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"Ambição passa por fazer algo especial no Radomiak"
- O Gonçalo, enquanto treinador na Polónia, já passou pela terceira divisão, pela segunda e pela primeira. Há duas épocas assumiu um dos maiores clubes do país, o Legia Varsóvia, com quem disputou a Liga Conferência e conquistou as competições internas. Entretanto, surgiram desafios para assumir equipas em França, Inglaterra e creio que também na Escócia. Porque decidiu regressar à Polónia, onde agora orienta o Radomiak, atualmente a cinco pontos da zona europeia?
O período pós-Legia foi um momento difícil na minha carreira de treinador. Treinei o maior clube da Polónia em termos de história e massa associativa e fizemos uma temporada muito positiva: conquistámos a Taça e fomos eliminados nos quartos de final da Liga Conferência pelo Chelsea, depois de vencermos em Stamford Bridge.
Depois dessa época, iniciaram-se conversas para renovar contrato, mas também coloquei algumas exigências que não eram financeiras. Prendiam-se sobretudo com melhorias ao nível da estrutura da equipa técnica, da organização do clube e de alguns protocolos de trabalho. Acabámos por não chegar a acordo e a primeira grande decisão, muito difícil, foi não renovar.
A partir daí começou a procura por um novo clube no estrangeiro. Tive propostas de clubes portugueses e conversas bastante avançadas em Inglaterra, que era - e continua a ser - o mercado onde gostaria de chegar. No entanto, não aconteceu. Com o passar das semanas surgiram outras possibilidades. Houve também uma hipótese em França que inicialmente considerei, mas nas conversas com o clube percebi que o projeto era diferente daquilo que tinha sido apresentado e acabei por decidir não avançar.

Nessa altura já era início de época e praticamente todos os clubes tinham treinador. Para alguém que gosta mais de servir o futebol do que de se servir dele - ajudar jogadores, pessoas e clubes a crescer e competir - foi um momento duro.
Entretanto começaram a surgir contactos de vários mercados e também muito interesse de equipas polacas. Uma delas era o Radomiak. O diretor desportivo é português, o António Ribeiro, e eu acreditava muito no plantel em termos de talento e potencial de desenvolvimento.
É um clube humilde, com apenas seis épocas na primeira divisão, sem grandes troféus nem presenças europeias, mas em crescimento. Apesar de termos o terceiro orçamento mais baixo da liga, senti que o clube está num momento de evolução e que existe ambição para fazer mais. Foi isso que me convenceu.
- Quais são os objetivos traçados a médio prazo para o clube?
O primeiro objetivo é garantir estabilidade na Ekstraklasa, que é uma liga muito competitiva. Mas também existe a ambição de olhar para os lugares europeus. Apesar de neste momento não estarmos no melhor período da temporada - tivemos alguns empates recentes, sobretudo fora de casa -, se vencermos o jogo em atraso ficaremos a apenas dois pontos dos lugares de acesso às competições europeias.
Portanto, a ambição passa por fazer algo especial, dar ao clube algo que nunca teve: a melhor classificação da sua história ou até uma qualificação europeia. Isso também permitiria dar aos jogadores do plantel uma plataforma maior para se mostrarem. Não é uma obrigação, mas é uma ambição que está presente todos os dias no trabalho do grupo.

- É uma liga bastante equilibrada e o fator casa parece ter bastante peso. Quais são os principais pontos fortes da liga polaca?
Em primeiro lugar, o produto mediático da liga é muito bem trabalhado. O Canal+ tem programas diários dedicados ao campeonato e existe uma grande cobertura mediática. Todos os jogos são transmitidos e o produto televisivo é muito bem construído. Depois, há a questão das infraestruturas. Praticamente todos os clubes têm estádios modernos. Existem estádios maiores e outros mais pequenos, mas, no geral, o nível das infraestruturas é muito bom.
Outro ponto importante é a afluência do público. Até à pausa de inverno, a média de espectadores rondava os 15 mil por jogo. Há partidas com mais de 30 mil e outras com cerca de 10 mil, mas a média é bastante elevada. Na maioria dos estádios o ambiente é muito forte e o jogador sente verdadeiramente que está a jogar num grande palco.
Além disso, o surgimento da Liga Conferência trouxe visibilidade e receitas adicionais. Algumas equipas polacas têm chegado relativamente longe na competição e isso ajuda a atrair investimento. Têm surgido investidores privados em vários clubes, o que aumenta a capacidade financeira para transferências e salários.
Tudo isso tem contribuído para o crescimento da liga. Desde a primeira vez que trabalhei na Polónia, há mais de uma década, o campeonato subiu cerca de 16 ou 17 posições no ranking da UEFA. Atualmente está perto do 12.º lugar e aproxima-se do 11.º, o que mostra bem essa evolução.

