sinceramente, pareceu-nos uma ideia um pouco louca, porque para nós, vindos da Argentina, era muito difícil sequer considerar um clube húngaro. Não conhecíamos a liga, o país, nem a língua. Por isso, começámos a estudar tudo muito a fundo – o país, o futebol, a liga, basicamente todos os aspetos que podiam influenciar este projeto – e rapidamente começámos a ver isto como uma excelente oportunidade. Um grande desafio, mas também uma enorme possibilidade. Encontrámos um país muito aberto ao futebol e com infraestruturas que são difíceis de encontrar até em países europeus bem maiores. Costumamos dizer que a infraestrutura na Hungria não fica nada atrás das cinco principais ligas do mundo, e estou completamente seguro disso... Encontrámos ótimas infraestruturas, bons estádios, um clube muito interessante, uma cidade excelente e uma liga que atravessava um período de grande mudança. Isso foi algo que pesou muito na nossa decisão.

- Quais as principais entre a Argentina e a Hungria?

 Em certos aspetos, as diferenças são mesmo grandes. Como deve saber, na Argentina os clubes não têm proprietários privados. De quatro em quatro ou de cinco em cinco anos, as pessoas votam para eleger o presidente do clube, e os donos do clube continuam a ser as próprias pessoas – os adeptos, os sócios, como lhes chamamos. Por exemplo, clubes como o Talleres ou o Belgrano, que são da minha cidade, têm cerca de cinquenta ou sessenta mil sócios que decidem, de quatro em quatro anos, quem vai liderar o clube. Essa é uma das maiores diferenças entre estes dois mundos, porque o conceito de proprietário não é algo a que estejamos habituados na Argentina. Outra diferença é, naturalmente, toda a cultura em torno do futebol. Vimos da Argentina, de um ambiente que é literalmente louco quando se fala de paixão e futebol. Provavelmente são estas as duas principais diferenças que sentimos em relação à Argentina.

- Como tem sido a sua relação com os adeptos? 

- Sinceramente, o início não foi nada fácil. Somos os primeiros argentinos – ou sul-americanos – a comprar um clube de futebol na Hungria, por isso, para as pessoas locais, foi provavelmente um momento muito estranho. E compreendemos isso. Conseguimos colocar-nos no lugar deles, porque não é fácil quando dois argentinos chegam do estrangeiro e começam a tomar decisões sobre um clube ao qual as pessoas locais estão ligadas desde sempre. Mas precisamente porque estamos habituados a gerir clubes na Argentina com uma forte participação das pessoas, onde o clube pertence aos adeptos, as pessoas em Zalaegerszeg e em toda a região de Zala perceberam rapidamente a nossa visão. Queremos mesmo que todos façam parte da família do clube ZTE. Queremos que as pessoas participem no dia a dia e na vida do clube. E, sinceramente, hoje sentimo-nos muito bem recebidos. As pessoas perceberam as nossas ideias, partilham-nas e são muito pacientes. Por isso, tendo em conta que passaram apenas cerca de seis meses desde a nossa chegada, posso dizer que a forma como fomos recebidos foi realmente excelente.

- Uma das grandes apostas tem sido na formação.

- Somos um clube que aposta sobretudo no desenvolvimento de jogadores jovens. Acreditamos que, num ambiente certo, os jovens podem evoluir bastante. Temos um treinador preparado para este tipo de trabalho e, em Zalaegerszeg, estamos a criar um contexto que favorece esse desenvolvimento... Queremos ser uma equipa criativa, inteligente no mercado de transferências, capaz de identificar jovens talentos em todo o mundo, trazê-los, desenvolvê-los, cuidar deles em todos os aspetos possíveis e, claro, transferi-los para outros clubes quando a decisão for boa para todas as partes. E isso é algo importante que, por vezes, as pessoas não compreendem – a decisão não deve ser boa só para um dos lados. Tem de ser boa para o jogador, para o clube e para os proprietários. E é exatamente isso que estamos a tentar fazer aqui em Zalaegerszeg.

- Qual a situação financeira do Zalaegerszeg?

- Neste momento, podemos dizer que temos um dos orçamentos mais baixos da liga – estamos certamente entre os dois ou três mais pequenos. Mas é uma decisão consciente e deliberada. Percebemos que não precisamos de gastar valores absurdos para sermos competitivos. E penso que estamos a demonstrá-lo – atualmente estamos na sétima posição e a continuar a melhorar em termos de desempenho. As nossas finanças, felizmente, estão cada vez mais estáveis, o que é extremamente importante para nós. Criar um clube financeiramente saudável não é nada fácil no mundo do futebol. Hoje, podemos afirmar que estamos muito mais estáveis do que quando chegámos. Somos mais cautelosos, mais responsáveis. Procuramos manter um orçamento baixo e ser criativos e inteligentes, em vez de seguir o caminho dos gastos desmedidos. Procuramos sempre a solução mais inteligente em primeiro lugar e só depois avançamos. Neste momento, as nossas finanças estão saudáveis, mas sempre com a mentalidade de sermos criativos e de aproveitar ao máximo os recursos que temos.

- Uma das grandes apostas foi no mercado sul-americano.

"Acho que, na Europa, algumas competições sul-americanas são um pouco subestimadas – por exemplo, a Serie B do Brasil ou a segunda divisão argentina. Muitas vezes são vistas como de menor qualidade, mas há muitos jogadores ali que poderiam render muito bem nos nossos países; refiro-me à Europa de Leste. Por vezes, penso que os olheiros ou diretores desportivos nem sequer olham para essas ligas, porque dizem: 'É a segunda divisão, não têm experiência na principal liga.' Mas trouxemos muitos jogadores talentosos que nem tinham muitos minutos sequer na segunda divisão e, mesmo assim, têm um excelente desempenho connosco. E o segundo ponto fundamental é criar o ambiente certo para eles. Tudo é diferente – o clima, a língua, a cultura, a música – por isso, depois de dar o primeiro passo e aceitar o risco de trazer jogadores que ainda não são produtos acabados, é preciso criar aqui um contexto em que se sintam confortáveis e abertos a trabalhar e a evoluir.