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Robin van Persie em exclusivo: "Thiago Silva foi dos adversários mais difíceis que enfrentei"

O famoso golo de Robin van Persie no Mundial
O famoso golo de Robin van Persie no MundialJEFF GROSS / GETTY IMAGES SOUTH AMERICA / GETTY IMAGES VIA AFP

O antigo avançado do Arsenal e do Manchester United fala sobre a sua evolução de jogador para treinador, a sua relação com a beleza, as lesões e a nova paixão pelo ciclismo e pela mobilidade sustentável.

Robin van Persie nunca foi alguém que gostasse de fazer barulho fora do relvado.

Toda a sua magia era mostrada dentro das quatro linhas. Fê-lo nos Países Baixos, ao serviço do Feyenoord e da seleção neerlandesa, e em Inglaterra, com o Arsenal e o Manchester United. Uma carreira repleta de troféus e distinções individuais, como um dos melhores avançados da sua geração.

Depois de pendurar as botas, Robin tenta agora a sua sorte como treinador. Passou a olhar para o jogo de uma perspetiva diferente e descobriu uma nova faceta do futebol. Encontrámo-lo à margem do Sea Otter Europe, o Festival Internacional de Ciclismo de Girona, onde participava como Embaixador Global da Marca ENGWE.

Os últimos anos da carreira de Van Persie como jogador
Os últimos anos da carreira de Van Persie como jogadorFlashscore

A poucos quilómetros do Camp Nou, palco de um dos momentos mais controversos da sua carreira: a expulsão frente ao Barcelona na Liga dos Campeões, depois de ter prosseguido um ataque apesar do apito do árbitro: "Foi incrível. Havia 100 000 pessoas e, sinceramente, não ouvi o apito do árbitro".

Tivemos uma conversa descontraída com ele sobre futebol, a sua carreira, as lições que foi aprendendo ao longo do caminho e a paixão pelo ciclismo e por um estilo de vida ativo: "Não faço muitas parcerias, mas escolho cuidadosamente aquelas que aceito e tenho a certeza de que eles fazem o mesmo. Tudo é tão pormenorizado, tão suave, e também sentimos isso quando andamos de bicicleta. É mesmo muito divertido".

- Que tipo de abordagens no futebol o fascinam atualmente?

No futebol, fascinam-me abordagens muito diferentes. Como jogador, tinha uma visão mais ligada a determinados princípios, enquanto a experiência no banco me ensinou a olhar para o jogo de uma perspetiva mais abrangente. Hoje consigo apreciar tanto uma equipa que sabe atacar rapidamente no contra-ataque como uma equipa capaz de dominar um jogo através da posse de bola e da construção desde trás.

A Flashscore falou com Van Persie em Espanha.
A Flashscore falou com Van Persie em Espanha.Flashscore

- Disse certa vez: “O futebol pode ser arte.” Quais foram os golos mais bonitos da sua carreira, aqueles que consideraria verdadeiras obras de arte?

Obviamente, o golo contra a Espanha, de cabeça, e, a nível de clubes, os remates de primeira contra o Charlton, pelo Arsenal, e contra o Aston Villa, pelo Manchester United. Mas, para mim, não são tanto esses momentos que assumem maior importância. São mais os momentos que os antecedem, porque toda a gente vê o que acontece no relvado. A maioria das pessoas vê apenas os momentos bonitos, mas, para mim, o que conta mais é o trabalho árduo, o esforço, aquilo que fazemos quando ninguém nos vê. E isso é mais importante para mim do que um golo específico.

- Falando dos momentos que as pessoas não veem: como lidou com as lesões?

A vida não se resume aos momentos bons, mas é preciso sofrer muito para alcançar momentos felizes, e isso é algo que valorizo bastante. Os momentos difíceis deixam marcas e testam-nos inevitavelmente. Para ultrapassar determinados períodos, é preciso força, paciência e, acima de tudo, capacidade para recuperar sem desistir. Considero esses momentos muito importantes, mais importantes do que os troféus que conquistei, tal como a memória das pessoas que estiveram comigo. Valorizo muito isso, porque é fácil ter pessoas à nossa volta quando estamos no auge e tudo corre bem. Toda a gente fica, de certa forma, feliz por nós. Mas quem está presente quando atravessamos uma fase difícil? Quem nos permanece leal?

- Qual foi o adversário que mais admirou e respeitou?