"Pietuszewski, Kiwior ou Bednarek ajudam a valorizar a imagem do futebol polaco"
- O FC Porto surpreendeu ao contratar o jovem polaco Oskar Pietuszewski, que teve impacto imediato na equipa de Francesco Farioli. Já conhecia o jogador? Existem outros talentos semelhantes na liga polaca?
Conhecia-o bem. Enfrentámo-lo três vezes na época passada. Na altura da transferência tive oportunidade de falar sobre ele e considero que está a confirmar as características que já demonstrava. É um jogador muito forte no ataque à profundidade, com grande verticalidade, tanto no drible de fora para dentro como nos movimentos interiores. Tem qualidade na finalização, sabe posicionar-se bem na área e definir os lances. Além disso, é muito explosivo, rápido e energético.
O que me surpreende um pouco é a quantidade de minutos e a confiança que o treinador lhe tem dado. Para um jogador jovem isso é muito importante e ele tem respondido bem, tendo influência direta nos resultados da equipa. Na Polónia existem vários jovens com potencial. Alguns já começaram a afirmar-se, outros ainda estão por despontar.
No entanto, há algo importante a sublinhar: o perfil do jogador polaco. É um jogador trabalhador, com grande vontade de aprender, muito comprometido dentro e fora de campo. Fisicamente é forte e coloca muita intensidade no jogo. Jogadores como Pietuszewski, Kiwior ou Bednarek são bons exemplos disso e ajudam a valorizar a imagem do futebol polaco.
- O que mais impressionou foi a rapidez da adaptação ao FC Porto. Essa facilidade deve-se sobretudo à qualidade do jogador ou existe alguma semelhança entre o futebol polaco e o português?
Não diria que são ligas semelhantes na forma de abordar o jogo. A primeira coisa a destacar é a forma como o clube envolveu um jovem de 17 anos que chega de um campeonato diferente para um grande clube português. A estrutura do FC Porto fez, certamente, um grande trabalho para que ele se sentisse confortável e confiante. A equipa técnica e os colegas também tiveram um papel importante nesse processo.
Depois há a questão mental. Hoje em dia sabemos que as capacidades mentais são tão importantes como as técnicas e físicas. O Oskar demonstra uma mentalidade forte e muita personalidade. Em termos táticos, as funções que tinha no Jagiellonia, a jogar como extremo esquerdo, são relativamente próximas daquilo que faz no FC Porto. Já tinha experiência, inclusive em competições europeias, e isso ajudou na adaptação. Por isso diria que não houve uma revolução no futebol dele, mas sim um upgrade.

"No verão houve três possibilidades para regressar a Portugal"
- O Gonçalo e Francesco Farioli pertencem à mesma geração de treinadores. Considera que a barreira à aposta em treinadores jovens está a desaparecer?
Generalizar nunca é muito correto. Há coisas que só o tempo dá, como a experiência, e isso tem um valor enorme. No entanto, é verdade que a carreira de treinador começa cada vez mais cedo. Nas últimas décadas a profissão tornou-se muito mais profissionalizada. Muito por influência de metodólogos portugueses e também da figura de José Mourinho.
Hoje um treinador precisa de conhecimentos em várias áreas: metodologia, psicologia, preparação física, liderança, comunicação, entre outras. A função tornou-se muito mais completa e isso levou a que a formação começasse mais cedo. Cada vez mais jovens decidem conscientemente seguir a carreira de treinador em vez de jogador.
Além disso, vivemos num contexto em que os clubes têm acesso a muita informação: resultados, performance, estatísticas, estilo de jogo. Por isso, mais do que a idade, os clubes avaliam o trabalho, a produtividade, a forma como o treinador desenvolve jogadores e equipas.
- Que equipas ou ligas lhe dão mais prazer ver jogar atualmente?
Vejo muito futebol. Acho que um treinador não se pode fechar apenas no seu próprio contexto, no seu “case study”, que é a sua equipa. Quando chego a casa passo muitas vezes as tardes e noites a ver jogos. Tenho uma grande paixão pela liga inglesa, pela competitividade, pelo ritmo e pelo profissionalismo. Acompanho também bastante a liga portuguesa, naturalmente, por ser português e porque acredito que um dia terei oportunidade de mostrar a minha qualidade em Portugal.
E depois sou um grande apaixonado pelas competições europeias. Já tive a felicidade de viver noites europeias como treinador na Liga Europa e na Liga Conferência. A Liga dos Campeões vivi apenas como adepto, mas é uma ambição que tenho.

- Portanto não rejeita a hipótese de trabalhar em Portugal. Que tipo de projeto gostaria de liderar?
De forma alguma. É algo que já poderia ter acontecido. No verão houve três possibilidades para regressar a Portugal, mas tomei a decisão consciente de não avançar. Tenho consciência de que o meu nome ainda diz pouco aos dirigentes portugueses, porque a minha carreira foi feita sobretudo fora do país. Na Polónia acontece o contrário: muitas pessoas conhecem-me, algo a que me tive de habituar.
Acredito que regressar a Portugal terá de acontecer com naturalidade. Se surgir um projeto que me entusiasme, que acredite na minha forma de trabalhar e onde exista uma grande sintonia entre aquilo que o clube procura e aquilo que eu sou como treinador e como pessoa, então será um passo que gostaria muito de dar.
- Tem alguma referência enquanto treinador?
Para muitos treinadores portugueses da minha geração, a grande inspiração foi José Mourinho. Pela forma como revolucionou a preparação do treinador, pela capacidade de comunicação e liderança e pelos resultados extraordinários que alcançou. Depois, vendo muito futebol e acompanhando treinadores, fui absorvendo várias influências: o jogo posicional de Guardiola, a verticalidade das equipas de Klopp, as transições das equipas de Mourinho, a reação à perda das equipas alemãs ou a organização defensiva de Simeone e de várias equipas italianas. Aquilo que sou hoje como treinador resulta dessa aprendizagem, direta ou indireta, com muitos “professores” do futebol.