Os adversários mais difíceis foram John Terry, Thiago Silva, Rio Ferdinand e Nemanja Vidic.

- E com que jogador aprendeu mais?

Na verdade, aprendi basicamente com toda a equipa do Arsenal quando cheguei a Londres. Com toda a equipa, no fundo. Eu era jovem; eles eram mais velhos e melhores. Por isso, foi um excelente lugar para mim.

- Chegar à Premier League foi um pouco como ir para a universidade, então.

Quando cheguei ao Arsenal, achava que era o jogador número um do meu país, mas, na realidade, era apenas um jovem talentoso que ainda tinha tudo por provar.

- E provou-o…

Ao longo dos anos, fui percebendo qual era o meu lugar no futebol. E, durante o meu período em Inglaterra, percebi: 'Calma, há jogadores muito melhores'. Por isso, tive de estar recetivo, aprender, manter-me humilde e trabalhar sem procurar protagonismo.

- Uma lição que, passo a passo, o levou a conquistar o prémio de Jogador do Ano em 2012.

Foi uma grande honra, mas tenho de admitir que não gosto particularmente de troféus individuais, porque não são um facto. São opiniões das pessoas e dependem daquilo de que os outros gostam. Se alguém tiver inveja de si, seja qual for a razão, não votará em si. Por isso, há muitas razões diferentes para ganhar ou não ganhar.

- Como se atinge o potencial máximo?

Tudo começa com a disciplina diária, a mentalidade e a vontade de continuar a melhorar. Para alcançar um objetivo, é preciso estar disposto a dar tudo por ele, passo a passo. A verdade é que, para permanecer no topo durante muito tempo, é necessário conviver com o tédio, os sacrifícios, a consistência e muito poucas distrações.

- Hoje, o futebol parece ser jogado a uma velocidade incrível.

Comparado com há alguns anos, o futebol parece ter mudado de pele. No passado, a qualidade técnica e a capacidade para ler o jogo tinham mais peso, enquanto hoje a vertente física e a velocidade assumem um papel cada vez mais importante. É uma evolução que, de certa forma, também reflete a sociedade em que vivemos: temos cada vez menos tempo para parar e parece que tudo tem de acontecer mais depressa.

- E então, o que resta do bom e velho futebol?

Na minha opinião, os aspetos futebolísticos devem continuar sempre a ser os mais importantes. Porque, se sair um segundo mais cedo e chegar a tempo, já tiver visto onde estão os adversários e os seus próprios jogadores e fizer o passe perfeito, mesmo que não tenha feito um sprint, ainda assim teve impacto e fez a diferença.

Van Persie junto à linha lateral pelo Feyenoord
Van Persie junto à linha lateral pelo FeyenoordSTEFAN KOOPS / NURPHOTO / NURPHOTO VIA AFP

- Para um neerlandês, a passagem do futebol para o ciclismo foi quase natural. Tornou-se Embaixador Global da Marca ENGWE: o que o convenceu a juntar-se a este projeto, que promove um estilo de vida ativo e sustentável?

Quando se aceita uma parceria, olha-se sempre para a qualidade da marca, aquilo que representa, os seus valores e aquilo que eu próprio represento. Sou neerlandês, por isso crescemos, basicamente, com o ciclismo. É como a primeira coisa que recebemos quando temos dois, três ou quatro anos: uma bicicleta. E essa parte nunca me abandonou verdadeiramente. Ia de bicicleta para a escola e para todo o lado. E é isso que procuro em qualquer parceria: partilhamos os mesmos valores? Representa qualidade? É fiável? Tem um bom aspeto, o que também é importante, e é desportiva?

- Qual é a importância do conceito de sustentabilidade para si?

É muito importante. Temos uma responsabilidade para com o planeta. E também vejo isso como uma qualidade de vida adicional. Além de o manter em forma, uma bicicleta elétrica dá-lhe a oportunidade de ter uma melhor qualidade de vida com as pessoas que ama. Permite-lhe fazer viagens mais longas do que aquelas que faria normalmente numa bicicleta convencional.

- Acompanha o ciclismo e as prestações de Pogacar e companhia?

Sim, acompanho. É um desporto muito duro, que exige muito a nível físico e mental para se competir ao mais alto nível. E é precisamente isso que me liga à ENGWE: o desejo de apontar ao topo, de sermos a melhor versão de nós próprios.

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